Notas iniciais
Uma mudança de foco nos acontecimentos...

Mosquitos, aranhas imensas, plantas por todos os lados, com seus galhos arranhando os braços desnudos e causando coceira. Sem contar a umidade e o calor que davam uma sensação de vertigem a qualquer um não acostumado ao clima equatorial.

O suor descia em gotas espessas pela testa, costas e entre o vão dos seios. As botas já ficavam cobertas pelo barro, já que chuva naquela região parecia ter hora marcada diariamente. A pancada da última tarde havia praticamente encharcado todas as roupas das duas mulheres que agora se embrenhavam mais ainda floresta dentro.

– Espere! – a mais velha fez um gesto discreto, indicando um tronco grosso para que a outra se escondesse – Eles estão por perto, posso sentir.

As duas se posicionaram atrás da árvore, despojando-se rapidamente dos facões, binóculos e outros equipamentos. A mais jovem abriu um pote que parecia conter uma pasta avermelhada e riscou a testa da outra com dois pontos acima de cada sobrancelha, bem como uma linha vertical descendo da raiz do cabelo até a ponta do nariz. Em seguida, traçou o mesmo desenho na própria pele.

– Fique agachada e não levante o olhar. A menos que ergam sua cabeça com as lanças.

Não demorou mais que cinco minutos para que as duas fossem encontradas, amarradas e levadas aos empurrões por uma trilha estreita, quase imperceptível. Quase uma hora de caminhada depois, elas foram jogadas ao chão, do lado de uma fogueira apagada.

Uma rápida olhada ao redor e a mais velha sorriu, certa de que haviam sido levadas para o lugar certo, a tribo Hi-Merimã. A energia do lugar era exatamente a mesma que ela sentiu quando teve acesso aos poucos objetos que pesquisadores conseguiram reunir daquele povo.

Marin Morrell integrou durante doze anos a equipe de Estudos Antropológicos da universidade de Harvard, participando ativamente dos estudos sobre Misticismo Tribal. Foi com dor no coração que ela queimou toda sua pesquisa na noite em que Talia Hale e toda sua família morreu.

Ela soube, assim que viu a notícia do incêndio na casa da Alfa Suprema, que os míticos estavam condenados. Tratou, imediatamente, de garantir que os registros dos povos que os viam não como ameaças, mas como enviados dos deuses, desaparecessem.

Assim, pelo menos, em poucos lugares do mundo, os míticos ainda teriam chances de viver em paz. E quando seu irmão, Alan Deaton, a procurou há um mês, confiando a ela um segredo e uma missão, Morrell teve a confirmação de que tinha feito a coisa certa.

Obcecada que era com a vida na tribo Hi-Merimã, que viviam num sistema de isolamento do mundo moderno, sabia muito bem tudo que deu errado com as equipes de pesquisa que tentaram se aproximar da tribo. Também havia decorado o diário de seu irmão que contou exatamente como conseguiu fazer contato com os homens e, posteriormente, com as mulheres.

Era por isso que permanecia calada, com mãos e joelhos apoiados no chão, como se fosse um cachorro. Sua assistente, Braeden Hunt, também imitava os gestos de Morrell. O animal protetor da tribo era um animal que não existia mais na floresta amazônica: um canídeo de pelo escuro e porte grande, como indicavam os desenhos em tocos de árvores ao redor da tribo.

Os Hi-Merimã acreditavam ser descendentes de uma entidade superior, cultuada também por outras tribos latino-americanas, chamada Aho Aho. Segundo o pouco que se sabe, Aho Aho seria uma criatura meio-humana, mas com pelos por todo corpo, longas presas afiadas, que protegia seus filhos caçando e comendo seus inimigos. Aho Aho era implacável e derrubava até árvores para caçar o inimigo. Apenas aqueles que conseguiam subir nas mais altas palmeiras, eram deixados vivos, pois a árvore era considerada sagrada.

Por causa da imagem que faziam de Aho Aho, tudo que fosse relacionado diretamente com canídeos era visto com bons olhos. As duas mulheres permaneceram no centro da tribo, ouvindo as pessoas fugirem sempre que as viam mexendo.

Morrell não saberia dizer por quanto tempo ficou ali, até que ouviu os passos pesados de alguém se aproximando. Sentiu-se ser cutucada por um pedaço de bambu ainda verde e virou o rosto para cima, mas ainda tentou manter os olhos baixos.

– Su wa ne? – uma mulher mais velha falou num dialeto que nem Morrell e nem Hunt conheciam.

– Rasa. Sun kasance a cikin dazuzzuka a kusa da sawu. Menene muke yi da su? – o jovem que estava de guarda, carregando arco e flecha, questionou. Pelo tom de voz respeitoso e cabeça inclinada para baixo, foi possível perceber que a mulher com quem ele falava era superior a ele de alguma maneira.

– Su ne matasa. Kyau, ko da yake duhu. Me ke cewa a kan fuskar biyu? – a mulher agachou ao lado das duas e puxou os rostos, virando-os para ver as marcas pintadas antes de serem pegas.

– Ban gane ba, amma kanshig babaçu. – o outro guarda respondeu e a mulher aproximou o rosto e cheirou as marcas.

– Babaçu ne alfarma wari. Yi duka da rana to ba dafa da tunani. A lokacin da Cikakken baya, yanke shawarar abin da ya yi tare da su. – ela se ergueu e o tom de voz parecia de comando.

Assim que ela seguiu para dentro de uma das ocas, outros dois homens se aproximaram e ergueram Morrell e Braeden, empurrando as duas para a mesma oca.

Elas foram colocadas sentadas, desta vez, encostadas no tronco que servia de sustentação para o telhado. A sombra era bem vinda, mas as duas já sentiam o efeito do calor equatorial. Suas gargantas estavam secas e as cabeças doendo.

A mulher que havia tirado as duas do sol escaldante estava nua, elas repararam, mas usava adornos feitos com cipó, palha e pena. Dois amarrados no braço, um em cada tornozelo e uma espécie de corda feita de nós na cintura. Tinha os seios caídos como todas as outras mulheres que estavam dentro da oca, mas seus mamilos eram pintados com uma tinta amarela, indicando mais uma vez que seu status era diferente.

Ela se deitou em uma rede e logo outras duas mulheres bem mais jovens, ainda na puberdade, vieram lhe trazer uma cuia de água. A velha bebeu e pediu mais. Quando a cuia de água foi trazida, ela indicou que devia ser passada para as “prisioneiras”, que aceitaram de bom grado e beberam avidamente.

O dia tornou a passar arrastado, enquanto as duas esperavam em silêncio. Deaton havia as instruído que os Hi-Merimã não gostam de quem tem a língua solta e fala sem ser convidado.

Quando a primeira tocha foi acesa diante da entrada da oca, elas ouviram a agitação do lado de fora. Homens, mulheres e crianças gritavam animados, imitando uivos. Logo, um verdadeiro uivo soou alto e tambores começaram a tocar.

Morrell sentiu um arrepio correr sua pele e sabia que havia chegado a hora de cumprir definitivamente sua missão. O barulho dos pés marcando o chão junto com os tambores era alto, mas não o suficiente para abafar a atenção da ex-emissária que percebeu a conversa perto da entrada, ainda que continuasse sem entender o dialeto.

– Yana da m mutane sansana a nan. – era uma voz jovem, cheia de energia, mas ainda soava como um estrangeiro falando com a tribo.

– 'Yar Cikakken Iaci, da mutanen sãmi waɗansu mãtã biyu a kusa da sawu. Da suka nuna hali da, kuma yana da babaçu ƙanshi. Amma su ne ku 'yar watã kuma aika Aho Aho. Al'adar da su daga bakinka. – a velha mulher que havia cuidado das prisioneiras, indicou a entrada da oca e logo uma jovem de pele clara, mas queimada de sol, cabelos longos, lisos e pretos, entrou.

Ela rodeou as duas mulheres estranhas, claramente farejando suas peles, as marcas feitas com a pasta de urucum e babaçu. Ela piscou os olhos dourados e mostrou as presas, esperando que as mulheres reagissem com medo, mas em vez de pavor, recebeu um sorriso de Morrell que murmurou:

– Filha de Talia. É hora de voltar para casa.

E os olhos de Cikakken Iaci, ou melhor, Cora Hale se arregalaram e seus traços lupinos sumiram, enquanto ela caía de joelhos diante de Morrell e sentia os ombros chacoalhando com as lágrimas que nem percebeu estar vertendo.

Notas finais
A tribo dos Hi-merimã realmente existe, assim como o deus Aho Aho e a lenda que detalhei aqui para vocês. E aqui está as traduções dos dois diálogos. Pra criar esta língua eu usei uma mistura de hauça e tupi-guarani. Diálogo 1: - Quem são elas? - Perdidas. Estavam na floresta, perto da trilha. O que faremos com elas? - Elas são jovens. Bonitas, apesar de escuras. O que é isso no rosto das duas? - Não entendo, mas cheira babaçu. - Babaçu é cheiro sagrado. Tire as duas do sol para não cozinhar seus pensamentos. Quando Cikakken voltar, decide o que fazer com elas. Diálogo 2: - Tem cheiro de gente estranha aqui. - Filha da Lua Cheia, os homens encontraram duas mulheres perto da trilha. Elas se comportam bem e tem aroma de babaçu. Mas é você a filha da lua e enviada de Aho Aho. O destino delas sai da sua boca.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.