Delictum Libertatis
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Quando Gerard Argent assumiu o posto de Secretário de Segurança Sobrenatural ninguém previa a guerra que ele iria traçar com toda criatura não humana nos Estados Unidos, o que logo serviu de exemplo para o mundo. Afinal, se o país mais influente do mundo demonstrava uma política de tolerância zero para outras criaturas, não restava alternativa aos governantes de outras nações a não ser apoiar a causa americana pelo bem das famílias humanas.
Gerard era implacável, especialmente com os lobisomens. A pena de morte para os lupinos que cometiam qualquer tipo de crime logo foi instaurada em todos os estados americanos e as execuções aconteciam com exibição em rede nacional.
Depois de quase cinquenta lobisomens assassinados, a voz das criaturas sobrenaturais clamando por justiça veio a tona na figura de Talia Hale. A advogada bem sucedida e dona de uma das mais importantes financeiras do país tomou para si a tarefa de unir o povo sobrenatural e enfrentar a ameaça que Gerard representava.
O discurso dela diante do parlamento americano exemplificando o quanto os lobisomens, banshees, kitsunes, druidas, bruxas e outras inúmeras criaturas contribuíam para o bem do país, revelando nomes de atores, cientistas, sociólogos, embaixadores e grandes empresários que pertenciam a comunidade sobrenatural foi o bastante para que o presidente propusesse um acordo de cooperação entre as raças.
Assim, depois de quase dez anos de negociação, foi firmado um tratado que colocava Talia Hale como Alfa Suprema. Ela se responsabilizava pelas ações de cada ser que andasse pelos Estados Unidos e não fosse humano. As ações deles seriam julgadas por ela.
De acordo com o tratado, caso ela viesse a faltar, a responsabilidade cairia sobre outro lobisomem com o sangue Hale. E se todos os Hale deixassem de existir, o tratado seria esquecido.
Mas essa última cláusula Gerard não se importou em acrescentar ao documento somente depois que Talia deixou a Casa Branca.
***
Eles pararam num posto de gasolina para abastecer quase três horas depois. Era um lugar velho e mal cuidado. Stiles tinha a impressão que o cheiro do lugar iria machucar o olfato sensível de Derek, já que ele mesmo sentiu seu estômago embrulhar quando entrou no banheiro do local.
Depois de encher o tanque, chamou Derek para escolher algo para comer, mas o lobisomem não deu sinais de entender que deveria sair do carro.
Stiles esfregou os olhos e pegou o celular para dar notícias em casa. Deaton atendeu no segundo toque e já foi falando:
– Stiles, espero que você me diga que fez o que precisava ter feito.
– Sim, Deaton, eu consegui...
– Excelente! – o veterinário cortou o assunto – Nos falamos depois.
Ele desligou o telefone e o rapaz franziu a testa, confuso. Por fim, achou melhor não se preocupar, afinal, Deaton sempre foi uma pessoa estranha.
Ele pegou alguns sacos de batata frita, quatro sanduíches que o balconista preparou no micro-ondas para ele, dois refrigerantes e dois litros de água, além de uma caixa de chocolates. Pagou tudo em dinheiro e saiu do local, voltando para o carro.
– Não sei o que você gosta de comer, então o que peguei para mim, peguei para você também. – ele explicou passando a Derek um saco de papelão com as compras – Prometo arrumar algo melhor para comermos quando chegarmos a um lugar com o mínimo de civilização.
Derek apenas acenou e tirou o sanduíche do saco para comer. Ele devorou sua parte da comida em silêncio e olhou para fora da janela quando Stiles puxou o celular novamente para ligar para seu pai.
– Stiles, onde é que você se meteu? – John pareceu completamente irritado.
– Oh, olá pai. É bom ouvir sua voz. Como foi a semana? – o rapaz tentou parecer casual.
– Sem gracinhas, rapaz! Onde você está?
– Voltando para casa.
– Ótimo. Agora posso suspender as buscas e deixar o serviço secreto fora do seu desaparecimento.
– Que exagero, pai, eu te disse que...
– Você me disse que ia acampar, Stiles! A-CAM-PAR! E qual não foi minha surpresa quando descubro que você simplesmente saiu do país.
– Eu não saí do pais, eu só fui para o México.
– Sua noção de geografia é mesmo surpreendente.
– Pai, presta atenção...
– Preste atenção você, rapaz. Estou no meio de uma reunião importante com o presidente. Aquele mesmo homem que, não sei se você se esqueceu, é o pai da sua noiva.
– Heather sabe onde eu estava, pai. Não fugi do casamento.
Ele apertou o volante com força, o nó dos dedos ficando esbranquiçado. Derek notou o cheiro amargo que desprendeu do rapaz ao dizer o nome da moça.
– Em casa conversamos, Stiles.
O pai do jovem desligou o celular e deixou o aparelho cair de qualquer jeito sobre o colo, balançando a cabeça e tornando a se concentrar na direção.
Naquele momento ele agradeceu por Derek ser do tipo quieto. Com toda tensão que passou nos últimos dias, a última coisa que queria era falar sobre seu casamento arranjado com sua amiga de infância.
Heather foi sua primeira namorada, a pessoa com quem ele perdeu a virgindade. Mas eles logo descobriram que não eram nada mais que ótimos amigos. Quando uma foto dela vazou na internet, no ano passado, aos beijos com um lobisomem sem dono, a imprensa do mundo inteiro caiu em cima, questionando como a filha do presidente poderia estar tendo um caso com um mítico. A solução pensada pela equipe de relações públicas do presidente foi encontrar um noivo para a garota e o filho do tenente-coronel John Stilinski foi escolhido.
Stiles não deixava de se sentir vendido com isso. Seu pai aceitou o acordo em seu nome, desde que assumisse o cargo de chefe das forças armadas americanas. O que veio duas semanas antes do anúncio do casamento dos jovens.
Ele não passava de um escravo, assim como Derek e todos os outros que havia visto com os Calaveras.
Mais quarenta minutos na estrada e eles pararam num hotel. Era relativamente limpo e logo Stiles pagou pela noite, tomando a chave do quarto 16 e seguindo com Derek para lá.
O lobisomem ainda estava sem camisa e Stiles se lembrou de ter levado algumas roupas extras que poderia emprestar para ele.
– Fique à vontade. – ele falou, apontando para uma das camas de solteiro – Vou tomar um banho e tentar esquecer tudo o que aconteceu até agora.
Ele pegou sua mochila e foi para o banheiro. A água quente escorreu pelo seu corpo lavando todo o suor e poeira da estrada. Aos poucos, ele sentiu que o sabão barato do hotel, com cheiro de erva doce, servia pelo menos drenar a sensação de perigo que o acompanhava desde que deixou Beacon Hills há alguns dias.
Não tinha mais porque ter medo. Ele tinha comprado Derek legalmente. Tinha o recibo, a nota de transferência de propriedade e toda a documentação necessária para viajar com o lobisomem e entrar com ele em solo americano.
Desligou o chuveiro pensando em deixar um pouco de água quente para Derek, se secou e vestiu uma calça de moletom larga e confortável. Escovou os dentes e saiu do banheiro, pensando em cair direto na cama.
– Se quiser tomar um banho, as toalhas do hotel até que estão limpas e você pode pegar uma roupa minha até pararmos para comprar algo que... – ele começou a falar, enquanto secava o cabelo, mas parou com a boca aberta olhando a cena a sua frente.
Derek Hale estava completamente nu, exceto pela coleira de veludo, deitado na cama, exibindo uma ereção considerável, acariciando a si mesmo e olhando para Stiles como se ele fosse uma presa.
– O q... O que... O que é isso? – o rapaz gaguejou, dando dois passos a frente para cobrir Derek com sua toalha, mas tropeçando nos sapatos que havia deixado no meio do caminho.
Ele acabou caindo sobre a cama, mais precisamente sobre o colo de Derek, o rosto pousando em sua coxa. Stiles fechou os olhos ao notar o quanto estava próximo do membro do lobisomem.
Derek puxou Stiles para cima, o colocando sentado em seu colo e rosnou em seu ouvido antes de lamber uma faixa longa começando em seu ombro, correndo por seu pescoço e parando a um centímetro do lóbulo de sua orelha direita.
Stiles sentiu-se estremecer com a carícia e não conteve um suspiro quando as mãos de Derek desceram por suas costas, as garras arranhando levemente a pele clara, até que ele enfiou as duas mãos por dentro da calça, apertando com vontade a bunda do rapaz.
Foi quando ele sentiu Derek deslizar um dedo pelo vão, procurando sua entrada que ele saltou do colo do lobisomem, a respiração difícil e as bochechas coradas.
– Que porra é essa? – ele praticamente gritou, a voz mais fina que o normal.
– O que você acha?
– Eu... Eu... Não acho coisa alguma. – Stiles respondeu, andando pelo quarto, sua própria ereção bem visível pela malha fina da calça.
– Não diga que não quer que eu te foda. – Derek retrucou, a testa franzida em desagrado – Dá pra sentir o cheiro do seu tesão daqui e, mesmo que não desse para sentir esse cheiro, dá pra ver pelo volume na sua calça.
– O cheiro... o cheiro do meu tesão? É óbvio que estou com tesão. Você por acaso já se olhou no espelho? Cara, você é de longe o homem mais bonito e gostoso que já vi na vida. Eu tenho 21 anos, sou gay e não transo há quase um ano. Daí saio do banheiro e você está aí, em toda a sua glória. É claro que me deixou com tesão.
– Qual o problema, então? Meus outros donos, todos eles gostavam das garras e...
– Não comprei você pra isso. – Stiles tratou de falar, sentindo seu desejo diminuir no exato instante em que Derek mencionou os outros donos que já teve – Não comprei você para ser meu escravo sexual.
Foi a vez de Derek se sentir constrangido e um ar de timidez tomou conta do lobisomem, que puxou a toalha para se cobrir. Stiles ficou sem graça também e pegou um par de shorts e uma camiseta cinza, jogando na direção de Derek e se virando para que ele se vestisse.
– Por que me comprou, então? – Derek perguntou e Stiles tornou a se virar para o lobisomem que já estava vestido e sentado na cama, um travesseiro abraçado junto ao corpo.
– Ainda não posso te dizer. – Stiles respondeu – Só peço que você confie em mim.
– Não tenho o hábito de confiar em ninguém.
– Talvez seja a hora de abrir uma exceção. – Stiles apagou a luz do abajur e se acomodou na cama, cobrindo-se com o edredom – Você pode ir tomar um banho e dormir. Amanhã vamos ter muita estrada pela frente ainda.
Derek não tomou banho. Apenas abraçou o travesseiro mais apertado ainda e deixou o corpo se acostumar ao colchão macio e ao edredom quente. Já há alguns anos que ele não sabia o que era dormir em um lugar confortável, que não cheirasse a sexo e humilhação.
Quando Stiles pensou que ele já dormia, sentou-se na cama, observando a luz do pátio que entrava pela janela marcar o contorno dos ombros de Derek, e suspirou.
– Seria muito fácil deixar isso acontecer. – ele murmurou para si mesmo – Mas não assim. Não por obrigação. Um dia, Derek... Um dia, quando você for livre... Se ainda me quiser...
Ele tornou a deitar e adormeceu em seguida, sem notar que Derek havia ouvido suas palavras e sentia seus olhos marejarem com a menção de liberdade.
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