Delena Pay Per View
9 Bloodlust
Notas iniciais

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“Você é uma vampira, Elena. Então seja uma vampira.”
As palavras ainda ecoavam na mente da mais nova imortal de Mystic Falls enquanto ela drenava o sangue de um cervo.
A tarefa era mais árdua do que jamais pensou.
Embora não oferecesse qualquer resistência física ao seu ataque, a vítima parecia munida de algum mecanismo de defesa que por pouco não vencia a obstinação da jovem vampira. O intenso cheiro característico da floresta entrava pelas suas narinas e começava a lhe deixar tonta. Elena lutava para ignorar a repulsa crescente que sentia ao engolir o líquido viscoso que deveria saciá-la. Suas mãos estavam ficando sujas de terra, grama, orvalho, larvas e o que mais estivesse impregnado na pele grossa do animal.
O sangue lhe escorria pelos cantos da boca devido à sua pressa em acabar com aquela tortura o quanto antes. Os olhos ardiam com o esforço que fazia para obrigar o alimento a deslizar pela garganta, e ela não entendia como era possível sofrer tanto para ingerir o que deveria mantê-la forte. Pensou que os seus sentimentos em relação a ser uma vampira talvez mudassem quando a transformação estivesse completa, pensou que seria mais fácil… Errara completamente. Ela não estava viva. E, a cada segundo, sentia-se mais morta.
Talvez isso passasse com o tempo. Ninguém mais ficava se lamentando toda vez que precisava tomar um pouco de sangue. Especialmente Damon.
Ele conseguia fazer o vampirismo parecer tão simples… Morder, beber um pouco, apagar a memória. Era um passo-a-passo que ele gostaria que Elena aprendesse, mesmo que ela preferisse aderir às bolsas roubadas do hospital.
Stefan, por outro lado, era da opinião de que era melhor se acostumar ao sangue animal desde o início e não correr o risco de machucar alguma pessoa. A garota não tinha como discordar, pois não sabia o que faria se um dia tirasse a vida de alguém. Achava que nunca sobreviveria a essa culpa. Seu namorado era a pessoa que deveria conduzi-la nesse novo mundo, mesmo que ele ignorasse o suplício que ela tentava ultrapassar a cada vez que engolia.
Lutando contra os engulhos, foi inevitável a lembrança de como aquelas poucas gotas de sangue ingeridas na outra noite pareceram deliciosas. Era como provar uma bebida pela primeira vez e saber que ela seria sua preferida. Muito diferente desse gosto amargo e nauseante. Por um segundo, desejou ter coragem de seguir os passos de um certo vampiro de olhos azuis…
Se pelo menos Stefan lidasse tão bem com isso quanto Damon… Mas não podia exigir tanto do namorado. Ele tinha problemas muito mais sérios do que ela jamais pensara, não podiam arriscar que ele se transformasse outra vez no estripador. Ela iria viver de acordo com o estilo de vida dele, não havia outra alternativa.
Jogou a cabeça para trás, ofegando, e levantou-se do chão, liberando a pobre vítima que correu para longe da sua predadora. Levou os dedos trêmulos aos dentes afiados – suas presas – que começavam a se retrair. “Sou uma fera assassina”, Elena constatou. Enquanto o cervo se afastava ferido, seu principal pensamento era de que devia ter bebido mais. Ainda estava faminta.
— Não se preocupe — Stefan se colocou ao seu lado. — Ele vai se curar. Animais grandes são mais resistentes.
É claro que ele estava pensando no bem-estar do cervo.
Ela admirava esse lado do vampiro, sempre tão focado em nunca ferir ninguém, mas não reclamaria se ele percebesse que, dessa vez, ela não estava tão bem quanto tentava parecer. Lá estava ela, segurando uma insistente ânsia de vômito, deprimida por ter se tornado algo que nunca quis, e ele continuava a sorrir e tranquilizá-la quanto ao bendito cervo. Como se a sobrevivência ou morte daquele animal fosse o maior dos seus problemas.
— Você conseguiu — ele disse, triunfante, limpando sua boca ensanguentada com um lenço. — Sei que é difícil, mas você consegue.
Elena se limitou a concordar com um aceno de cabeça. Tinha que dar conta disso. Da próxima vez não seria tão ruim. Provavelmente.
Ele estava certo, não? Claro que estava. Ela iria passar por essa fase de adaptação e eles voltariam a ser como antes, quem sabe até melhores do que no início do namoro. Sabia que o vampirismo ampliava os sentimentos, então era pra estar muito mais apaixonada por ele do que sempre foi. Era pra querer se jogar nos seus braços, enchendo-o de beijos e tirando o atraso de tanto tempo sem sexo, afinal não ficavam juntos desde antes de Klaus fazer aquela chantagem e Stefan ter que deixar a cidade.
Elena encarou o namorado, que lhe sorria satisfeito por ela ter seguido o que ele acreditava ser certo, e esperou ser invadida por uma onda de amor que a faria esquecer aquele gosto ruim na boca e o estômago revirando.
Nada aconteceu.
Stefan apenas se afastou, indicando que ela o seguisse, e passou a lhe mostrar o que chamava de pontos positivos da sua condição de vampiros. Ele pretendia lhe ensinar como usar a velocidade, mas ela estava se distraindo demais com os sentidos aguçados pela transformação. Cada toque na sua pele, por mais despretensioso que fosse, atingia as suas terminações nervosas de uma forma que seria impossível notar quando era humana.
A distração, porém, não era suficiente para fazê-la ignorar as náuseas. Estavam ficando mais frequentes; havia uma repulsa que subia pela parede do esôfago e parecia prestes a emergir. Precisava focar em outra coisa, qualquer coisa… Aproveitou um beijo de Stefan em seu pescoço e virou-se para um beijo na boca. A esse se seguiram outros, que não conseguiram aplacar a sensação do vômito se aproximando…
Elena empurrou o vampiro e correu usando aquela velocidade que ele não chegara a lhe ensinar. Caiu de joelhos quando todo o sangue que havia ingerido voltou pela sua garganta em um jato que atingiu o chão da floresta, ainda quente, vermelho, espesso. Não teve tempo de se recuperar do choque antes que o líquido jorrasse novamente, fazendo-a engasgar. Tossiu algumas vezes buscando ar, com a mão no peito instável e a visão embaçada pelas lágrimas.
Isso não era normal, vampiros não adoecem… Além da onda de pânico por não saber o que estava lhe acontecendo, ela foi tomada por aquela vergonha que qualquer pessoa – ou vampiro, que seja – sente ao vomitar diante de alguém. Levou um minuto para conseguir acalmar a respiração e tomar coragem de erguer a cabeça, passando sem jeito as mãos pelos lábios e queixo, tentando rapidamente limpar o sangue que escorria.
Mas não precisava ter pressa. Podia respirar fundo e se recompor com calma, afinal não havia testemunhas do seu vexame. Stefan não estava com ela.
***
— Algo está errado.
Elena teve que confessar, algumas horas depois, no balcão do Mystic Grill. Não era o lugar nem a hora certa para falar sobre isso, mas a garota se via sem escolha.
Depois de chegar à mansão e constatar que o namorado tinha consciência de como a experiência na floresta fora “nojenta, traumática e horrível”, nas palavras dele, mas que ainda assim ele encontrava motivo para abrir um champanhe e celebrar o sucesso da refeição, Elena percebeu que era hora de apelar para alguém que realmente sabia como lidar com o assunto.
Não queria decepcionar Stefan com a sua fraqueza diante do estilo de alimentação que ele adotava, porém não tinha como seguir adiante desse jeito.
— Eu não consigo manter nenhum sangue animal no estômago.
— Bem… Que surpresa.
Damon não precisava ouvir com todas as letras para entender. É claro que algo estava errado. O Conselho fora explodido, a xerife Forbes desconfiava dele, um sujeito novo na cidade estava interessado no assunto e, o mais importante, Elena era uma vampira e estava sendo ensinada pela pior pessoa do mundo em ser um.
Ele sabia o tempo inteiro que aquilo não ia dar certo. Conhecia essa garota melhor do que ela e o seu irmão pensavam… Podia ver a chama em seus olhos, a mulher capaz de ser quente e apaixonada como ele a imaginou tantas vezes. Era insano que ela considerasse errado beber sangue humano, e mais absurdo ainda que Stefan a induzisse a anular a sua sede, sem nunca aprender a controlá-la.
O “herói” da história estava se superando no quesito incoerência. Primeiro deixava a “mocinha” morrer pra salvar a porcaria de um amigo dela, depois tentava evitar sua transformação com uma ideia estúpida que nunca funcionaria, e agora a fazia ter vergonha da própria natureza. Era doentio e, para variar, típico de Stefan.
Chegava a ser um crime submetê-la a tudo isso.
— Eu acho que preciso da sua ajuda.
— Claro que você precisa — Damon concordou. Seu irmão era um idiota se pensava que aquela dieta fraca seria o bastante para ela. — Escolha sua refeição — fez um gesto para o salão razoavelmente movimentado, indicando os clientes de diferentes origens. — Tem asiática, mexicana… Que tal uma tradicional refeição americana?
— Não — Elena respondeu sem vacilar. — Não sangue humano. Stefan tem razão, eu preciso pelo menos tentar passar por isso sem machucar ninguém.
Exceto ela mesma, é claro. Que Elena fosse obcecada por ser uma mártir e sempre proteger aqueles que ela amava ou não, ele até entendia. Mas daí a Stefan aceitar essa insanidade e ainda incentivar… Era algo que Damon nunca faria questão de compreender.
Ele virou o resto do whisky que bebia e bateu o copo no balcão.
— Tudo bem. Venha.
Pegou-a pela mão, não sem apreciar o toque suave da sua pele, e guiou-a até o banheiro do Grill, trancando a porta ao entrarem. Elena o encarou confusa:
— O que está fazendo?
Seu embaraço aumentou quando o vampiro mordeu a própria mão e lhe indicou o sangue que se acumulou na palma.
— Dando o que você precisa. Beba.
— O quê?! — ela hesitou, mas sentiu as presas querendo emergir, a sede queimando a sua garganta e o desejo crescente… Estava faminta, só podia ser isso.
— Você é uma vampira nova, Elena — ele a lembrou, como se fosse possível esquecer. — Precisa de sangue quente, direto da veia. Talvez isto funcione… Só não conte ao Stefan.
— Por que não?
— Porque compartilhar sangue é meio… pessoal.
— Como assim “pessoal”?
— Apenas beba!
Elena não estava muito confiante de que era a coisa certa a fazer. Passou rapidamente pela sua cabeça que Stefan não iria gostar de saber disso, ele sempre teve ciúmes de Damon. Mas, depois de tudo o que os dois passaram juntos, ela confiava no cunhado mais do que nunca.
Bastou um olhar de incentivo, e ela aceitou a oferta.
O sangue descia convidativo pelo pulso, embora o corte aberto pouco antes já estivesse curado, não que esse fosse um obstáculo. Seus dentes afiados romperam novamente a pele do vampiro em busca daquele néctar vermelho… e inebriante.
Ao perceber o tecido sendo rasgado por aquelas presas, a última coisa que Damon sentiu foi dor.
A primeira foi um choque percorrendo seu corpo, a sensação tão nítida como se tivesse acabado de se transformar, ainda incapaz de controlar o próprio organismo.
Sabia perfeitamente o que significava aquele “pessoal”. Compartilhamento de sangue entre vampiros podia ia muito além das necessidades de alimentação. Era um dos atos mais íntimos de que os imortais podiam desfrutar, especialmente quando feito com alguém em especial. Por outro lado, a depender das circunstâncias, também podia ser apenas sobre satisfazer a sede imediata. Tudo dependia das pessoas e dos sentimentos envolvidos.
Foi por isso que ele chegou a duvidar que fosse sentir algo tão extasiante. De sua parte, não havia dúvidas de que estava com a única garota que queria saciar, mas não podia garantir nada quanto ao que ela sentia… Suas esperanças de ter essa mulher caíram por terra quando recebeu aquela ligação de despedida, um pouco antes do acidente na ponte. Elena fez sua escolha, e não era ele.
Então por que ela estava drenando o seu sangue como se fosse seu último desejo de condenada? Tudo bem, estava faminta, mas ainda assim… De olhos fechados, ela sugava incessantemente, tão concentrada que, ele tinha certeza, nem se deu conta de que o empurrou contra a parede usando seus recém-adquiridos movimentos vampíricos.
Damon a segurou contra o peito, acariciando seus longos cabelos lisos, ouvindo um par de corações acelerados batendo muito próximos um do outro. Cerrou os próprios olhos, usufruindo das sensações de um prazer intenso que a sua vampira lhe proporcionava e desejando que ela sentisse o mesmo. Era impossível não ter suas esperanças revigoradas com o toque macio dos seus lábios na pele, contrastando com a violência da sua mordida, que parecia querer tomar tudo o que pudesse… Nunca antes ele a sentira tão perto.
Elena pensou ter ouvido um gemido baixinho, o que a lembrou de que talvez estivesse na hora de parar. Ela meio que perdeu a noção do tempo, achava que podia ficar ali pelo resto do dia, no mínimo, apenas se deliciando com o sabor dele.
Engoliu uma última vez e passou a língua nos lábios. Essa era a hora que devia se afastar. O toque gentil nos seus cabelos era um convite a permanecer onde estava, mas era melhor não complicar as coisas.
Após alguns minutos, ela finalmente se moveu concentrada em olhar para o chão ou qualquer outra parte que não fossem os olhos azuis que sentia queimarem sua pele. Aqueles dois oceanos de águas turbulentas sempre a hipnotizaram, não importava se aquele não era o seu namorado. Esse não era um bom momento para testar a própria resistência.
Tentou dar um passo, mas Damon prosseguia com os braços ao seu redor e não dava sinais de querer soltar.
— Acho que… — ela murmurou — eu devo ir.
Ele tocou-lhe o rosto enquanto as palavras eram pronunciadas sem vontade, mecanicamente. Não era aquilo que ela tinha vontade de fazer, mas não podia se permitir pensar o contrário. Acabou olhando-o rapidamente, com a intenção de se despedir e o que Damon viu foi demais para continuar ignorando.
Os lábios de Elena manchados de sangue estavam a centímetros do seu rosto. Seu sangue. Sua vampira.
Seu irmão. Ela era a namorada do seu irmão.
Damon forçou-se a se concentrar nesse fato. De todas as mulheres do mundo, por que tinha que querer justamente essa? Devia ficar satisfeito que ela estivesse bem, que fosse feliz com Stefan. Não podia ser egoísta e ficar entre eles.
O vampiro controlou cada fibra do seu corpo impedindo-se de fazer o que realmente queria, disse a si mesmo que a levaria para casa em segurança, talvez falasse com o irmão sobre o problema dela com o sangue, assim os dois poderiam tentar encontrar uma solução que fosse melhor para ela. Tudo para que sua menina ficasse bem.
Damon estava pronto para ser o good guy dessa vez e ficar fora do caminho… Até que olhou nos profundos olhos castanhos.
Elena não estava feliz.
E nunca conseguiria ser feliz ao lado de alguém que odiava ser o que ela tinha se tornado.
— Eu preciso ir — ela falou como se pedisse desculpas.
— Elena… — acariciou o seu rosto uma vez mais. A vampira fechou os olhos, sentindo-se exausta. Só queria que o mundo além daquela porta desaparecesse.
Mas era impossível, então se permitiu fitar aquelas orbes azuis por um instante antes de partir. Sorriu, cansada, em agradecimento pela sua surpreendente forma de ajudar, esperou por um sorriso de volta.
E recebeu. Diretamente nos lábios.
Choque foi sua primeira reação – durou uma fração de segundo. A próxima foi levar as mãos aos ombros do vampiro, com a intenção de afastá-lo, mas seus dedos foram mais rápidos e se embrenharam pelos cabelos negros… Puxou-o para si, como se não estivessem próximos o suficiente. Não estavam.
Damon percebeu que ela retribuía seu beijo com um misto de surpresa e confusão. Tudo bem que ele não ignorava o efeito que tinha sobre a garota, sabia que ela não lhe era indiferente. Contudo, a recente escolha a favor de Stefan havia minado as suas esperanças de ser correspondido. Não estava entendendo a súbita reviravolta, mas nem por isso iria questionar. Talvez, com um pouco de sorte – ou milagre –, Elena tivesse repensado. Talvez…
Correu as mãos até sua cintura, levando-a mais para perto. Com um movimento tão rápido que a visão humana não poderia capturar, ele a colocou entre a parede e o seu corpo. Elena abriu os olhos, espantada.
Seu susto durou apenas o tempo muito breve até unirem os lábios novamente, e suas línguas começarem a se mover uma contra a outra, primeiro rápido, então mais devagar, e logo acelerando outra vez. Ao mesmo tempo, ela se viu abraçando Damon mais forte, passeando as mãos nervosas pelos seus braços, ansiando por tê-lo mais próximo… Um flash de lucidez passou pela sua cabeça e ela se lembrou de que estavam no banheiro do Mystic Grill, com a porta trancada enquanto ninguém lá fora fazia ideia de que se passava entre aquelas paredes. Ela estava aos beijos com o cunhado.
Isso não podia acontecer.
— Damon… — conseguiu dizer quando ele desceu para o seu pescoço com sucções que certamente lhe deixariam marcas, se o vampirismo não a regenerasse. — Céus, Damon…
A voz saía em forma de gemido e só serviu para incentivar ainda mais o vampiro. Com as duas mãos segurando o seu rosto, Elena o obrigou a encará-la.
— Não…
— Não? — ele sorriu malicioso, descendo uma mão para o seu quadril, correndo o risco de ser rejeitado.
Ela tentou se concentrar no que devia ser dito e feito – sair dali –, mas era difícil com aquele toque possessivo queimando sua pele, mesmo sem estar em contato direto, sem falar na voz rouca e na respiração quente no seu rosto.
— Você sabe… que não é certo.
— Não, eu não sei mais nada — ele sussurrou, com a testa encostada na dela, fechando os olhos. — Então, o que é certo?
Elena sabia a resposta que deveria dar, e percebeu que não acreditava nela. Damon esperou, mas só teve o silêncio como resposta.
— Você ainda vai me deixar louco… — sorriu antes de voltar a cobrir a sua boca com um beijo.
Ela não o rejeitou. Não tinha forças pra resistir e não queria ter. Por alguns minutos podia ser ela mesma, podia ser livre.
Atreveu-se a repetir o movimento que Damon tinha feito antes, e dessa vez foi ela a prensá-lo contra a parede, colando seu corpo ao dele, permitindo-se usufruir do seu toque e devolvendo o que recebia. Sentiu as mãos a apertarem na curva acima das coxas e, agarrada ao seu pescoço, sorriu contra os seus lábios.
— Gosta disso? — ele provocou.
— Eu gosto é de você… — ela respondeu, emendando mais um beijo, sem lhe dar tempo de dizer mais nada.
Damon gravou as palavras na mente como as mais preciosas, apesar de não serem tudo o que almejava ouvir. Amigos gostam de amigos, lembrou-se. Mas amigos não beijam amigos. E eles não estavam apenas beijando.
Segurou Elena pelo quadril de modo que suas pernas o abraçassem pela cintura, mas só pelo tempo necessário para colocá-la sentada sobre uma bancada. Permaneceu ainda encaixado entre suas coxas, e o volume que ela sentiu ali teria deixado evidente o quanto ele a desejava, se ambos ainda não soubessem.
Elena percorreu o peito dele com a mão, controlando o impulso de rasgar aquela camisa. Se saíssem daquele banheiro com peças de roupas faltando, todos saberiam o que estavam fazendo… O pensamento não lhe pareceu tão aterrador quanto imaginou. Queria estar com ele, queria continuar beijando aquela boca macia e tocar a pele até então coberta. A sede de sangue que vinha sentindo era nada em comparação à vontade de ir em frente com essas carícias.
E ela foi. Deslizou uma mão por dentro da camisa dele, deliciando-se com a textura macia e firme do seu peito. Queria provar cada pedacinho e também que ele provasse da sua. Mas antes que pudesse alcançar a curva do seu pescoço com os lábios, Damon acabou com os poucos centímetros que havia entre eles, no abraço mais forte que já havia lhe dado.
— Se for se arrepender depois é melhor dizer agora… — o vampiro sussurrou.
Ele podia se livrar das próprias roupas e das dela em segundos e estar no seu interior logo em seguida, mas não era assim que a queria. Não depois de tanto tempo ansiando por esse momento em silêncio. Ou quase isso. Até as pedras das ruas de Mystic Falls sabiam que Damon Salvatore era louco por Elena Gilbert… O que ninguém sabia, por não lhe darem crédito o suficiente, era que ele realmente a amava. Mais que a qualquer outra pessoa em toda a sua longa existência.
Não suportava a ideia de ter essa mulher somente para perdê-la logo em seguida.
Sua retribuição às carícias e a chama em seus olhos davam a resposta que Damon esperava, mas ele precisava ouvi-la dizer. Isso a faria se dar conta do que sentia, tornaria tudo real.
Ele só precisava de uma palavra para sair dali com ela e finalmente tê-la para si.
Mas foram outras palavras que se fizeram ouvir através de duas vozes conhecidas, alguns metros além da porta trancada.
***
— Eu sei o que estou dizendo, Bonnie! — Caroline dizia muito baixo, mas em altura suficiente para o casal de vampiros escutar. — Eles estão lá dentro e ele a agarrou!
— Car, seja razoável… — a outra rebatia, incrédula. — Você percebeu de quem está falando?
— Sim, daquele sociopata narcisista e pervertido e da nossa melhor amiga! Damon acaba de convencer a Elena a… — ela nem conseguia descrever, tal era seu nojo diante da situação. — Eu juro que ouvi!
— Tem noção do quanto isso é ridículo? Como diabos ele a convenceria a fazer qualquer coisa? — Bonnie abaixou mais o tom de voz. — Ela é uma vampira, não tem como acontecer.
— De alguma maneira, tem sim! É a única explicação lógica. Ele está se aproveitando dela, nós temos que ir até lá… Me solta, Bonnie! Isso é um abuso, um estupro! Eu vou chamar o Stefan…
— Espera, vamos supor que sejam eles mesmos. Já parou pra pensar que Elena pode estar lá porque quer?
— Você ficou louca?! Elena namora o Stefan, ela o ama, isso não tem o menor sentido. Ela nunca se envolveria com aquele doente! Ela sabe que ele não é bom, nem pra ela nem pra ninguém.
***
Em silêncio – e choque pelo que ouviu da boca de uma de suas melhores amigas –, Elena viu Damon se afastar, correndo os dedos pelo cabelo bagunçado.
— É melhor você ir antes que chamem a xerife — sua voz estava áspera, carregada daquela ironia que ele costumava usar como disfarce para o que sentia.
— Elas não entendem… — tentou justificar, ao descer da bancada e se virar para o espelho, conferindo se não estava suja de sangue. Queria convencer a si mesma de que as amigas, principalmente Caroline, não disseram aquilo por mal. A loira não era a maior fã do vampiro, mas daí a acreditar que ele cometeria um ato tão sujo… — Depois eu falo com elas. Pode ter alguém querendo entrar, é melhor a gente ir…
— Você vai — ele corrigiu. A garota se voltou, sem entender. — Seu namorado deve estar te esperando.
Damon se odiou por falar assim, mas não tanto quanto odiou a ideia de que a “barbie” estava certa. No mínimo, ela possuía fundamentos para dizer aquelas coisas, pelo menos na parte de que Elena não ficaria com ele. O escolhido fora Stefan, não? “Sempre será o Stefan” – a maldita frase ecoou na sua cabeça. Sentia-se um completo idiota por cogitar a possibilidade de conseguir a garota dessa vez.
Diante do vampiro de dentes cerrados e mãos espalmadas na bancada, como se lutasse para conter o impulso furioso de quebrar tudo ao redor, Elena passou por um momento de total desorientação. Doía vê-lo desse jeito, saber o que ele estava pensando, mas também era doloroso se dar conta de que tinha perdido o rumo da própria vida.
Tentava agir como achava certo, mas de alguma maneira sempre voltava para o que os seus desejos mais íntimos ditavam. Era exaustivo lutar contra si mesma.
— Damon…
— Anda, Elena — insistiu. — Você não tem compromissos hoje? Está perdendo tempo aqui.
Ela tencionou protestar, as palavras estavam na ponta da língua e, de repente, recusaram-se a sair. Abriu a boca e nenhum som se formou; as ideias continuavam intactas, mas as forças para falar extinguiam-se. Apenas continuou parada, olhando para Damon e sem conseguir dizer que, no meio de toda a loucura ao redor, pelo menos uma coisa estava bem clara.
Sem saber por que, acabou obedecendo e foi sozinha até a porta. Olhou para trás por um segundo, viu a decepção nos olhos azuis e quis abraçá-lo. Ainda assim, saiu de lá, sendo logo abordada pelas amigas após poucos passos.
— Eu não quero falar com vocês — avisou, não que Caroline fosse se deter.
— Elena, eu ouvi tudo! Nós vamos te ajudar, eu vou…
— Quer me ajudar? Fique calada da próxima vez! — ela disse talvez um pouco alto demais, e andando excessivamente rápido para um ambiente público. Tinha vontade de voltar até o vampiro, mas só conseguia ir para frente. Chegou ao carro em segundos e dirigiu para casa, com um pedacinho acusador da sua mente lembrando que ela havia traído o namorado. Era um pedaço tão pequeno, porém, que mal a alcançava.
A maior parte da sua cabeça estava focada em uma constatação: aquela escolha antes do acidente nunca devia ter sido feita.
***
Apesar de ser dito em um momento de raiva, a observação de Damon sobre os compromissos do dia tinha razão de ser. Com a explosão que dizimou o Conselho de Mystic Falls, uma cerimônia em honra dos mortos seria realizada na igreja do Pastor Young, no fim da tarde.
Elena não tinha o menor ânimo para ver gente e lidar com toda aquela tristeza que dominaria o local, especialmente com as suas percepções tão aguçadas pelo vampirismo. Pensar em todas aquelas mortes a fazia lembrar-se das próprias tragédias, a perda dos pais, dos tios e, a mais recente, de Alaric. Além, é claro, da sua nova condição de imortal.
Queria ficar em casa e se enfiar sob as cobertas, enquanto tentava achar uma forma de se desvencilhar das complicações em que estava metida, mas forçou-se a se aprontar e ir até o culto religioso. Era melhor do que receber uma visita surpresa de Stefan ou ficar remoendo o que tinha acontecido com Damon.
Evitou as amigas assim que chegou e ficou ajudando April, a filha adolescente do pastor, a organizar os últimos preparativos da cerimônia. Nem mesmo tentar dar uma palavra de consolo à menina conseguiu livrá-la do pensamento de que teria, muito em breve, que confrontar o namorado e quem mais aparecesse para questioná-la. Precisava achar um jeito de resolver tudo com o menor dano possível…
Mas estava longe de vislumbrar uma resolução quando se debruçou sobre a bancada do banheiro da igreja, tossindo violentamente, com jatos de um líquido vermelho a serem expelidos pela sua garganta. Todo o sangue que havia bebido de Damon estava espalhado pelo chão, vaso sanitário e lavatório, em um espetáculo mórbido que também borrava os seus lábios e escorria pelo queixo até se espalhar pelo busto do vestido claro.
O pânico que sentiu na floresta era nada em comparação ao desespero que a dominou. Estava perdida, e colocando em risco todos aqueles com quem se importava.
A nova onda de náuseas vinha acompanhada de uma sede implacável, perigosa para os humanos que a cercavam. Tinha que sair dali o quanto antes, mas não naquele estado, toda suja de sangue, e não deixando rastros que pudessem denunciá-la.
Trêmula e com lágrimas nos olhos, Elena chamou pela única pessoa que lhe ocorreu. Era sempre ele quem vinha à sua mente.
— Damon?
— O que houve? — ele respondeu já em estado de alerta. Sabia que ela não estava bem apenas pelo tom da sua voz.
— O sangue… — não conseguiu dizer sem chorar. — Eu vomitei de novo… Sujou tudo, se alguém me vir…
— Tem gente por perto?
— Não agora, mas estou na igreja. Eu não posso andar assim, preciso de uma roupa…
— Estou indo.
O vampiro sabia o que fazer. Desligaram logo depois e ele foi a toda velocidade até a casa da garota. Abriu os armários sem a menor cerimônia e pegou literalmente o primeiro vestido que viu. Era preto. Muito apropriado à ocasião.
Em alguns minutos, ligou de volta.
— Aqui. Onde você está?
— No banheiro do porão — Elena disse com um alívio que logo se extinguiu com a maçaneta girando. Pelos céus, estava trancada. — É você na porta?
— Ainda não.
Então a pessoa bateu na madeira, insistente.
— Desculpe, está ocupado! — ela gritou, transparecendo o nervosismo. E sussurrou: — Rápido, Damon…
Ligou a torneira bem forte, pra disfarçar os sons, e se apressou em eliminar os vestígios de sangue no lugar. Gastou todo o papel toalha limpando as peças sanitárias, bem como o chão. Estava lavando o rosto quando ouviu a voz dele do lado de fora.
— Damon, graças a Deus… — abriu uma fresta da porta e teve que segurar a vontade de se atirar em cima dele.
Contentou-se em receber o vestido, desculpar-se rapidamente com o homem esperando o banheiro ser liberado e trocou de roupa o mais rápido que conseguiu. Ao sair, com a bolsa cheia de papéis ensanguentados, Damon estava distraindo o sujeito com alguma conversa. Ela apenas esperou que ele concluísse a frase e o puxou para irem embora.
— O que há de errado comigo? — só teve coragem de perguntar quando alcançaram o jardim.
— Eu não sei — ele foi sincero. — Talvez o seu sangue de doppelganger esteja rejeitando a transição.
— Estou morrendo, não é? — perguntou quase chorando outra vez.
— Não, você não está morrendo, só precisa beber direto da veia.
— Não. Não, eu não posso arriscar matar ninguém, Damon. Talvez seja melhor eu morrer.
— Não diga isso! — ele quase gritou com a garota. Ela não podia pensar essa insanidade, não tinha o direito de desistir da própria vida tão facilmente, como fizera na ponte. Ele não ia deixar. — Elena… Você vai ficar bem.
Passou toda a convicção que pode nas palavras e desejou que ela acreditasse. Que confiasse.
Damon acariciou levemente o seu rosto delicado. Sabia como ela devia estar sentindo o toque amplificado, em cada mínimo nervo do seu corpo… Assim como havia sentido os beijos, mais cedo.
— Eu te trouxe uma bolsa de sangue.
— Não acho que vai funcionar.
— Tente — insistiu. — É sangue humano e não tem que machucar ninguém. É o que você precisa, Elena.
Hesitante, a vampira aceitou o pacote vermelho com a identificação do Mystic Falls Hospital, sentindo a garganta queimar pela sede. Estava faminta. Sugou uma vez, antevendo o momento em que o líquido começaria a ser expulso de seu organismo, embora o sabor fosse bom. Muito bom, quase como o que tinha bebido de Damon e bem diferente daquele com gosto de lixo que Stefan lhe induzia a ingerir.
Engoliu mais algumas vezes, enquanto suas esperanças de não ser um caso perdido iam sendo renovadas. Viu Damon sorrir, incentivando-a, e sorriu de volta, ciente de que estava com o rosto corado, e não era pelo sangue que bebia. Ele não parecia mais irritado com ela… Esperava que não estivesse mesmo. Era melhor esclarecer.
— Damon, vamos… — ela estava prestes a dizer “para minha casa”, mas engasgou subitamente, chegando a deixar escapar um pouco do líquido vermelho pelo canto dos lábios. O vampiro se adiantou para limpar sua boca com os dedos, sem perceber o que a sobressaltara tanto.
Poucos metros adiante, Stefan encarava os dois com uma fúria contida. Por um instante, ela não entendeu a quem aquela ira era direcionada, mas decidiu que isso não importava mais.
Damon seguiu o olhar dela até quem quer que estivesse às suas costas, e trincou os dentes quando viu.
— Ótimo… — resmungou.
— O que tem aí, Damon? — o outro inquiriu.
— Eu trouxe para Elena.
— Porque ela tem que fazer as coisas do seu jeito, não é?
— É o único jeito, Stefan. E você sabe.
— Se ela machucar alguém, vai ficar desesperada pra se livrar da culpa. Talvez tão desesperada ao ponto de desligar a humanidade.
— E se transformar numa estripadora?
— Não posso deixá-la ser como eu.
— Ou Deus não permita que ela se torne como eu. Pode dizer. É isso que você está pensando.
— Parem, vocês dois! — Elena ordenou, devolvendo a bolsa de sangue a Damon. — Stefan, eu sinto muito.
— Pelo sangue ou por estar com meu irmão? — ele cuspiu as palavras acusadoras.
Elena suspirou, exausta. Estava farta do debate em torno do tipo de vampira que deveria ser, e ainda mais cansada da implicância de Stefan em relação a Damon. Ok, o que havia acontecido no banheiro do Grill era motivo suficiente para aquela revolta, afinal ela o traíra. Mas o rapaz não sabia disso. Sua atitude era inspirada pela rejeição que ele sempre teve quanto a menor proximidade entre a namorada e o irmão. Por sua vontade, a garota nunca teria trocado mais do que duas frases com Damon. Stefan não entendia de onde poderia vir aquela afinidade que eles demonstravam, especialmente nos últimos meses.
— Pelo sangue — ela admitiu, somente. — Eu não consigo do seu jeito, e não tenho certeza se quero conseguir.
— Você nunca quis ser uma vampira.
— Mas eu me tornei uma. E não quero ficar lutando contra mim mesma… Estou cheia disso tudo. Talvez eu não precise ficar me torturando pelo que sou, talvez não precise ser tão difícil.
Tentou sorrir, para que ele visse que a ideia não parecia mais tão terrível. Recebeu de volta um olhar que bem poderia ter partido de um estranho.
— Então, está indo pelo jeito mais fácil.
— Se é dessa forma que você vê… — ela deu de ombros.
— Satisfeito? — Stefan se voltou para o irmão.
— Hey, Damon não tem culpa nenhuma…
— E você é a defensora dele?
— É melhor ver como fala, irmãozinho — o vampiro calmamente colocou a bolsa de Elena no chão, num movimento que não passou despercebido a nenhum dos três. O outro, porém, não se intimidou.
— Por quê? — disse, com a voz alta e carregada de ironia. — Ela é a sua garota, agora? Mais uma?
Os punhos de Damon estavam em torno do seu pescoço antes que a segunda frase fosse concluída. Erguia-o do chão alguns centímetros, diante dos olhares assustados dos transeuntes na frente da igreja. Não faltava muito para o início do culto.
— Foi pra isso que você sempre quis que eu me afastasse dela? — ele rosnou. — Foi para deixá-la morrer?! Para tratá-la assim?!
— Damon, não… — Elena se adiantou até os dois, ficando atrás do vampiro, as mãos nos seus ombros, tentando acalmá-lo. — Deixa pra lá, vamos sair daqui.
— Você vai se arrepender… — Stefan soltou uma risada ácida. — Como pode ser tão cega?
Era o que ela mesma estava se perguntando, embora não pelos mesmos motivos. E estava pronta para rebater suas palavras quando ele foi arremessado ao chão, após receber um soco na lateral do rosto. Ela conseguiu ouvir o som dos ossos se espatifando, mas nenhum impulso de verificar o estrago lhe atingiu.
A única coisa que fez foi pegar a bolsa largada, segurar o braço de Damon e começar a puxá-lo para longe da confusão, sem olhar para trás.
***
Ficaram ambos em silêncio no percurso até a casa dos Gilbert.
A garota compreendia o desgosto de Stefan em relação às recentes decisões dela, mas não pode deixar de ficar chocada com a maneira como ele reagiu. Por um longo tempo, ela ignorou a percepção de que o rapaz tomava atitudes que não condiziam com o discurso que ele professava, justificou para si mesma as contradições que o cercavam. Agora, contudo, ela não sabia se era pelo vampirismo ou apenas por todas as coisas que aconteceram enquanto eles estavam separados, mas não conseguia ignorar o fato de que ele não era a pessoa que mostrou ser desde o início.
E a versão real passava muito longe de merecer que ela se sentisse culpada por voltar atrás em sua escolha.
— Eu vou fazer ele se desculpar com você — Damon prometeu, quando entraram. Ele não se conformava com a maneira como o irmão havia se portado.
— É isso que você quer? – Elena pareceu não ver que o vampiro lhe estendia a bolsa que estava carregando para ela. Começou a subir as escadas, de modo que ele precisou acompanhá-la.
— O que eu quero não é a questão.
Ela revirou os olhos. Esse vampiro possuía um timing horrível.
— Péssima hora pra ser altruísta.
— Não foi isso o que você sempre quis de mim? — sorriu, irônico, batendo a porta do quarto dela e pousando a bolsa sobre a cômoda. — Altruísmo?
— Eu sinceramente não te entendo, Damon — ela cruzou os braços, impaciente. — Por que me mandou embora mais cedo? Estava sendo altruísta também?
— Não. Eu só achei que não precisava me dar ao trabalho de ouvir o óbvio.
— Ah, eu sou muito óbvia. Não entendo por que esse alarde todo, então. Se eu sou tão fácil de ler, por que ainda precisava ouvir da minha boca que eu não ia me arrepender de ficar com você hoje? Podia ter entendido de uma vez e evitado esse transtorno na igreja e depois com seu irmão.
— Ok, sinto muito se eu me permiti ter alguma esperança por um segundo que fosse. Você tem razão, Elena, sua ligação foi muito clara na outra noite, eu nem sei por que ainda estamos discutindo isso. “Sempre será o Stefan”, eu já entendi.
Sem precisar ouvi-la confirmando aquilo mais uma vez, Damon foi se retirando do quarto, já ia à porta quando ela se colocou muito rápido na sua frente.
— Arrgh! Quando é que vai parar de jogar isso na minha cara? Uma garota não pode mudar de ideia?! Eu tinha dezessete anos quando disse aquilo, pelo amor de Deus!
— Mudar de ideia?
— O quê, não entendeu? Não tão óbvia assim, afinal.
— Essas palavras foram suas, não minhas. Estou ouvindo.
— Por que precisa tanto que eu diga?
— Pra ter certeza que não estou imaginando. Pela milionésima vez.
Elena venceu o curto espaço que os separava, apenas um passo, ficando tão próxima a ele que o leve movimento de suas respirações fazia com que seus corpos se encostassem. Sua mão direita levantou-se até tocar suavemente o rosto do vampiro, enquanto os lábios foram atraídos como um imã para os dele, parando a um único centímetro de distância.
— Acha que isso é imaginação? — sussurrou. Damon precisou ainda segurar a cintura dela, um aperto de leve, como se quisesse ter certeza de que não estava alucinando.
— Se for… — ele respondeu numa voz involuntariamente rouca — não me desperte.
Elena assentiu com um sorriso que foi interrompido pelo beijo que se seguiu, sedento como se fosse o primeiro ou o último. Mas era apenas o início de uma sucessão de muitos outros, nos quais as línguas se moviam voluptuosamente, ansiosas por provar mais daquele sabor que fazia o melhor dos sangues parecer sem gosto.
Moviam-se com tanta pressa um contra o outro que ficariam facilmente roxos, se fossem humanos. Damon parecia querer explorar até o mais remoto cantinho dentro da sua boca, que estava entregue, assim como tudo o mais. Elena o queria, e fazia questão de que ele soubesse o quanto.
Foi ele quem a apertou contra si, colando seus corpos de modo que podiam sentir cada forma um do outro, mas foi ela quem se encostou à porta e moveu os quadris na direção dele. O desejo era nítido em ambos, embora o do vampiro fosse mais evidente. Bem visível na calça subitamente apertada.
Se aquela não fosse Elena e essa não fosse a primeira vez em que ficavam tão próximos, juntos, ele jogaria a mulher sobre a cama e estaria dentro dela em um segundo. Sendo a sua garota, porém, Damon queria prolongar aquilo o quanto pudesse, nem que doesse de tão excitado. Meio que já se encontrava assim desde o momento no banheiro do Grill, podia aguentar mais um pouco. Não era nenhum adolescente sem controle, embora com ela fosse fácil se sentir absurdamente jovem, a experimentar sensações novas com cada carícia.
E como ela o acariciava… Aqueles dedos longos e delicados se moviam com destreza pelos ombros largos, deslizando até as costas por baixo da gola da camisa. Os mesmos dedos que eram coroados por afiadas unhas ocupadas em arranhar a pele por onde passavam.
Impaciente por lidar com aquela peça de roupa a atrapalhar o seu caminho, ela simplesmente puxou a abertura na frente, pouco se importando com os botões espalhados pelo chão do quarto, pois seu foco eram os músculos daquele peitoral que ela cansou de observar de soslaio, quando aquele homem lhe era proibido.
Tinha se afastado alguns centímetros para arrancar a camisa dele, e tratou logo de acabar com a distância assim que o objetivo foi alcançado. Correu a mão pelo abdômen, enquanto sua boca foi direto para a clavícula, deslizando pela curva do pescoço, com pequenas sucções que nada tinham a ver com alimentação.
A tentação, contudo, era grande demais. A sede da vampira ainda não fora saciada o suficiente e, apesar de essa ser sua última preocupação no momento, a reação física foi imediata. Sentiu a gengiva formigando com as presas aparecendo, os olhos ficando enegrecidos ao redor das pálpebras, com aquelas linha finas e escuras, capazes de assustar até a morte qualquer humano desavisado.
— Damon… — ela estremeceu com o descontrole. Ele simplesmente segurou seu rosto entre as mãos, e falou contra seus lábios, quase tocando os caninos sedentos.
— O quanto quiser.
— E se depois…?
— Não vai. Confie em mim… Você vai ficar bem.
Ele a abraçou tão forte que Elena teria dificuldades para se soltar, se essa fosse sua intenção. Mas não era, então ela o enlaçou pelo pescoço e afundou de uma vez as presas em sua garganta.
Fazia sentido que o sabor estivesse ainda melhor? Estava e ela não demorou para descobrir a razão. Enquanto engolia com vontade, deliciando-se com aquele gosto tão bom, ela entendeu perfeitamente o que ele quis dizer com “pessoal”.
O ato de compartilhar sangue era tão íntimo que os dois bem já poderiam estar completamente sem roupas, nus, expostos até o último nível, porque era assim que se sentiam. A entrega completa não era apenas daquele que alimentava, era também de quem era alimentado. Um jogo para dois.
Elena se arrepiava inteira com as mãos firmes lhe tocando nas costas, de cima à baixo, e descendo pelos quadris para levantar um pouco da saia e chegar até as coxas. Ela mesma desceu a mão pelo peito largo até a cintura e não resistiu à vontade de ir mais além.
Libertou o pescoço dele por um breve instante, apenas o tempo necessário para mover a boca para o outro lado, percurso que foi feito com o passear da língua sobre a pele. Então, ao mesmo tempo em que voltava a mordê-lo, ela rapidamente arrancou o botão da sua calça e abriu caminho até o volume quente e convidativo do seu pênis.
Dos lábios do vampiro escapou um gemido que não era o primeiro, mas foi certamente o mais intenso. As mesmas carícias que queimaram sua pele estavam agora na parte mais sensível e desesperada por esse cuidado, em movimentos de vai e vem, pequenos apertos e provocações, uma demonstração clara de que sua menina estava muito consciente do que fazia com ele.
Tão consciente que ela parou de beber seu sangue, pouco depois, e ergueu a cabeça para puxar seu lábio entre os dentes de forma tão lasciva que, por um segundo, ele duvidou estar diante de uma vampira nova.
Essa era ela.
Elena Gilbert, a mostrar o quanto ele estava certo o tempo todo. A chama que ele via naqueles olhos e o calor que emanava do seu sorriso enquanto ela descia uma trilha de beijos ao longo do seu peito, até chegar à cintura e libertar rapidamente a ereção, sempre esteve ali.
O choque que aqueles lábios ainda manchados de sangue lhe mandaram por todo o corpo no momento em que envolveram o membro, por outro lado, era muito maior do que Damon jamais imaginou. E isso significava muitas, muitas vezes.
Elena começou com um beijo casto na ponta do pênis duro, ereto, e cuja visão fazia o seu interior se apertar em excitação. Um beijo casto que contrastava com o olhar malicioso que tinha quando o colocou na boca, primeiro até onde conseguia sem engasgar, em seguida fazendo movimentos ritmados e alternados com sucções responsáveis pelos sons guturais que escapavam da garganta do vampiro.
Damon afastou os cabelos soltos que teimavam em cair no rosto dela, e se deleitou com a imagem da sua Elena tão concentrada em lhe satisfazer. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo… Mas estava. Era real. Assim como as crescentes ondas de prazer que aquele ato que lhe proporcionava.
Ela se permitiu pensar por um minuto no que estava fazendo ali… Era uma situação nova, estar assim com Damon, mas não era errado, muito pelo contrário. Sua mente estava muito clara e ela não se arrependia. Não evitou o sorriso que veio com a lembrança de que o havia procurado naquela manhã com o inocente propósito de lhe pedir ajuda pra se alimentar.
— Elena…
A vampira olhou para cima, empenhada no que fazia, e ele lhe estendeu as mãos para que se erguesse, o que ela fez, mas não sem uma última intensa sucção que o fez ofegar ao envolvê-la nos braços. E que o fez perder menos tempo ainda em tirar o vestido que ela ainda usava do caminho.
Foi satisfeita que ela deixou a peça ser largada em algum canto, para em seguida ser tomada nos braços e deitada na cama. Ficou de sutiã, arfando, os seios subindo e descendo com a respiração descompassada, ardendo com a expectativa de ser tocada diretamente, enquanto Damon a observava com os olhos tão libidinosos como se ela já estivesse nua.
Parecia que ele hesitava em lhe tocar, e Elena não sabia que era porque ele estava fascinado demais pela visão da mulher que amava tão entregue como ele nunca pensou que seria. Ela acabou por amplificar ainda mais o momento, com a iniciativa de desabotoar o fecho nas costas e se livrar do sutiã. Ele sorriu.
Ela sorriu.
E imediatamente recebeu o toque que precisava, as mãos hábeis sobre aquela parte sensível, apertando os mamilos rígidos, ao mesmo tempo em que um beijo calava o gemido que lhe escaparia dos lábios.
Logo as mãos começaram a se mover acompanhadas de uma boca sedenta por experimentar o sabor da sua pele. Elena deu graças por estarem sozinhos na casa, pois duvidava que seria capaz de conter os gemidos cada vez mais frequentes e bastante audíveis.
Damon não conseguia tirar as vistas dela, aquela garota, aquela mulher cheia de desejo e superando todas as suas expectativas de como seria estar com ela. Tampouco conseguia manter os lábios longe dos seus, assim buscou novamente seu beijo doce, sensual, urgente… Elena sentiu os seios arderem em contato com o peito dele, o abraço apertado era uma carícia bem-vinda ao qual todo o seu corpo respondia, especialmente onde ainda não fora tocada.
Atendendo ao seu pedido mental, ele se ergueu até ficar sentado e com a melhor visão possível no momento em que deslizou a calcinha pelas suas pernas. Nua, úmida e quente, ela estava exposta para aquele homem que já a tinha por completo.
Trocaram um olhar e os lábios dele se curvaram no sorriso torto que a fazia se desmanchar. Em um reflexo, ela apertou os joelhos bem juntos, com o receio meio bobo de que ele fosse abri-los para exibir ainda mais a nudez e o estado de prontidão que o seu sexo se encontrava, e que ela tinha certeza que ele havia notado.
Como achou que ele faria, Damon levou uma mão por baixo das coxas dela, até alcançar os lábios molhados e esperando o momento de se abrirem para recebê-lo. Percorreu com apenas um dedo a intimidade “selada”.
— Agora é minha vez… — murmurou no seu ouvido.
— Aham… — ela sorriu e, como se tivesse entendido outra coisa, virou o rosto para o lado, deixando que o beijo que ele estava para lhe dar tocasse o pescoço.
Damon respirou fundo. Suados como estavam, na pele de Elena ele podia sentir aquele cheiro de mulher, de sangue e sexo antes mesmo de consumarem o ato.
— Tem noção do que está fazendo? Do que eu vou fazer?
— Tenho sim… E quero que você faça. Se você não q…
Ele interrompeu a frase com uma mordida no lábio muito mais forte que o puxão que ela tinha dado, ao ponto de uma gotinha vermelha ser expelida pelo pequeno rompimento na pele frágil.
Elena respondeu passando a língua sensualmente no lugar, limpando o corte e fazendo com que seu vampiro perdesse o resquício de controle que ainda tinha. Ela viu quando os olhos dele escureceram e as linhas negras se desenharam ao redor, assim como viu as presas ameaçadoras emergindo.
Mas não foi ameaçada que ela se sentiu quando o calor no seu ventre aumentou e refletiu diretamente na umidade entre as pernas. Só a visão de Damon assim, vampiro, teria a deixado excitada, se ela ainda não estivesse.
Elena segurou o rosto dele e o puxou para um beijo que novamente perfurou os seus lábios, o que lhe arrancou o sorriso que iluminava o seu rosto no instante em que o conduziu até o pescoço e esperou pela mordida que viria.
Em um segundo, ela entendeu perfeitamente porque ele parecia tão inebriado quando ela fez o mesmo com ele. Nunca antes esteve tão vulnerável e ao mesmo tempo tão poderosa como nesse momento. Queria que ele pegasse tudo o que pudesse beber, que se saciasse dela, que a tomasse por inteiro. Queria e precisava tê-lo dentro de si de todas as formas possíveis.
Assim como ela havia feito, Damon passou a acariciar seu sexo enquanto mordia, os dedos hábeis deslizavam entre os lábios vaginais até o ponto mais sensível com maestria. Nunca fora tocada dessa forma antes, e nem mesmo os próprios dedos a conheciam tão bem, naquelas noites quentes que ela passara sozinha nesse quarto a repetir mentalmente que deveria esquecer o então cunhado.
Sua cabeça rodava num turbilhão de prazer no qual parecia que tudo, absolutamente tudo no mundo havia encontrado o seu lugar correto. A única coisa destoando era a calça que Damon ainda vestia, e que já estava um pouco abaixada.
Elena tentou reunir forças para livrá-lo daqueles tecidos que restavam, e o vampiro interrompeu a mordida para ajudá-la. O instante que ele ficou afastado foi mais do que suficiente para que contemplasse aquele homem que ela se sentiu tantas vezes culpada por desejar.
— Eu menti pra mim por tanto tempo… — confessou. — Perdemos tanto tempo…
— E agora temos todo o tempo do universo… — ele lhe lembrou, e foi impossível ambos não sorrirem com a veracidade da sua afirmação.
Damon voltou a se posicionar em cima dela e cobrir o seu pescoço de beijos e leves mordidas, enquanto a própria Elena se ajeitava na cama para que ele se acomodasse no seu interior.
Os dois ofegaram no momento que seus sexos se encaixaram com perfeição. O pênis mergulhava deliciosamente no canal apertado, causando uma fricção que enviou choques de prazer através dos seus corpos unidos. Juntos, encontraram um ritmo crescente nas investidas, e foi com um susto muito bem vindo que ela deixou escapar um grito no momento em que ele foi, para seu deleite, tão fundo que ela duvidava já ter sentido algo similar antes.
Era assim com Damon. Qualquer experiência, com ele, conseguia ser nova e ao mesmo tempo conhecida.
Uma mão firme em seu quadril lembrou-a de apertar as pernas ao seu redor, o que lhe rendeu, além do próprio prazer amplificado, a noção de como o afetava também.
Forçando-se a ficar de olhos abertos para não perder nem um único segundo daquele momento, ela viu, pela primeira vez, como era fazer amor com um vampiro. Damon tinha a face transfigurada, os olhos fixos nos seus e as presas avermelhadas pelo sangue que tinha tomado dela… Não, com o sangue que ela tinha lhe entregado, porque também era dele.
Elena não percebeu que estava do mesmo jeito, uma vampira, até que ele ergueu a mão trêmula e tocou-lhe os dentes afiados entre um ofegar e outro de seus lábios.
“Imortais… Juntos…”, foi seu último pensamento antes que tudo o mais desaparecesse, e só restassem eles dois.
Finalmente, juntos.
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