Deixo - Ernesto e Ema
4 Realidade, Céu e Mar
Notas iniciais
Correram desabalados, sorrindo como crianças, pegaram uma charrete em direção mansão do parque. Ema juntou todos os vestidos que pôde, preferindo os mais antigos, catou uma ou duas parafernálias femininas e fechou a mala, não precisaria de mais nada.
Na saída ela e Ernesto toparam com a figura quase mórbida de Fani, parada ao lado da porta.
— O que pensam que estão fazendo? — perguntou ela, os olhos incrustados na mala que Ernesto carregava.
— Nem pense... — começou Ernesto.
— Deixando o caminho livre para você! — interrompeu-lhe Ema a respondendo.
— Não sei do que a senhora está falando. — ela levantou o queixo, em sempre carranca.
— É claro que sabe! — Ema aproximou-se dela. — E se quer um conselho, não perca mais tempo com as suas mágoas! Apenas lute, você é forte suficiente para isso! Sei que é. E considere-se vencedora quando os bons sentimentos dentro de você se libertar. Não existe nada melhor nessa vida do que se desprender do orgulho e se entregar a um amor.
Ernesto viu algo que a muito tempo não via, os olhos da irmã se enxerem de lágrimas e de emoção. Mas, não podiam perder mais tempo, aproximou-se de Ema e os dois passaram por Fani um tanto estagnada. Já descia o alpendre as pressas segurando a mão dela, quando de repente ela parou, simplesmente estacionou o olhando.
— O que houve? — ele perguntou-lhe apressado.
— Espera aí — ela alçou o dedo indicador, perspicazmente. — E a doutora?
— Que doutora?
— A Makiko...
— Mariko? — ele corrigiu.
— Que seja! Não me interessa o nome dela.
— Que tem ela? – perguntou ele, confuso.
— É tão despudorado assim, que nem se importa?!
— Baronesinha, não temos tempo... Não me importo com o que?
— Em deixá-la! Em seguir comigo e deixá-la!
— Ah?! E-eu...
Ela alçou as sobrancelhas esperando a resposta.
— Não tenho nada com ela. — disse por fim.
— Ah, me poupe, eu bem vi o chamego de vocês dois.
— Está com ciúmes, ba-ro-ne-si-nha? — perguntou segurando o riso.
— Claro que não. Não é ciúmes é... pudor! — fingiu-se de enobrecida, pois realmente estava morrendo de ciúmes.
— Pudor?! — ele exclamou com falso espanto. — Falou a mulher casada que está prestes a fugir com um italiano despudorado!
Ema agitou-se, largando a bolsinha que carregava com força no chão.
— Você é um prepotente! Havia me esquecido o quanto é rude!
— Ema, por favor, não temos tempo! Depois você briga comigo, baronesinha agora temos que ir!
— Arre! Está bem, está bem! Mas não pense que irá me escapar por essa rudeza.
— Eu nem ousaria tentar.
Ela apanhou a bolsa, agarrou a mão dele novamente e seguiu sorrindo para onde quer que ele pudesse levá-lo.
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Ela olhava o infinito negro que era o seu horizonte pela pequena e enferrujada janela da cabine. A noite o mar se mistura com o céu tornando-se um só. Um vasto e único azul negro salpicado de ondas e estrelas. Já ouvira lendas sobre o assunto, e era encantador presenciar, especialmente quando suspeitava conhecer tais sentimentos de união, mesmo que pela razão eles fossem impossíveis. Que lhe importava a razão, agora? Divagou. Foi quando o sentiu abraçá-la por trás, e aconchegou-se logo em seu peito.
— E então, como se sente viajando de classe econômica pela primeira vez?
— Sinceramente?
— Sim!
— Tão confortável quando das outras vezes. — ela se apertou ainda mais ao seu abraço, mostrando-lhe que o conforto vinha dele.
— Hm... Sinto-me lisonjeado. Isso quer dizer que... sou primeira classe?
Ela tentou em vão segurar o riso e lhe deu um tapa no braço.
— Quer dizer que continua o mesmo italiano orgulhoso e petulante de sempre. — virou-se pra ele, sorrindo. — Então diga-me, como pôde me perdoar, assim tão facilmente?
Ele sorriu.
— Sabe que me fiz essa pergunta na hora que lhe propus fugir! — ele disse, olhando em seus olhos. — Mas, quando vi a dor em seus olhos, Ema... A única coisa que queria na vida era tirá-la dali, voltar a ver você sorrir com os olhos brilhando de energia. E quando eu percebi que podia fazê-lo, como sempre alias — ela sorriu. — tudo se esvaiu, o passado, mágoa, qualquer outra coisa. E me enchi de orgulho sim, orgulho de você quando pareceu pensar o mesmo que eu, e aceitou minha proposta insana!
Ela lhe deu um beijo rápido. Sorrindo, em seguida, exatamente como ele descrevera, com energia, maravilhando-se de sua declaração.
— Ainda não acredito que fiz isso! — disse depois de um tempo. — Que estou aqui! Fico achando que a qualquer momento vou acordar e está naquele maldito quarto novamente.
— Deixe-me mostrá-la baronesinha, que tudo é bem real.
Ernesto segurou sua nuca e a beijou. Um beijo lento, calmo. Era novo, diferente dos outros, este parecia realmente saboreá-la. Ele parecia querer provocá-la e estava conseguindo porque aquela mansidão a estava agitando, assim como por certo o mar se agitava com a passividade com que o céu vinha para alcançá-lo, porque isso a fazia desejá-lo mais e mais. Os joelhos fraquejaram e ela teve que agarrar-se firme a ele quando sentiu a língua invadir o interior de sua boca. Explorando lentamente cada cantinho, dizendo-lhe com aquele gesto que se sentia a vontade ali, como se estivesse em casa.
As mãos de Ernesto a apertava com força, mas aquilo não a incomodava, era o contrário, lhe aquecia, sentia-se tomada, sentia-se dele. Um sentimento que nunca havia sentido antes e nem sabia que existia, porém era prazeroso. Ele puxava seu corpo para cada vez mais próximo. Não existia mais espaço entre eles. Mas, por difícil que fosse explicar, ela sentia que o queria cada vez mais perto. Enlaçou sua perna na dele, e Ernesto a puxou pela cintura, trazendo-a praticamente para cima dele, foi quando sentiu o choque das intimidades. Uma corrente elétrica forte perpassou por todo seu corpo, ela assustou-se, e automaticamente o empurrou.
O mirando com os olhos arregalados, completamente corada e a respiração totalmente descompassada. Ela tremia.
— O que houve? — ele perguntou, também sem fôlego.
— O que foi isso? — sussurrou, os olhos cheio d'água, as mãos ainda estendidas no ar.
— Isso o que? — ele franziu o cenho, confuso, mais ainda com a frustração querendo tomá-lo.
— Você não sentiu? — ela estava assustada, ele começou a perceber. — Esse choque?
Ernesto respirou fundo tentando acalmar-se e engolir sua ânsia.
— Ema, e-eu... — ele realmente não sabia como explicar a ela, tão pouco não sabia porque tinha necessidade de fazê-lo. — É... natural! — Ela parecia ainda aparvalhada. — O-o que... o que sentiu? – perguntou por fim. Implorando a seu corpo calma, aproximou-se dela.
— Um choque — ela disse, a voz entrecortada. — Começou desde aqui — ela tocou o ventre. — e espalhou rápido e de repente, até a ponta dos dedos. Ainda estão... ainda estão formigando. — ela tocou as pontas dos próprios dedos.
Ernesto tentou não sorrir.
— E você nunca havia sentido isso antes?
— Não! Não desse jeito!
Ele olhou os lindos olhos dela que estavam brilhando.
— Ema! — ele lhe segurou as mãos tremulas. — Talvez a intensidade do que sentimos fez com que sentisse mais forte. — ele tentou não se envaidecer, não era o momento, e mais ainda tentou não enciumar-se. — Mas, é natural meu amor, quando um casal tem... tem suas intimidades, você sabe! — Ela o olhou como se nunca o tivesse visto na vida. — Desculpe se eu a assustei, mas... achei que...
A face de Ema pareceu clarear-se.
— Achou o que?
Ernesto não sabia o que responder. Como dizer aquilo a ela? Na verdade, dizer o que?
— E-eu... Eu... Não sei... Ema, você é casada imaginei que não...
— Não! — ela quase gritou, afastou-se dele. — Não se atreva!
— O que?! — ele perguntou meio exasperado com a situação, pois não entendia o que estava acontecendo e a frustração havia lhe tomado.
— Eu... — ela respirou fundo tentando aplacar a raiva que estava sentindo por ele pensar aquelas coisas dela. — Eu... Como...? Ernesto! — ela zangou-se o corpo se agitando — Como pode pensar isso de mim?
— Pensar o que?! — ele estava ficando nervoso, a excitação quase sumindo , ele estapeou uma almofada de cima da cama fazendo-a voar para o outro lado da cabine. — Você casou-se com ele!
— Para salvar minha família!
Os dois já estavam gritando a essa altura. Ernesto com o ciúme e a mágoa lhe corroendo e Ema com a decepção ameaçando tomá-la.
— E dai?! — perguntou jocoso. — Que diferença isso faz agora? Casou-se. É dele! Tornou-se a mulher dele!
— Nunca!! — ela berrou e Ernesto engasgara com qualquer que fosse a palavra que estava pronto a pronunciar.
Encararam-se por um tempo, apenas absorvendo.
— O-o que? — perguntou ele por fim.
— Nunca me entreguei a Edmundo! Nunca! — O coração de Ernesto parecia que tinha congelado, parado de bater. Ela continuou: — Nunca o deixei sequer beijar-me!
— P-por que? — ele odiou-se, isso era lá pergunta para se fazer diante daquela revelação?
Ela pareceu pensar o mesmo.
— Como por que, seu despudorado? Porque não o amo! Jamais me entregaria ao homem que não amasse!
— Mas, e o casamento... Todo esse tempo? — ele não entendia por que continuava a fazer aquelas perguntas. Não estava sendo nenhum pouco sensível com a intimidade dela, mas ela parecia ter acertado desde o principio, ele era um rude!
— Meu casamento foi um arranjo, Ernesto! Não existiam sentimentos ali. Por isso fui tão infeliz! – a lágrima lhe escorreu, solitária. – Está satisfeito?
— Não! Seu sofrimento jamais me satisfaria! – disse de pronto. – Em nenhum momento, nem quando a odiei por ter se casado com ele deixei de desejar que você fosse feliz, baronesinha. Mesmo sabendo que você não conseguiria sê-lo. E por todo esse tempo me inflamei de ciúmes só de pensar em...
— Então nunca mais o pense. Porque eu nunca me entregaria a ele. – disse com toda convicção que pôde. –Porque nunca cheguei nem perto de amar Edmundo. Porque em todos os momentos, desde que deixei São Paulo senti sua falta. Eu nunca... Nunca, me entregaria para ele. Poderia passar o resto da vida e jamais o teria feito!
Ele a olhava encantado, o coração voltara a bater, a arrebentar em seu peito. Ernesto parecia dar-se conta finalmente do que aquilo significava. A excitação que ele julgava ter perdido, de volta, com toda força! Era como se ela tivesse guardado a sete chaves todas as coisas que tinha de mais precioso, seu amor, sua alma, seu corpo. Guardara sua pureza para não macular-se consigo mesma, mais do que já sentia ter o feito.
— Ema, eu... — ele disse, os olhos brilhando para ela, emocionado. — Meu amor! Meu amor! — aproximou-se dela e a suspendeu no ar.
A raiva de Ema dissipou-se automaticamente quando ela viu o sorriso mais lindo que Ernesto já havia lhe lançado. Parecia uma criança. E foi inevitável para ela não sorrir também.
— Eu te amo! Eu te amo! — ele repetia enquanto lhe beijava a face. — Me perdoe! Perdoe-me, baronesinha! Eu sou italiano mais bronco e rude que existe. Ema... — ele a olhou nos olhos, segurando sua face. — E-eu... Eu...
— Shii! — ele o calou com dedos. — Não precisa dizer-me mais nada. — ela desenhou os lábios dele com os dedos. — Apenas me ame. Faça-me sua, então. Italiano rude, me faça sua mulher!
O corpo dele vibrou inteiramente. Uma força abrasadora tomando seu ser. Uma força que o impulsionou até ela, que o fez a pegar nos braços. Que o fez conseguir segurar seu estupor e pousa-la delicadamente na cama. Uma força que o controlava, pois naquele momento ele precisava de controle, para realizar plenamente a mulher que amava. Queria tocar-lhe a alma, mas os corpos eram um empecilho, um doce e prazeroso empecilho, que ele não tinha medo de ultrapassar. Parecia que o dela tinham imãs de seu próprio corpo, pois o atraia a ela como se fossem feito da mesma matéria. Não tinham mais reservas, nem pudores, entenderam isso.
Enquanto Ernesto a beijava lentamente em cada cantinho de seu corpo que ele descobria, ela voava. Sentia a brasa quente em todo seu ser em cada lugar que ele tocava, assim como voltara a sentir a corrente elétrica emanando donde quer que ele beijava, porém agora sabia que devia-se ao desejo que sentia por ele. Sentiu-se novamente como o mar, que ansioso tentava alcançar o céu com suas ondas. Mas, Ernesto era quem parecia dono de seu corpo, e ela não se importou que ele fosse. Deixou, completamente rendida, que ele passeasse com as mãos e com a boca por todo ele. Deixou-se guiar, deixou-se sentir. Emoções internas e externas se misturando, com múrmuros e suspiro. Era ensandecedor. E quando ele, como o céu, uniu-se a ela, os tornando apenas um ela gritou, gritou o nome dele, sentiu-se rasgar, ao mesmo tempo, que se completar por ele. O corpo tremia enquanto lentamente o prazer lhe alcançava cada vez mais fundo. Era a mulher dele e só dele por toda a vida. Era apenas um. Era só o que pensara.
Amaram-se aquela madrugada uma e outra vez, e um sonho nunca fora tão real para ela. Em um momento de intenso delírio agarrou-se com força a Ernesto acreditando que o tal precipício que ele havia proposto havia finalmente chegado e ela definitivamente não queria ir sozinha, e ele a acompanhou. E foram-se tomados de desejo, paixão e amor, se encontrando como nunca antes.
No fim, Ema só realmente acreditou que não estava apenas sonhando mais uma vez, quando o sol os alcançou em seu raiar e Ernesto em meio a seu sono apertou-a em seus braços. O alivio que sentiu naquele momento ela nunca se esquecerá. Desde então, não mais tinha medo do nascer do sol. A realidade tornara-se tão encantadora quanto os seus mais doces sonhos.
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