Deixo - Ernesto e Ema
5 Epílogo
Notas iniciais
Um ano se passara. Ema agora esperava em expectativa o sol nascer da janela de sua casa com a felicidade crescendo no peito. A vasta plantação de videira alcançava o horizonte de onde se via o alvorecer. Ele já despertaria! Sorriu envolta no penhoar, sentindo o cheiro de café fresco vindo da cozinha.
Foi então que sentiu braços fortes envolver sua cintura e o cheiro amadeirado tomar suas narinas, misturado com o cheiro do café era ainda melhor do que com o da relva. Pensou. Ele lhe beijou o pescoço, fazendo-a arrepiar-se instantaneamente.
— Madrugou? — ele perguntou-lhe.
Ema sorriu abraçando-se a ele ainda mais.
— Tive um sono inquieto esta noite! — respondeu, roçando a bochecha em sua barba.
— Algum problema?
— Não. Está tudo bem, mais que bem na verdade.
Virou-a e os olhos dela brilhavam. Ele estranhou.
— O que houve? — perguntou desconfiado.
Ela sorriu, um riso lindo, genuíno, um riso de plenitude que aqueceu o coração dele. Ernesto comprovou que a fazia feliz e isso o fazia o homem mais feliz do mundo.
Mesmo sem querer, afastou-se dele, o sol já brilhando dentro da sala de cores claras, deixando tudo com uma belíssima áurea. Pegou no aparador um envelope e entregou a ele. Por um momento olhou dela para envelope.
— Do Brasil? — perguntou.
— A resposta da carta que enviamos para Elisa no mês passado.
Era segunda vez que escreviam para a amiga no Brasil desde que haviam ido embora. A primeira, foi apenas para explicar o que havia acontecido e despreocupar os amigos e familiares. Ema fora cuidadosa de não remententar a carta com o endereço. Tinha muito medo de que alguém de alguma maneira pudesse acordá-la de seu sonho ao lado de Ernesto. A última, porém ela fora mais confiante, e por fim pôde receber a resposta.
— Leia! — pediu, e aguardou enquanto ele lia inexpressível, quando terminou a olhou.
— Isso é sério?
— Acredito que sim, Elisabeta não mentiria — disse ela. — E por certo só o diria se tivesse certeza que ele está sendo sincero.
Ernesto sorriu.
— Sabe o que isso significa?
Ela sorriu mais ainda.
— Que podemos nos casar!
— Meu amor...
Ela pulou nos braços dele no mesmo instante que ele se precipitou para segurá-la! A rodopiando no ar!
— Finalmente, finalmente Ernesto! Estaremos completos!
Elisabeta escrevera que depois de um período de intensa vadiagem, Edmundo por algum motivo sossegara. Parecia bem recuperado e principalmente apaixonado por Fani. Porém os dois estavam numa berlinda para ficarem juntos. Dona Nicoletta fora categórica que não daria a benção para a filha viver em pecado, já que Edmundo ainda era casado. E Fani que havia se redimido com a família não queria decepcioná-los mais uma vez. Desde então viviam as voltas para encontra o paradeiro de Ema para enfim, conceder-se a anulação do casamento já que ele nunca havia se consumado.
— Minha mama não faz ideia do quanto me cuida mesmo a distância! — disse ele a pondo no chão.
— Ela não faz ideia do quanto cuida de nós! Poderemos construir sem receio nossa família!
— É tudo que eu mais quero nessa vida! — disse ele, lhe acarinhando o rosto, vendo os olhos dela marejarem. — Seremos muito abençoados, com um montão de filhos.
Ema sorriu.
— Acho que já somos abençoados. O que sentimos por certo já nos redimiu com Deus!
Ele alçou as sobrancelhas.
— Você acha?
— Tenho certeza! — respondeu-lhe petulante.
— Ah, sim! Ele... - apontou para o céu.- lhe disse isso, senhorita, futura senhora Sabe Tudo Pricelli?
Sorriu
— Disse-me! Informou-me ontem, por meio de dona Germana.
Ernesto franziu o cenho, confuso!
— O que a minha intrometida patroa tem haver com Deus e suas mensagens?
Ela segurou delicadamente uma de suas mãos, a levou até a cima de seu ventre. Esperou a reação dele. O corpo pareceu se ater antes que seu cérebro, porque os olhos de Ernesto marejaram instantaneamente, e a respiração ficou suspensa.
— O-o que...?
Ela alçou as sobrancelhas.
— Você será papai, italiano! — ela sussurrou, a voz também embargada pela emoção.
O sorriso que ele deu, ela nunca havia visto na vida, era espetacularmente luminoso, tanto quanto o sol. Tão bem vindo quanto.
— Baronesinha, não brinque assim comigo!
O sorriso não se desgrudava da face dela.
— Acha que eu brincaria com isso?
— V-você está...? V-você está... — ele respirou fundo. — Esperando um filho meu!
— Um filho nosso! — ela corrigiu e ele gargalhou, novamente a pegando nos braços e a rodopiando no ar. Nunca sentiram tanta felicidade na vida. Riam, riam e era só o que queriam fazer. Tudo ia entrar devidamente nos conformes. E o sentimento sobre isso era inexplicável, eles nem se atinham a tentar fazê-lo, só queriam mesmo que ele nunca passasse.
— Mas temos que ir ao Brasil, o mais rápido possível! — disse ela depois de amansada um pouco a euforia. — Nenhum juiz dará anulação de casamento por não consumação a uma mulher com a barriga gigante, abrigando nela um bebê!
— Iremos amanhã se quiser. — disse sentando-se com ela no sofá, acarinhando o ventre abençoado da mulher de sua vida.
— Ernesto?! — ela chamou, e tom de voz dela o preocupou um pouco. — Será que não devemos confirmar tudo com Elisa, antes?! Eu ainda tenho medo!
— Meu amor, eu duvido como você mesmo disse, que Elisabeta teria nos escrito essa notícia se não tivesse certeza. Não há o que temer! — ele tentou acalmá-la.
Ela assentiu, cobrindo a mão dele que ainda se atinha sobre seu ventre.
— Confio em você!
— E eu amo você! Jamais deixaria algum mal acontecer a vocês, jamais! — beijou-a.
E assim se deu, parecia realmente que Deus já os tinham abençoado. Tudo ocorrera nos conformes, o reencontro com os amigos em São Paulo foi uma festa, com a família no Vale do Café outra. Nenhum resquício de mágoa. E Ema viu que realmente o amor cura, Edmundo parecia outra pessoa, e ela sentiu-se imensamente feliz pelo modo como ele olhava para Fani, que por sua vez, belíssima de aparência muito mais jovial, tinha sempre um meio sorriso estampado na face, e os olhos não eram mais taciturnos, era extremamente vivaz . Ema não se surpreendeu. O amor também a mudara, e de um jeito muito especial.
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— Ernesto! Será que, aí... — espanou um mosquito que perpassou por frente de seu rosto. — Será que você pode me dizer para onde está me levando?
— Até parece que você não sabe!
Ele continuava a puxando pela mão, enquanto ela reclamava!
— Mas, meu Deus, será que você não tem um pingo de sensibilidade? — ela enfezou-se, estacionando. Ele continuou a puxando pela mão, mas ela não saia do lugar.
— Arre, tá parecendo uma mula empacada, baronesinha! Quero lhe mostrar algo!! Deixe de preguiça ande!
— Ora seu insolente! Eu sou uma mulher grávida! E você deveria ter o mínimo de consideração por eu está carregando o seu fil... ah, Ernesto!!!! — ele a tinha suspendido e a carregava em seus braços, subindo pelo bosque aquele caminho que Ema tão bem conhecia, ela acomodou-se então, abraçando o pescoço dele. — Assim está bem melhor! — Sorriu e beijou-lhe a bochecha.
— Ah, mas não vá se acostumando, baronesinha! Daqui a um pouco não poderei mais com você! — disse ele sorrindo!
Ela estreitou os olhos
— Ora, mas você é realmente um chulcro! Isso lá é modos de falar dá mãe de seu filho?
— Justamente por ele não poderei mais carregá-la! Acha que meus braços são feitos de quê? Ferro?
Ela estapeou seu ombro.
— Não ficarei tão pesada assim! — emburrou fazendo o bico mais lindo que Ernesto não se cansava de provocar.
— Meu amor, você já está pesada!
Ela já ia ralhar quando ele lhe deu um rápido beijo.
— Quietinha, curta a viagem!
O coração dela falhou uma batida. Mas, o obedeceu, sentindo aquele velho e conhecido cheiro de madeira e relva, balançando os pés no ar, brincando com a barba dele enquanto ele a carregava com o maior sorriso de satisfação.
E Enfim, lá estava eles de novo no topo do penhasco. Ernesto a colocou no chão. Ema suspirou. Dessa vez via o sol esconder-se no horizonte. O céu mais laranja que o normal, com reflexos de um cor de rosa forte. O pôr do sol era lindo, tão lindo quanto o seu nascer!
Ema suspirou, os olhos rasos.
— Sabe — ela disse, ainda olhando o sol acenar seu adeus. — Já estive aqui uma vez! Foi um momento muito aflitivo. Elisabeta estava desesperada. Eu passei a estar também...
Ernesto a olhava sem entender.
— Você e Darcy tinham desaparecido na mina. Procuramos o Vale todo e nada! Eu não entendia a quase loucura de Elisabeta, sabe? Mas, de algum jeito eu sabia que ela estava certa em procurá-los em outro lugar que não lá na ferrovia. Ela tinha tanta convicção no que dizia. Era como se ela sentisse... Sentisse que Darcy precisava dela! E então encontramos vocês. O alivio que eu senti naquele dia foi inexplicavel! Mas, eu imaginava o alivio que ela estava sentindo abraçada a ele. — ela sorriu. — Naquela época eu nem sonhava em sentir o que sinto por você.
— Ah, eu me lembro! Estava mais preocupada em eu está sujando seu nobre vestido de renda francesa.
Eles sorriram.
— Mas depois eu estive aqui novamente... com você!
Ele franziu o cenho.
— Comigo?
Ela apenas assentiu.
— Deve está enganada, baronesinha! — disse ele. — Nunca estivemos aqui.
— Foi num sonho. — ela suspirou. — Um sonho lindo. Um sonho que na época era a felicidade que eu tinha. Você me dizia coisas sobre o amor e o tempo, e eu era a mulher mais feliz do mundo. Mas, depois eu era a mais desolada, o sol nascia e você sumia. Eram assim todas as manhãs.
Ele estava confuso, mas não quis interrompê-la, ela parecia precisar falar. Então só a olhava, enquanto ela mirava o horizonte.
— As escolhas que fazemos, podemos carregá-las como consequências pelo resto de nossas vidas. Como uma marca cruel e sensível que nos fere a cada dia. Mas o amor é tão nobre, tão constante, como você me dizia no sonho, que nos resgata. Foi o que você me fez — ela o olhou. — Porque assim como Elisabeta caçara a Darcy no lugar improvável, você me caçará em sonhos, e eu lhe caçava em lembranças por esse Vale a fora! E isso me dava forças para enfrentar os dias. Acho que de alguma maneira eu realmente sabia que o amor ainda podia ser meu final feliz.
— Não baronesinha, — ele encostou a testa na dela. — Tão constante quanto é o nascer do sol, o amor é o começo. Assim como é também o pôr do sol, que todos pensam que é o fim, mas é ele que começa a noite para os apaixonados, não é? Que nos convida a amar, e mais além, a finalmente rendemos a paixão que tantos ansiamos durante o dia. — ele a beijou, doce, intenso, febril... — Não existe tempo, lugar, espaço. O amor sempre será o começo. — concluiu voltando a beijá-la. E ali a beira do precipício, com o sol se despedindo e a lua se apresentando como testemunha, se renderam mais uma vez a paixão arrebatadora que sentia um pelo outro. E Ema acreditou mais uma vez nas palavras de Ernesto, pois cada manhã, cada noite, cada hora era o começo do amor que sempre sentiria por ele.
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