Deixe ir

3 Fogo e gelo


Notas iniciais
heyy novo capitulo, espero que curtam o final tanto quanto eu u.u

–Você quase nunca sai do palácio e quando sai, um homem é morto. Não pode ser coincidência.

Joel Tenardy está sentado do outro lado da mesa, na minha sala administrativa. Aparentemente, nossa discussão dois dias atrás não o afetou em nada, pois continua com a habitual arrogância estampada no rosto. Parece nem notar que estou muito ocupada assinando requerimentos, aprovações de leis e todas essas coisas que exigem leitura, mas só dão sono.

–Está me acusando? –pergunto, levantando a cabeça pela primeira vez para encará-lo.

Ele encolhe os ombros.

–Estou apenas dizendo o que ouço por aí. Com certeza já deve saber dos boatos.

Suspiro. É claro que sei. Acabaram descobrindo que o corpo do homem queimava de tão gelado e que fiquei um tempo sozinha com ele, saindo de lá quando ele já estava morto. Juntaram os fatos e chegaram a insana conclusão de que eu o tinha matado. Parece que não se lembram de que eu estava no galpão quando os gritos começaram. O pior é que não posso falar que minhas suspeitas recaem para o garoto de cabelos brancos. Ninguém iria acreditar e não sinto que é a hora de me abrir sobre isso. Portanto, falo para quem quiser ouvir que o jovem morrera de um ataque nervoso e ignoro se as pessoas têm outras opiniões. Tenho outros problemas a resolver.

–Já dei minha versão sobre os fatos, Tenardy. E você sabe. –volto as minhas assinaturas.

Ele revira os olhos.

–Claro, digamos que eu acredite. — ele para- O que vai fazer a respeito?

Pego um pedido de algum Lorde da resma de folhas e começo a ler.

–Ignorar.

–Não acredito nisso. –ele arqueia as sobrancelhas- Estão acusando-a de assassinato e você vai simplesmente ignorar?

–Sim. –respondo, casualmente.

Sei que parece estranho, mas qual outra saída eu tenho? Numa situação dessas, preciso permanecer calma, do contrário vão realmente desconfiar de algo.

O silêncio paira na sala.

–É inacreditável. –diz ele, por fim.

–Por que está tão preocupado? –olho para ele, parando de escrever- Você vive para me depor do trono, não é? Essa seria uma ótima desculpa.

–Só quero entender o que realmente aconteceu em Dhever. Não acredito que matou aquele pobre infeliz.

Me surpreendo.

–Não? Jura? Estranho isso vindo de você... –cerro o olhar.

–Deve haver algo muito sério para você não se importar que lhe coloquem a culpa. –ele diz, ignorando meu sarcasmo — Algo a ver com o galpão congelado, talvez.

–Está vendo coisas onde não existe. –digo, sem me abalar.

Ele me olha, pouco convencido, mas dá aquele sorriso cínico.

–Bem... –ele diz, se levantando- Todos temos nossos segredos. –ele apoia as mãos na mesa- Basta saber se somos capazes de guardá-los por muito tempo.

Retribuo o sorriso.

Apesar de toda a sua arrogância ser desprezível, Tenardy... devo admitir que sua paranoia me diverte.

Ele estava prestes a responder quando a porta se abre, revelando Lady Cecily Crawford.

Ela olha para mim e para meu conselheiro, surpresa.

–Não sabia que estava acompanhada, Majestade. Volto em outra hora.

–Não se dê ao trabalho, Crawford. -ele fala antes que eu pudesse dizer qualquer coisa –Eu já estou de saída. –vai até a porta.

–Lorde. –Cecily o cumprimenta, do jeito mais educado possível que se pode ser com alguém como ele.

–Lady... –responde. Penso no que se passa na cabeça dos dois. Os mais poderosos de Arendelle, depois de mim. Imagino que nenhum sentimento agradável.

Tenardy sai da sala e Cecily se aproxima de mim. Ela parece preocupada.

–O que ele queria? –ela pergunta.

–Me provocar, como sempre. –digo, acenando para ela sentar-se.

Algum motivo específico? – insisti, ansiosa.

Arqueio as sobrancelhas, imaginando porque está tão ansiosa.

–Ele não acredita que aquele homem em Dhever morreu de causas naturais... –recosto na cadeira- ...tampouco que o matei, como andam falando por aí. Pelo menos é isso que ele diz.

Ela me incentiva a continuar. Suspiro.

–Ele sabe que tem algo estranho acontecendo, mas não acho que suspeite do envolvimento de mais alguém com meus poderes...

Paro, observando sua reação. Ela parece refletir minhas palavras.

–Continue, Elsa... –ela fala.

–Ele fez a ligação da morte com o galpão congelado... e só. Não importa, Cecily. Tenardy não conseguiu arrancar nada de mim.

Paro por um instante.

–Você não contou nada a ninguém, contou? –pergunto.

–É claro que não. –ela segura minha mão.

Dou um sorriso fraco. Eu tinha contado a Alissa e a ela o que tinha acontecido em Dhever, o mesmo que James sabia. Tive vontade de despejar logo tudo, mas me contive. Não tinha provas o suficiente.

–Então... o que a traz aqui? O que aconteceu, Cecily? –pergunto, calmamente.

–Com relação ao que andam falando... o suposto assassinato, o que vai fazer a respeito? -ela solta minha mão.

–Eu... –a pergunta me pega de surpresa. Foi a mesma feita por Tenardy. Por que os dois pareciam tão preocupados com isso?

Os segundos se passam.

–... são apenas boatos, Cecily. Os aldeões logo arranjaram outro assunto. Não é a primeira vez que me acusam disso, é?

–Quem dera fossem só os aldeões, Elsa... –ela fala. Vejo tristeza em seu olhar- A nobreza... também anda comentando.

Reviro os olhos.

–Não ligo mais para o que ela pensa há meses. -cerro as sobrancelhas- Por que está se preocupando com isso?

–Você não entende... Dessa vez, há fatos que podem ser usados contra você. O modo como aquele homem morreu... Essa acusação só servirá para desestabilizá-la do trono. Descobri o que falam pelas suas costas... Acha que não desejam saber o que realmente aconteceu enquanto esteve com ele naquela estalagem? Pode acreditar em mim, Alteza, grande parte dos nobres desconfia de você e se permanecer sem fazer nada para contornar isso, eles vão lhe confrontar e vai ser pior.

Agora estou preocupada. Não havia visto a situação daquela forma.

–O que sugere que eu faça? –pergunto. Por que não tenho nenhuma ideia.

–Faça um discurso explicando aos nobres o que “realmente” aconteceu. Invente algo consistente. É claro que o ideal seria... –ela desvia o olhar de mim, pensando.

–O quê?

Ela me encara. Seus profundos olhos violetas parecem penetrar minha alma. Sinto um desconforto.

–Provar de uma vez por todas sua lealdade à Arendelle- ela parece decidida- Mostrar que é capaz de se sacrificar por seus habitantes, de que não eles não têm motivos para desconfiar de seu governo. O problema é.... –suspira- ...como?

É uma boa ideia. Só de pensar em todos do palácio e das ruas, finalmente me tratando com um respeito sincero, acreditando em mim... é quase como se fosse um sonho. Faria qualquer coisa por Arendelle, sem dúvidas, mas como poderia mostrar isso?

–Vou pensar em alguma coisa. –digo, confiante- Vai dar certo, vai sim! –estou radiante, meu coração se enchendo de esperanças. Ser aceita... de uma vez por todas.

Cecily parece surpresa com minha reação.

–Que bom que concorda. –ela sorri- Também vou pensar em algo.

–Obrigada por me fazer abrir os olhos. –digo, sinceramente agradecida.

–Estou aqui para ajudá-la, Alteza.

***

Depois da saída de Cecily, tento voltar a atenção as minhas assinaturas, mas é impossível. Só consigo pensar em um jeito de provar minha inocência. Finalmente, desisto daquela montanha de papéis e saio da sala, desejando algum tipo de inspiração. Não encontrando nenhuma ideia, passo o resto da tarde e da noite dividindo minha concentração em meus deveres reais, na ideia para limpar meu nome e, é claro, no garoto de cabelos brancos.

Logo quando voltei da visita ao vilarejo, procurei Lorde Spencer imediatamente para saber como andava a investigação.

“Nenhum sinal de gelo à não ser naquelas montanhas, Majestade”, dissera ele.

E esperei. Esperei um sinal... Qualquer um.... Mas ele não veio. Foi assim por sete dias. Tinha até um sonho que me atormentava quase todas noites. O garoto na escuridão me olhava com seus gélidos olhos azuis e quando eu me preparava para fazer as perguntavas que tanto ansiava... ele apunhala um pedaço de gelo afiado em meu coração, me fazendo cambalear e cair no abismo. Lembro do sangue escorrendo de meu peito, da expressão assassina em seu rosto enquanto eu me aproximava da morte... Era aí que eu acordava, suando.

“Ele realmente me deseja morta?”, é algo que sempre penso toda vez que lembro do pesadelo. Quem dera tivesse sido o único:

Eu já não estou sendo morta, pelo contrário, nem o garoto de cabelos brancos aparece. Estou na sacada mais alta de meu palácio de gelo. Todos os meus súditos estão me olhando da rua, o que é estranho já que esse castelo fica no alto da Grande Montanha. O mais incrível é que eles gritam meu nome, admirados, dando vivas. Estou radiante de felicidade.

“Mas a que preço?”, pergunta uma vozinha dentro do sonho.

Como se tivesse lembrando, ainda no sonho, olho para minhas mãos... estou desaparecendo. Todo o meu corpo está. Mas as pessoas continuam comemorando, como se não notassem. Assustada, grito e tudo ao meu redor gira, ou sou eu? De qualquer forma, o pesadelo acaba.

No oitavo dia desde minha viagem a Dhever, pela tarde, Lady Alissa vai até à biblioteca e me convida para fazer um piquenique em um bosque perto do palácio. Eu hesito, pensando na melhor forma de dar uma desculpa educada.

–Ah, vamos. Anda tão desanimada esses dias. Esse palácio.... –ela levanta as mãos para o lado para indicá-lo- ...sufoca. Não sai dele há dias.

Continuo calada, pensando. Tudo o que vinha acontecendo, incluindo os sonhos, estão me desgastando. Me sinto exausta. Lembro da última vez que vi meu reflexo, em um espelho de um corredor. Minha pele está pálida e meu olhar, cansado. Estou com profundas olheiras sob os olhos, resultado das noites inquietas.

–Você tem razão. –concordo- Acho que vou até chamar a Sarah. –Começo a me animar.

Alissa sorri, satisfeita.

–Isso! Vai ser ótimo, você vai ver! –ela se levanta. Faço o mesmo.

Vinte minutos depois, nós três estamos caminhando próximas a um lindo riacho que existe no bosque. A sensação é ótima. É claro que amo muito mais estar cercada pela neve, mas o verde tem seu encanto. As árvores espaçadas, os arbustos com pequenos frutos, a água límpida... Todo aquele lugar dá uma incrível sensação de paz.

–Esse lugar é lindo! –diz Sarah. Ela respira fundo.

–Não é? –Alissa concorda- Acho que aqui está perfeito! -Alissa aponta para a beira do riacho.

Aceno em concordância.

Forramos a toalha de piquenique e nos divertimos comendo os sanduíches, conversando sobre assuntos banais, observando o canto dos pássaros e os diferentes tipos de plantas. Sarah é ótima em identificar cada uma delas.

–Como você sabe disso? –pergunta Alissa, admirada.

–Ah. –ela cora- Minha mãe era uma ótima curandeira com plantas medicinais. Ela me ensinou muita coisa. –Ela baixa os olhos, constrangida.

– Ela a educou muito bem. -elogia Alissa.

Dou um sorriso discreto. Sarah levanta a cabeça lentamente, e também dá um pequeno sorriso. Acho que ela começou a gostar de minha conselheira.

Levo um copo de suco de maçã aos lábios quando paro, atenta. Sinto um cheiro incômodo. As meninas também parecem sentir, pois olham ao redor. Continuo prestando atenção ao odor, tentando defini-lo por alguns segundos até que se torna óbvio.

–Fogo. –diz Alissa.

Olhamos uma para a outra, assustadas e nos levantamos, tentando saber de onde vem.

–Olhem! –Sarah aponta para o alto. Uma trilha de fumaça enegrecida paira no bosque. A sigo com os olhos até que percebo que vem da cidade.

Me viro para elas.

–Vamos! –digo. Não preciso falar duas vezes. Quando saio do bosque, posso ver de longe enormes labaredas vermelhas que consumiam uma grande construção.

Suspiro, em choque. É um grande incêndio. Nunca tinha visto um fogo tão alto.

Em poucos minutos, estamos de volta ao pátio do palácio. Vejo pessoas aflitas, correndo de um lado a outro. Vou até o estábulo. O cavalariço não está lá.

–Você vai até lá mesmo? –pergunta Alissa, correndo para me acompanhar.

–Preciso saber se a situação está sendo controlada. –digo, como se isso encerrasse a questão.

–Sozinha, não. Deixe-me chamar alguns guardas.

–Chegarei em um instante... e deve ter guardas lá. — preparo e subo no primeiro cavalo que encontro.

–Elsa... –Seu semblante demonstra preocupação. Sarah está com a mesma expressão.

–Vai ficar tudo bem. Tenho o gelo a meu favor, lembram? -tento parecer despreocupada, mas acho que não consigo.

–Digam às pessoas aonde fui. Volto em um instante.

E sem nem esperar uma resposta parto em direção ao centro de Arendelle. Os guardas me olham boquiabertos, como se soubessem para onde eu estou indo e balançam negativamente a cabeça. Eu os ignoro.

Logo, chego a uma cidade aos gritos. Aldeões e guardas, juntos, correm com baldes cheios de água na direção do edifício em chamas, que reconheço como uma casa de máquinas. Quando me aproximo do incêndio, quase tenho um ataque. Uma longa estaca em chamas cai em minha direção. Desvio.

–Majestade! –chama um guarda. Reconheço-o como o comandante dos guardas que patrulham a cidade.

Vou até ele.

–Stevens! –digo- Qual é a situação?

–Começou do nada, Alteza. –ele quase grita para ser ouvido. O barulho é enorme- Não houve explosão inicial nem nada. Estamos fazendo o possível, mas... –há uma explosão do alto do prédio. Olhamos naquela direção. -...nunca vi fogo tão resistente.

Um grupo de guardas joga uma grande quantidade de água contida em um barril, mas o líquido rapidamente desaparece em meio as chamas. A um canto afastado, há aldeões com as roupas muito chamuscadas e a pele coberta de queimaduras. Outras pessoas os ajudam com cuidados médicos.

–Tem mais alguém lá dentro? –pergunto.

–Um dos que tiramos de lá disse que havia mais uma pessoa, uma mulher. Mas... –outra explosão. –... não podemos entrar lá.

Desço do cavalo e o entrego a Stevens. Ando em direção ao incêndio, o comandante me para.

–Ela provavelmente está morta, Majestade!

“Preciso fazer alguma coisa”.

Concentro-me. Ao meu comando, o céu escurece e neve começa a cair do céu. As pessoas olham para alto, assustadas.

É claro que não é o suficiente.

Gelo escorre das minhas mãos em direção ao fogo, mas logo desaparece. Tento mais uma vez. O gelo cresce a partir da base do prédio. Aos poucos, vou levantando minhas mãos. O gelo segue meu movimento e vai subindo, até que consegue apagar lentamente as chamas. Dou um suspiro de alívio.

Foi um erro.

De algum modo que não sei explicar, minha barreira congelada se parte em uma grande explosão, espalhando estilhaços de gelo para todo canto. Um deles acerta meu braço direito, o que usei para proteger meu rosto. O sangue começa a descer, muito sangue. Rapidamente, tiro a farpa e arquejo de dor. Outra acerta minha mão. Olho para ela, arregalando os olhos de pânico, pois a nova farpa atravessa minha mão. Pareço que vou explodir de dor. Tiro a farpa, agora com alguma dificuldade, pois meu corpo treme por inteiro e caio de joelhos. Minha mão machucada sobre a barriga e a outra no chão, apoiando meu corpo. Entro em um estado de torpor. Olho para a cena à minha frente. Minha visão está embaçada. Novas labaredas voltam a queimar o prédio. O fogo é enorme, forte, quase... mágico.

Já devia estar acostumada com gritos de dor, dada a minha experiência, mas o som estridente me pega de surpresa. Dessa vez, é uma mulher. Ela ainda está viva, por algum milagre.

“Vá até lá, salve-a!”, diz uma voz em minha cabeça. Devo estar louca, quantas vozes imaginárias já ouvi até agora?

Desperto totalmente e usando as forças que ainda me restam, me levanto e vou até a fogo. Pessoas correm ao meu auxílio, mas as dispenso. Não consigo discernir o que elas falam. Guardas me seguram, mas são lançados para longe com minha magia. Quase correndo, entro nas chamas.

O lugar é um inferno. Para todo lado, só há vermelho e laranja. As cores dançam e confundem minha visão, me torturando. Meus olhos estão irritados e logo começo a tossir por causa da fumaça. Aguço meus ouvidos, na esperança de ouvir a voz da mulher, mas nenhum som se propaga além de madeira e ferro queimando. O prédio é enorme. Onde eu iria encontrá-la? Tento gritar, mas assim que abro a boca, a fumaça se adentra e tusso, intoxicada.

–Socorro! -clama uma voz vinda de cima.

Ignorando a dor em meu braço e minha respiração falha, subo rapidamente a escada esburacada que restou de um lado. Meu peso faz a madeira ceder, mas consigo chegar em cima.

“Deve ter outra saída”, me convenço, olhando a escada desmoronar. Ando pelo velho corredor, prestando atenção nas chamas. Estão ficando cada vez mais maiores.

Não há nada nele, pelo menos acho que não, então vou para a próxima escada. Que está... em frangalhos. Usando minha magia, tento fazer com que o gelo forme uma nova escada. Mas não dá certo. Estou fraca demais e o ar.... não é nem um pouco propício. Ora, não crio gelo ou neve do nada. Uso a umidade ao meu redor para fazê-lo. O que praticamente não existe alí.

Ouço mais um grito. Ela está no segundo andar, tenho certeza. Determinada, olho ao redor. Tem que haver outro jeito de subir. Os minutos se passam e o fogo se alastra cada vez mais. Sem falar do calor insuportável. Agradecendo mentalmente, vejo uma entrada, a um canto, para uma escada interna, que vai para cima. Para variar, o fogo cobre a maior parte dela. Mas não me intimido. Correndo, focalizo a estreita abertura ainda livre e me choco contra a escada.

Sinto meu cabelo queimar. Afago-o com a mão para apagar as labaredas. Mais atrás, a cauda de meu vestido está em chamas. Desesperada, alcanço as amarras do vestido em minhas costas e o tiro, ficando só com o fino vestido de baixo. Corro para o segundo andar, que novamente possui um largo corredor. Meu braço e me minha mão latejam de dor, mas me forço a continuar. Não foi difícil saber qual porta é a certa. Vou até a única, lá no fundo, que não está tomada pelas chamas. Empurro-a com força e dou de cara com uma jovem mulher, tremendo de medo, no canto mais afastado do cômodo indefinido. Vou até lá.

–Ei... está tudo bem agora. –eu digo, quase satisfeita por ter conseguido.

Ela grita. Pelos seus modos e gestos, reconheço que está muito assustada ou completamente louca. Ou ambos.

Seguro-a pelos braços. Ela tenta se afastar de mim.

–Não se preocupe. Vai ficar tudo bem, eu prometo. Venha comigo... –falo no tom mais convincente que consigo arranjar.

Ela parece acreditar, pois me deixa levá-la. Pelo menos até eu me virar e perceber que não há mais porta. Apenas vermelho e laranja, dançando, me provocando a continuar... e morrer.

Dou um suspiro de frustração. Não há nenhuma outra saída dessa vez. Nem janelas. Estou ficando sem tempo. E minhas opções para sobreviver são inexistentes.

O calor está se tornando mais um peso e meus cortes ardem, assim como as diversas queimaduras em carne viva em minha pele. Olho ao redor, não é possível que eu fosse morrer, que aquela inocente mulher fosse, mas as minhas esperanças estão se esvaindo e um pânico muito maior do que antes toma conta de mim. Sem forças, vou ao chão. Culpo a exaustão, mas a verdade é que... tenho medo de morrer. Quero parecer forte, disciplinada, dar a impressão de que nada pode me abalar, mas... tenho medo. Por mim, por aquela jovem, quero desesperadamente encontrar uma saída, um jeito de...

Meus olhos estão pesados, estou quase os fechando. Meus pensamentos se tornam enevoados. Quero apenas dormir... me entregar as cores dançantes... A mulher me balança, desesperada, tentando me fazer levantar. Ela depende de mim... mas estou tão cansada... Não há jeito. Olho para frente e vejo as chamas.

“A última coisa que verei na vida”, penso, com pesar.

Continuo observar as labaredas bicolores até que uma luz branca as atravessa. Cerro as sobrancelhas, confusa. É minha mente me pregando alguma peça? O que aconteceu a seguir me prova o contrário. Onde a luz misteriosa tocou, gelo começa a irradiar, apagando completamente as chamas. Sinto um frescor bem-vindo. A sala toda é transformada de um inferno a um paraíso, pelo menos ao meu ver. Tudo ao redor se congela. Com um fiozinho de esperança, tento me levantar, mas a dor me impede e permaneço no chão. Não entendo o que tinha acontecido. Ainda com a visão embaçada, vejo a garota ao meu lado, agora desmaiada, ser levada para fora do quarto. Quero chamá-la, mas não consigo falar. Só sentir.

Sinto uma movimentação ao meu lado direito, um minuto depois. Lentamente, me viro naquela direção. Um rosto olha para mim e o ser misterioso se ajoelha. Consigo apenas definir seus olhos azuis e seus curtos cabelos brancos. Depois disso, desabo para a escuridão.

Notas finais
gostaram? ansiosa para descobrir rsrsrs