Deixe ir
4 O garoto de cabelos brancos
Notas iniciais
A claridade é quase insuportável, mas foi o que me fez acordar.
Arrependo-me no mesmo instante. Meu corpo dói por inteiro. Os profundos cortes em meu braço ainda latejam um pouco e acho que não vou poder praticar magia na mão direita por um bom tempo. Minhas queimaduras mais graves estão todas enfaixadas junto com os cortes, o que significa que estou parecendo uma múmia.
Sento-me ereta na cama lentamente. Olho em direção à cortina da janela aberta ao meu lado e logo desvio os olhos. Uma jarra de água sobre a mesa de minha cabeceira me lembra o quanto estou com sede. Imediatamente, pego o copo que está perto, a encho completamente e bebo. O líquido transparente é estimulante. Repito o processo mais três vezes até que estou satisfeita e preparada para realizar a difícil missão que é sair da cama.
Meus pés protestam, mas os ignoro. Fora a dor, me sinto até mais saudável e pronta para ser rainha de novo. O que me leva... Há quanto tempo estou naquela cama? Só lembro de pequenos lapsos quando recuperava os sentidos: sussurros, pessoas me olhando com ar de preocupação, choros, algo sendo cortado, mas rapidamente voltava a adormecer.
Sarah está de passagem pelo corredor quando me vê saindo do quarto.
–Graças a Deus! –ela diz, surpresa. –Deixe-me ajudá-la. — Ela corre até mim, com um sorriso divertido nos lábios.
De repente, percebo algo fundamental. Olho para baixo. Ainda estou vestindo minha camisola.
Arregalo os olhos, passando meu olhar pelo corredor. Não há ninguém, além de Sarah.
–Eu... vou me trocar. –digo, me virando para voltar ao quarto.
Ela ri.
–É, deu para perceber.
***
Estou sentada olhando para o grande espelho de minha penteadeira, já vestida, enquanto Sarah faz minha habitual trança raiz.
–Como está se sentindo, Alteza? –pergunta ela.
–Dolorida, -admito- mas bem. Quanto tempo eu fiquei no quarto?
–Só três dias. A senhora acordava, comia quase nada e voltava a dormir.
–Isso explica minha fome. –percebo, devorando o café da manhã que uma serviçal tinha trazido.
–Estão todos admirados por sua coragem, Alteza.
–O quê? –digo, surpresa.
–Estão chamando de “O ato mais heroico que Arendelle já presenciou”!
Quase engasgo com um biscoito de chocolate.
–Isso é sério? –me viro para olhar para ela. Porque, nesse momento, nas minhas precárias condições, eu não estou sentindo nem um pouco heroica.
–Sim! –ela dá um sorriso- Quando entrou correndo para salvar aquela mulher, o jeito como congelou aquele prédio. –ela suspira- Foi incrível!
“Mas não fui eu quem congelei o prédio.”, lembro. Foi ele, o garoto misterioso que me deixou mais confusa do que antes. Primeiro ele mata um homem e acabo levando a culpa e agora me salva? É ilógico! Só lembro do seu rosto... O mesmo que vi quando estava no galpão. Antes eu estava começando a duvidar de sua existência, mas agora tenho certeza de que ele é real. Preciso encontra-lo. Preciso de respostas.
–Eu... bem, na verdade... –paro, o que eu ia dizer? Odeio levar mérito pelas ações dos outros, mas não posso dizer a verdade. Ou será que posso? Será que é uma boa ideia contar a todos sobre ele? Por ora, acho melhor não.
–Ah, não seja modesta! –Sarah interpreta mal minha expressão. –A senhora é uma heroína.
Dou um sorriso forçado. Não me sinto uma heroína. Fracassei. Se não fosse por ele, provavelmente estaria morta agora.
–Terminei! –diz ela, concluindo a trança.
Olho no espelho. Por sorte, meu cabelo não ficou muito afetado. Queimou em poucas partes e Sarah conseguiu cortá-las de um jeito discreto. Meu rosto apenas exibia uma pequena queimadura no lado esquerdo da testa e meu pescoço sustenta uma maior, disfarçada pelo vestido, que por sinal, tem mangas compridas, para ocultar as faixas espalhadas pelos meus braços. Sarah as trocou. Ela diz que ainda são necessárias porque minha pele ainda está muito sensível. A única que se pode notar é a da mão, que cobre minha pior ferida. Para meu agrado, descobri que Sarah estava sendo uma de minhas enfermeiras. Suas plantas medicinais estavam fazendo minha pele cicatrizar mais rápido do que os métodos convencionais.
Me orgulho por ela.
–Ficou ótimo! –digo, olhando meu rosto no espelho. –Me sinto quase como antes, se não fosse pela dor. –dou um riso.
Sarah baixa o olhar.
–Fiquei tão preocupada. –ela parece prestes a chorar- Por um momento pensei que.. Ah, eu não ia suportar! A senhora sempre foi tão boa comigo.
–Ei, está tudo bem. –digo, a abraçando.
–Foram três dias agoniantes, Alteza. Todo mundo ficou preocupado.
“Talvez nem todo mundo”, penso.
No mesmo instante, vejo uma coisa que me faz minha pele se arrepiar. A cortina esvoaça e pelo vidro fechado da janela, uma leve camada de gelo a está cobrindo por fora. Logo, a janela toda está coberta.
Arregalo os olhos. Sarah não parece notar, pois continua falando alguma coisa que não presto atenção.
Vou rapidamente até a janela, abro-a e olho para fora. Arendelle se estende sobre minha visão, o céu está límpido, os rios perfeitamente azuis, as montanhas remotas ao longe e o sol reluz firmemente seu brilho matinal. Mesmo assim, consigo sentir algo mais. Como um sopro de inverno deslocado em um dia de verão.
“Ele está aqui”, me convenço. E quer falar comigo ou não teria congelado minha janela, chamando minha atenção. Meu coração começa a bater mais rápido tamanha é minha ansiedade.
–Alteza? –chama Sarah. Ela está logo atrás de mim e percebe o gelo — A senhora está bem?
Percebo como deve ter parecido estranho o que eu acabara de fazer.
–Sim... eu só estava... –respiro fundo- Precisava de um pouco de ar, sabe?
Ela sorri.
–Ah, claro. Depois de três dias aqui, deve querer sentir um pouco de ar puro. A senhora pode ir ao jardim!
–Não! –falo, gesticulando as mãos.
–Desculpe... só foi uma ideia, Alteza –Ela se afasta, parecendo constrangida.
–Não foi isso que eu quis dizer, Sarah, é que... –olho em direção à bela paisagem à minha frente- ... a janela está ótima! Na verdade, eu queria uns minutos aqui no meu quarto, sabe...para colocar os pensamentos em ordem.
Sua expressão se alivia.
–É claro, Majestade! Então...- ela pensa- Não devo dizer a ninguém que acordou, não é?
–Ah... não. –digo- Não quero ser incomodada até que eu saia daqui, tudo bem?
–Sim, alteza.
Ela faz uma curta reverência e sai.
Suspiro. Talvez tenha soado um pouco rude, mas estou ansiosa. Acho que ele não falaria se tivesse mais alguém comigo.
Nervosa, dou mais uma olhada através da janela. Nada, como antes. Sento na cama ao lado, frustrada. Será que tinha entendido mal? Vai ver ele nunca fosse aparecer.
Baixo os olhos e suspiro. Olho para minha mão ferida. Lembro o quanto tinha sido horrível vê-la perfurada por uma farpa de gelo, do estanho impulso que me fez entrar na casa em chamas, o medo que senti depois que entrei, a pobre moça gritando por ajuda...
–Você se saiu bem.
Meu coração para. Olho em direção à voz. Encostado na parede à minha frente, está ele. Seus curtos cabelos brancos são exatamente como me lembrava, cobrindo boa parte da testa. Seus gélidos olhos azuis me encaram profundamente, mas sua expressão é neutra. Ele é alto, incrivelmente magro e pálido. Daria minha idade a ele ou até menos. Em sua mão, repousa um cajado quase de sua altura. Um longo e fino cajado que parece ser feito de um galho de árvore.
Ele é muito bonito, por sinal, mas isso não vem ao caso.
Estou petrificada e não consigo fazer outra coisa além de olhá-lo, assustada. Devo estar parecendo patética porque ele sorri.
–Esperava uma recepção melhor. –ele fala, o sorriso ainda em seus lábios.
Me recupero do choque.
–Eu... –me levanto. O que iria perguntar primeiro? –Você...
Ele espera, pacientemente.
–Eu... –ele arqueia as sobrancelhas.
–Quem é você? –digo, por fim.
Seu sorriso se abre ainda mais. Ele se desencosta da parede e começa a ir até mim. Percebo que está descalço. Estamos a dois metros de distância. Ele olha para baixo e faço o mesmo. Lentamente, o chão de meu quarto fica totalmente coberto por outra camada de gelo.
–Acho que sabe quem eu sou... –ele olha para mim. –Sou como você, Elsa.
Sinto um arrepio quando ele fala meu nome.
–Isso não explica muita coisa.
Ele ri.
–Não, claro que não. É que gosto de manter um mistério às vezes.
Cruzo os braços.
–Está bem. –ele parece estar se divertindo, gesticulando os braços como se tivesse se rendido- Vamos fazer isso direito. Meu nome é Jack Frost.
–Jack Frost? –repito, achando um nome um tanto estranho. Ele apenas me encara. –Certo, e....o que quer de mim?
–Por que acha que quero algo de você? –ele cerra o olhar.
–Só pode. Por que teria me salvado então? –pergunto, na defensiva.
Ele fingi estar ofendido.
–Uau... um “obrigado” já estaria bom.
–Eu não entendo... Por que me salvou?
Ele encolhe os ombros.
–Por que você ia morrer, não é óbvio? -ele diz.
–Não consigo acreditar... você não parece...
–... do tipo que salva as pessoas? Por que acha isso?
Me mexo, impaciente. Por que ele fica me devolvendo as perguntas?
–Por que matou aquele homem? –falo, me lembrando o quanto aquele “garoto” é perigoso.
Sua expressão se torna sombria.
–Foi preciso. –ele responde.
–Preciso? Você o torturou! Lançou algum feitiço nele e o congelou até a morte. O coitado morreu em agonia. –disparo, perdendo todo o medo que antes sentia.
–Estou ciente disso. Essa foi a intenção. –ele diz. Seu olhar é indiferente.
–Como pode dizer isso? –já estou começando a odiá-lo –Ele morreu sem encontrarmos nenhum parente para chorar em seu enterro. Era apenas um jovem.
–Um jovem... que ia te matar. Eu apenas salvei você, assim como a salvei do incêndio.
Arregalo os olhos, chocada.
–Isso mesmo, de nada. –ele diz. Percebo sarcasmo em seu tom.
–Por que ele me mataria? –pergunto, tentando parecer calma. Minha mente está mais confusa do que antes. Nem sei porque acredito nele.
Ele para. Talvez inventando uma mentira.
–Ele te odeia, quer dizer, odiava...
–Você é horrível. –digo. Como ele pode brincar com uma coisa dessas? –Não sei se se lembra, mas não sou indefesa, senhor Frost. Eu podia ter cuidado dele sozinha, sem precisar matá-lo.
–Não me chame de “senhor” –ele me recrimina- E não, não podia. Ao contrário do que pensa, ele não era uma pessoa comum.
Lembro da áurea estranha que emanava daquele homem... a lembrança não me deixou muito confortável.
–O que ele era então? E por que quis me matar?
Ele revira os olhos.
–Você faz muitas perguntas.
–E você adora se esquivar delas.
Ele me lança um longo olhar.
–Vamos deixar isso para depois, está bem? Por ora, é apenas necessário que saiba meu nome e porque estou aqui. Preciso que confie em mim.
–Por que confiaria em um assassino? –percebo o quanto foi grosseiro assim que falei, mas é a verdade.
Ele não parece nem um pouco abalado.
–Não me julgue mal, Elsa. Você não me conhece.
–Mais um motivo para eu não confiar em você.
Pelo seu olhar, sinto que ganhei essa.
–Salvei sua vida duas vezes, não é motivo o bastante?
“Ele não vai ceder”, penso, infeliz. Decido respeitar sua decisão, por enquanto. Não iria confiar nele, é claro, mas ele ainda é meu único meio de conseguir respostas.
Suspiro.
–Está bem. Por que está aqui?
Ele sorri.
–Venho observando você por muito tempo. –ele começa, se aproximando ainda mais. Quero recuar, mas a cama está logo atrás de mim.
–Me espionando? –pergunto, surpresa. Penso em todas as coisas que ele poderia ter visto.
–Observando. –corrigi ele.
“É praticamente a mesma coisa”, penso.
–Nunca tive intenção de falar com você, Elsa. É contra as regras. Mas depois do que aconteceu naquele incêndio, eu tive que quebrá-las. Vim ajudá-la.
–A quê? –Não entendo como pode ser “contra as regras”, mas prefiro deixar para depois.
–Tenho bem mais experiência do que você nisso –ele faz um delicado pingente de gelo flutuar em sua mão. –O que você faz com a magia não é nem metade do que é capaz.
Me surpreendo. Será verdade? E por que ele me ajudaria?
–Você não consegue colocar seu poder de frente a uma das nossas piores fraquezas, o fogo, e isso não é bom.
–Mas... não havia umidade, como eu poderia... –protesto.
–Elsa? –alguém bate na porta.
Os olhos de Jack se arregalam. Faço um sinal para que ele espere e estou quase tocando a maçaneta da porta, quando olho para trás. Ele tinha desaparecido.
Não surpresa, me viro novamente e abro a porta.
Cecily me abraça assim que me vê.
–Estou tão feliz que acordou! –diz ela, me soltando.
–Obrigada. Eu... me sinto ótima. –minto. Não estou ótima. Não com o que tinha acabado de acontecer. Minha cabeça está a mil.
Ela sorri, aliviada.
–Que bom. Eu fiquei tão preocupada... –ela desvia o olhar- Mas isso não importa agora. –Venha, o salão está cheio de pessoas querendo lhe ver. E também quero falar umas coisas no caminho.
–O salão? –pergunto, descrente. Ter a atenção de dezenas de pessoas é a última coisa que quero agora.
–Todos querem ver sua nova heroína, não? –ela dá um sorriso travesso.
Olho uma última vez para a janela, que está intacta, sem a camada de gelo a cobrindo. O gelo no chão também sumira, como se nada tivesse sido real. Por um momento até pensei que tudo poderia não ter passado de minha imaginação, mas aí percebo. Bem perto da janela, como se tivesse sido desenhado na parede, um delicado pingente de gelo brilha em azul, me fazendo dá um pequeno sorriso.
No corredor, Cecily quebra o silêncio, que por mim podia ter se estendido até chegarmos ao salão. Não paro de pensar na minha estranha conversa minutos antes.
–Estou muito orgulhosa de você, Elsa. Apesar de imprudente, foi lindo o que você fez.
–Ah, obrigada, mas... eu não sei o que deu em mim. –assumo- Eu queria salvar aquela mulher, é claro, mas, algo me fez entrar ali também. –ela parece confusa- Deixa para lá.
–Eu entendo, pelo menos acho.
–Sério? –pergunto, descrente.
–Impulso. Você não suportou ver alguém em perigo, e então não pôde resistir.
Baixo os ombros, desanimada. Ela não entendera. Algo realmente estranho tinha me feito entrar na casa. A voz que ouvi... “Vá até lá, a salve” era tão convincente. Simplesmente senti que devia obedecê-la.
–Escute. -ela para, segurando meus ombros. –Sei que pode parecer estranho o que vou dizer agora, mas... –ela para, aparentemente tentando se decidir se diria ou não- ...por mais que aquele incêndio tenha deixado dolorosas marcas... –ela olha minha mão enfaixada- ... também serviu para fortalecê-la. Toda experiência é um lucro.
–O que quer dizer? –pergunto, já começando a ter uma ideia.
–Por mais que tenha sido doloroso, suas ações para salvar aquela mulher foram vistas a bons olhos por todo o reino.
Como ela podia pensar em política em uma hora dessas? Minha expressão deve ter expressado minha incredulidade porque ela logo se explica.
–Não era isso que queríamos? Uma prova de sua lealdade a Arendelle? –ela sorri- Então... conseguiu, Alteza. As pessoas nem falam mais do homem morto em Dhever! Devia ter visto a cara de Tenardy quando ele soube do que você tinha feito. Aposto como ele já estava prevendo a reação das pessoas.
Continuo estupefata, mas me forço um sorriso.
–Bem, pelo menos deixei Tenardy de mal humor. Isso já conta.
Ela ri e continuamos a andar em direção ao salão, eu ainda pensando receosa no que ela dissera.
Passamos por uma escultura de um grande guerreiro esculpido em mármore. Magnífico, se não fosse pelo braço decepado. Rio com a lembrança. Anna e Olaf a tinham derrubado sem querer.
“Ah, minha irmã, como eu queria que você estivesse aqui”, penso, amargamente.
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