Deixe a neve cair
28 Ciúme
Notas iniciais
O último dia do ano veio nevado, o que os russos alegavam ser sinal de boa sorte, e o clima no palácio era de correria. Eu nunca tinha visto tantos trabalhadores no palácio quanto naquele dia, mas ninguém me prestava a menor atenção enquanto gritavam uns com os outros em russo e eu assistia tudo fascinada, vez ou outra fotografando para registrar aquela loucura toda.
Mal reparei quando alguem sentou a meu lado.
— Se escondendo da minha companhia? — perguntou o rapaz.
Tirei os olhos do trabalho de organização a minha frente e sorri para ele.
— Claro que não, Demyian. Só estou assistindo. Está ficando incrível, não está?
Demyian assentiu e mostrou suas covinhas.
— Você é engraçada, em especial para uma princesa. A maioria delas deve achar o trabalho uma coisa inferior à sua condição.
Eu ri.
— Parece um balé — comentei. — Não há como não ver beleza na imagem.
Demyian riu e passou um braço sobre meus ombros.
— Vamos ver se você ainda vai pensar assim depois de ver cinco ou seis vezes a montagem do espetáculo.
Ergui uma sobrancelha para ele.
— Não acho que eu serei convidada cinco ou seis vezes para assistir o ano novo aqui na Rússia.
Ele demonstrou confusão.
— Você não está noiva do Dimitri?
— Estou — também fiquei confusa. — E daí?
— Daí que você vai se casar com ele, certo? — ele indicou o salão e as pessoas trabalhando nele. — Você será a rainha disso tudo
— Ah — a confusão se tornou embaraço. — Talvez. Não posso afirmar o futuro, certo? Vamos ver o que acontece até dia primeiro fevereiro.
— Primeiro de fevereiro? — Demyian ergueu uma sobrancelha.
Tive vontade de socar a minha cara. Eu e minha língua comprida.
— Quem sabe.
Ele mostrou outro sorriso.
— O Dimitri não vai deixá-la escapar com tanta facilidade. Ele não é louco, sabe.
Suas palavras foram recebidas como um fogo amigo por minha alma e eu tive que lutar para me manter no presente.
— Não tenho certeza sobre isso. Nós tivemos uma briga terrível ontem — contei.
— Uma discussão saudável sempre mantém a emoção da relação.
Gargalhei e Demyian sorriu.
— Não, é sério. Ele não tirou os olhos de você a noite toda ontem, nem no café de hoje.
Abri a boca para responder mas me calei quando outra pessoa se uniu à nós.
— Ei, achei vocês. Dimitri está procurando os dois — Kira estreitou os olhos para o braço do irmão em meus ombros. — Ele e Sasha estão jogando xadrez para passar o tempo.
— Eba — disse Demyian pouco entusiasmado.
— Vamos lá — sorri e me desvencilhei de Demyian. — Vai ser divertido.
Os dois irmãos me levaram em silêncio até a saleta que eu e Dimitri compartilhávamos, onde os dois enxadristas estavam completamente absortos no tabuleiro entre eles.
Puxamos algumas cadeiras ao redor deles e Dimitri sorriu para mim enquanto tirava um cavalo de Sasha do jogo com uma jogada de seu bispo.
— Eles são os melhores — Kira disse para mim. — Nem Yuri era tão bom quanto Dimitri, e Sasha foi quem o ensinou a jogar, então… é sempre divertido assisti-los embora muito provavelmente um dos dois vá desistir depois que o jogo ficar chato.
Eu sorri enquanto Sasha meditava qual a melhor coisa a fazer. Muito lentamente o jogo se desenrolava e parecia que Kira estava certa, porque estava equilibrado demais; mas bem no fim, quando só haviam sobrado o rei, a dama e um bispo do lado de Dimitri e os dois bispos e o rei de Sasha, o jogo virou para o lado do príncipe.
Sasha derrubou o próprio rei e estendeu a mão para o primo.
— Uma derrota galante — comentou Demyian rindo do descontentamento da irmã.
— Eu não perdi, eu me rendi. É diferente — a menina respondeu. — Você tem que saber a hora em que ceder é a melhor opção.
Ele assentiu e revirou os olhos para mim.
— Sasha adora essas filosofias. Mas enfim… o que acha de uma entre nós, Layla? Eu até deixo você ganhar.
Eu ri.
— É melhor você se empenhar, garoto. Vai comer poeira.
Ele riu também.
— Veremos, bela.
Dimitri franziu a testa enquanto me ajudava a colocar minhas peças no tabuleiro.
— Não a chame assim.
Demyian sorriu para mim.
— Viu? o que eu te disse mais cedo?
Dimitri o olhou de um para outro com a testa franzida. Sasha inclinou-se para sussurrar em seu ouvido. Ele assentiu para ela e os dois saíram silenciosos da sala.
— Onde eles vão? — perguntei movimentando um bispo, por fim.
— Boa pergunta. Não sei.
— Não importa, estarão no Salão Nobre à meia noite — disse Kira dando de ombros.
Demyian revirou os olhos.
— Não é nada demais, tenho certeza — tentou me apaziguar.
Franzi os lábios, não gostando das respostas. Havia algo me incomodando em relação aquilo. Dimitri eu tínhamos brigado no dia anterior e fizemos as pazes, no entanto ele sequer me dirigira a palavra o dia todo e agora estava de segredinhos com a Branca de Neve.
Eu perdi o jogo e nem mesmo me importei. Enquanto alegava que iria me vestir para a festa, Kira e Demyian me acompanharam. Nenhum dos dois disse que seis e meia da tarde era um pouco cedo demais e eu fiquei feliz por isso.
Como Anya ainda estava visitando suas filhas, eu estava sozinha no quarto e aproveitei para pensar um pouco sobre minha relação com Dimitri. Eu não tinha motivos lógicos para querer dar uns tapas nele só porque ele estava de cochichos com Sasha, então por que razão aquilo era exatamente o que eu queria fazer? Por quê eu queria arrastá-lo até meu quarto e tirá-lo de perto dela?
Nenhuma resposta brilhante veio à minha mente.
Eu estava ficando louca, constatei com tristeza.
Tirei a roupa e esperei a banheira encher de vapor de água quente. Entrei e me demorei mais que o necessário lavando meticulosamente cada parte do meu corpo. Só saí quando a água já estava fria demais e demorei-me a pegar um vestido pesado e branco e passá-lo pela cabeça e depois mais ainda me maquiando. Parecia que eu ia me casar, não passar de ano.
Sorri pensando nisso: eu casando. Será que meu vestido seria como aquele? Um vestido de inverno para alguém que sempre viveu no verão? Por fim, decidi que não dava para protelar mais e fui para a saleta procurar Dimitri. É claro que eles não estva lá.
Pressionei os lábios e desci a escadaria, sabendo exatamente onde ele estaria. Ou melhor, com quem.
Não deu outra, assim que cheguei no Salão Nobre, todos eles estavam lá, incluindo Dimitri que estava cochichando com Sasha.
— Uau, Layla — Demyian assoviou e eu ri tirando os olhos dos dois.
— É só maquiagem, Demyian.
— Não, não é — Dimitri disse pegando minha mão. — Você está maravilhosa — disse para mim — mas não é por causa da maquiagem.
— Finalmente nos brindou com sua presença — Yeva ladrou. — Só estávamos esperando você para poder receber nosso convidados.
Dimitri a olhou como se quisesse literalmente esganá-la e eu sorri para ele conspiratoriamente.
— Agora estou aqui. Que comece a festa!
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