Deixe a neve cair
29 Ano novo, novas revelações
Notas iniciais
Os amigos do rei Ivan chegaram em uma enxurrada, junto com fotógrafos e repórteres.
Entrei em uma espécie de transe real: sorrir, cumprimentar, elogiar, me despedir, sorrir cumprimentar, elogiar, me despedir…
Eu estava entorpecida, mas agradecia o fato de ter alguma coisa para fazer em vez de ficar olhando para Dimitri e Sasha, que estavam juntos perto de uma rodinha de garotos que pareciam flertar com Sasha enquanto ela falava com o primo.
Quando terminei de fazer a social, sentei-me junto de Demyian.
— E aí? — perguntou ele com uma expressão de bad boy que não combinava com seu rosto de menino. — Se divertindo?
— Depende do que você considera como diversão — ergui uma sobrancelha.
Ele riu.
— Pode admitir que isso aqui está um saco. Que tal darmos uma fugidinha?
Revirei os olhos.
— Não era você que estava tentando me convencer que o Dimitri estava na minha mais cedo?
Demyian levou teatralmente as mãos ao peito.
— Estais me acusando de traição a meu príncipe, mulher?
— Sim — confirmei e ele gargalhou.
— Tudo bem, ninguém pode me condenar por tentar — piscou um olho.
— Você é um bobão — comentei e ele riu outra vez.
Kira sentou sem cerimônias ao lado do irmão e roubou o copo de vodka de sua mão.
Demyian deu um tapa na mão dela e ela devolveu com um na dele.
— Mal-educado — resmungou revirando os olhos para mim com um sorrisinho. — E aí, Layla, como estão as coisas? Gostando da festa?
— Sim. Normal, eu acho.
Ela riu.
— Tem uns caras bonitos aqui, se você quiser.
Olhei para onde Dimitri estava, com os garotos, e ela sorriu interpretando errado.
— Será que o Dimitri e Sasha vão ficar outra vez? Assim podemos escolher um desses à vontade.
— Layla, vamos dançar? Essa música é horrível, mas alguém tem que animar esse povo — Demyian veio pegar meu braço fazendo careta para a irmã.
— O que quer dizer com isso? — meus olhos estavam postos em Kira. Ela corou.
— Não é nada — disse rapidamente. Vem, vamos dançar um pouco.
Deixei que os dois me arrastassem para o centro do salão e uma música mais animada começava.
— Eu escolhi essa — Kira gritou por cima da minha cabeça enquanto dançava com as mãos para o alto.
Quase imediatamente a rodinha de meninos saiu de perto de Sasha e veio para a irmã dela como um cardume de tubarões.
— Homens. — Revirei os olhos e Demyian sorriu.
— Eles não sabem como tratar uma dama — concordou. Fez uma reverência e beijou minha mão. — Me concede a honra, senhorita?
Eu ri e tentei acompanhá-los. Demyian dançava terrivelmente, mas era muito animado.
— Minha vez? — Dimitri brotou de sabe-se lá Deus onde e ofereceu-me a mão.
Demyian sorriu conspiratoriamente e se afastou com uma mesura gaiata.
— Acho que esse lugar está cheio demais — o príncipe comentou com os lábios a centímetros de minha orelha. — Vamos lá para cima?
Eu o olhei como uma idiota. Lá em cima ficavam os quartos.
Ele sorriu, erguendo as mãos ao nível do ombro.
— Estou sendo totalmente inocente.
Já fazia um tempo que eu não o via relaxado assim. Na verdade, não tinha certeza se já tinha visto-o assim antes.
Acabamos na saleta, dois andares acima da festa.
— Bem melhor — ele disse.
— Seu humor parece bom — comentei sorrindo e então fiquei séria. — O que você e Sasha estavam falando com tanto sigilo?
Ele sacudiu a cabeça.
— Nada de mais.
Suspirei.
— Odeio quando você faz isso. Se esquiva.
Dimitri também suspirou.
— Eu também odeio quando faço isso. É só que… por muito tempo isso foi tudo o que eu fiz, Layla: me esquivava de tudo e de todos — ele deu de ombros, desconfortável. A brincadeira esquecida. — Ainda não estou preparado para ser totalmente aberto. Eu não sou assim. Tenho que me preparar para a mudança.
—Então... você vai me dizer o que conversaram?
Ele sacudiu a cabeça.
— Ainda não, mas em breve direi, eu prometo — e ele usou toda a força de seus olhos escuros em mim.
Aceitei com um aceno de cabeça.
— Senti sua falta — comentei chutando o chão com meu sapato de cristais. Eu odiava admitir aquilo, mas era verdade. — Ontem e hoje você só esteve com ela, não dormiu comigo…
Dimitri beijou a parte interna de meu pulso, um pouco menos melancólico.
— Se não a conhecesse, diria que está com ciúmes.
— Só seria ciúme se o que você sente quando eu estou com Demyian for ciúme — rebati.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Se for assim, você está se mordendo de ciúmes — disse, desviando o olhar.
— Hã? — tive que ter certeza que eu realmente ouvi aquilo.
— Eu amo meu primo, mas, sinceramente, ele precisa ficar te tocando o tempo todo?
Eu ri.
— Até parece. Demyian é um amor, mas ele só está sendo amigável.
Dimitri abriu um sorriso do tipo "eu-sei-do-que-estou-falando".
Dois andares abaixo alguns sons chegaram até nós e Dimitri franziu a testa.
Pou.
Um som pipocou e eu pulei. Mais sons, meu rosto foi iluminado pelo lado de fora.
Nós nos olhamos, chocados.
E de repente eu estava nos braços de Dimitri, ele literalmente me tirou do chão enquanto me beijava de uma forma pouco casta. Ele me pressionou contra o vidro frio da janela.
Sua boca, em geral gentil, estava feroz, reivindicando a minha. Meus dedos agarrados a seu cabelo sedoso o puxavam para mais perto, eliminado a distância entre nós.
Seus lábios desceram para meu pescoço e eu senti as pernas fraquejarem, mas Dimitri deu um jeito, sustentando meu peso contra seu peito.
Ele se afastou primeiro, os fogos ainda brilhando no céu do primeiro dia do ano.
— você quer saber o que Sasha me disse ho... ontem? — perguntou segurando-me, o rosto a centímetros do meu, os olhos viajando para minha boca como se cogitasse beijá-la outra vez. — Ela disse que eu era um idiota por estar irritado com você quando na verdade eu estava irritado comigo porque você quis voltar para cá por minha causa e eu estava sendo estúpido e pouco cavalheiro enquanto Demyian, aquele abutre adorável, a estava cortejando.
— Não entendo — disse, confusa. — O que isso tem a ver com Demyian?
Ele se afastou. Se irritado ou envergonhado eu não saberia dizer.
— Eu estava irritado antes porque as coisas aqui na Rússia estão muito tensas, mais do que eu me sinto confortável para admitir, e eu não queria que você estivesse aqui caso as coisas piorassem. — Ele tocou meu rosto. — E estou agora porque eu estou deixando você infeliz com meu comportamento cauteloso.
Peguei sua mão, mantendo-o no lugar.
— Dimitri...
Ele sacudiu a cabeça.
— Quando você aceitou esse acordo de vir para cá, eu jurei... jurei… que não iria me apaixonar por você. E eu me convenci que isso seria possível. Eu fui até Illéa preparado para te odiar — admitiu, sen me olhar. — Eu não queria me casar com alguém que sequer conhecia, ainda mais com uma pessoa que, pelo que ouvi falar em outras reuniões, era difícil de lidar e cheia de vontades. Mas então eu fui te conhecendo e vendo que você não era nem de longe a pessoa que eu imaginei. Você era forte e decidida, linda e inteligente. E eu me apaixonei cerca de dois segundos depois de perceber isso. Sasha notou antes de mim, ela disse que eu estava diferente, mais humano e perguntou se era por sua causa. Eu disse sim e ela me perguntou "E ela sabe disso?" eu neguei. Ela disse que eu deveria te contar, e eu estou contando agora.
Pisquei uma, duas vezes.
— Dimitri… você está bêbado?
Ele me olhou incrédulo e então gargalhou.
— Eu acabo de fazer uma declaração que contraria todos os meus instintos e ela me pergunta se eu estou bêbado! Inacreditável.
Cruzei os braços.
— Então você não está?
— Nunca estive tão sóbrio.
— E toda essa declaração…?
— Eu perdi muito, Layla. Meu irmão, minha mãe… eu não posso imaginar perder você. Eu não quero isso — Ele pegou a minha mão e pousou contra seu peito. — Eu quero que você fique aqui, mas, por Deus, eu sei que estou sendo egoísta mantendo-a aqui. Você veio para salvar sua família e eu juro a você que meu país ajudará Illéa. Você não precisa ficar aqui e continuar com isso, porque no final… daqui um mês… alguém terá o coração partido — ele deu um sorrisinho de quem pede desculpas. — Se você permanecesse em Illéa, quando voltasse eu possivelmente estaria recomposto e nada disso teria acontecido.
— Dimitri, você é retardado? Será que depois de tudo você ainda duvida que eu vou ficar a seu lado?
Ele fechou os olhos.
— Eu duvido da minha sorte, Layla — disse baixinho reabrindo-os. — Você está disposta a sacrificar sua felicidade ao lado de alguém que poderá viver muito tempo a seu lado para em vez disso viver em um lugar tão frio com alguém que pode morrer a qualquer segundo?
— Ficar para sempre ao lado da pessoa que eu amo não é sacrifício algum. E não, você não ouviu errado. Eu o amo e eu ficarei a seu lado, onde é meu lugar, russo teimoso — Afastei-me de suas mãos. — E eu quero ver você conseguir se livrar de mim!
Os olhos de Dimitri estavam arregalados, a boca ligeiramente aberta. Se não fosse um momento tão tenso sua expressão confusa seria muito engraçada
— Você… você o quê?
— Eu. Amo. Você. — Lancei-lhe um olhar zangado. — Francamente, homem, que razão você acha que eu teria para me morder de ciúmes sempre que você está de cochichinhos com sua prima por aí?
— Pensei que você estivesse apenas exercendo o seu papel, ou talvez fosse apenas preocupação de amiga.
— Você saberia se fosse.
Ele olhou para o chão com um sorriso pequeno e baixo nos lábios e quando voltou a falar sua voz estava repleta de ansiedade.
— Layla, sei que eu talvez esteja apressando as coisas e nem sequer tenho um anel, mas você gostaria de se casar comigo?
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