Declínio Das Trevas

7 Substancias Químicas & Rosas Damascenas


Notas iniciais
Tem um limite de palavras no nome do capítulo. Não sabia. :P
Era para ter postado ontem, mas não deu tempo. O lado bom da história é que agora tenho um notebook novo, mas o falecido viverá para sempre em meu coração.

Após a visita à “sala ascendente”, Alexander desapareceu por três dias inteiros, não comparecendo nem mesmo para jantar na companhia de seu hóspede. Daniel imaginou que talvez o barão estivesse ciente de sua falta, pois as refeições que costumavam ser servidas em um salão próprio foram enviadas pontualmente ao quarto do rapaz. Para o rapaz, tal ato foi um sinal de grande consideração, porque tinha que admitir que era um bocado assustador andar sozinho pelo castelo após o anoitecer. O lugar era cheio de ruídos e sons estranhos. Se apurasse bem a audição, Daniel teve certeza que podia ouvir lamentos e gritos de terror.


Um tremor percorreu sua espinha diante da perspectiva de haver fantasmas em Brennenburg. Então lembrou dos prisioneiros, encerrados nas profundezas do castelo e isso não fez com que seu estado de espírito melhorasse. Era difícil adormecer pensando nessas coisas e mesmo que tentasse levar seu corpo a exaustão, lendo até quase o sol nascer, no momento em que fechava os olhos, era aterrorizado pela visão de mãos cruéis, trevas e violência.


Ele estava lendo para Hazel e ela estava absolutamente encantada com a promessa de uma eternidade de felicidade quando chegasse ao fim da fábula. Haviam poucas páginas sobrando e Daniel perguntou se ela queria esperar até a próxima noite para ouvir o lindo final pelo qual estava torcendo.


O estalo de uma porta se abrindo assustou as duas crianças. A voz trôpega de um homem chamou pelo nome do garoto.


“Não vá lá, Daniel” disse a garotinha. “Fique aqui e termine a história, por favor.”


“Hazel?” uma voz de homem trovejou, vinda da sala da pequena casa onde viviam. Daniel deixou o livro cair e correu para a porta do quarto, a segurando com o corpo, embora soubesse que era inútil.


“Se esconda, Hazel. Depressa, dentro do armário ou debaixo da cama.” o menino falou para a irmã, enquanto os olhos dela enchiam-se de lágrimas.


Ela soprou a chama do lampião sobre a mesinha, que poucos segundos havia iluminado as páginas do livro de fábulas. O barulho de passos pesados cada vez mais próximos e trevas envolveram os sentidos das duas crianças.


Daniel soube que ia afogar-se na escuridão. Pressentia o ar faltando e temia a agonia lenta da constrição.


“Não, não, não, NÃO!”


– Daniel?! – uma voz cristalina se impôs sobre o terror, trazendo o rapaz de volta ao presente, para um lugar seguro e tão parecido com um cenário dos contos que lia para a irmã.


– Ah! O que?! – ele gritou, ainda ofegante por causa do sonho. Tateou o próprio corpo, como se buscasse por algum ferimento ou contusão, mas estava tudo bem. A luz do sol banhava o quarto, pois Alexander havia aberto as cortinas. Daniel sentiu um grande alívio ao ver a face altiva do barão.


– Tendo pesadelos, pelo visto? – Alexander perguntou. O rapaz percebeu que devia ter gritado durante o sono e que isso atraíra a atenção do barão. Por um momento, teve um vislumbre de Alexander vigiando seu sono e, sem que houvesse maior motivo para isso, considerou tal ideia pouco confortável.


– Sim! – o rapaz ofegou. – Não consigo afastá-los, eles vêm toda noite.
Alexander pousou a mão sobre o peito do rapaz. Daniel sentiu seu coração assustado bater contra a palma de Alexander e notou o olhar preocupado do barão sobre si.


– Nós faremos com que eles parem, você verá. – ele disse e Daniel sentiu-se envolvido pela confiança daquelas palavras. – Agora, levante-se, hoje iremos ao laboratório.


O tom energético do barão teve efeito na moral do rapaz. Embora a noite não tivesse oferecido o repouso adequado, estava ansioso por passar mais tempo em companhia de Alexander e ocupar-se com tarefas que exigissem raciocínio e trabalho manual.


–§-


O laboratório ficava próximo à adega, por trás de uma porta chaveada e parcialmente escondida. No instante em que atravessou o arco da porta, o rapaz sentiu um grande ímpeto de perguntar para que servia cada um dos equipamentos finos, torneiras, tubos de vidro e ingredientes espalhados pelas prateleiras e bancadas. Havia tanta coisa para saber que acabou embaralhando as palavras ao tentar formular uma pergunta por vez. Tal incidente fez o rapaz desculpar-se por estar agindo como uma criança curiosa, mas isso não pareceu aborrecer o barão.


– Não envergonhe-se em querer sempre aprender mais, meu caro. Tal característica é uma virtude e uma necessidade, se almeja a Ciência.


– Oh, está certo! – Daniel respondeu, aliviado. Olhou ao redor, procurando algo que sobressaísse aos demais objetos em exposição. Por um momento, seus olhos deteram-se em um tipo de alçapão, de cujo poço profundo e escuro era possível ouvir o som de algum animal chapinhando na água corrente. Deve ser um ralo cheio de ratos, Daniel pensou, o barão irá achar graça se eu perguntar sobre isso. Ele já deve me considerar um rapaz tolo e inocente por ter atraído uma maldição terrível e fico me comportando de maneira tão juvenil sob sua tutela, desmaiando, tendo pesadelos e fazendo perguntas bobas. Escolheu aproximar-se da bancada principal, onde parecia haver um experimento em andamento – Vejo que há um substância sendo preparada naquela mesa. Do que se trata tal agente químico?


Alexander aproximou-se da bancada e retirou o frasco receptário do encaixe pelo qual um funil de precisão liberava gradualmente um líquido de aparência cinzenta e densa. Daniel notou o cuidado com que Alexander recolhia o produto, fechando cuidadosamente o frasco com uma rolha e certificando-se que a torneira do funil não fosse pingar. Sem dúvidas tratava-se de algo perigoso.


– Esse ácido, Daniel, corrói o ferro e destrói todo tecido vivo. Se ministrado em alta dose e exposto ao ar livre, causará uma grande explosão. Se ingerido acidentalmente...


O rapaz engoliu em seco, imaginando o que poderia acontecer com o pobre diabo que bebesse uma dose daquele ácido. Sentiu um certo asco, pois a imagem que formou-se em sua mente era vívida demais. O barão deve ter percebido, porque guardou o frasco em um gabinete, de onde retirou um novo vidro e o colocou na mão de Daniel.


– Começaremos por esse, então. – ele disse, caminhando por entre as prateleiras e retirando alguns instrumentos e ingredientes. O arqueólogo examinou o líquido no interior do frasquinho. Era brilhante e cristalino, de um tom róseo escuro. Do jeito que estava guardado, fazia a pequena garrafa parecer uma joia com um corte estranho. Também exercia um inexplicável magnetismo sobre Daniel. Estava refletindo sobre qual seria o sabor do misterioso liquido quando Alexander o chamou, oferecendo um assento diante da bancada.


– Essa é a poção do esquecimento. – o barão ensinou. – Apenas algumas gotas e você esqueceria de sua viagem à Argélia, de seus amigos mortos e dos dias em que esteve aqui, em minha casa. Uma dose completa e creio que nem a lembrança de seu nome restaria.


Daniel deixou escapar uma exclamação espantada e examinou novamente o frasco em sua mão. Na situação que ele estava, apenas esperando pacientemente que Alexander pudesse completar o ritual que exorcizaria a Sombra, talvez fosse uma boa ideia apagar esses dias atormentados, quem sabe os pesadelos não parassem e ele pudesse aproveitar calmamente a paisagem prussiana até que tudo ficasse bem?


– Sei o que você pensou. – disse Alexander. – E não creio que seja uma opção. A Sombra continuaria te perseguindo, mesmo que você não lembrasse dela. Além disso, o esquecimento pode ser agradável, mas é também assustador. Imagine o que você sentiria se despertasse nesse castelo, em meio aos pesadelos que te atormentam, porém sem fazer ideia do motivo disso? Consegue prever o terror que você sentiria?


– T-tem razão. – Daniel gaguejou, pondo o frasco de lado. – Mas, então, por que iremos preparar esse soro?


– Ah, você não imagina as inúmeras vantagens que o poder sobre o esquecimento concede a um humano, meu caro Daniel. Na verdade, ela será muito útil em apressar sua libertação e, por isso, gostaria de ensinar você a prepará-la. Será sua tarefa nos dias em que estiver ocupado com meus afazeres administrativos.


– É mesmo? – Daniel estava agradavelmente surpreso em ser destacado para uma função ativa nos preparativos. – Obrigado, meu caro mestre!
Alexander sorriu e tocou gentilmente o ombro de Daniel.


– Seu entusiamo me alegra, Daniel. Falo a verdade, passei muitos anos dedicando-me às minhas pesquisas e às funções de barão. Havia esquecido de como pessoas jovens como você são uma companhia tão preciosa. Uma pena que sua vinda tenha sido causada por circunstâncias tão sinistras.


– Agradeço suas palavras, Alexander. – Daniel murmurou, sentindo-se corar. – Devo dizer que também estou contente com tudo que me ensinou e, sem dúvidas, fascinado por Brennenburg. Quando tudo estiver acabado, realmente gostaria de retornar ao castelo para uma visita mais amena.


O barão apenas fez um aceno de cabeça para o rapaz, então indicou os objetos dispostos sobre a superfície da mesa.


– Vamos começar, então. Preste atenção, porque vou explicar cada detalhe e você deverá fazer tudo que eu disser sem perder nenhum etapa, ou a poção não funcionará. – ele mostrou ao rapaz um pote cheio de pétalas cor-de-rosa secas e amassadas. – Vê essas flores? São rosas damascenas, trazidas do Oriente Médio. O extrato delas é a base do soro amnésico...