Decifra-me
15 Capítulo 15- Medeiros
Notas iniciais
Leio, assisto e ouço sozinha. Posso estar em companhia, cercada de pessoas; mas a relação entre mim, o livro, a tela ou aparelho de som não é compartilhável. É preciso sentir o que me é contado. Às vezes, pelo foco, sinto até demais, e acabo transbordando. A sensação é maravilhosa.
Durante minhas últimas férias, decidi iniciar o livro “Liberdade Crônica”, escrito por Martha Medeiros. Os primeiros textos tratavam da questão da mulher, (assunto que muito me interessa) e a cada página virada, a vontade de ler aumentava. Eu estava presa ao livro. Do lado de fora do quarto as horas passavam como há de ser; do lado de dentro, estava tudo parado. Nada existia entre mim e aquele mar de letras.
Ao chegar a décima crônica, mais ou menos, senti. Não é algo que se percebe quando se está concentrado. Só acontece. Foi quando li a última palavra na folha, levantei a cabeça e respirei profundamente que percebi as bochechas molhadas, o nariz congestionado, a sensação inigualável de terminar uma leitura e estar em êxtase.
Senti-me assim, em parte, porque já tinha um carinho pela autora e pelo tema. Minha mãe, depois de ler o mesmo texto que eu, por exemplo, teve a reação de alguém que acaba de ler um cardápio. O sentir dela difere do meu.
Ao terminar, guardei o livro na estante. Olhei através da janela para o céu escuro e notei: o tempo voltara a passar dentro do quarto.
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