Decifra-me
16 Capítulo 16- Clarissa
Notas iniciais
Era Clarissa. Nem Clara, nem Clarisse. C-L-A-R-I-S-S-A. Cursava o segundo ano de engenharia elétrica e não cortava os cabelos desde a oitava série. Popular sempre foi, pela beleza, principalmente. Viera do interior, filha de gente do bem, trabalhadora e pacata. Foi morar longe, não se encaixava ali. Com a mãe se comunicava por carta, o pai não sabia juntar as letras muito bem.
A faculdade era em outro estado, e o acordo era que nas férias de julho, ela voltaria à cidade natal para rever a família. Era dezembro do segundo ano longe de casa e ela não cogitava a ideia de uma visita. “Eu mando notícias sempre que puder”, ela repetia ao final de cada carta, com sua letra borrada e desigual devido à pressa e à falta de cuidado. Era fria e egoísta, e a desculpa era de que precisava economizar dinheiro e tempo. Nem criatividade para novas mentiras ela tinha, tampouco se esforçava.
Pouco tempo havia se passado após o Natal, quando pela última vez a mãe insistiu pelo amor de Deus que a filha lhe fosse visitar. A essa carta ela nem se deu ao trabalho de responder, pensava que a mãe não entenderia de jeito nenhum sua nova vida.
Clarissa não acreditava em karma, nem acaso, nem na “Lei de Murphy”, mas quando recebeu uma correspondência que mais parecia um bilhete, contando sobre o falecimento da mãe, ela não conseguia encontrar outra justificativa. Sabia que a culpa era dela. Sentia que ela era a causa.
Queria ia ao interior, dar bênção aos sobrinhos, tomar a bênçãos do pai, deitar na rede, dizer adeus à mãe. Não fez nada disso. Sentia-se culpada por não sentir-se pior. Sentia-se mal, péssima, mas não o suficiente. Precisava doer mais. Tinha que doer mais.
Essa mentalidade seguiu-a pelo resto de seus dias, que não foram tanto assim. Ficava no sofá, torta, encarando as paredes brancas e o céu cinza da cidade grande. Um cigarro sempre na boca, costume que adquiriu quando percebeu que conseguira o que queria: “independência”.
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