Decifra-me

2 Capítulo 2- Olavo


Notas iniciais
O conto trata do caos que a vida de Olavo se transformou depois de várias escolhas erradas tomadas durante a sua vida. Gênero: Drama Avisos: Álcool Classificação: +13

Era noite e o senhor Olavo descansava o cigarro no cinzeiro que ficava ao lado de sua cadeira. O fumo era o apoio que havia conseguido depois que seu filho, Augusto, morreu após um acidente de carro. Olavo passava dos cinquenta anos e os pulmões já não eram tão fortes, ele fumava numa forma tímida de suicídio, tentando encurtar a própria vida para então reencontrar o filho.

Era em noites como aquela, observando o pequeno bosque para o qual o quarto tinha vista, que ele lembrava-se do motivo de ter abandonado a carreira política. O motivo que o afastou de sua forma de renda mais fácil.

Passava das cinco da tarde do dia 7 de outubro de 2007 quando o celular tocou e alguém do outro lado da linha lhe avisava, calmamente, que o corpo de seu filho estava no Hospital Municipal Luciano Costa. "O senhor é pai de Augusto Freire? Sinto lhe informar que seu filho sofreu um acidente gravíssimo de carro e não resistiu aos ferimentos". O ar lhe faltou e ele precisou sentar na sua cadeira de madeira de lei preferida, a mesma em que se encontrava no momento, enquanto revivia as memórias. Envergonhado, frustrado e culpado, ele chorou escondendo o rosto sob as mãos. Na época, com seus 47 anos, o ocorrido lhe pareceu um crime, e na verdade era. Com nenhum culpado além dele.

Assim que recebeu a notícia, reconheceu o nome do hospital. O mesmo que estava no programa de reformas do município, que estava esperando ampliação e reparos de grande porte, mais contratados, mais medicamentos e equipamentos mais modernos. O mesmo que estava em outro programa: o de um desvio de alguns milhares de reais disponibilizados para a obra bolado por ele e alguns colegas de trabalho.

Com isso, o hospital recebeu uma verba reduzida, e não pode passar por todas as modificações necessárias. Olavo sabia que teria que pagar à sociedade mais cedo ou mais tarde de algum jeito. Ele esperava que fosse bem mais tarde, na forma de algum processo, que ele daria um jeito de se livrar. Ou talvez pudesse pagar fiança, ou até mesmo prestar serviços comunitários. Tudo por cada imóvel e automóvel que havia adquirido com o dinheiro público. Ele esperava qualquer tipo de preço imposto a ele, menos este. Este que ele não teria como reverter, este que já estava firmemente imposto a ele.

O que restou ao velho homem e novo fumante foi abandonar a carreira de político. Com um tanto de consciência, abandonou o cargo que antes lhe pertencia, e percebeu que, ser parte da grande rede de políticos desonestos que usava de imposto de cidadãos para melhorar a vida pessoal, não valia o preço que tão de repente fora-lhe imposto.

Notas finais
O que acharam? Escrevi esse texto há mais ou menos uns dois meses. O próximo conto falará sobre amizade, e provavelmente, será o tema mais "leve" que eu irei abordar.