Death Note: Resurgence
17 Death Note - Carnificina
Notas iniciais
— E como foi que eu morri? — Essa era a pergunta repetitiva que ecoava pelas paredes daquele grande galpão inutilizado.
Raito e L estavam conversando. Este último questionando sobre todo o tipo de assuntos, enquanto o primeiro inventava histórias e mais histórias, para manipular a mente engenhosa – mas desgastada devido o tempo – de L.
— Você morreu pelas mãos de Kira. Já te disse isso. – falou Raito, cruzando os braços em frente ao corpo de vestes escuras. Seu busto estava vestido camiseta negra e suas pernas com uma calça da mesma cor – Você não consegue se lembrar de nada do que eu lhe digo?
— Para ser sincero, eu ando com a cabeça muito ruim. – confessou o outro, curvado caracteristicamente à sua maneira no canto do galpão. – E onde está Amane-chan?
— Foi procurar o que comer.
— Certo.
L encolheu mais os ombros contra o próprio corpo. Abaixou um dos braços tentando alcançar os dedos no chão. Porém... esqueceu-se que havia literalmente perdido uma mão. Raito virou o olhar para ele, sério. Não poderia alimentar L com maçãs, pois, segundo as informações do Shinigami Ryuuku, sua cabeça voltaria a funcionar perfeitamente e tudo ficaria mais difícil.
— O que houve com seu braço?
O rapaz encarou Raito de viés, com apenas um olho, pois o outro estava ausente.
— Perdi muito de mim, Raito-kun. Não pareço mais ser quem eu próprio era. Não só fisicamente, como pode ver. – L girou a orbe para o pulso decepado, triste – Creio que não poderia lhe ajudar mais com as investigações em busca de Kira.
Raito descruzou os braços imediatamente. Caminhou rítmico até mais próximo do companheiro, abaixando-se ao seu lado e curvando suas costas, para olhá-lo amigavelmente. Sem medo, postou a mão em cima da clavícula do homem, cujo corpo possuía apenas uma camiseta negra muito larga com uma calça branco-gelo.
— Nada o fará mudar, não se preocupe com isso. São apenas meros detalhes e obstáculos que podem ser resolvidos e enfrentados. Isso não muda o que você realmente é... L.
O olhar de Raito instigou L a o encarar mais uma vez. Tanta tranqüilidade eles lhe transmitiam... por invés, algum tipo de incômodo cutucava seu peito com tal aproximação. Olhos. Ele piscou o seu único orbe uma vez, e a visão dos olhos logo sumiu, perdendo-se nas entranhas de seu cérebro e voltando a se tornar apenas uma lembrança perdida. Desde que encontrara Raito, aqueles olhos lhe perturbavam. Porém não conseguia associá-lo perfeitamente àquela imagem, àquela memória sem explicação.
A fragilidade da face de L fez com que Raito sorrisse. Claro, o sorriso intencional; nada sincero. Outrora pudesse ser averiguado como falso um sorriso daqueles, agora era correspondido espontaneamente pelo ex-detetive, que decidiu proferir:
— Obrigado por me apoiar, Raito-kun. Agradeço muito por ser meu amigo.
— Digo o mesmo, parceiro – Raito disse em contrapartida.
A porta do galpão se abriu e Misa chegou animada.
— Uhuuul! Garotos! – dizia cantarolando – Comida!
Ela se aproximou dos dois saltitando, e neste momento Raito se colocou em pé, seguido de L.
— Sirvam-se. Trouxe bastante frutas para todo mundo!
— Como se houvesse muita gente por aqui, não Amane-chan?
— Ah, mas nós somos quat... digo, três, né Raito?
— Sim, Misa. – afirmou Raito, fixando seu olhar nela como repreensão.
Raito havia explicado à Misa a situação, num momento oportuno em que L estava distante. Disse à garota que L não tinha a capacidade de ver o Shinigami Ryuuku. Portanto, eles eram apenas três. Ignorar Ryuuku na presença de L era a lei agora.
Raito olhou torto para Misa quando ela pegou uma maçã para oferecê-la para L. Ela entendeu, dirigindo a ele um sorriso bobo.
Neste momento, Ryuuku atravessou as paredes do galpão flutuando e veio até perto do trio de ex-humanos.
— Raito... – grunhiu.
— Aqui está, Ryuuzaki.
— Obrigado. – falou L, pegando a pêra oferecida por Misa e mordendo com vontade – Pêras não são tão doces quanto maçãs. – ele disse um pouco decepcionado, parecendo querer dar uma indireta, que foi claramente ignorada pelo resto.
— Eles não estão mortos. – prosseguiu Ryuuku, já entendido da situação.
— Raito... pegue quantas quiser.
— Obrigado, Misa. É ótimo saber disto.
A última frase pôs um sorriso simpático no rosto de Raito em direção à Misa, mas na verdade, não estava sendo dirigida a ela e sim à Ryuuku. Ele sorriu como se fizesse para Misa, mas, longe da visão de L, o sorriso cresceu e tornou-se quase pecaminoso. Raito deu uma mordida ligeira na maçã, como se arrancasse a carne de sua presa com avidez.
O tiquetaquear contínuo. Era a única coisa que podia ser ouvida, além da respiração forçada. O homem olhou sério para a superfície da pauta, com uma caneta de carga azul na mão. Ali constavam os nomes na respectiva ordem, um embaixo do outro: Shuichi Aizawa, Hideki Ide, Kanzo Mogi, Stephan Loud, Anthony Lester, Halle Bullock, Masahiro Kazuma e... Nate River.
O último nome era o único que possuía uma descrição seguida, que seriam mais informações sobre a morte da vítima: Suicídio. Revela aos assistentes que não há solução para o Caso Kira e, em seguida, enche a banheira d’água, informando que iria tomar um banho. Com o próprio sangue, Nate escreve na parede do banheiro a seguinte frase: ‘Kira faz a justiça’. Quando a banheira está cheia, Nate entra e se afoga propositalmente.
Tudo estava feito como Raito lhe instruiu. Os nomes colocados para uma parada cardíaca de cada um e a morte manipulada e humilhante de Near. Só restava saber qual seria a reação do aspirante a Deus do Novo Mundo...
O relógio de corda, velho, mas em bom uso, avisou o rapaz que a hora chegara. Acabavam de dar exatamente duas horas da manhã. Ele engoliu a saliva. Molhou os lábios. Seus olhos estavam ocultos, no momento em que uma mão começou a surgir na superfície da parede do apartamento alugado especialmente para aquela noite. O corpo da pessoa ultrapassou completamente e adentrou aquela sala. A sombra impedia que Matsuda visse sua face.
— Esperto, Matsuda. Muito bom. – disse a voz do homem recém-chegado. Ele deixou as sombras do cômodo e se juntou à claridade que provinha da curta cortina de linho do local. Os olhos rubros de Raito identificaram os nomes escritos no caderno. Um sorriso exageradamente curvilíneo tomou conta daquele rosto beirando à insanidade. – Não sabia que sua coragem chegava a tal ponto.
Matsuda sentiu algo impedindo a passagem de ar em sua garganta seca. Respirou fundo, mas este incômodo não passou. O suor era o principal acusador de seu medo. Os olhos do humano giraram nos orbes para o canto, visualizando apenas um homem com uma voz comum. Raito não possuía mais a aparência bruta de um monstro, mas aquela que habitualmente tinha quando vivo. Isso assustava Matsuda ainda mais do que quando estava em sua forma Shinigami.
O ex-humano deu alguns passos, que aborreceram o interior de Matsuda, até então calado. Ele descobriria, com certeza.
— Está mudo por quê? – Raito perguntou em tom inocente e falso – Está com medo de quem? Está temendo que seja morto por Kira, hm? Deixa eu te informar uma coisa que talvez ainda não saiba...
Raito abaixou lentamente seu rosto ao lado da face molhada de Matsuda, sussurrando em seu ouvido tenebrosamente:
— ... Você é Kira. Huhuhu...
— Eu não sou Kira – disse Matsuda finalmente.
Raito afastou sua cabeça. Olhou para o outro, que tinha os olhos ocultos pelo cabelo.
— Não seja pessimista – zombou o ex-humano – Você até que tentou...
— Eu não quero ser, não quero tentar... O verdadeiro Kira é aquele que ansiou a morte de humanos por capricho, não por justiça... – Matsuda falava lentamente, tentando contrapor as palavras do outro.
Raito sorriu mais abertamente. Dos lábios abertos, escapou uma risada. Matsuda daria tudo para não ouvir aquela risada, que o arrepiou de cima a baixo. Raito bateu a mão em cima da mesa, mais especificamente em cima do caderno. Fechou-a em punho e puxou a folha que estava aberta, aquela que possuía os últimos nomes escritos. Arrancou-a e apertou-a entre os dedos, empurrando ela contra a face de Matsuda e o lançando ao chão com violência.
— De onde você tirou essa idéia tola, ahm?! – gritou Raito, ofendido por Matsuda ter usado um artifício tão barato – Eu não sou você para cair no mesmo truque idiota duas vezes! Caderno falso é o caralho!
Matsuda tossiu uma vez. Ergueu apenas as costas, olhando nervoso para Raito e limpando o nariz sangrando.
— Você... você vai morrer, Raito! Que não seja pelas minhas mãos, mas vai morrer por Deus! Deus está te vigiando...!
— EU SOU DEUS! – vociferou Raito apontando para o próprio peito, a plenos pulmões.
— VOCÊ NÃO É DEUS! O VERDADEIRO DEUS JAMAIS MATARIA POR CAPRICHO! – Matsuda repeliu, no mesmo tom.
Raito avançou para perto de Matsuda, agarrou-o pela gola da blusa e ergueu-o no ar, parecendo nervoso por sua afronta.
— Imprestável... eu sabia muito bem que jamais poderia ser Kira...! Quero o caderno! Diga-me onde está o verdadeiro...!
— Idiota... – Matsuda sorriu frágil e provocante com o canto dos lábios sujos de vermelho.
— Yagami. Você está morto.
O rosto alucinado de Raito virou para trás. Mais que uma dúzia de armas estavam dirigidas à sua cabeça. Ele respirou apressado. Era como se o humano que antes habitava sua alma estivesse os olhando. Um espectro negro passou pelas costas dos homens...
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