Death Note: A Justiça Nunca Morre
2 A Motivação
Hoje, como em todos os outros dias, eu estava sentado em minha cama, com o tabuleiro em frente a meus joelhos, pensando em uma jogada. Um som de passos curtos, mas que emanava seriedade ecoou pelo corredor. Um homem idoso veio em minha direção e ficou parado em frente a minha cama, como se quisesse assistir meu jogo. Finalmente, após algumas jogadas, ele falou. – Esplêndido! Enquanto você avança com o Ataque de Minoria, você se protege com a Defesa Eslava. Diga-me garoto, aonde você aprendeu essas jogadas? Nada do que saiu da boca dele me soava familiar. Nunca tinha ouvido falar em nenhuma dessas jogadas. Será que elas também foram desenvolvidas por outros jogadores que até nomearam-nas?– Senhor, eu não conheço estas jogadas das quais você falou. Eu não tenho muito contato com o mundo exterior e não tenho muito que fazer aqui tampouco. O que mais ocupa meu tempo é este jogo. Eu costumo jogar sozinho, é mais fácil pensar assim. Desenvolvi essas jogadas após alguns dias de jogo.– Mas essas são jogadas muito avançadas, as quais apenas mestres conseguem efetuá-las com perfeição como eu estou vendo em minha frente. Quantos anos você tem, garoto?– Isso tudo – disse enquanto mostrava uma mão com todos os cinco dedos levantados. – Realmente esplêndido. Acho que devo usar o teste do Watari com você.– Teste?– Diga-me garoto, se você fosse o chefe do departamento de polícia e chegasse a você a notícia de que existe um informante dentro da polícia que repassa informações confidenciais a Máfia por intermédio da mídia, e você soubesse que há três suspeitos, o que você faria para desmascarar o informante sem uso da força bruta? Eu queria questionar o motivo deste teste, mas minha mente automaticamente costuma se focar em resolver o mistério sempre que há um envolvido.– Ele se comunica por intermédio da mídia?– Sim, ele entrega as informações para fontes dentro da mídia e noticias são transmitidas nos meios de comunicação midiáticos.– Hm... se eu fosse o chefe do departamento de polícia, eu me aproximaria de todos os suspeito, um por um, e falaria para eles que um comunicado que já foi passado para todos os outros membros do departamento e que eu iria passá-lo a eles. Eu diria que a polícia suspeita de um criminoso célebre diferente para cada um deles em relação a um crime notório naquele momento. Eu lhes avisaria de que todos precisavam ficar sabendo disso, mas que o departamento já estava ciente e que não era bom comentar com nenhum companheiro para prevenir que a notícia vazasse. Então eu esperaria, e quando a notícia fosse noticiada na TV era simplesmente olhar qual criminoso foi anunciado como suspeito. Aquele cujo criminoso eu disse que era o suspeito, seria o informante.– Esplêndido – disse surpreso. Foi exatamente a mesma resposta que Near deu para Watari — Falou tão baixo que eu quase não pude assimilar tudo o que disse. – O que você pensaria sobre morar em um orfanato tão luxuoso quanto um hotel 5 estrelas onde você teria estrutura para praticar praticamente qualquer atividade a qual você quisesse?– Assim, tão repentinamente? – Ele parou um para pensar e então me ofereceu uma oferta tentadora.– Lá é um lugar onde residem crianças tão ou mais inteligentes que você. Elas poderiam prover uma emocionante partida de xadrez – Eu comecei a imaginar todas as possibilidades. Seria muito menos monótono se eu tivesse um parceiro de jogos. Eu procurei algum semblante de segundas intenções por trás da oferta dele. Procurei algum rastro de maldade, porém em vão. Ele era amigo de Takagi e tinha sua confiança.– Acho que... não vejo nenhum problema. Existem mesmo pessoas da minha idade naquele lugar que queiram jogar comigo?– Claro, garoto.– Então você precisará falar com o Takagi antes.– Não precisará – Takagi disse enquanto entrava pela porta e andava pelo corredor de camas em que estávamos.– Eu ouvi boa parte da conversa. Já tomei minha decisão. Se o Ruvie acha que será melhor, deverá ser melhor. É um pesar não ter você mais aqui, criança, você realmente me ajudou com o caso do dinheiro que sumia misteriosamente – Ele disse esta última parte com um tom que me lembrava aquilo o qual as pessoas costumam chamar de sarcasmo.– Então está feito – Ruvie disse ao apertar as mãos de Takagi.
Três horas se passaram até eu chegar ao orfanato que Ruvie chamava de Wammy’s House. Ruvie abriu a porta da limusine que nos levara até lá. Enquanto eu andava até o vasto portão, eu contemplava o quão formidável era toda aquela estrutura. O domicílio se localizava a mais ou menos quinze metros do portão. Tão detalhado quanto o interior de uma igreja barroca, parecia ser ainda maior quando adentrávamo-la. Tudo era bem chamativo, mas não era o suficiente para me desconcentrar. Até que eu a vi. Ainda na entrada, havia uma sala que levava a um corredor estreito. Foi lá que eu a vi. No canto direito da sala, sentada no chão concentrada em um livro o qual ela apoiava em seus joelhos. Ela não era japonesa. Não suspeito de onde veio, só sei que não era japonesa. Ela tinha cabelos que se diversificavam dentre três cores, um preto que era tão negro quanto à noite e a cor predominante, um ruivo escurecido que tendia a cor do vinho e alguma pouca parte alaranjada, provavelmente fruto de alguma descoloração, mas que apenas realçava sua beleza e o quanto ela era diferente de qualquer outra garota em que já mirei os olhos. Seu tom de pele era claro, provavelmente o tom de pele mais claro que já vi, o que me parecia apropriado já que era como se ela exalasse pureza. Seus olhos eram de um negro mais escuro que o de seu cabelo, e que se mostravam tão compenetrados quanto à concentração em seu livro que era como se ela tivesse nascido olhando para ele. Eu não prestei atenção tempo o bastante para identificar o que estava lendo, apenas consegui assimilar a imagem da capa que me parecia com o rosto de uma garota de um tom de pele tão escuro quanto o de uma amazona, onde só era mostrado uma parte de seu rosto, que apenas continha seu olho esquerdo de uma cor azul vívida e uma parte de seu nariz. Quando avistei seus lábios, por algum motivo o qual eu ainda não entendia, minha boca umedeceu-se rapidamente. O mais ilógico ainda para mim foi a súbita necessidade de pressionar meus lábios contra os dela. Eu nunca sequer pensei nesta sensação antes, era tudo tão novo para mim quanto este orfanato. Alguns segundos depois eu percebi que toda essa contemplação do ser que estava a minha frente demorou muitos segundos, tanto que eu não percebi que Ruvie estava se dirigindo a mim a algum tempo. – Garoto? Garoto? Fecha esta boca aberta e me escute. Você queria ter uma partida de xadrez com um oponente de alto nível, não queria?– Si... sim – gaguejei um pouco ainda entorpecido por causa da garota. Ruvie, que esteve de mãos dadas comigo o caminho inteiro, não soltou-as enquanto caminhava comigo na única direção que eu temia ao mesmo tempo que necessitava. A direção dela. – Bianca, você se incomodaria de jogar uma partida de xadrez com o nosso mais novo membro em forma de boas vindas? – Bianca... este nome me lembra os livros em italiano que eu costumava ler no meu antigo orfanato, advindos de generosas doações. Pelo que eu conseguia entender... Bianca significava branca ou alva. Ainda mais apropriado para ela do que seu próprio tom de pele.– Não. Não me incomodaria – Ela disse com um meio sorriso enquanto se levantava e colocava seu livro em cima de uma mesa que eu apenas notara agora, onde havia um tabuleiro de xadrez, pronto para ser utilizado.– Tente pegar leve com ele, Bianca – Ruvie disse, dando um sorriso ao mesmo tempo em que nos deixava a sós. O suor começou a umedecer minha testa, meu coração batia tão intensamente que parecia que se eu não estivesse usando uma camiseta seria possível vê-lo por debaixo de minha pele.– Seja bem vindo, aceita uma partida?– Sim, claro – sentei-me na mesa para jogar, ainda não acreditando que eu estava ali com ela. – Você prefere as pretas ou as brancas? – As brancas.– Certo, tome. Melhor dizer algo para que o silêncio não acabe tornando-se chato.– Bianca, um nome de origem italiana muito bonito, significa branca. – Sim, eu sei – ela disse secamente. Ela parece ser do tipo que se sente desconfortável ao receber elogios. Após endireitar todas as peças no lugar, era minha a primeira jogada. Eu não conseguia pensar em nenhuma jogada complexa para realizar, lembrando de quando Ruvie nomeou aquelas jogadas as quais ele julgou de nível avançado. É melhor jogar logo, não quero fazê-la ficar entediada. Irei tentar com a jogada mais básica.– Peão, d2-d4 – Levei a peça até sua casa de destino. Minha mão tremia eloquentemente, e ela percebeu.– A Abertura Aberta... então vamos manter a simetria. Peão, e7-e5. Preciso pensar em uma jogada eficiente. Eu quero que ela me note, que me ache inteligente, mas com esse cérebro que para de funcionar quando eu mais preciso será um pouco difícil.– Cavalo, b1-c3.– Boa resposta. Rainha d8-h4. Eu conheço essa jogada. Segunda uma breve conversa que eu tive com Ruvie no caminho, devido a minha curiosidade em relação aos nomes das jogadas eu fiz algumas perguntas para ele. Ele me disse o nome desta jogada. Se eu me lembro bem, chamava-se “Ataque da Rainha Rebelde”. Essa jogada é muito comum para mim e ela me parece ser uma jogadora experiente. Ela não começaria com essa jogada se fosse realmente experiente e soubesse o que estava fazendo. Isso é o que meu cérebro diz, mas meu coração, a minha intuição, me diz que ela planeja algo com isso. Mas não faz sentido, não racionalmente. Em quem eu devo confiar, na razão ou no sentimento? A razão já me traiu uma vez hoje. Mas ela ainda é a razão. Ela não deve ser uma jogadora tão boa assim. Vou acabar logo com isso. – Cavalo, g1-g2.– Rainha, h4-f6 – Ela recuou. Deve ter percebido que a jogada não daria certo e abandonou-a. Espere. Esta jogada é muito comum. Comum até demais. Ruvie me disse que haveriam crianças inteligentes aqui. Nunca há coincidência onde há inteligência. Mas é claro. Ela fez essa jogada tão comum para me distrair e tirar minha atenção da verdadeira jogada que me levaria ao xeque-mate. E eu sei qual jogada ela faria. Agora que eu sei, eu simplesmente vou me defender e acabar com suas chances de ataque. Melhor fazer o roque.– Cavalo g1-e2. Um sorriso abriu em seu rosto. O que eu tinha feito de errado?– Rainha, f6-f2 – Ela disse enquanto tombava meu rei. – Cheque-mate. Estava tão claro que eu não percebi. Ela fez uma jogada comum para me induzir ao pensamento de que ela estaria escondendo uma jogada mais avançada por detrás desta. Ela recuou de um modo que ainda era possível aplicar a jogada mais simples. Quando eu me defendi da jogada mais avançada, ela aplicou a jogada mais simples sem que eu percebesse que ainda poderia ter feita. Ela ganhou. A minha intuição tinha me preparado para isso. Eu não acreditei nela. Eu realmente sou estúpido, é claro que se eu perguntasse para mim mesmo, ou seja, para meu cérebro, se eu deveria confiar na razão ou no sentimento, era óbvio que meu cérebro escolheria a razão, porque é a razão quem controla o cérebro. – Incrível – Eu disse, realmente surpreendido. – Ruvie me disse que haveriam crianças realmente inteligentes aqui, mas eu não pensei que seriam tão inteligentes quanto você.– Você jogou bem – Ela me disse. Levaram alguns segundos até eu perceber que ela tinha me elogiado.– Obrigado. – Você ainda não me disse seu nome. – Eu fui encontrado em uma cesta junto de um cartão onde estava escrito Kou. Acho que esse é o nome que minha mãe queria que eu tivesse. – Te vejo por aí – Ela disse enquanto aproximava sua bochecha em minha direção. Ela deveria estar querendo se despedir. Eu deveria aproximar minha bochecha e pressioná-la contra a dela. Mas para que lado eu me aproximo? Direito? Esquerdo? Não há tempo para pensar. Direito. Eu só não esperava ela ter escolhido o mesmo lado. Nossos lábios se pressionaram um contra o outro e meus olhos fecharam-se automaticamente. Agora sim estava tudo acabado. Quando eu abri meus olhos novamente depois de alguns segundos, percebi que seus lábios ainda estavam contra os meus e que seus olhos também estavam fechados. Seus olhos se abriram e ela se afastou. Um silêncio mórbido alastrou-se pelo local e eu tinha até esquecido como respirar. Eu olhei para ela, sem conseguir estruturar algum tipo de resposta ou pedido de desculpas, por mais simples que fosse. Eu não conseguia pensar em mais nada se não no fato de que eu estava ali, com ela. Não achei que a nossa aproximação fosse ser assim tão repentina e facilmente. Mas ela ainda esperava pela minha resposta. Ela olhava para mim.
Diga alguma coisa, ela está esperando. QUALQUER coisa, mas diga alguma coisa, quaisquer palavras servirão.– Kira só disse que esse mundo está podre porque ele não viu o seu sorriso. “Kira só disse que esse mundo está podre porque ele não viu o seu sorriso.” Uma cantada? Não acredito que isso foi o melhor em que eu consegui pensar. Essas não foram as palavras que eu formulei em minha mente. O que acabou de acontecer? Mas que droga eu acabei de dizer? Ela vai pensar que eu sou um idiota. Por que cérebro? Por que me colocastes em uma situação dessas? Por que você funciona tão bem para resolver um mistério, mas não funciona quando eu mais preciso de você, quando eu estou com ela. Era uma simples resposta. Eu te odeio, cérebro.– É... eu não quis dizer isso... é... eu não sei o que aconteceu... me desculpe. – Não tem problema.– Kou, você é estranho – Era melhor não ter dito nada. Todas minhas chances de ser feliz com ela foram dizimadas. – Mas você é engraçado. Eu gosto de você – O que há poucos segundos era um mundo em ruínas, agora é um mundo belo e próspero. – Bom... te vejo por aí – Ela foi embora. O que tinha acontecido ali? Eu não sei.
Notas finais
É pessoal, parece que o nosso novo Kira também possui um lado humorístico. Evidenciado pela cantada de pedreiro otaku. lol
Kou em japonês pode significar Felicidade, Paz e Luz.
O que acharam da nova personagem?
Kou em japonês pode significar Felicidade, Paz e Luz.
O que acharam da nova personagem?
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