1 ano atrás

Faz quatro anos desde que eu a conheci. Em todo esse tempo nós nos tornamos grandes amigos, embora eu tenha lançado diversas indiretas indicando que não era na zona da amizade em que eu queria permanecer por muito tempo. Eu tinha medo de que se eu tivesse “A Conversa” com ela, ela pudesse me rejeitar e por consequência eu perderia a amizade dela pra sempre. Mas eu já estou nessa há tempo demais e eu decidi que eu preciso ter atitude.

Bianca Roma era uma garota que não amava apenas ler, como também escrever. Ela praticamente devorava livro após livro sem poupar tempo para a digestão. Antes que eu pudesse terminar de indicar um livro, ela me respondia com um “já li”. Eu perguntei pra ela porque ela amava tanto tal livro. Ela me respondeu durante uma semana. Era quase como se ela mantivesse um relacionamento sério com alguns personagens de seus livros. Para ela não bastava ler um livro, ela via todos os filmes do livro, lia histórias escritas por fãs baseadas no livro e escrevia suas histórias baseadas no livro. Eu costumava ler suas histórias e incrivelmente elas chegavam a ser mais entusiasmantes que o próprio livro em que ela tinha se baseado. Tanto que uma vez eu fiquei tão encantado e empolgado com sua história que resolvi mostrá-la para Ruvie sem que ela soubesse, para ver o que ele achava, com o objetivo de avaliar se era uma história apta para a publicação. Ruvie disse-me que não lia um livro tão bem escrito assim há muito tempo e que se eu quisesse, ele mesmo podia levar a história para que ela fosse publicada. Fiz tudo isso sem que ela soubesse e achei que seria uma linda surpresa para ela.

Eu esperei uma semana desde o lançamento do livro para saber como seria a recepção dele. Quando eu fiquei sabendo que ele tinha quebrado o recorde como o livro mais vendido em sua estreia e que já era o número um de vendas, eu quase não me contive de alegria.

Nós não costumávamos sair muito da Wammy’s House, mas eu gostava de acompanhá-la até a livraria para comprar seus livros prediletos. O que eu iria fazer agora era convidá-la para sair comigo, levá-la até a livraria onde sempre vamos e surpreendê-la com seu próprio livro.

E então, eu finalmente teria “A Conversa” com ela. Espero que dê certo.

Fui até seu quarto, bati três vezes em sua porta e ela me deixou entrar. Encontrei-a deitada em sua cama com um livro em mãos, como de costume. Tão linda como de costume.

— Hey, olha a Bianca lendo um livro... ôpa, essa foi pleonasmo.

— Oi Kou.

— Olá. Vim aqui pra saber se você está a fim de ir comigo na livraria comprar um livro que eu queria muito que você visse.

— Qual livro?

— É surpresa – eu disse com um sorriso contido no rosto.

— Você sabe que eu não gosto de surpresas.

— Eu sei, mas desta vez você vai ter que aguentar.

— Bom, tem um pequeno espaço vazio na minha estante de livros que está me incomodando. Então vamos – ela disse enquanto colocava seu livro cuidadosamente em cima da mesa e pegava sua bolsa.

— Vamos.

Era noite e fazia frio. Pelo menos é o que parecia. Eu possuía uma grande tolerância ao frio e só percebia que estava frio quando pessoas ao meu redor reclamavam dele. Bianca estava com três blusas, ela sentia frio muito facilmente.

Chegamos a livraria e logo eu vi dezenas de exemplares do livro da Bianca logo na entrada.

— Feche os olhos e estenda as mãos.

— Por quê?

— Você sabe, a surpresa.

— Meu deus, lá vamos nós – Ela fechou os olhos e estendeu as mãos em minha direção. Parecia impaciente.

Peguei o exemplar mais perto de nós e o coloquei em suas mãos.

— Pode abrir agora – Então ela abriu seus olhos e olhou o que estava em suas mãos, trouxe o livro para perto de seus olhos e disse:

- “Cinquanta toni del Bianca” * por Bianca Roma. Kou... o que é isso?

*(Cinquenta tons de Bianca ou Cinquenta tons de branco em italiano)

— É a sua história, Bianca. Aquela que você escreveu baseada em seu romance preferido. A história que me empolgou mais do que o próprio livro em que você se baseou. A história que merecia sair do seu bloco de notas para as páginas de um livro de verdade. Apenas me perdoe por ter trocado os nomes de todos os personagens do seu livro, já que eles não podiam ser os mesmos do seu romance preferido. E você me disse que estava com problemas para pensar no título da história, então eu também te ajudei com isso. E fique sabendo que seu livro é o número um de vendas em todo o mundo.

De repende o rosto dela se enrijeceu e transformou-se numa expressão de raiva e desgosto.

— Você acha mesmo que eu vou te perdoar pelo que você fez? Você acha que eu te perdoaria por ter tomado a minha história sem que eu soubesse, mudado os nomes de todos os personagens e ainda por cima ter publicado-a sem meu consentimento?

Eu não sabia o que dizer, eu achei que ela fosse gostar da surpresa. Mas que droga, agora está tudo acabado, ela não vai mais querer falar comigo e nunca vai me perdoar. Logo hoje que eu iria me declarar para ela.

— Se você acha isso, você está certo – Ela veio em minha direção e me abraçou intensamente.

— Essa foi a melhor surpresa que eu já tive em toda a minha vida, Kou. Foi provavelmente a coisa mais legal que já fizeram por mim.

Ela ainda me abraçava. Eu não queria que aquele momento acabasse. Nunca.

E então ela beijou minha bochecha e eu pude ver que seus olhos brilhavam devido ao que em pouco tempo se transformariam em lágrimas. Lágrimas de felicidade.

— É verdade mesmo que ele é o número um de vendas?

— Verdade verdadeira.

— Que incrível.

Enquanto eu comprava duas cópias de seu livro eu imaginava as palavras que eu iria dizer para ela no caminho para casa. O que eu sentia por ela simplesmente não podia ser expresso através de palavras, mas eu tinha que tentar.

Nós estávamos caminhando e eu comecei a “tentar” falar. Parecia fisicamente impossível colocar aquelas palavras pra fora da minha boca. Elas faziam o caminho todo, mas paravam na minha garganta. A força que eu fazia estava me fazendo suar e ter dor de cabeça, mas finalmente eu consegui dizer as palavras. Ou melhor, cuspir as palavras.

— Bianca... você é uma garota especial para mim a bastante tempo. A grande motivação que eu tenho para levantar da cama todo dia é simplesmente poder olhar em seus olhos. É sério, é como se por uma fração de segundo eu conseguisse enxergar o universo inteiro dentro deles. Se alguma vez eu fui bobo com você, foi só porque quando eu falo com você é como se não houvesse mais nada em minha mente, eu não consigo pensar em mais nada se não no fato de estar com você e é por isso que geralmente não consigo me expressar da melhor maneira. Eu queria evitar dizer que te amo para não soar tão desesperado, mas dane-se, eu te amo e sem você eu não sou. Eu preciso de você para ser. Dê-me a oportunidade de ser o homem mais feliz desse mundo e a chance de fazer o impossível pra te fazer feliz.

Mais nenhuma palavra foi dita e nós paramos de andar. Coube a ela quebrar o silêncio mórbido que se alastrara.

— Você se sente desta maneira por mim?

— Sim.

— A quanto tempo você sente isso?

— Desde que eu te conheci.

— Você tinha 5 anos e já era apaixonado por mim?

— Sim.

— É muito incomum uma criança de 5 anos se apaixonar desse jeito.

— Deve ser porque você é muito incomum.

— Ainda é estranho uma criança de 5 anos amando. Eu só fui começar a gostar de você no ano passado.

— Quando você diz “gostar de mim”... o que você quer dizer com isso?

— O que você acha, cabeção?

— ...

— Eu também estou apaixonada por você.

Muitos segundos se passaram e eu ainda não tinha assimilado as palavras que ela tinha dito. Será possível? Pode ser verdade? Espera um pouco... sim... é verdade.

Um sorriso de orelha a orelha brotou em meu rosto e no dela ao mesmo tempo. Nós nos beijamos.

O que eu senti naquele momento era simplesmente indescritível. Não há palavras que sejam boas o suficiente para explicar a sensação de beijar a mulher que você ama. Não havia mais nada naquele momento, apenas eu e ela, a minha respiração e a dela, minha boca e a dela, todos juntos em um só. O universo era obsoleto àquele momento. O “ao redor” não existia mais.

Nós separamos nossas bocas, demos nossas mãos e começamos a caminhar de volta ao orfanato. Aquilo não podia ficar melhor.

Minha felicidade foi interrompida por dois homens que andavam na nossa direção. Eu só os notei quando estavam perto demais. Os dois vestiam preto dos pés à cabeça, desde os sapatos até seus gorros. Um parecia ser um adulto, muito maior do que o outro que parecia ser um adolescente, era do meu tamanho. Seu rosto estava sujo e em sua bochecha esquerda havia uma cicatriz que formava um “X”. Olhei em sua mão e vi uma coisa metálica. Depois de uma avaliação melhor, eu percebi que o objeto metálico nas mãos do garoto era uma faca e que não havia outro motivo para ele portar uma se não atacar-nos. Também não haviam outras pessoas na rua para serem alvos deles. Mesmo que houvesse, duas crianças indefesas como nós seriamos os seus alvos prediletos.

— Passa a bolsa, agora – ele apontava a faca na direção da Bianca, o que fez meu coração disparar e o sangue pulsar em função da raiva e do perigo de perdê-la.

— Eu não vou passar nada – ela disse, contrariando o que uma pessoa normalmente faria.

Eu tentei raciocinar. Tentei colocar a razão à frente dos sentidos. Eu queria socar a cara do garoto que apontou uma faca em direção à razão da minha existência, mas o homem ao lado dele podia facilmente me derrubar, eu precisava estar de pé para protegê-la do acaso. O sensato a fazer era deixá-los levarem a bolsa.

— Bianca, entregue a bolsa.

— Mas o meu livro está aqui dentro – ela enfatizou o “meu”.

— Passa essa merda logo, garota – o garoto gritou enquanto puxava a bolsa dela e quando finalmente conseguiu arrancá-la, ele a empurrou bruscamente, o que fez com que ela caísse no chão. Porém, ela não caiu normalmente. Eu vi sua cabeça bater em um canteiro de concreto que rodeava uma pequena árvore.

— Bianca! – gritei em desespero pensando no pior. Os assaltantes já estavam longe a esta altura. Mas ela era mais importante agora.

Eu não estava tão desesperado até o momento em que eu vi a única coisa que eu temia ver naquele momento. Sangue.

— Bianca! Bianca! Fale comigo, você consegue me ouvir? Acorde, por favor, eu lhe imploro, acorde! – nenhum movimento era visível. Apenas o meu desespero evidente.

— Socorro, alguém me ajude, eu preciso de uma ambulância! Alguém tem um carro?

Aquela foi a primeira vez na minha vida em que eu precisei de um celular. Nenhuma criança precisa de um celular em um orfanato.

Após rasgar a manga da minha camisa e estancar o sangramento eu decidi carregá-la sozinho até o hospital mais próximo. Ou pelo menos o único que eu conhecia o caminho. Felizmente, eu lembrei que estávamos a três quadras do hospital e demorou pouco menos de um minuto para chegar até lá em minha velocidade.

— É uma emergência, ela bateu a cabeça e está inconsciente – cuspi as palavras sem fôlego para a primeira atendente que vi.

— Venha comigo até o pronto socorro.

Chegando lá eu invadi a primeira sala com um médico e coloquei a Bianca em cima da cama dele.

— Ela está inconsciente, bateu a cabeça e perdeu muito sangue, você tem que fazer algo!

— Entendi, mas por favor, você terá que esperar lá fora – Eu relutei, mas eu faria o que fosse melhor para ela agora.

Horas se passaram e ela não acordava. Ela continuava respirando, mas não abria os olhos. Horas transformaram-se em dias. Depois de dois dias dormindo no hospital à espera de uma boa notícia, o médico finalmente me deu uma... notícia.

— Seus sinais vitais estão se normalizando, porém temo que ela não possa sair desta cama e falar com você novamente por muito tempo. Ela está em coma.

Não tive forças para conter as lágrimas.

— Quanto tempo você acha que isso pode durar?

— No estado em que ela está... eu não posso criar falsas expectativas, então eu serei franco. Isso pode durar anos... pode ser pro resto da vida dela.

Eu não queria acreditar. Eu não conseguia acreditar. Não era possível que eu tivesse conseguido tudo o que eu queria e perdido tudo o que eu tinha na mesma noite. Era cruel demais pra ser verdade.

Notas finais
Bianca Roma... acho que escolhi este sobrenome pra ela simplesmente por ser "amor" escrito de trás pra frente.
Nome do próximo capítulo: Nascimento
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.