Death Conflict
1 Prólogo.
Notas iniciais
No meu quarto, tem uma janela bem grande, onde eu passo a maior parte do tempo, na qual dava para veras crianças brincando no parque do enorme prédio em que eu me encontrava no momento, alegres e sem preocupações ou medos, no meu quarto também tenho uma televisão pequena, a qual mal pega algum canal direito, assim como uma espécie de sofá de frente para a minha "cama" e uma poltrona confortável ao lado da mesma. Eu também tinha flores que me enviaram de presente decorando o quarto branco, era um lugar até que harmoniozo. O que mais me incomoda nele, são as máquinas em volta da cama, e os fios que ficam ligados ao meu braço durante a noite.
Eu não lembro quando eu comecei a detestar hospitais.
Talvez isso venha do motivo de eu estar aqui, no hospital infantil. Eu não tinha que estar aqui, eu não tinha que ficar metade do dia na sala de um piscólogo que o tempo todo fica apenas avaliando minha sáude mental, e a outra metade nesse quarto, onde minha médica e vários enfermeiros vem e vão, e muito menos eu tinha que aturar uma mulher que nunca havia visto na minha vida me observando o tempo todo e cuidado de mim , mais conhecida como assistente social.
Eu não tinha que estar aqui se eu não tivesse passado por aquilo.
– Toc toc. — uma voz amigável chamou minha atenção, fazendo-me desviar o olhar das crianças felizes para encarar a mulher que entrava no quarto.
A assistente social é uma mulher baixa e extremamente magra, tinha cabelos lisos e negros, bem-cortados na altura de seus ombros, da mesma cor de seus olhos pequenos e bondosos, seu nome é Midori, ela é uma boa pessoa, sim, mas não é nada legal ter alguém te observando vinte e quatro horas por dia, anotando seu comportamento e reações as coisas como se você fosse um animal em estudo.
– Bom dia. — tentei sorrir, mas pela demora dela a sorrir de volta, provavelmente deve ter saído mais como uma careta, faz muito tempo que eu não sorrio, talvez eu tenha esquecido como o fazer decentemente.
– Se sente mais disposta hoje, Lorelei? — Midori se paroximou de mim, animada, se sentando ao meu lado no pequeno sofá. — Sabe, já está a duas semanas aqui, está tendo uma melhora considerável.
O olhar dela me encorajava, talvez ela quisesse acabar com isso tanto quanto eu queria. Eu apenas queria poder sair daqui e finalmente me reencontrar com a minha família, a falta deles já me corrói a tanto tempo, que já é praticamente como sentir fome ou sono.
– Sim. — menti, mordendo o lábio inferior, como sempre faço quando minto.
A assistente social sorriu pra mim, visivelmente ansiosa, e se levantou, lendo algo em suas diversas anotações na caderneta que ela levava para todos os lugares.
– Isso é bom, você tem uma consulta com o doutor Akihiko, pronta?
Me levantei, forçando um sorriso confiante e ajeitando a saia branca que alguém deixara com as enfermeiras aqui para mim.
– Eu nasci pronta. — informei, tentando parecer o mais confiante possivel
– É esse o espírito, se continuar nesse ritmo logo sairá daqui! Por favor, me siga. — Midori se animou, saindo na frente.
– Você disse isso semana passada. — murmurei para mim mesma, suspirando e a seguindo, apertando minhas mãos uma na outra, tentando não ficar muito nervosa.
Enquanto caminhávamos pelo extenso corredor, alguns enfermeiros e até mesmo pacientes me cumprimentavam, alegres, na medida do seu possível, eu fiquei apenas duas semanas aqui, mas parece que não é só para mim que parece que se passou uma eternidade, já que todos aqui se conhecem e conversam como se fossem amigos a anos, talvez seja a solidão dos nossos quartos de hospital que faça isso conosco.
A sala do meu psicólogo ficava no fim do segundo corredor, não era dificil chegar lá, mas eu já sabia ir até o local de olhos fechados, o que me incomoda um pouco. Não demorou muito até que eu e Midori estivéssemos batendo a porta do doutor Akihiko, que quase imediatamente, mandou-me entrar.
– Boa sorte. — desejou Midori, abrindo a porta para mim.
– Valeu. — murmurei,entrando, e ouvindo a porta bater atrás de mim, me fazendo soltar o ar que sem perceber, eu prendi.
Akihiko era um homem um pouco intimidador para um psicólogo, de cara, mas todos dizem que é um dos melhores, então eu realmente não sou ninguém para julga-lo. Sentei-me em frente a ele, com a escrivaninha dele, por sorte, entre nós. Ele realmente era assustador.
– Bom dia, srta.Asahina. — ele cumprimentou.
– Bom dia doutor.
O homem a minha frente, além da sua expressão dura, tinha cabelos rebeldes castanhos, seus olhos eram um pouco mais claros que seu cabelo, sua aparência fazia ele parecer estar no auge dos trinta anos, se não fosse por ele me dar um pouco de medo, eu o acharia um homem bonito.
– Tem algo novo que queira me contar? — Akihiko perguntou, me encarando como se quisesse ler minha alma, como ele sempre fazia.
– Eu já te contei tudo que tinha para contar. — suspirei.
– Então conte novamente. Com o máximo de detalhes possíveis, finja que está novamente na delegacia, e eu sou o policial, responda minhas perguntas e diga a verdade e nada além da verdade, estamos combinados? — Pediu. Concordei com a cabeça, já acostumada com esse discurso. — Comece pelo dia do sequestro.
Respirei fundo, repetindo a história que já contei para os policiais e para Akihiko várias vezes.
– " Eu tinha dez anos, meu irmão adotivo mais velho, Iori, tinha me levado para brincar em uma floresta que havia um perto da nossa casa, sempre íamos lá. Tudo estava normal, até acabarmos brigando por um motivo bobo, eu gritei com ele e saí correndo..."
– Por que vocês brigaram? — o psicólogo perguntou, me pegando de surpresa, era a primeira vez que ele me interrompia para fazer perguntas.
– Bom, eu acho que foi por que ele ia perder a brincadeira, então fingiu que havia se machucado, me fazendo ir até ele para o ajudar e quando eu cheguei perto, Iori me empurrou, acabando por me ultrapassar. Eu fiquei muito brava, eu era um pouco...sensível, então acabei gritando com ele que ele deveria ter melhores modos para com as damas e ele só sabia rir da minha bronca, então acabei explodindo e disse que o odiava, antes de sair correndo. — jorrei as palavras, engolindo em seco ao terminar, eu me arrependia profundamente de terem sido essas minhas últimas palavras para Iori, queria poder ao menos ter me desculpado na época.
– Entendo. — Akihiko anotou tudo em sua prancheta, com calma. — prossiga com a história.
–"...eu fiquei rondando pela floresta até perceber que estava escurecendo, então resolvi voltar para a casa, mas eu não encontrava o caminho de jeito nenhum, sempre acabava no mesmo lugar de onde havia começado. Depois de rodar bastante, encontrei um senhor que de vista, parecia bastante simpático, e me oferceu ajuda para voltar para casa, e eu aceitei. Foi só eu me distrair, que perdi a consciência, e quando acordei novamente, eu estava presa em um quarto escuro, com outras cinco garotas..."
– Quem eram essas garotas?
– As outras sequestradas. — informei, vagamente, me recordando das meninas, foram minhas únicas companheiras esses anos todos, e agora estávamos separadas.
– Eram amigas? — ele perguntou, interessado.
Ponderei bastante sobre essa questão, não éramos exatamente amigas, mas também não éramos colegas ou desconhecidas, uma protegia as outras, uma mantinha a outra sã, impedia de fazer besteiras e tentávamos ser carinhosas e gentis, não querendo que as outras caíssem na completa depressão, como...irmãs?
– Não. — respondi, direta, o surpreendendo. — éramos quase irmãs, uma era a proteção da outra, o porto seguro, nós mantinhamos umas as outras sãs e nos impediamos de cometer loucuras ou até mesmo entrar em depressão.
– Muito interessante. — ele sorriu. — você tem quantos irmãos mesmo?
A pergunta me fez desviar o olhar, encarando a escrivaninha de madeira, nunca senti tanta saudades de alguém quanto sinto da minha família, o tempo inteiro sempre me pego pensando neles, em como devem estar agora, e se ficaram bem sem mim. Todo dia eu espero uma visita de qualquer um, qualquer um mesmo, mas minhas esperanças vão diminuindo a cada dia, principalmente depois de ouvir duas enfermeiras dizendo que ninguém vinha me visitar graças a esse maldito psicólogo, que afirmava que são muitas pessoas e que eu poderia acabar me assustando.
Eu não me assustaria com meus próprios irmãos.
– Doze adotivos e um biológico. — respondi, notando que minha voz estava embargada.
Por um tempo, apenas ouvi o barulho da caneta do doutor Akihiko escrevendo furiosamente em sua prancheta.
– Pode prosseguir sobre o acontecimento, por favor. — ele pediu, ainda anotando.
– Tudo bem. "...Eu já estava bastante assustada aquela altura, encolhida no mesmo lugar no qual eu estava dormindo, eu apenas queria voltar para a casa e ver minha família novamente, uma garota, a maior delas e aparentemente a mais madura e menos assustada, perguntou meu nome e idade, acabei me apresentando para elas, após isso, ela me informou o que havia acontecido. Um homem que ultimamente estava sendo perseguido pela polícia Japonesa, estava sequestrando meninas entre doze e nove anos, ninguém ali sabia exatamente o motivo, mas cinco garotas já haviam desaparecido, e eu era a sexta. Eu não me lembro como ao certo, mas sei que ele havia fugido do país conosco. Ele dizia que nós éramos filhas dele, e que deveríamos nos dirigir a ele como " papai", junto dele tinha uma mulher, que nos dizia que ela era nossa irmã mais velha. Demoramos muito, mas um dia Akisa, a mais velha de nós, descobriu o porquê de tudo isso. Esse homem era normal no passado, até um certo incêndio em sua casa, no qual ele perdeu seis de suas filhas mais novas e sua esposa, a única filha sobrevivente era a mulher que vivia o seguindo. Ele acabou ficando louco, e querendo suas filhas de volta, encontrou os seis alvos mais parecidos com suas meninas, nós. Chegaram a descobrir sua identidade, mas nunca realmente encontraram o nosso sequestrador " — respirei fundo, eu detestava ter que contar essa história várias vezes, já foi traumático o bastante vivencia-la.
– Vocês estudaram? — perguntou o doutor.
– Sim, a mulher era professora antes de tudo isso. — contei, relembrando da experiência terrivel que foi ter aula com ela.
– Certo...continue.
Suspirei, tentando manter a calma, depois de tantas vezes repetindo tudo isso, eu já deveria estar acostumada, realmente deveria.
– " Fomos crescendo em cativeiro, uma tentava ajudar a outra, impedindo que todas nós fossemos a loucura também. Quando as mais velhas começaram a ganhar corpo, o sequestrador começou a...- fechei os olhos, as palavras pareciam não querer sair da minha boca, era terrível, os gritos de Akisa ainda me atormentavam antes de dormir, e eu nunca pude ir ajuda-la. — ...ele começou a abusar delas, e ele estuprava Akisa constantemente. "
– Ele chegou a lhe tocar?
Aquela pergunta do psicólogo me fez ter calafrios, só de pensar nisso, meu estômago revirava, e eu sentia vontade de jogar tudo que eu comi a vida inteira para fora.
– Felizmente, não. — suspirei. — Mas ele tentou, naquela noite...
Akihiko parou de anotar em sua prancheta, me encarando curioso, seus olhos brilhavam de uma forma estranha, o que me fez recordar; Eu não havia comentado essa parte dos acontecimentos com ninguém, nem mesmo com o delegado que me interrogou.
– Parece que chegamos em um ponto novo, Lorelei. — o homem na minha frente sorriu, orgulhoso e interessado. — se sente segura para me contar o que aconteceu naquela noite?
Encarei o meu psicólogo, olho no olho, como ele fazia comigo, tentando encontrar algum tipo de segurança ali. E para minha sorte, ou não, o olhar dele me passava confiança e segurança, como se eu pudesse contar meu segredo mais cabuloso para ele, e aquele segredo morreria com Akihiko.
– Sim, doutor. — soltei, respirando fundo antes de começar a falar. — " Há duas semanas e meia atrás, era a noite do meu aniversário de dezesseis anos, depois das meninas cantarem parabéns para mim, todas fomos dormir, por incrível que pareça, cada uma tinha seu quarto, já que desta vez estávamos presas em uma casa abandonada em um lugar qualquer, eu já nem me importava mais, apenas queria voltar para a casa, mesmo depois de tantos anos.
No meio da noite, eu acordei com o barulho da cama rangendo, e eu percebi que alguém havia se sentado na cama. Ao me levantar, me deparei com aquele homem, mas antes que eu pudesse gritar ou pedir ajudar, ele foi rápido e tapou minha boca, me fazendo soltar gritos abafados — quanto mais eu falava, mais minha voz ficava fraca, apesar de eu estar tentando me manter firme ao contar essa cena, a cena que aparece nos meus pesadelos todas as noites. — ele ia me deitando na cama, e eu já estava aos prantos ao perceber o que ele ia fazer, eu me remexia e esperneava, mas nada adiantava, eu estava muito fraca, não comia direito a tempos, e ele era bem mais forte que eu...no momento em que eu senti aquela mão suja tentando levantar a minha blusa, eu tentei soltar um último pedido de socorro, e ao mesmo tempo, o sequestrador gritou em agonia, como se uma dor terrível o consumisse por dentro, ele caiu da cama, com as mãos sobre o peito, como se a dor toda viesse dali, eu entrei em choque ao perceber que aquele criminoso, tinha acabado de ter um ataque cardíaco. "
Assim que terminei de contar tudo a Akihiko, voltei a encará-lo, já que o tempo todo eu olhava para a escrivaninha, como se fosse a coisa mais interessante do mundo, e ele parecia bastante calmo enquanto anotava de vagar as coisas em sua prancheta.
– Vou lhe fazer uma pergunta, e quero que seja sincera, Lorelei. — ele disse, após terminar de escrever, e apoiar a prancheta em sua mesa, assenti, esperando com que ele falasse. — Você acha que isso foi um simples acidente?
Eu nem precisei pensar muito para responder essa pergunta, cujo a resposta estava na ponta da língua.
– Não, doutor. — respondi, convicta. — foi Kira que o matou, eu tenho certeza. Todos perceberam que alguém está punindo os criminosos, e é ele quem o faz, com esse não foi diferente.
– E você é grata a ele?
– Me responda você, doutor, você seria grato a alguém que salvou a sua vida?
Akihiko me analisou daquela mesma forma de sempre, como se quisesse ler minha alma, concordando com um aceno após um tempo.
– Tem razão. Sabe Lorelei, essa é a primeira vez em todas as nossas consultas que eu senti que você realmente conseguiu se abrir, eu acho que temos um enorme progresso aqui. — pela primeira vez, vi meu psicólogo sorrir verdadeiramente, como se estivesse feliz em finalmente ter conseguido arrancar algo de mim. — está liberada.
– Obrigada.
~*~*~*~
– Tudo certo com você mocinha! Todos os seus exames deram negativo e a senhorita está livre de doenças! Claro que uma hora ou outra uma pequena virose pode chegar, nunca sabe o que se esperar desses vírus.
Sorri amarelo para a mulher sorridente de jaleco na minha frente, mais conhecida como doutora Yukki. Ela é uma moça com olhos verdes bondosos, um sorriso simpático, cabelos grisalhos e jeito de mãezona, é uma ótima médica, apesar de que as vezes ela exagera um pouco tentando ser amiga dos seus pacientes.
– Obrigada, doutora. — agradeci, enquanto ela felizmente retirava aqueles tubos do meu braço.
– Que isso querida, esse é o meu trabalho. — Yukki afagou os meus cabelos, animada — agora se me dá licença, tenho que dar uma palavrinha com sua assistente social, tchauzinho!
– Tchau. — respondi, enquanto observei a doutora fechar a porta atrás de sí.
Continuei encarando a porta por mais um tempo, já que eu não tinha muito o que fazer ali dentro mesmo. Cansada, me deitei na cama onde eu estava antes, sentada, e tateei o criado-mudo ao lado, até sentir o controle remoto da TV. O peguei ligando a mesma em algum canal que pegasse.
Como eu não tinha nada para fazer, acabei ficando um bom tempo jogada na cama, vendo um filme antigo qualquer.
– Lorelei!
Dei um salto assustado, quase caindo da cama, enquanto Midori entrava no quarto, berrando meu nome.
– Ai meu deus. — suspirei. — você quase me matou de susto!
Ao olhar para Midori, não pude deixar de notar o quanto ela parecia radiante, como se tivesse acabado de receber a melhor notícia do mundo, me deixando curiosa.
– O que aconteceu? — perguntei.
– Você não vai acreditar! — a mulher se aproximou de mim, envolvendo minhas duas mãos nas suas, seu sorriso era quase maior que seu rosto. — você recebeu alta!
Demorei um tempo para assimilar a notícia que havia acabado de receber, encarando embasbacada a assistente social saltitante na minha frente. Realmente, ela havia recebido a melhor notícia do mundo. Isso significa que eu vou poder, finalmente, voltar para a casa.
– Então eu posso voltar pra casa?! — exclamei, ansiosa.
– O quanto antes! Consegui convence-los de que você só precisa de mais algumas horas em observação, eles entrarão em contato com sua mãe agora mesmo!
Sem pensar duas vezes, puxei Midori para perto, a abraçando com toda a força e gratidão que eu tinha naquele momento, eu devia minha vida a essa mulher.
– Obrigada, obrigada! — agradeci, provavelmente a sufocando naquele abraço.
Senti que Midori me abraçou de volta, e ouvi sua risada perto do meu ouvido, ela parecia tão feliz quanto eu.
Eu tinha vontade de sair pulando pelo quarto inteiro, e sentia meu corpo esquentando, talvez meu coração estivesse tão acelerado que se eu estivesse ligada na máquina de batimentos cardíacos, achariam que eu estava enfartando.
Finalmente voltaria para a casa.
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