Dear Sophia
41 XL
Notas iniciais
Dedicado ao meu irmão, pois sem toda sua ajuda e seus conselhos, ainda estaria perdida.
♥
Pov. Samantha Agatha Phelps
Eu tinha pouco tempo e... Pouca criatividade também. Mas Lilah merecia um chá de bebê decente... Então, chamei a Alley, irmã do Nath e começamos a fazer as coisas.
Primeira coisa era decidir o dia. Eu cogitei dia 13, mas ela falou dia 25... E 25 me lembra coisas boas, então... Ficou dia 25 de janeiro.
Mas o maior problema seria a decoração. Como sabíamos que os Cusfofos eram um menino e uma menina (vou ter sérios problemas para chamá-los de Sophia e Thiago), a decoração tinha que ser mista... E eu estava tentando evitar o derradeiro rosa. Afinal, toda bebê usa rosa e a Cusfofo, ops, Sophia seria diferente.
– Alley, que acha de verde? — perguntei.
– Pra Cusfofo fêmea? — Ela perguntou, levantando uma sobrancelha. Parece que não sou só eu com dificuldade em chamar pelo nome...
– Por que não? Verde é bonito. E combina com lilás. — eu amo verde e não deixo ninguém falar mal dessa cor.
– Verde bandeira, musgo, claro, folha ou água? — Ela perguntou, fazendo eu revirar os olhos. Esse povo que gosta de complicar.
– Ah, sei lá, água, afinal, é só um bebezinho, o bebezinho mais amado desse planeta. — Claro, ele tem a tia Sammy.
– Isso não inclui sua mãe ou o Brendon né? — Ela perguntou, com um sorriso no rosto.
– É óbvio que aquele corno dos infernos que merece morrer não está incluído, e muito menos aquela imbecil feiosa e nojenta. — respondi, tentando rir.
– Agora estou com medo. — Ela disse, olhando para mim. — E essa fita, coloca aonde?
– Põe perto daquele holofote. — Lilah iria odiar os holofotes, mas momento diva, né?
– Tem certeza que quer por holofotes, Samantha? — me perguntou Alley, fazendo uma careta.
– Ela tem que superar essa aversão a exposição. Ela está linda e tem que aparecer mesmo. — respondi, com um sorriso.
Estava realmente ficando bonito. Havia laços, cachecóis de plumas, e até meias pequenas de bebê enfeitava o lugar. Mas tinha um problema: aonde estava aquele livro que Lilah gostava de ler? Aquele da menininha Sophia?
Embora eu não estivesse achando o livro, eu tinha algo que lhe fizesse lembrar do livro: pequenas sapatilhas. Procurei algo legal que me lembrasse de meninos, ainda mais meninos bebês, mas só o que me surgiu na cabeça foram bichinhos. Juro, não tinha ideia melhor e Alley estava sem inspiração. Então pegamos bichinhos de pelúcia e espalhamos pela sala. Desde ursinhos, a cãezinhos e leõezinhos. Então a sala estava cada vez mais fofa. Foi aí que revoltei e sumi com os ursinhos. E mudei o tema completamente, botando algo mais... Másculo. O tema do Cusfofo Macho era marinheiro agora. E tinha direito a decoração com mar e tudo.
Alley me olhou, surpresa. Acho que ela não sabia ainda que de vez em quando dou um piti. Agora ela já conhecia Samantha Phelps de verdade. Aposto que ela ficaria chocada em saber que eu já fiz uma fogueira pra protestar...
A campainha tocou e eu fui atender. Quando eu vi quem era juro que quis bater nele.
– Jason Joey Phelps! O que você tá fazendo aqui? Deixei bem claro que em chás de bebês, só mulheres!
– E por acaso você acha que eu vou deixar o Nathaniel sem comemoração nenhuma? To fazendo um chá-bar.
– Chá-bar? — Alley perguntou, estreitando os olhos.
Pov. Delilah Lilith Phelps
Pra falar a verdade, quando a Samantha me chamou pra ir na mansão Phelps, eu senti um misto de medo e curiosidade.
Medo porque eu não sei se conseguiria ver o rosto de Monique sem querer meter a mão na cara dela, o que seria totalmente inaceitável. E curiosidade porque ela, do jeito que é, devia estar aprontando alguma coisa.
Eu estava bem ansiosa pra ver o que ela estava aprontando.
– Amor? — Nath me chamou, enquanto eu estava me trocando.
– Opa! Não bate mais na porta não? — Perguntei, colocando o vestido por cima do corpo. Ele riu e se aproximou de mim.
– Desde que você virou minha namorada e eu já te vi nua incontáveis vezes... — Ele respondeu, enlaçando minha cintura. — Acho que tenho o direito de entrar sem bater na porta.
Sorri e beijei seus lábios.
– Você é chato. — Mostrei a língua.
– Eu sei. Vamos então? — Ele perguntou, enquanto eu colocava o vestido e bagunçava os cabelos.
– Que foi? — Perguntei, percebendo que ele me encarava.
– Você fica linda de qualquer jeito. — Ele respondeu, me abraçando.
– Obrigada, vou ali vomitar algum arco íris. — Ri, enquanto o beijava novamente.
Nos separamos e fomos até a porta.
POV. Alley Cora Coller
Olhamos o resultado final.
– É.... Ela vai gostar! — concordei. Metade da sala estava cheia e mini-barcos e ancorazinhas, o outro, cheio de bonecas de pano com vestidinhos de algodão e enfeitas de cor lilás.
– Fomos nós que fizemos tudo isso... — Sammy parecia não acreditar muito, e eu também não!
Já havia reconhecido as habilidades da minha concunhada de longe, e sabia que ela não iria se contentar com nenhuma... ‘porcaria’. Se era pra fazer, iria fazer bem feito.
– Sim, Sammy! Nós, as tias mais divas do mundo caprichamos! — nos abraçamos.
– Como diria minha professora de literatura — ela falou saindo do abraço — Isso não é ‘pouca merda’, é uma fossa inteira! No sentido bom, é claro! — nós rimos.
A campainha tocou e foi uma maratona pra atender. Sim, Samantha ganhou.
Ela sorriu pra mim enquanto abria a porta.
– Alicia! — ela e uma garota ruiva se abraçaram. Depois entrou uma outra ruiva, que devia ser irmã da primeira, chamada July. Atrás dela, vinham mais duas garotas de mãos dadas. A que entrou primeiro tinha cabelos castanhos e lisos. Usava uma roupa um tanto chique demais.
Essa guria queria competir comigo? Logo hoje que eu estava estreiando o vestido novo que a Sammy havia me dado de Natal — e que, diga-se de passagem, combinava com o lado da sala do Cusfofo Fêmea!
Ela me olhou de cabo a rabo e disse um ‘oi’ meio seco, enquanto a outra garota, era loira e tinha algumas mechas mais claras no cabelo. Estava igualmente elegante. Quase lembrei para as duas que inveja matava, quando ela me deu o mesmo olhar.
– Bom, Alley, essa é a Mirella e a namorada dela, a Tracy! — Sammy apontou respectivamente para a garota de cabelo castanho e, depois pra loira, que me lançou até um pequeno sorriso. — Meninas, essa é a irmã do Nathaniel. — nos cumprimentamos e elas foram se sentar na sala.
– Você é a irmã do Nath? — a ruiva chamada Alicia, que devia ser namorada do JJ, sorriu pra mim.
– Sim, e você é a namorada do JJ, certo? — ela assentiu e nos comprimentamos. Falei também com a irmã dela, July, que era mais reservada e um pouco menos ruiva.
Elas se dirigiram para a sala, enquanto eu puxava a Sammy pra um canto.
– Por que aquelas duas me olharam daquele jeito?
– Por que...
– Tipo, eu sei que elas são lésbicas e talz, mas...
– Alley, a Alicia namora o meu irmão, e a July é a irmã dela!
– NÃO! — eu quase gritei — Não! — abaixei meu tom de voz para as convidadas não se assustarem comigo logo de cara — Eu tô falando da Mirella e da Tracy.
– Ah! Bom, quando uma garota, que é lésbica, olha pra você e da um sorrisinho... Nossa, acho que ela te achou bonita!
– O quê?!
– Na mesma situação, quando a namorada dessa garota te olha feio, ela te achou bonita e teve ciúmes de você! — Sammy saiu saltitante para a sala, como se o que tivesse me falado fosse super normal.
– Claro, como se ter uma garota te achando bonita e a namorada dela querendo te esganar, fosse super normal!
Me ‘recuperei’ e voltei pra sala.
POV Samantha Agatha Phelps
Tava daqueles climas de sala de espera de urologista na sala. Alley que o diga.
Mirella ainda encarava Alley. Eu sei que ela era uma morena bonita, mas... Também não precisava fulminar a minha princesa!
A campainha tocou de novo e lá foi a luta de gladiador para atender a campainha entre eu e a Alley. Ela é uma maluca, meu Deus.
Abri a porta e vi uma mulher morena e um tanto baixa, com os cabelos negros e enrolados. Atrás dela, tinha uma outra mulher, mas mais velha. Mary e Prudence Coller, eu pensei. Dei meu melhor sorriso de anfitriã (que cá entre nós, não é grande coisa) e disse:
– Olá, sou Saman...
– A tal da irmã da namorada do Nathaniel? — me cortou a Mary. Vontade de bater em 3... 2... 1...
– Mãe! Não seja assim com Sammy. — disse Alley, séria.
Dei de ombros. Já fui tratada pior. Convidei, educadamente elas para entrar. Só Prudence foi cortês comigo.
Jesus. Educação, pra quê?
Mal eu fechei a porta, a campainha tocou de novo.
A abri e vi uma mulher alta e à cima do peso, com um sorriso no rosto e os cabelos castanhos caindo nos ombros, com algumas mechas brancas.
– Você deve ser Samantha, a irmã daquela mocinha fofa. — ela sorriu, me abraçando. Fui pega de surpresa com esse gesto, mas o retribuí.
– Você deve ser Olívia, a do abrigo de crianças especiais. — falei, enquanto nos desgrudávamos.
A mulher entrou e sentou ao lado de Mary.
Fechei a porta e observei todas aquelas mulheres sentadas, esperando Lilah chegar.
Ela não sabia que estávamos fazendo um chá de bebê. Só espero que não me bata quando descobrir.
POV Delilah Lilith Phelps
Chegamos em minha antiga casa e eu toquei a campainha, ignorando o frio na barriga que aquela grossa porta de madeira me proporcionava. Ao chegar, vi JJ saindo de um lado, pegando Nathaniel pelo braço.
– Você, pra cá.
– Ma-ma-mas... — ele começou, mas Jason não o deixou terminar.
– Vamos.
Toquei a campainha, enquanto meu namorado e meu irmão desapareciam no jardim da casa. Ouvi um barulho estranho, como um tropel e de repente a porta abriu, aparecendo as morenas loucas que eu tanto amo: Alley e Sammy.
– Olá, minha querida irmãzinha. — disse Sammy. — Para começar, deixe-me te por essa venda.
– Hn... Oi? — Murmurei, enquanto ela me tapava os olhos. — Alley, o que ela tá querendo? To com medo!
– Ela vai te sequestrar e nós três vamos pra Las Vegas. — respondeu minha cunhada, rindo.
Aquilo não me acalmou.
Ouvi o barulho da porta abrindo completamente. Samantha me conduziu até um ponto onde podia sentir um tapete macio.
– Então, meninas? Recebam a nossa linda grávida, Delilah!
Então ela tirou minha venda. Senti meus olhos encherem de lágrimas assim que vi as pessoas que estavam por ali. Todas as que eu gostava, Alicia, July, Mirella... E então vi Olívia, o que me deixou superfeliz, e minha sogra, com sua mãe. Sorri para ela — não estragaria minha felicidade agora — e a mulher apenas assentiu de volta.
Olhei para o lado e vi uma cadeira, uma faixa e um monte de coisas. Maquiagens, tintas... Tudo que Samantha e Alley precisam para fazer uma festa. Em mim.
Ao lado das coisas, uma pilha de presentes embrulhados. Aí que tive mais vontade ainda de chorar. Olhei mais para a frente e vi... Holofotes. Fiquei parada, apenas olhando aquela... Coisa.
– Samantha, tá tudo ótimo, maravilhoso... MAS PORQUE TEM HOLOFOTES AQUI? — Perguntei, indignada.
– Você é nossa diva e merece destaque. — disse ela, andando para trás defensivamente.
Fiz um biquinho e suspirei. Elas deveriam ter ficado muito tempo ali, arrumando tudo.
– Vamos, Dee. Uma vez na vida não mata ninguém. — disse Alley.
– Tá, tá. — Falei, desistindo.
– Venha, temos muito a fazer! — Sammy exclamou. — Agora precisamos de um nome pra ti.
– Me chamo Delilah, prazer. — Falei cinicamente, estendendo uma mão pra ela.
– Não esse, criatura. Pelo amor de Deus, você nunca foi a um chá de bebê?
– É... Não? — eu respondi. Minha irmã é tão louca. Puxei-a para perto, aproveitando que todas as convidadas estavam conversando e sussurrei: — Lembra que nossa mãe te puxava pra essas festas, porque eu não me comportava?
– Okay, bora explicar: durante um chá de bebê, nós damos um nome para a grávida, e quem não a chama por esse nome, paga mico.
– E qual é esse nome? — Perguntei.
– É isso que temos que decidir.
– Gerisclene. — Alley murmurou.
– Que? Eu prefiro Katthysléia.
– Katthysléia então... — Ela riu, se atrapalhando pra falar o nome.
– Tá, vamos começar. — Samantha disse, atraindo a atenção de todas.
– Qual vai ser o nome? — perguntou Olívia.
– Katthysléia. — disse Sammy, sorrindo.
– Como é? — falou Mirella, surpresa. — Katthysléia? De onde surgiu isso?
– E eu lá sei? — disse Samantha, com um sorriso que mal cabia no rosto. — Katthyléia, sente aqui. Vamos começar com os presentes. Eu vou te passar um embrulho e você tem que descobrir de quem é. Se acertar, a pessoa paga mico. Se errar, você paga. — Sammy parecia nas nuvens.
– E a parte do “errar o nome paga mico”? — Perguntei.
– Que tem? — ela perguntou, surpresa. — Não ficou bem explicado, por acaso? Quer que eu desenhe?
– Ficou. — Sorri. — Muito bem explicado, maninha. Tanto que você errou meu nome e vai ter que pagar mico! É KatthySléia. Tem “s”.
– PEGA O BATOM DE PIMENTA! — disse Alley, sorrindo.
– Ferrou. — disse Sammy. — O batom de pimenta é crueldade!
– Querem ajuda? — disse Mirella. Samantha fez cara de terror. — Samantha, não é tortura, é mico. Lembra?
Ela suspirou.
– Tudo bem, batom de pimenta nos outros é refresco. — Minha irmã falou, me fazendo rir.
– Tudo bem, De... Katthysléia, me passa o batom? — disse Alley.
– Ela disse! — disse Sammy, com um sorriso. — Eu ouvi!
– Ela disse Dee. — disse Alicia. Todos olhamos para ela.
– Acho que agora você vai ver Samantha de verdade. — eu disse, olhando para a ruiva.
Sammy começou a fuçar entre tintas e coisas assim. Tirou de lá uma tinta vermelho-escarlate e sorriu.
– Cunhada ruiva linda, vem cá!
– Ah não, não, não! Samantha! — ela gritou, enquanto minha irmã ia pra cima dela. Ela pegou a ruiva pelo braço e sentou ela num sofá.
– Cuidado para não manchar o sofá! — eu disse, sorrindo.
– Não se preocupe. Eu não vou desperdiçar tinta. — falou minha irmã, dando os últimos retoques na cara da nossa cunhada.
Quando ela nos deixou ver, eu explodi em gargalhadas. Alicia tinha um... Pênis desenhado no rosto.
Demos bastante risada com os micos que as pessoas ocasionalmente precisavam fazer.
Estava tentando adivinhar um último embrulho, quando a porta se abriu e todos ficamos encarando uma mulher alta, magra e com um rosto momentaneamente surpreso.
– Mãe... – Samantha falou, tirando o sorriso do rosto instantaneamente.
– O que é isso? – Ela perguntou, olhando aquelas mulheres que ela nunca tinha visto antes. E então seus olhos verdes pousaram em mim.
Eu estava parecendo uma palhaça. Tinham pintado mechas do meu cabelo de rosa, tinham feito uma carinha de gato em meu rosto, o batom vermelho foi seguindo até o meio das bochechas, eu tinha um nariz de palhaço e minha barriga estava com um desenho estranho. Alley tentou fazer um panda em minha barriga.
Levantei da cadeira e abaixei a blusa, vendo seus olhos pararem em meu ventre. Soltei os cabelos e ela deu um sorriso irônico.
– Está parecendo menos idiota com o cabelo solto.
Não respondi, continuei olhando para ela.
– Não sabia disso? – Perguntei, um tantinho magoada.
– O que? Essa vulgaridade toda? – Ela deu um sorriso de escárnio. – Claro que sabia. Acha que, se eu não soubesse, deixaria esse bando de gente entrar na minha casa? – Ela deixou a pergunta no ar e foi andando até o próximo cômodo, a sala de jantar.
Fui atrás dela e decidi virar à direita, em um banheiro mínimo com pia e privada que era tido para casos de urgência, como lavar um ferimento, vomitar etc e tal.
Fui até ele e lavei o rosto. Assim que minha pele voltou a cor normal, me sequei e fui até a sala de jantar. Minha mãe não estava lá.
Subi as escadas e vi que todas as portas de todos os quartos estavam fechados. Bati duas vezes na porta de madeira pintada de branco, onde o maior dos quartos ficava. O dos meus pais.
– Entre. – Minha mãe falou, cortês. Entrei e a encontrei passando creme no rosto bem cuidado e muito jovem para a idade.
– Mãe... – Chamei, murmurando.
– Que quer, Lilith? – Ela perguntou, sem olhar para mim.
– Conversar. – Falei, encontrando com os olhos dela no reflexo do espelho.
– Não temos o que conversar. – Ela respondeu friamente.
Fechei a porta e suspirei.
– Mamãe? – Chamei, cansada.
– Que? – Ela olhou para mim.
Éramos realmente parecidas. Mesmo formato de rosto, mesmos cabelos, mesmo corpo...
Dei alguns passos para perto dela e respirei fundo.
Como era difícil falar algo assim.
Olhei para seus olhos verdes e me esforcei muito para colocar meu orgulho de lado e contradizer toda a razão. Depois de travar uma imensa luta contra mim mesma, consegui abrir a boca e dizer:
– Me desculpa. Você é minha mãe. Por mais que me magoe, eu entendo que você não fez por mal quando me escondeu que meu pai não era o George. – Falei com muito custo, olhando em seus olhos. Ela não respondeu, então continuei: — Olha, eu só sou assim, revoltadinha e sempre contrariada, porque cansa essa vida de regras de conduta, bom comportamento e burguesia. Cansa. E muito. E você nunca me agradeceu por fazer alguma coisa, nunca me elogiou por tal comportamento... Eu nunca, nunca, recebi incentivo. Me desculpa se fui um empecilho em sua vida, mas esse empecilho também tem sentimentos e...
– Delilah. – Minha mãe me interrompeu. – Você está grávida, vai se colocar em meu lugar materno e vai entender que qualquer mãe, qualquer uma, quer o melhor para os filhos. Sempre fui mais dura com você do que com o Jason ou a Samantha, mas por que me importo com você. Se não tivesse te confrontado e se não tivesse sido rígida com você... Não seria do jeito que é hoje. Não teria essa opinião tão forte sobre o mundo e a concepção do que quer... Se você não tivesse saído de casa... Ou melhor, se eu não te fizesse sair de casa, você talvez não tivesse ficado com aquele seu namorado, não arrumasse sua própria casa, não amadurecesse... Entende que, se não fosse desse jeito, você não estaria tão feliz agora? – Ela perguntou, me olhando profundamente. Senti lágrimas se acumulando em meus olhos.
No fundo, depois de tanta briga, eu pude perceber que eu nunca fui nada além de uma criança precisando de amor, carinho e atenção. Que eu coloquei uma barreira entre mim mesma e a única pessoa que poderia satisfazer essa minha carência.
– Delilah. – Minha mãe respirou fundo. – Eu sei que eu fui muito grossa nesses últimos quinze anos... Eu achei necessário...
– Mãe. – Chamei, sentindo lágrimas insistentes descendo por minhas bochechas.
– O que? – Ela perguntou, visivelmente tentando conter as lágrimas também.
– Eu te amo. – Falei com a voz embargada. Não interessava o passado. Nós duas sofremos muito, porque agora, como futura mãe, eu entendo que nosso amor por um filho é maior do que qualquer outra coisa. Impossível que minha mãe, que é minha mãe¸ fosse diferente.
Minha vida passou por maus bocados? Sim. Foi dura? Foi e continua sendo. Difícil? Com certeza. Minha mãe ajudou? Aparentemente não. Mas, pensando bem, talvez isso não fosse tão ruim quanto pensava...
Fiquei ali, na frente de minha mãe, chorando todas as lágrimas que eu tinha e as que eu não tinha também. Monique parecia não saber como reagir. Depois de algum tempo no silêncio momentaneamente quebrado por meus soluços, me vi sendo adornada por braços delicados. Passei as mãos por sua cintura e me aninhei, com a cabeça em seu ombro.
– Delilah, eu sempre te amei. – Ela falou, também com dificuldade. Aquilo só me fez querer chorar ainda mais. – Sinto sua vida ser tão complicada, mas é um mau necessário. Eu te amo...
Não sei por quanto tempo ficamos abraçadas, chorando, lamentando por tudo o que acontecera.
– E qual o nome do meu neto? – Ela perguntou, assim que eu pareci ter me acalmado mais.
– Sophia... – Respondi, olhando para seus olhos. Sequei as lágrimas e forcei um sorriso. – E Thiago.
Ela arregalou os olhos e olhou para minha barriga.
– Mesmo? – Ela perguntou, hesitando em passar a mão em meu ventre.
– Mesmo. São gêmeos. Um casal. Sophia e Thiago. – Sorri em meio às lágrimas que voltavam a cair por meu rosto.
Observei minha dura e ríspida mãe dar um sorriso. O sorriso mais bonito que já vi em toda minha vida. Um sorriso que nunca tinha visto em seu rosto antes.
E então percebi como Monique Phelps era bonita sem a carranca de sempre.
– Isso... Isso é fantástico. – Ela falou, olhando para mim e ainda sorrindo.
– Pois é. – Falei, passando a mão em minha barriga. – Vamos descer? – Perguntei. Ela assentiu e passamos pela porta. Um clima leve pairava sobre nós, mas ainda havia uma pergunta insistente em meu cérebro. – É... Mãe?
– Sim?
– Porque a senhora pagou para os médicos me dizerem que eu estava grávida, quando eu não estava? – Perguntei.
Ela olhou para mim com uma expressão confusa.
– Do que está falando? – Ela perguntou, com as sobrancelhas juntas.
– Última vez que vim aqui em sua presença, você falou que eu estava magra. Meu médico me explicou que demora para o espermatozoide fecundar... E eu recebi a notícia três dias depois do... Do... Que o Brendon fez... Ou seja, todos os médicos que fui, antes do que o JJ me arranjou, falaram com a mesma boca que eu estava sim grávida. Mas não estava...
– Desculpa, Delilah... – Ela franziu o cenho. – Mas eu falei que você estava magra, pois recebi a notícia, como todos nessa casa, inclusive você, que estava grávida. Por isso estranhei. Mas não sei de história nenhuma sobre isso...
Murmurei algo e voltamos para baixo. Samantha estranhou quando me viu com o rosto inchado de choro e nossa mãe ao meu lado.
– Então... Vamos continuar?
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