Dear Sophia
6 V
Notas iniciais
Dedico esse capítulo ao MEU Nathaniel :3
Beijos!
♥
Minha vida sempre foi fácil. Nunca pude reclamar do contrário.
E é exatamente isso que sempre me deixou incomodada.
Afinal, como vou aprender a dar valor às coisas, se tudo vem e vai tão fácil?
Foi por causa desse tipo de pensamento que os desentendimentos com a minha mãe começaram. Ela sempre quis levantar um muro enorme ao redor de nós três, separando-nos do resto do mundo.
Sabe... Chega a ser irônico. Vivi dezesseis anos querendo sair daquele espaço sufocante que minha mãe criava e, de uma hora para outra, tudo vira de cabeça para baixo, fazendo-me até a cogitar a ideia de voltar para a “segurança” dos Phelps.
Aconteceu tudo tão rápido...
Em um momento, eu estava loucamente apaixonada pelo garoto mais sexy da escola (fala sério, isso sempre acontece em histórias, né? Nunca são os mais ou menos, sempre os mais bonitos e blá-blá-blá...). No outro, eu havia sido estuprada pelo dito cujo, estava me recuperando de uma recente operação no tornozelo esquerdo e tinha recebido a notícia de estar grávida.
É muita coisa para digerir em menos de três dias...
Suspirei, olhando o quarto.
Era apenas o segundo dia que eu estava acordada. Os raios de sol entravam pelas persianas e iluminavam suavemente o cômodo.
Peguei um espelho que estava numa cabeceira.
Eu estava, definitivamente, horrível.
Meus cabelos loiros, desgrenhados e sujos. Meus olhos castanhos, fundos de olheiras e, no direito, inchado e roxo – meio amarelado. Engraçado... Não me lembro de ter levado um soco... Minha testa tinha um galo enorme e meus lábios – normalmente, incrivelmente rosados – rachados e com um corte.
Era a primeira vez que via a mim mesma, desde o ocorrido.
Eu estava acabada...
— Com licença? – Uma enfermeira alta e morena apareceu na porta. – Srta. Phelps, você tem visitas.
Não sabia se ficava feliz (“Mirna e Elizabeth ainda não tinham vindo me visitar”) ou triste (“E se fosse minha mãe?”).
A enfermeira saiu antes de eu me decidir, dando lugar a um garoto moreno e alto. Parecia ser só um pouco mais velho que eu.
— Oi. – Ele pareceu envergonhado.
— Hn... Oi? – Juntei as sobrancelhas. Não me lembrava de conhecê-lo.
— Está melhor? – Ele perguntou, sentando na poltrona.
— Uhum... — Estreitei os olhos. – É... Desculpa, mas... Te conheço?
Ele sorriu
— Não se lembra de mim, amor? – Ele levantou as sobrancelhas fazendo cara triste.
— Ninguém me disse nada de amnésia! – Protestei, aborrecida.
— Talvez tenha esquecido. – Ele retrucou.
Fiquei paralisada. Será que realmente eu o conhecia, mas não lembrava?
— Hey! – Ele riu. – Fique tranquila, eu estou só brincando. Você não me conhece.
— Então quem é você? – Levantei uma sobrancelha.
— Me chamo Nathaniel. É... Fui eu quem te achou, depois de... Bom... Você sabe. – Ele parecia encabulado.
— Ah... – Foi só o que consegui dizer. – Bem... Obrigada.
— De nada. – Ele sorriu. – E desculpa a brincadeira.
— Não... Tudo bem. – Respondi, dando início a um silêncio tenso.
Ficamos vários minutos olhando para qualquer lado que não fosse a outra pessoa.
— Então... – Ele disse, depois de muito tempo. – Eu sinto muito pelo o que aconteceu.
— Eu também. – Tentei sorrir. – Mas você não precisa se dar ao trabalho. – Dei de ombros. – O que passou, passou. Certo?
— Você é bem forte para quem acabou de sofrer um trauma. – Ele sorriu, fazendo minhas bochechas corarem.
— Muito obrigada. — Sorri de volta, ignorando a dor. – Passar a vida inteira com a família Phelps tem seus resultados.
— Phelps, é? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Então você é uma burguesinha...
— Burguesinhas nãose envolvem com os caras errados. – Retruquei, fazendo-o rir.
— Talvez você seja a exceção.
— Exceção? – Fingi indignação. – Assim eu até me ofendo.
Ele riu ainda mais.
— Então, Srta. Phelps... – Ele fez uma careta ao falar esse nome. – Estava fora do horário limite?
— Primeiro, não me chame assim... – Fechei a cara.
— É que não sei seu nome. – Ele sorriu.
— Delilah. – Respondi.
— Bonito nome.
— Obrigada. Em segundo lugar...
— Exótico... – Ele olhou para cima, colocando os dedos no queixo, pensando.
— Em segundo lugar... – Repeti.
— É o que? Egípcio? – Ele sorriu ao ver minha cara feia. – Ok. Ok. Pode falar, Delilah Phelps.
Abri a boca para continuar, mas fui interrompida novamente. A porta se abriu.
— Olá, filha. — A voz que eu menos queria ouvir, soou.
— Mãe...? – Arregalei o olho. Era impossível abrir o olho machucado.
— É um prazer vê-la também. – A loira entrou com seu jeito enjoativamente elegante. – Vejo que finalmente acordou.
— Bela percepção. – Cara... Sério que eu senti falta, mesmo que por dois segundos, disso?
— E você, quem é? – Ela virou os olhos verdes para Nathaniel.
— Achei sua filha naquele... Er... Beco. – Ele respondeu, erguendo a mão direita, que minha mãe se recusou a apertar.
— Creio que não estava fazendo coisas boas naquele lugar, àquela hora. — Ela empinou o nariz, me fazendo ter vontade de vomitar.
— Na verdade eu... — Ele tentou argumentar, mas ela se precipitou até a cama.
— Delilah Lilith Phelps. — Ela disse. – Incrível... Impressionante...
— Hãn?
— Como você consegue ter amizades tão inúteis. – Ela estalou a língua em sinal de desagrado.
— Mas você gostou dele! – Protestei.
— Irrelevante. – Ela retrucou, indo até a janela para mexer na flor.
— Acho melhor eu ir. – Nathaniel sorriu tensamente para mim, antes de cumprimentar minha mãe (que nada respondeu) e ir embora.
— Já te disseram seu estado? – Ela perguntou, ainda na janela.
— Já... Até já fiz a operação e...
— Não estou falando disso, Delilah. – Ela interrompeu, com sua típica frieza. – Falo do estado abominável em que você se encontra agora. No que... Tem dentro da sua barriga. – Ela parecia dizer aquilo com nojo.
— Já. Já sei. – Respondi, inabalada.
— E o que pretende fazer? – Ela arqueou uma sobrancelha bem definida.
— Nada.
— Nada? – Ela repetiu.
— É. Nada. – Dei de ombros. – A criança vai nascer, mãe. Quer você queria, ou não.
— Você não fará isso. – Ela estreitou os olhos, chegando mais perto.
— É mesmo? – Tentei sorrir. – Não quer ser avó?
— Não quero ser motivo de piadas dos vizinhos. – Ela retrucou ferozmente.
— Então é isso? – Respondi, afiada. – Não quer ter seu nome na boca do povo? Que pena, mamãe... Deveria ter cuidado melhor dos seus filhos então.
— Como se atreve?! – Ela gritou, enfurecida.
Nada respondi.
Observei a loira tentar se acalmar.
— Já que... Não quer seguir meus conselhos... – Ela disse, tremendo e perigosamente calma. – Não será mais bem vinda em minha casa.
— Então acho que não tenho mais uma mãe. – Respondi, decidida a acabar com aquilo de uma vez por todas.
Nunca me esquecerei do jeito que ela me olhou. Era como se eu fosse algo extremamente abominável.
Uma mancha preta impregnada em seu vestido mais caro.
Nunca me esquecerei daquele momento. Quando fui expulsa de casa.
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