Dear Sophia
4 III
Notas iniciais
Como falei antes, as coisas agora vão esquentar =D
Esse capítulo tem 2.500 palavras, espero que não se importem...
Beijos!
♥
– Então... Sr. Dailey – Meu pai disse, quebrando o silêncio que pairava sobre a mesa de jantar. – Para que universidade pretende se inscrever?
Olhei para ele, alarmante. Já havia me dito que não queria fazer faculdade. Iria se dedicar cem por cento à música, mas, obviamente, esse comentário era um motivo bastante bom para ser expulso do teto dos meus pais.
– Eu... – Ele me olhou por um instante e, reconhecendo o tipo de burguesia que reinava naquela casa, encheu-se de confiança ao responder a pergunta: — Na verdade, Sr. Phelps, pretendo me candidatar a todas as boas universidades que estão ao meu alcance. Inclusive Yale, Harvard e Princeton, nos Estados unidos. Sabe, meus pais têm muitas relações com vários diretores de universidades. Se o senhor parar para pensar, não é o que você tem... Mas quem você conhece.
Por um breve momento, meus irmãos e eu ficamos boquiabertos. Nunca ouvira Brendon falar com tanta formalidade e naturalidade ao mesmo tempo.
– Pois bem, rapaz. Faz certo. – Meu pai aprovou, enquanto bebericava seu copo de Uísque. – E de onde conhece minha filha Delilah?
– Somos da mesma escola, senhor. – Ele respondeu, sem perder o tom formal e confiante. – Tenho a mesma idade do seu filho.
JJ se mexeu na cadeira, pouco confortável com sua menção na conversa.
– E como nunca ouvimos falar de você? – Minha mãe perguntou, virando seus olhos verdes para o convidado. – Digo... Delilah não nos dá tantos problemas quanto essas pobres garotas que ficam largadas pelos pais... – “Mas eu não sou muito diferente delas, não é mesmo? O que eu tenho de diferença? Roupas de marca?” – Mas ela não é a melhor do mundo para escolher amizades, devo dizer.
– Incrível percepção, a sua, mamãe. — Respondi calmamente, enquanto ela somente me ignorava.
– Bom... – Brendon hesitou um instante. – Creio que eu e seus filhos nunca fomos muito amigos, Senhora.
– Viu, Delilah? – A loira se virou para mim. – Se tivesse compreendido como a escolha das amizades é essencial, aquele episódio que aconteceu há pouco tempo, poderia ter sido evitado.
Tentei ficar calma e me esforcei para não retrucar.
Sim! Eu tinha me encontrado com uns amigos da aula de dança – que, aliás, eu ia porque era obrigada – e nós não estávamos exatamente conversando, quando meu pai apareceu com o carro justo na esquina onde estávamos. Ok. Eu tinha experimentado um cigarro. E daí? Não gostei nem um pouco, mas isso não foi o suficiente para me safar do sermão que minha mãe me deu.
– Além do mais – Ela continuou, pouco abalada com meu silêncio. – já estava mesmo na hora de começar a andar com gente que presta.
Brendon sorriu discretamente para mim quando ela encarou a salada.
Revirei os olhos e mirei o prato intocado à minha frente.
– Como está o frango, Delilah? – Minha mãe perguntou, sem fazer menção de virar os olhos para mim.
– Ótimo. – Menti.
– Incrível como você consegue sentir o sabor antes mesmo de tocar na comida, não é mesmo? – Ela retrucou com voz afiada. Os pelos da minha nuca se eriçaram.
– Eu deveria ir para um laboratório. – Respondi, bebendo um pouco de suco. – Assim eles saberiam se eu sou um tipo de super-herói, ou se é genético mesmo.
Meus irmãos e Brendon se remexeram, desconfortáveis.
Minha mãe me olhou com frieza e desprezo, esperou alguns segundos e disse:
– Quando você nasceu, dei pulos de alegria por ter uma filha que puxasse meus cabelos. – Olhei para ela com uma sobrancelha levantada. Tudo bem que eu era a única naquela mesa, tirando ela mesma, com os cabelos dourados... Mas eu, sinceramente, não conseguia imaginar minha mãe dando pulos de felicidade. – Mas agora... – Ela continuou. – Sinto-me até envergonhada em vê-la tão parecida comigo e, ao mesmo tempo, tão Neandertal.
– Creio que isso é genético. – Retruquei, falhando em tentar me acalmar. Porque ela sempre tinha que fazer isso? Porque ela sentia tanto prazer em me humilhar na frente dos outros? Porque será que ela, Monique Phelps, necessitava me expor de qualquer maneira que conseguisse, e em qualquer oportunidade que surgisse?
Seguiu-se um longo silêncio, onde o único barulho era o tintilar de talheres.
– Como estão indo as aulas de violoncelo, Samantha? – Meu pai perguntou, tentando quebrar aquele silêncio tenso e horrível que se instalara entre nós.
– Ah... Ótimas, papai! – Ela sorriu inocentemente, mas no fundo, eu era a única que sabia, ela estava mentindo.
A verdade é que, desde que participou de uma apresentação junto com os alunos dos outros cursos, Sammy conheceu um garoto chamado Charles. Desde então sua presença nas aulas de violoncelo ficou cada vez mais rara.
Mas é claro que meus pais nem sonhavam que tal coisa estava acontecendo. Ainda mais debaixo dos narizes arrebitados deles.
– E as aulas de dança, Delilah? – Ele se virou para me encarar.
– Pensei que estava proibida de aparecer lá.- Juntei as sobrancelhas. – Depois de certo incidente... – Completei, lançando um olhar gélido para minha mãe.
– Você voltará. – Ela respondeu, sem emoção alguma no rosto fino. – Apenas estamos esperando o tempo necessário para que você reflita.
Revirei os olhos.
– Ainda assim... – Ela murmurou em tom alto o suficiente para todos ouvirem. – Certamente será difícil fazer algo entrar nessa sua cabeça aparentemente oca.
– Terminei. – Anunciei, enquanto meu irmão fazia o mesmo. – Com licença. – Levantei e, acompanhada por JJ, saí da sala de jantar, indo em direção às escadas.
– Dee. – Ele chamou, subindo os degraus um passo atrás de mim. – Que pretende fazer?
– Hn? – Franzi o cenho, olhando pra trás.
– Digo... – Ele hesitou, quando chegamos ao segundo andar. – Quanto ao Brendon... Você sabe.
– Ah... Não sei. Somos só amigos. – Dei de ombros, indo em direção ao meu quarto.
– Amigos? – Ele repetiu, com desconfiança na voz. – Sei bem que tipo de amizade que é...
– Juro. – Respondi, adentrando no cômodo.
– Se ele estivesse interessado somente em amizade, mana, ele não teria vindo até aqui hoje. Nem teria aceitado ficar para o jantar. – Ele retrucou, parando na porta.
– Eu não sei o que falar. – Suspirei. – Se ele realmente gostasse de mim, tinha me pedido em namoro. Não acha? – Levantei uma sobrancelha.
– Vai ver ele acha que você não gosta tanto assim dele. – Ele deu de ombros. – Mas se isso tudo dependesse de mim, pode ter certeza que ele nunca iria colocar o pé nessa propriedade.
Ri, imaginando meu irmão pegando no colarinho da camiseta do Brendon, e forçando-o a sair imediatamente do jardim da casa.
– Enfim... – Ele respirou fundo. – O barulho ficou mais alto lá em baixo. Acho melhor descermos, antes que a dona Monique comece a mostrar nossos álbuns de criança.
Estremeci com a ideia de ver o moreno caçoando de mim depois.
Andei até a porta e fui surpreendida com um abraço de Jason.
– Você sabe que eu só to te enchendo o saco porque me preocupo. Não sabe? – Ele murmurou, os lábios colados na minha testa.
– Sei sim. – Sorri. – Vamos?
~♥~
O vento frio de início de outono bateu em mim assim que saímos da minha casa. Eu trazia contra o peito vários papéis que eu havia pegado emprestado do Brendon semanas atrás (motivo de começarmos a nos falar).
Tremi inconscientemente e atraí sua atenção. Como resposta, senti seu braço passar pelo meu ombro e me puxar contra seu tronco. Descansei a cabeça em seu peito enquanto andávamos em direção ao banco escondido por arbustos que eu havia mencionado antes.
– O que achou de hoje? – Ele perguntou, enquanto nos sentávamos e eu me amaldiçoava mentalmente por estar de vestido e não ter pegado nem uma blusa.
– Foi exatamente como eu achei que seria. – Dei de ombros, ignorando o vento que ricocheteava em minhas costas parcialmente nuas. – Foi até mais leve, pra falar a verdade.
Ele arregalou os olhos castanhos.
– Sério? Achei que você foi realmente humilhada. – Ele encolheu os ombros, puxando-me mais pra perto.
– Você não viu nada ainda. – Suspirei.
– Ainda? – Ele repetiu sorrindo. – Vou ter a oportunidade de poder ver como é?
– E me humilhar depois? – Levantei uma sobrancelha. – Nem pensar.
Ele riu e me abraçou.
– Eu nunca faria isso.
– Já fez. – Retruquei.
– Isso foi antes de eu conhecer você. – Ele sussurrou no meu ouvido.
Virei para encará-lo e senti meu coração batendo mais rápido no peito.
Ele era lindo.
Ele estava me encarando com aqueles olhos chocolate que eu tanto aprendi a apreciar.
Ele havia aberto mão de tantas garotas tão mais bonitas que eu...
Ele me fazia sentir especial.
E eu estava realmente gostando dele.
– Seu irmão não gosta de mim. – Ele sorriu, interrompendo minha linha de pensamentos.
– Eu sei. – Dei de ombros.
– Nunca dei motivos à ele...
Suspirei e mordi o lábio.
Desde o primeiro colegial JJ foi rotulado como inteligente e criativo. Ao contrário de Brendon, que sempre ficou mal falado. Era aquele que passava o rodo nas garotas, não tinha um relacionamento que durasse mais que duas semanas, ficava na escola nas férias por causa das notas baixas, enfrentava os professores e ainda conseguia ser charmoso.
E ainda sendo totalmente diferente de JJ – que só gostava de uma garota – levava, muitas vezes, a maior parte dos créditos nos trabalhos em grupos. Só porque tinha a cara de pau de falar na frente da sala inteira, o que tinha decorado de uma folinha minutos antes de ir se apresentar.
Acho que tudo isso pode ser considerado como motivo.
– Vamos andar um pouco? – Ele sorriu, seu rosto estava parcialmente iluminado.
– Não, eu... Já tenho que ir... – Levantei do banco e deixei as anotações perto do garoto.
– Não vai, não. – Ele segurou meu braço e eu me virei para fitá-lo.
– Preciso ir. – Respondi, tentando desvencilhar meu braço.
– Me obrigue a soltá-la. – Ele franziu o cenho e apertou mais.
– Brendon... Você tá me machucando...
– Já falei que você não vai. – Ele retrucou, puxando-me para longe do banco, na direção oposta à minha casa.
– Brendon! – Gritei, indignada. Que ele pensava que estava fazendo?
Ele ficou em silêncio, ainda me puxando com ferocidade. Eu tentava com todas as forças me soltar, mas era inútil. Ele era, pelo menos, uns dez centímetros mais alto que eu e muito mais forte.
Com certeza era uma briga perdida.
– BRENDON! – Repeti, quando não podia mais ter visão da mansão Phelps. – PARA! AGORA!
– Não, D. – Ele deu um sorriso torto, me puxando com uma força desnecessária. – Ainda não acabei com você.
Levantei as sobrancelhas, sem entender.
Continuei sendo puxada até um beco escuro e vazio. Quando senti que seu aperto afrouxou um pouco, cravei minhas unhas – que não estavam tão pequenas assim – em seu punho e aproveitei para dar-lhe um chute na canela.
Ele arquejou, gemendo de dor, mas ainda sem me soltar.
Puxei meu pulso e consegui me soltar.
Eu corria. Corria de salto alto, mas mesmo assim o mais rápido que conseguia.
Saí do beco e tive um vislumbre do moreno vindo atrás de mim.
Apavorei-me na hora. Porque tudo aquilo? Achei que estávamos indo tão bem...
Por um curto momento, deixei de prestar atenção aonde pisava e observei onde estava.
Pra onde ele tinha me levado? As ruas eram escuras e vários mendigos estavam deitados pelo chão. Por duas vezes tive que pulá-los. Será que, naqueles poucos minutos em que eu estava sendo arrastada, foi o suficiente para me trazer a um lugar como esse?
– Delilah! – A voz de Brendon me tirou de meus pensamentos. Olhei de rabo de olho para trás e o vi ofegante, ainda correndo.
Tomei então conhecimento da dor latejante que havia no meu pé e pernas. Minha velocidade começou a diminuir na altura em que a dor começava a ficar insuportável.
Olhei para baixo e vi meu tornozelo sangrar. Era impossível... Como...?
– Há! – Uma exclamação veio de trás de mim, junto com braços fortes envolvendo minha cintura.
Comecei a me debater.
– Quieta. – Ele ordenou, tentando me manter parada.
Continuei a socar e chutar tudo o que estava ao meu alcance. Ou seja, o ar.
– Quieta! – Ele repetiu, indo para o lado e entrando em outro beco, onde me encostou na parede e me deu um tapa na cara.
Levei as mãos às bochechas que ardiam terrivelmente, enquanto lutava para não deixar lágrimas escorrerem do meu rosto.
– Finalmente calada. – Ele sorriu. Não era o sorriso sedutor e lindo que um dia eu vi. Não. Aquele sorriso tinha um quê de maldade e perversão.
– B-Brendon... – Gaguejei. – P-por quê?
– Shh... – Ele reprendeu, prendendo meus pulsos com as mãos. – Fique em silêncio e não se machucará.
Engoli em seco.
Eu queria gritar, bater, chutar, correr, me salvar... Mas não podia. Ele tinha meu corpo preso na parede, apertado contra o seu. Eu estava imóvel.
Ele interpretou meu silêncio como uma forma de compreensão. Soltou meus punhos e passou as costas das mãos na bochecha que havia recebido o tapa.
– Tão linda... – Ele sussurrou, enquanto descia os dedos pelo meu pescoço.
Seu toque era frio, sua mão tremia e em seus olhos brilhavam contra a fraca luz no fim da viela.
– Por favor... – Choraminguei, quando senti sua mão parar de alisar meu pescoço e ir parar na minha coxa.
– Shh... – Ele repetiu.
As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto. Comecei a enxergar embaçado com o lado direito, lugar onde o Brendon havia socado.
Eu me sentia suja. Ele estava abusando de mim. Minha calcinha já estava roçando meu joelho.
Ele continuava a passear com sua mão pelo meu corpo. Era extremamente incômodo.
Soltei um gritinho de agonia, quando ouvi o som de um zíper abrindo. Ele não estava pensando em fazer o que eu pensava... Estava?
– Se você gritar – Ele começou a falar friamente, sua boca à milímetros da minha. – eu juro que te faço se arrepender de tê-lo feito.
Mais lágrimas rolaram. Olhei para baixo e vi minha calcinha de seda – antes branca – agora manchada de sangue.
Minhas pernas latejavam e meu pé parecia que iria ceder a qualquer momento.
E o peso que ele fazia sobre mim não ajudava em nada.
Com um movimento rápido, ele abaixou as calças e me virou. Bati a testa na parede áspera e fria, mas a dor desse contato não chegava nem aos pés da dor que eu sentia com a invasão do vocalista em mim.
Sim, eu era virgem. Sim, doeu. Pra caramba.
Ele ofegava, sua respiração fazendo cócegas no meu pescoço.
Eu chorava de dor. Chorava de ódio. Chorava de tristeza. E chorava mais um pouco de dor.
Parecia que tudo dentro de mim havia ficado sujo com aquela invasão.
A cada estocada a dor aumentava. Até que tudo parou. Ele havia chegado no ápice.
Ouvi Brendon respirar fundo e tirar seu membro de dentro de mim. Continuei colada na parede, enquanto ele se arrumava.
Não estava conseguindo ver, ou pensar, direito. Estava tudo embaçado.
Senti meu corpo cair no chão e minha cabeça bater em algo ainda mais áspero que o solo.
Minha visão ficou obscurecida. Meu corpo gritava. A dor parecia queimar cada parte interna de mim e, ainda mais, meu tornozelo que ainda sangrava.
Só ouvi uma coisa antes de ver tudo ficar preto:
– Você disse que usava anticoncepcional. Não disse? Por que... Eu não usei camisinha, sacomé...
E então eu não ouvi mais nada e tudo escureceu.
Notas finais
Beijos!
♥
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