Dear Carmen
3 Wish you were here.
Notas iniciais
Estava tudo em ordem. Pelo menos por enquanto. Tomo um banho fumegante, fazendo com que minha musculatura tensa relaxe um pouco. Vou secando os fios de meu cabelo com a ajuda de minha toalha, vestindo nada mais que uma camiseta enorme preta.
Depois de ter conhecido a metade das amizades de Ruth, a única coisa que eu sentia era cansaço. Todos eram legais. Fui leviana ao afirmar que o reformatório abrigava delinqüentes, ou adolescentes rebeldes sem causa. Ali éramos só um agrupamento de seres incompreendidos pela sociedade, um bando de selvagens aglomerados abandonados no meio do nada. Somos vitimas de nós mesmos, no meu caso eu tinha matado alguém.
- Opa! Espera aí! – Ruth, que até segundos atrás ouvia musica em seus fones com os olhos fechados em genuína concentração, fez-me parar abruptamente quando fiz menção de me jogar contra minha cama. – Se vista, iremos dar uma volta pelo pátio e irei lhe mostrar ás maravilhas ao qual estamos cercadas. – Disse com voz poética. – Não faça essa cara! Por favor, você terá tempo bastante para descansar.
Dou um sorriso fraco, e concordo lentamente com a cabeça. Vitoriosa, Ruth se alevanta da cama com ímpeto. Coloco com movimentos lentos um vestido branco e simples de renda que roçava até a metade de minhas coxas.
- Jonas irá nos encontrar lá atrás. – Murmura Ruth. – Uau, você está definitivamente vestida para matar.
Faço uma expressão pensativa. – Vou considerar isso como um elogio, só por causa do “Uau” Agora vamos estou ansiosa para conhecer os arredores daqui.
Pego o braço de Ruth e saímos correndo pelo corredor da ala Leste, dando sorte em não esbarrar em nenhuma coordenadora. Em um dado momento, nossa sorte se dissipasse por inteiro, e batemos contra um homem que era coordenador da ala Oeste – onde ficam os dormitórios dos meninos.
- Onde estão indo as senhoritas? – Pergunta, cheio de desconfiança.
- Enfermaria. Minha amiga está tendo uma hemorragia, e os absorventes acabaram. O senhor por acaso pode nos achar algum nessa ala? – Dou um sorriso travesso, sentindo toda a minha energia voltar na mesma rapidez em que cessaram um tempo atrás. O homem como resposta, acenou negativamente com a cabeça, sendo tomado por uma cor rubra nas bochechas.
- Por um momento tive pena dele. – Comentou Ruth, abrindo um sorriso amplo.
- Acho que não gostei muito dessa Ruth piedosa. Vamos!
Apesar de não ter nenhum sentido de orientação por ali, consegui guiar-me sem ajuda. Era permitido que saíssem de dentro do castelo, sem é claro passar pelos portões que nos cercavam e também não nos metermos na floresta ao nosso redor. Eles acreditavam em criar uma conduta para os “alunos” dali sem qualquer privação da liberdade. Mas minha extensão ia mais além do que os portões de ferro lascados.
- Por que a demora? – Interroga Jonas, passando a mão pelo cabelo mais ordenado que o meu. – Garota, por favor, que coisa linda é essa?! – Elogia escandalosamente Jonas, passando ás pontas dos dedos suavemente no tecido de renda.
- Um conselho: Não o empreste a Jonas. – Disse Ruth, olhando com cumplicidade nos olhos. – Ou qualquer roupa. Ela voltara duas vezes maior do que foi.
Jonas a olhou com o cenho franzido e a boca entreaberta. – Conselho memorizado.
- Vocês se merecem. Duas vacas egoístas.
Com o solo ainda úmido por conseqüência da chuva antes constante, acabei por quase escorregando diversas vezes, com Jonas sempre ali ao meu lado falando: “O vestido não merece ser sujo por causa da negligencia de sua dona. Jamais!” Quando criança tinha mais habilidade em andar pela grama escorregadia, e me equilibrar em pedras, nessa época morava em um bangalô rodeado de mato e trilhas a serem exploradas. Nas folgas de meu pai explorávamos toda aquela densa floresta, onde ele me ensinou alguns truques de sobrevivência quando acabávamos por acampar pelo terror de minha mãe. E se eu descobrisse naquela época o que aconteceria comigo futuramente? Meu pai não teria fugido e me deixado só?
Evitando entrar em uma de minhas crises-existenciais, paro de divagar entre minhas memórias.
- Carmen? – Ruth passava a mão em frente aos meus olhos. – Aqui está!
Ergo minha cabeça, assimilando o espaço novo ao meu redor. Era um lago amplo com várias pedras ao redor de seu leito, a água brilha em seu ápice refletindo ás cores do crepúsculo que se formava no céu. Respiro fundo aquele ar limpo e imaculado, sentindo-o entrar em minhas narinas e trazendo-me uma sensação de serenidade plena.
- É lindo. – Digo, andando até a proximidade da margem do rio. – Irei vir aqui sempre.
Satisfeita com a minha adoração ao lugar, Ruth suspira e vai se sentar sobre uma das pedras um pouco afastada do lago. Agacho-me, e afundo minhas mãos no lago translúcido, com o contato frio da água, sinto um arrepio passar rapidamente em meu corpo.
Ouço o crepitar de folhas e arbustos, e conseqüentemente o afastamento brusco do silencio com um grito feroz de raiva.
Atrás de umas tantas arvores, saí uma garota com roupas amassadas e olhos arregalados. Seguro uma risada com a mão, procuro o braço de Jonas e me apoio nele novamente. Constrangida comigo mesma, olho para o rosto de Jonas, que tinha tomado uma expressão de surpresa em suas feições. Miro meu olhar na mesma direção que a dele, e vejo uma figura fantasmagórica. Robert tinha os olhos vermelhos e era possível notar o cheiro de álcool em si.
- Olha... – Começa, olhando diretamente para mim. Viro meu rosto para o lado ignorando-o. Ruth estava em pé sobre a pedra, observando cada movimento que a figura bêbada de Robert transmitia. – Olá princesa.
- O que... — Jonas deixa escapar. – Droga.
Robert nota pela primeira vez a presença de Ruth, mas a ignora por completo. Dando uma piscadela em minha direção, ele vai embora sem dizer nenhuma palavra. Meus ombros caiem lentamente. Agora tinha mais certeza de que Robert não era uma presença boa, trazia uma atmosfera pesada que me faz sentir um medo estranho, como se ele fosse uma bomba prestes a explodir no colo de alguém. E agora esse colo pertencia a Ruth.
- Temos uma festa para ir. – Ruth preenche o silêncio com a sua voz. Apesar de seu sorriso, poderia ser detectada uma ponta de decepção em seu olhar. Jonas também nota o mesmo. – Carmen, você verá a verdadeira face do Reformatório Ullser. Prepare-se.
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