Dear Carmen
4 Oh, shit.
Confesso que nunca gostei muito de festas. Pessoas amontoadas em um espaço apertado engolindo você? Não, obrigada. Eu era muito convidada para ir á festas, mas comparecia a poucas. Além de meus amigos também não curtirem muito, apesar do grande interesse deles – e do meu também – eram ás bebidas grátis. Éramos mais voltados a eventos mais pessoais, nos encontrávamos em um oásis no fim da rua em que eu morava, e íamos nos divertir indo á praias, a caminhadas em trilhas, ou em viagens pelo nosso Estado.
Porém, por tudo aquilo parecer arriscado demais, ou perigoso demais, eu consegui me divertir o máximo possível. Ruth tinha me levado a um porão subterrâneo o qual um dos estudantes tinha descobrimento não faz muito tempo, enfim, o local se tornou uma espécie de encontro para todos ali interessados em alguma privacidade – é altamente proibido visitas a dormitórios masculinos ou femininos, apesar de quebrarem muito a regra.
Ás bebidas que rolavam ali eram compradas por um cara chamado Harum, ele tinha contato com o mundo exterior, de forma que conseguisse fazer negócios no “mercado negro”, apesar de que não eram somente bebidas que estavam rolando por aí. Em um canto um grupo fumava algo que cheirava a maconha.
Harum, eu te amo.
- Carmen! – Ruth abria espaço na multidão. – Venha comigo, vou apresentá-la aos meus amigos.
Após o evento estranhíssimo envolvendo Robert. Ruth se mostrava cada vez mais impassível. Era obvio que os dois tinham algo – aquele beijo explica tudo – mas o que? Amigos com benefícios? Se bem que Robert não parecia alguém lá muito amigável. Ruth é agora minha companheira de quarto, portanto, tenho que descobrir.
- Oi! – Cumprimenta uma garota loura e baixinha para mim. – Sou Annie! Amiga de Ruth.
Ruth me apresenta a mais três pessoas: Igor, um garoto com cabelo espetado que vangloria toda hora por estar ali. August, o garoto mais velho do nosso pequeno grupo, tinha os olhos cor de cobre e um sorriso encantador. E uma garota com cabelos cacheados e negros chamada Chloe.
Bem, minha atenção foi voltada a todo o momento ao garoto com olhos cor de cobre. Enquanto Igor contava sobre sua vida interessantíssima no crime – ele já roubou balas em uma loja de conveniência. – August mantinha o olhar sobre mim, ás vezes sorrindo para mim.
- Alguém para confessar seus crimes como eu? – Perguntou Igor.
Estava demorando.
- Bem, minha vida é um livro aberto. – Disse Ruth, erguendo a mão a qual segurava um copo contendo cerveja.
Todos olharam para mim. Definitivamente todos tinham contado seus crimes, era só eu a intrusa.
- Garota? O que você fez de tão errado para estar aqui? – Perguntou com ar debochado Igor. – Roubou o salário do papai?
Eu estava cansada daquele cara, que tipo de pessoa se orgulha de seus crimes? Dou um sorriso doce, e ergo os meus olhos para August, que nessa hora não desviara o olhar de mim.
- Vocês não vêem ao noticiário aqui? – Pergunto, desconcertada. O que eu tinha feito resultou á milhares de reportagens, era inevitável ás pessoas saberem sobre o caso da família Hayes. Minha mãe nunca gostou dos holofotes muito longe dela.
Todo mundo começou a transmitir mais interesse. Até Annie que começou a dançar ao nosso lado parou para ouvir o que eu tinha de falar. A verdade era: Eu queria mesmo que todos soubessem a grande verdade sobre mim?
- Vandalismo. – Menti, por fim. Ninguém percebeu minha hesitação.
Igor solta uma risada – Vandalismo? Nada mais prático que isso! Fala sério, que tipo de crime é esse? — O tipo de crime que eu fui longe de cometer, mas é claro, para quê eu iria contar a verdade para todos eles? Eu devia alguma coisa? Estava depondo meu crime para policiais?
Pego o copo de cerveja que Ruth segurava e tomo tudo em um gole só. Ela faz uma careta para mim, mas logo volta a prestar atenção no que Chole dizia. Logo quando me lancei na pista para dançar, a música mudou. Abaixo meus ombros e deixei que a melodia ressoasse em cada gesto que meu corpo fazia. Logo, com os olhos fechados, sentia o meu vestido branco rodopiar em volta de minhas coxas, junto com meus quadris que se balançavam sutilmente. Abro meus olhos percebendo a sensação de aproximação de alguém em mim.
- Você mente muito bem. – Sussurrou em meu ouvido, entrelaçando ás mãos suavemente em minha cintura. Ele sorri aquele sorriso encantador novamente. – Pena que não seja tão boa quanto eu.
Olho-o com atenção. August não tinha apenas os olhos cor de cobre bonito, ás sobrancelhas dele eram retas e pretas e tinha ombros largos como algum praticante de nado.
- Então o que te leva a acreditar que eu não pratiquei vandalismo? – Pergunto, olhando em seus olhos.
August aperta com mais força o meu quadril, e se aproxima ainda mais de mim.
- Vandalismo não lhe cai bem. – Murmura. — Alguma coisa mais perigosa.
- Roubo?
- De quê tipo?
De uma vida, talvez?
O meu sorriso desaparece de meus lábios conforme eu lia a expressão dos olhos de August. Ele tinha um sorriso malicioso, e ás suas mãos pareciam queimar minha pele através do tecido do vestido. August tinha em sua expressão algo como “eu sei mais coisas do que você imagina” E isso me assustou. Não que o fato de alguém souber que eu matei uma pessoa fosse tão devastador em um reformatório. Mas ele parecia querer expressar que sabia mais coisas que eu poderia imaginar.
Talvez fosse paranóia. Mas aquilo me fez afastar subitamente dele.
- E o que você fez? – Retruco.
Ele puxou minha mão para uma dança. August sorriu, e sussurro em meu ouvido:
- Matava pessoas por dinheiro. – Ele pigarreou – Era um bom negocio, até eu cometer uma falha.
- Depois de tantas perguntas acho que tenho direito de saber qual foi a sua falha. – Digo, passando a ponta dos dedos na espinha de August. Percebo que seus músculos retesaram-se.
- Hum, perguntas que você não respondeu? – Distraidamente, passo a minha mão pelo o seu braço e desenrolo-me, me afastando de seu corpo. E depois giro, enrolando-me em seu braço.
- Bem, pelo menos eu não te deixei tão curioso. – Disse eu, dando um sorriso largo. – Até mais.
Afasto-me dele, deixando-o um pouco confuso. Demonstro interesse em sua resposta depois o deixo no meio da pista? Nenhum homem gosta de admitir seus erros, e pelo visto, o erro que August cometeu foi bem pessoal.
Atravesso o porão, e vou até a mesa de bebidas. Lá, conheço uma garota chamada Alicia que me ajudou a terminar com uma garrafa de tequila. Na metade da festa já éramos amigas intimas, ela começou a chorar por causa de sua família, que a tinha desprezado totalmente durante todo o tempo em que estava aqui. – Quatro meses, causado por má conduta e invasão de área particular – Disse que tinha desistido dos homens por serem mais complicados, e que agora só ficava com mulheres. Apresentei-a Annie – que tinha parado na mesa de bebidas por um momento – e ás duas se deram super bem.
No termino da festa, procurei por Jonas que até então não tinha cruzado com ele. Acabei por achando-o em um canto escuro com mais dois caras. Aos tropeços, vou a sua direção. Ele logo me vê, e já estende os braços.
- Carmen, querida, esses são meus amigos: Josh e Rob. – Apoio meu corpo em seu braço, mal prestando atenção nos caras que ele me apresentava. – Está tudo bem?
Olho para os lados, vendo que ninguém mais estava e que os dois caras já tinham ido embora, respondo:
- Sim, só ultrapassei um pouco do meu, hum, limite. – Como se eu precisasse de álcool para isso. – Só queria saber o que rola entre Robert e Ruth?
Ele expira profundamente.
- Os dois gostam de brincar um com outro. – E é claro que não era só isso.
- Ruth gosta dele?
Ele acena com a cabeça.
- Sim e não. É complicado, vindo de alguém como Ruth. A verdade é que vivem se pegando por... – Ele perde a linha do raciocínio e olha diretamente para algo, sigo o seu olhar e vejo duas pessoas se beijando, o cara pressionava a garota contra a parede, enquanto á garota mordiscava o seu pescoço. – Por sempre estarem recorrendo um ao outros como animais no período fértil.
Quis ir embora antes da festa acabar. Olho no meu relógio de pulso: 5h30min. Eu tinha tempo de tomar um banho revigorante, arrumar o restante de meu material, e por fim, tirar algum cochilo ou outro. Jonas decide também em ir embora, lamentando-se por não ter bebido o quanto queria – “fiquei ocupado paquerando Charles, O gostoso.” – Destranco a porta de meu dormitório, e fecho a porta atrás de mim, tirando minhas roupas e indo em direção ao banheiro.
O que eu imaginava de reformatório era algo como uma prisão infestada de pequenos delinqüentes. Porém, tinha se mostrado totalmente diferente. As pessoas daqui sempre arranjavam um jeito para conseguirem uma brecha para o mundo lá fora. E August? Eu o tinha deixado no meio da pista por querer confundir suas idéias. Não queria que ele criasse expectativas sobre quem eu era – algo que ele parecia saber um pouco – Afinal, ele parecia ter insinuado sobre o que eu tinha feito, ou será somente paranóia minha? Se alguns conseguiam bebidas e drogas para cá, por que não conseguiam trazer noticias sobre a última noticia no mundo? Ou August tinha vindo logo antes de mim? Fiz uma anotação mental para perguntar á Jonas sobre August.
Enrolo-me na toalha, e torço um pouco de meu cabelo, tirando o excesso de água. Abro a porta, fazendo com que todo o vapor contido no banheiro se dissipasse aos poucos. Através da neblina quente pude ver um vulto negro. Um arrepio sobe em minha espinha
Robert.
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