Dear Carmen
5 Maybe
Eu nunca senti-me ameaçada por alguém. Fui eu que sempre protagonizei esse papel de intimidar alguém, mesmo que sem querer. Ali, com Robert em minha frente, deliciando-se com minha imagem semi-nua, podia sentir pela primeira vez o quão impotente eu me encontrava naquela situação. Rubornizei-me internamente, pela primeira vez eu sentia medo de alguém, e é claro, iria esconder isso indubitavelmente.
- Você estava linda com aquele vestido branco, mas tenho que dizer que está bem melhor assim. — Foi a primeira coisa que disse. Suguei minhas bochehas e as mordi, permanecendo calada. — O que é? Parece que está com medo.
Ergo uma sobrancelha com desdém.
- Você não é muito perceptivo. — Digo, olhando ao redor do pequeno dormitório o qual eu compartilhava. — Onde está Ruth?
- Não deveria se preocupar com ela. — Disse, ao meio de uma risada seca e sem humor. — Ruth sabe se cuidar muito bem. — Olho-o seriamente — Deve estar dormindo no dormitório de algum garoto.
Ah, então era isso! Robert podia estar se remoendo de raiva por Ruth tê-lo deixado, já que eu vi os dois se beijando no fim da festa, eles podiam ter brigado, Robert podia estar com raiva e vindo até aqui de qualquer forma querendo tirar satisfações com Ruth, mas acabou por não encontrando-a.
- Ela não gostou muito de me ver com outra garota.
Suspirei profundamente, indo em sua direção com os pés escorregadios contra o piso.
- Olha... Eu sei que o relacionamento de vocês é meio conturbado e tudo o mais. Mas, acho que não sirvo muito para dar conselhos, além de estar sem tempo para isso agora. — Falo isso só de uma vez, sem intercalações, com Robert encarando-me longamente.
- Eu sabia que você era assim. — Isso pareceu agradar-lhe, o que não foi recíproco.
- Exigente? — Pergunto, cruzando os braços e o olhando como se estivessemos competindo em um jogo perverso.
- Eu iria falar diferente, mas exigente também serve.
Robert tinha encurtado um tanto a distância entre nós. Seu hálito não cheirava a álcool, e os seus olhos pareciam atentos. Ótimo, estava sóbrio e totalmente convicto de suas ações. Ficamos assim por um tempo, eu olhando para os olhos negros e impenetráveis dele, e Robert, deslizando a ponta do dedo em meu rosto, misturando-se com as pequenas gotículas de água que caiam-lhe.
Parecíamos estar em uma espécie de transe. Até que fomos interrompidos por batidas leves e seguintes na porta.
- Você tem que ir. — Digo, balançando minha cabeça e acenando para a janela. Robert logo entende, olha para mim pela última vez antes de deslizar para o peitoril da janela.
- Oh, você ainda não se aprontou. — Suzzi lançou-me um olhar avaliador, e balançou a cabeça em negativa. — Ande! Se arrume, irei levá-la a sua primeira consulta no psiquiátrico com o Doutor Harris.
Aquiesço, pego o uniforme do reformatório e adentro no banheiro, fechando a porta atrás de mim. O uniforme feminino é composto por uma saia de pregas, uma camisa branca de botões, e meias que eu me recusei em vestir. Seco um pouco meu cabelo com o secador de Ruth, e saio do banheiro colocando um par de coturnos soltos.
- Eles também tem o esteríotipo certo de que tipo de pessoa irá vestir esses uniformes? — Pergunto, pegando uma bolsa lateral marrom com bolsos na frente. — Hei, não toque nisso!
Suzzi tinha acabado de pegar meu pequeno caderno de rabiscos, o qual eu escrevia textos sentimentais e sem sentindo algum. Em um impulso, jogo-me no colo de Suzzi — que estava praticamente deitada na minha cama — e pego o meu caderno.
- Para que tanto pânico? Você escreve bem até, deveria escrever um livro. Sim! Vamos, estamos atrasadas, ou melhor, você está atrasada.
Querendo ou não, aquele pequeno caderno com estampa de um mapa geográfico significava muito para mim. Foi ele que me manteve um pouco lúcida nos dias em que me faziam consumir várias drogas, e eu acordava totalmente desesperada no meio da noite, querendo saber onde estava e o que estava fazendo ali. Então recorria ao meu "diário" e a névoa que obstruia minha memória se dissipava um pouco. O fato de ter alguém lendo aquele caderno e criticando o modo que eu expressava meus sentimentos me causava certo pânico.
Suzzi levou-me no segundo andar, andamos o corredor inteiro, ela me recordando sempre que eu tinha de me lembrar do caminho para o meu psiquiátrico, que a partir dali eu teria que fazê-lo sozinho, mesmo eu gostando muito da companhia dela — palavras de Suzzi, não minhas.
Ela para em frente a uma porta de madeira lascada, onde uma placa perdurava com as escritas "Doutor Harrys"
- Bem, aqui a deixo. O Doutor Harris é um homem profissional, você pode falar abertamente com ele, além de muito amigável, Doutor Harris...
Nessa mesma hora, a porta se abre e um homem um tanto jovem para ser psiquiátrio aparece.
- Você deve ser Carmen Hayes...
- Oh, Doutor Harris! — Exclama Suzzi, um tanto alterada, ela aperta efusivamente a mão do tal Doutor Harris — Caramba, ele é mesmo um psiquiátrica? — Como o senhor passa?
- Bem, obrigado Suzzi, agora quero que a Srta Hayes me acompanhe. — Ele ergue o braço e pousa uma mão em meu ombro, o que criou um efeito dormente em minha pele, e me conduz para dentro da sala. — Até mais Suzzi.
- Muito simpática ela, não? — Indago, sentando-me sem cerimônias em uma das poltronas. Doutor Harris postou-se em uma poltrona em minha frente, ao lado tinha uma pilha de fixas e mais fixas. — Anda lendo muito sobre mim?
- Ah, sim. Um pouco, talvez. — Cruzo as pernas em minha frente, e o olho curiosa. — Devo dizer que me interressou um pouco.
- Por quê?
Ele sorri.
- Sou eu que faço as perguntas por aqui Srta Hayes. — Diz, adotando um ar um pouco sério e um pouco descontraído.
- Me chame de Carmen, não gosto de meu sobrenome. — Pigarreio. — O que você acha que sou?
Doutor Harris me olhou longamente. Ele possuía olhos verdes azulados e uma cabeleira castanha, seu rosto tinha um formato viril e os seus olhos sérios sempre pareciam atentos a qualquer coisa.
- Isso que iremos descobrir. — Responde, reconstando-se em sua poltrona.
- Irá ser divertido.
As vidraças ao nosso redor davam vista ao pátio do lado, onde nunca ninguém estava. O sol lançava raios para o consultório do Doutor Harris, e o iluminava por completo.
- Eu tenho um jeito diferente em meu processo de tratamento contra traumas, sou objetivo, e irei ser agora: Você se arrepende do que fez?
Fecho meus olhos, e balanço a cabeça. — Não, não me arrependo de ter obsturado sua pele com aquela espátula, não me arrependo de ver o sangue escorrer por completo de seu corpo. Não me arrependo do fogo lambendo sua carne. Nada, Harris, não me arrependo de um segundo sequer. — Completo isso com um sorriso amigável.
Ele me olha por um momento em silêncio. Me ergo e caminho até ele, parando em sua frente com meus coturnos desengonçados. — De certa forma, isso foi libertador. Me deito na poltrona ao seu lado, inclinando-a para trás.
Semicerro meus olhos, encarando-o nos olhos
- "Um homem nunca sabe aquilo de que é capaz até que o tenta fazer" — Sussurro, com um sorriso largo nos lábios.
- Platão? — Indaga, impertigando um pouco o corpo.
- Não, Dickens.
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