Dear Carmen
1 Prólogo
Notas iniciais
Com o coração batendo forte dentro da caixa torácica, sinto-me tomada pelo terror e constrangimento. Duas emoções que eu sentia com fervor àquela hora.
– Você vê o quê fez Carmen?! — Perguntava minha mãe, enquanto sacudia-me nos ombros, como se estivesse em um estado inconsciente de minha própria mente. — O que há com você? Está louca?
Olhei-a de baixo para cima. Em uma resposta direta. Jazia em minha frente o meu querido padrasto caído sobre o carpete cor-de-vinho, com o seu sangue misturando-se rapidamente em uma poça.
Meu maxilar se fecha, e sou tomada por um sentimento de sufocação. Olho para os olhos irados de minha mãe, que gesticulava com ás mãos enquanto gritava qualquer coisa. Meus olhos movem-se para a espátula que fora usada, os cacos de vidro das vidraças e o corpo inconsciente no chão. A cena do crime estava em todos os cantos.
– O que você está fazendo?! — Ruge minha mãe, olho-a distraidamente, concluindo meu trabalho. — Carmen...
– Aconselho que saia. — Digo secamente. Todo o meu bom senso tinha finalmente aspirado.
Mas minha mãe não sabia que o homem que estava prestes a virar cinzas destruiu não só a minha vida, como a dela também. Tirou-me de tudo, fez-me passar por louca, manipulou minha mãe e a deixou ficar contra mim. Será tão errado querer ás coisas nos eixos novamente?
Observo ás labaredas do fogo lamberem a grande mansão imponente a qual não me pertencia. Nada ali me pertencia, um homem que me privou da vida não merece á morte? Ás mentes sensatas dirão que não, mas ali, eu me sentia finalmente plena, como se estivesse concluído um objetivo.
*****
O alvorecer banhava-me por inteira. Seu brilho ofuscava meus olhos e os faziam lacrimejar. Engulo a saliva que tinha a consistência de chumbo. Sinto a presença da enfermeira ao meu lado, mas não faço questão de olhá-la, por vergonha ou por não querer ler sua expressão de piedade?
– Você receberá visitas. — Disse com sua voz cantada.
Ouço o barulho ruidoso da porta, e logo um perfume extremamente doce me envolve. Solto um suspiro. Depois da decorrente situação, nunca mais tinha notícias de minha mãe, ou de qualquer outra coisa.
– Bem, por onde começo? — Pergunta minha mãe, sentando-se ao meu lado e pondo ás mãos tremulas em seu colo. — Eu... Eu não consigo reconhecê-la Carmen. Pensei que aquela nova vida que levávamos iria fazê-la bem, depois de passarmos tantos perrengues...
– Você só ficou com Brad para conseguir dinheiro e algum status. Então, pulamos a parte da hipocrisia e o quanto essa situação em que estamos é desconfortável.
Ela me olha com ás sobrancelhas juntas:
– Carmen, você matou meu marido! Você não vê o quanto isso não é só desconfortável como inadmissível? Minha filha matou o homem que lhe deu uma vida! Para mim ainda não ficou claro que foi você que segurou aquela espátula. Minha filha! — Ela cobriu seu rosto com ás mãos. — Você sempre teve um comportamento normal, nunca demonstrou sinais dessa sua outra personalidade. Até...
– Eu ser internada em uma clínica de reabilitação para drogados? — Interrompo-a. Ela nunca gostou de ser lembrada que a sua querida filha fora uma drogada.
Então ela passa a mão em seu cabelo curto e louro, e me olha com os lábios vermelhos contraídos. Notei pela primeira vez que vestia vestes escuras.
– Consegui que fosse para um reformatório. É um lugar mais confortável que uma ala psiquiátrica em um hospital. — Notando a minha mudança brusca de expressão, ela cruza os braços. — Você continua sendo minha filha, por mais que eu me negue disso.
Eu poderia negar lutar e dizer que tudo ali estava errado. Mas o que adiantaria? Viver em cárcere ao redor de adolescentes problemáticos seria ruim, pois eu sabia que, apesar de ter matado meu padrasto, tinha-o feito por razões que vão muito além da raiva impulsiva, ou de um sentimento passageiro.
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