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2 Livro 2
Notas iniciais
CAPÍTULO 1
Era uma manhã fria, e Valentina estava dispensada de seus treinos externos. Dedicaria seu dia a se afundar nos milhares de livros da biblioteca, que tanto fascinavam a jovem princesa quase com dezoito anos. Seus favoritos eram os livros que contavam a história de grandes feiticeiros. Histórias reais, de seitas extintas e magias desconhecidas.
A princesa estava mergulhada nos relatos da Grande Guerra das Tribos, onde tribos de feiticeiros do Sul e do Norte batalharam para tentar dominar as montanhas de Gastres. Mas por fim, ambos os lados desistiram, pois notaram que habitar aquelas regiões só seria possível para nômades, que se instalavam por poucos dias nas cavernas que haviam por ali.
Quase no fim dos relatos, alguém bateu à porta da biblioteca.
-Entre! –Gritou a princesa, que se encontrava deitada de bruços no chão, apoiada sobre os cotovelos e cercada por montanhas de livros.
A porta rangeu ao se abrir.
-Majestade? –A voz do Almirante Gray veio da porta, mas a princesa não o via- Onde estás?
-Aqui! –Ela gritou, de trás de uma pilha de livros, sem tirar os olhos de sua leitura.
-Princesa, -O Almirante caminhou até Valentina, que sem vontade de levantar os olhos, só via as botas de Gray- Todos a aguardam para o jantar.
-Eu sei. –A princesa disse, fechando o livro com força, levantando uma pequena nuvem de poeira que a fez tossir- Eu já estava a caminho.
-Não pretende ir nesse estado, pretende?! –O almirante perguntou, enquanto a ajudava a se levantar em meio aos livros.
-O que há de errado?
-Seu vestido está cinza de tão imundo, sem falar de seus cabelos, que não estão em melhor estado.
-Me troco em alguns instantes e já desço. –O Almirante a encarou, com expressão duvidosa- Eu prometo que vou me apressar.
Com essas palavras a princesa se retirou a passos rápidos da biblioteca, deixando seu amigo Almirante em meio aos livros. E à poeira, claro.
Com a ajuda de uma de suas criadas de confiança, a princesa trocou suas roupas empoeiradas por um vestido limpo e sacudiu sua longa cabeleira vermelha até ter saído boa parte da poeira. A criada, de mãos ágeis, fez uma trança nos cabelos da princesa para disfarçar o desbotado causado pelo pó.
-É melhor correr majestade. –A criada disse, ao terminar o penteado- Os convidados já devem estar impacientes.
-Já estou indo. –A princesa se pôs de pé se dirigiu à porta- Obrigada Mielle.
Quando Valentina entrou no salão de refeições, todos os convidados já estavam lá.
O rei Gregorian estava sentado na cabeceira a sul. A rainha Magnela, estava sentada na cabeceira a norte.
Nas cadeiras próximas ao rei estavam o Almirante e os três Generais. Nas cadeiras próximas da rainha estavam a Condessa de Furrar, esposa do falecido Conde de Furrar, que era amigo próximo do rei e da rainha; Pietra Lunna, líder da seita de feiticeiros da noite e ministra da magia e feitiçaria; e, ao seu lado, no lugar mais próximo da rainha, estava a cadeira em que Valentina deveria se sentar.
Além destes, bem ao lado da Condessa de Furrar, estava Daniel Von Stane, ou Lorde Von Stane, o filho do falecido também Lorde Von Stane. Não era muito mais velho que Valentina: tinha pouco mais de vinte anos e era amigo próximo da princesa. Por várias vezes, quando pequenos, correram juntos pelos jardins do palácio ou chegaram encharcados no fim do dia depois de nadarem com suas roupas no lago do castelo. Por muito tempo foram companheiros de aventuras, até que o pai de Daniel ficou doente e o filho teria que ser preparado para herdar suas responsabilidades e seu patrimônio. Agora Daniel havia se tornado um belíssimo rapaz, de olhos azuis e cabelos castanhos, que vez ou outra fazia uma visita à princesa para relembrar os tempos de infância.
Também havia o Lorde Deverroux, poderoso nas Terras do Norte, que só não eram independentes por conveniência. O Lorde era um homem importante, quase um líder para o povo daquela região e por sua influência, era presença constante nos eventos reais, além de membro honorário do conselho.
Havia mais quatro ou cinco homens e mulheres importantes à mesa, mas que não precisam ser citados, pois não serão personagens de nossa estória.
-Desculpem o atraso. –A princesa disse, fazendo uma leve reverência e se encaminhado para sua cadeira.
-Tudo bem minha filha, — O rei disse, com sua voz rouca e serena- sente-se, o jantar já será servido.
Naquele instante, dez serventes entraram com pratos de prata tampados. Cada um colou na frente de um dos convidados e levantou a tampa. Cada convidado comeria algo diferente, de acordo com sua preferência. Quando todos saíram, o rei tomou a palavra.
-Que os espíritos estejam conosco em mais essa refeição. Bom apetite.
Todos pegaram seus talheres educadamente e começaram a comer. Pouco se falava. Todos saboreavam sua refeição lentamente. Uma primeira tosse chamou a atenção de todos. Ela vinha do rei. Depois a rainha tossiu também.
-Vocês estão bem? –A princesa perguntou, preocupada
-Sim querida. –A rainha disse, docemente- Continue comento. –E então tossiu novamente. As tosses foram ficando mais freqüentes, até que todos começaram a ficar alvoroçados.
-Majestades! –O Almirante exclamou- Têm certeza de que estão bem?
Mas nenhum dos dois respondeu, pois as tosses começaram a se tornar engasgos. Eles estavam sufocando.
-Chamem os médicos! –A princesa exclamou, mas era tarde demais, os olhos de seus pais ficaram vazios, e seus corpos caíram para trás, pendendo sem vida nos encostos das cadeiras.
Naquele momento houve silencio. A princesa permaneceu inerte, incrédula. O Almirante e os Generais se levantaram, se dirigindo em duplas, para o rei e rainha.
-Não tem pulso. –General Horn disse, após checar o pulso do rei.
-Nada aqui também. –O Almirante disse, após checar a rainha.
Foi o momento em que todos olharam para a princesa, que estava estática, parecendo paralisada. Seu olhar era vazio, sua expressão, incrédula. Ela não se movera até então, quando seu peito resfolegou e uma lágrima escorreu por seu rosto.
-Valentina. –O Almirante se foi até a princesa e colocou as mãos em seus ombros- Venha comigo, por favor.
-N-não... –A princesa disse, mas sua voz era um sussurro, ele olhava para o nada- Não pode...–Ela olhou para o Almirante e desabou em lagrimas.
-Venha comigo, por favor. –Gray insistiu, forçando a princesa a se levantar. Ela ainda lutava. Queria se jogar sobre seus pais, sacudi-los até respirarem novamente. Mas o Almirante era mais forte, e ela acabou desistindo e deixando-o guiá-la para fora dali.
Quando a porta da sala de jantar se fechou atrás dos dois e eles estavam sozinhos no corredor, Valentina tentou se soltar do Almirante mas ele a segurou e a fez olhá-lo no olhos.
-Valentina, -Ele disse- olhe para mim. –A princesa obedeceu, mas não se continha, tanto que chorava- Vai ficar tudo bem.
-Não!- a moça gritou- Meus pais estão mortos! Mortos, Gray!
-Eu sei. –O Almirante disse, sem saber como consolá-la- Eu sei...
-Me tire daqui Gray. –Valentina soluçou- Me leve pra longe disso tudo. Por favor.
-Tudo bem. –O Almirante passou o braço pelos ombros da princesa e começou a guiá-la para fora dali.
-Valentina! –A voz veio da porta da sala de jantar, que se fechava. Valentina virou-se e viu Daniel, a única pessoa, além do almirante e de... Seus pais, que a chamava pelo nome.
-Daniel... –A princesa chorou, sem saber o que dizer. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela viu a figura embaçada de seu velho amigo ir até ela e abraçá-la
-Eu estou aqui Valentina. –Ele disse, enquanto ela chorava em seu ombro
-Vou deixá-los conversarem. –O Almirante disse e retornou para a sala de jantar.
-Daniel, -A princesa disse, depois de alguns minutos- o que aconteceu ali dentro? Não é verdade, não é? Isso é um sonho. Um sonho muito ruim. O meu pior pesadelo.
-Não. –Daniel olhou no fundo dos olhos da princesa- É a realidade Valentina, e você terá que lidar com ela, por mais cruel que ela seja.
-N-não... –Valentina ia desabar em lágrimas novamente, mas Daniel passou o braço por seus ombros, e a guiou para fora dali.
CAPÍTULO 2
Os preparativos para o enterro do rei e da rainha foram feitos às pressas. O motivo da morte era evidente: envenenamento. E as investigações para descobrir o culpado já haviam começado.
Durante aquele dia, o seguinte a morte dos seus pais, Valentina não saiu de seu quarto. Ela não deixava ninguém entrar, a não ser o Almirante e Daniel. Eram eles que levavam a comida para ela, que era preparada sob a observação de agentes de confiança. Mas a princesa mal tocava na comida. Ela não tinha fome, não tinha sono. Apenas ficava deitada em sua cama, olhando para o teto com os olhos ainda vermelhos. Havia passado a noite chorando. Só parou quando recebeu a primeira visita de Daniel pela manhã e depois não chorou mais. Ficou apenas ali, parecendo sem vida. Mal falava.
No fim do dia, alguém bateu na porta, depois de duas horas sem ninguém fazê-lo.
-Quem é? –A princesa perguntou, sem emoção. Aquela fora a frase que a princesa mais falou durante o dia, apesar de ter falado poucas vezes.
-Sou eu. –A voz de Daniel veio do outro lado e a princesa não teve de responder para que ele abrisse a porta.- Como está se sentido? –Ele perguntou, fechando a porta atrás de si.
-Como acha? –Valentina respondeu, com outra pergunta.
-O enterro será amanhã de manhã. Você vai?
-Não sei... –a princesa soltou um longo e pesado suspiro- Eles iriam querer que eu fosse.
-Eu concordo. –Daniel se sentou ao lado a princesa, na enorme cama no centro do enorme quarto, que sempre estava iluminado, mas naquele dia, as pesadas cortinas impediam a entrada da luz. Uma vela, já quase no fim, iluminava pobremente o recinto- Está com fome? –Daniel tomou a mão de Valentina.
-Não.
-Você precisa comer.
-Não quero. Não me force, por favor.
-Não vou. Não quero forçá-la a nada.
-Obrigada Daniel. –Valentina tentou sorrir para o amigo– Por tudo.
-Eu prometi que ficaria ao seu lado, não se lembra?
-Lembro.
-Você precisa descansar. Amanhã será um longo dia.
-Não vá embora. –A princesa segurou a mão de Daniel, quando ele tentou se levantar.
-Só vou se você quiser.
-Eu não quero. – ela disse, e pousou a cabeça nas pernas de Daniel, como costumava fazer quando tinha nove anos, e ele doze, para que o amigo a contasse alguma história para dormir. Mas naquela noite, ele não contou nenhuma história. Apenas ficou passando os dedos nos cabelos da princesa, até que os olhos dela foram pesando e ela adormeceu. Como das outras vezes, Daniel adormeceu ali mesmo, com a cabeça da princesa ainda em seu colo.
Quando Valentina acordou, Daniel não estava mais lá. As cortinas estavam abertas e o Sol entrava livremente pelo quarto. Por um momento, a princesa pensou que aquele seria um dia comum, mas ai tudo veio à tona, e ela se sentiu sendo sugada por um buraco negro.
-Já acordou! –A voz do Almirante veio da porta, que ela não havia visto se abrir. Provavelmente Daniel a havia deixado entreaberta-Como se sente?
-Não se cansam de me perguntar isso? –A voz de Valentina saiu rouca- Pois eu já me cansei de responder.
-Mielle já separou suas roupas e seu banho a aguarda. Quando estiver pronta me encontre na sala do trono. –O Almirante ignorou o argumento da princesa- Não demore. –Com isso ele saiu e deixou Valentina sozinha.
Valentina demorou no banho. A água estava morna e relaxante e por um momento ela pensou se em largar por ali. Quem sabe até mesmo se afogar... Mas então ela se lembrou de tudo que a aguardava. Ela não poderia dar as cosas para seu povo assim.
Valentina se enfiou no vestido preto que Mielle havia deixado separado para ela. Era um belíssimo vestido. Longo, armado e com varias camadas de pano, coberto de rendas e laços. Na cabeça Valentina colocou uma tiara prata, adornada com rendas finas que caiam sobre seu rosto como um véu.
-Você está linda. –Mielle disse, tentando animar a princesa, que tentou sorrir diante do elogio.
-Obrigada. Só gostaria que estivéssemos em uma situação mais alegre... –Valentina parou e engoliu a ardência em sua garganta. Depois se virou para a criada, que era miúda e pálida, com uma longa cascata de cabelos negros. Mielle era uma moça bonita e estava de casamento marcado. “Essa seria uma ocasião alegre.” Valentina pensou. Sorriu para a criada em agradecimento e deixou o quarto.
A caminho da Sala do Trono, Valentina encontrou com General Brocke.
-Meus pêsames, Majestade. –O general disse, curvando-se um pouco diante da princesa, que colocou uma mão no ombro de Brocke.
-Pode me fazer um favor? –Ela pediu, suavemente.
-O que quiser Princesa.
-Reúna os outros Generais e Daniel na Sala do Trono. Estou indo me encontrar com o Almirante, mas vou precisar de todos lá.
-Sim, Majestade.
-Mais uma coisa.
-Quantas quiser.
-Pare de me chamar de majestade. –A princesa sorriu, e então se dirigiu à Sala do Trono.
O Almirante já estava lá quando a princesa chegou. Estava parado diante dos tronos, fitando os quadros dos recém falecidos Rei e Rainha, que estavam dispostos na parede atrás de seus respectivos tronos.
-Olá Gray. –Valentina disse, e sua voz ecoou pela grande sala vazia.
-Olá.-Ele respondeu, mas sua voz não soou muito mais animada do que a da princesa. O Almirante estendeu uma mão para ela- Imagino como passou a noite.
-Melhor do que imaginei que passaria. –Valentina colocou a mão dentro da de Gray e os dois ficaram lado a lado, observando os belos retratos na parede.
-Que bom. –O Almirante sorriu, tentando animar a princesa, mas não teve muito sucesso. Ela continuava séria, sem emoção.
-O que queria falar comigo?
-Eu pretendia esperar. –Ele fez uma pausa- Ia falar com você depois do velório, mas resolvi que não devíamos adiar. –Outra pausa- Sabemos que, em casos como esse, um Conselho de Emergência deve ser ativado. Um grupo de onze pessoas, mais o príncipe ou princesa. Doze pessoas no total. Duas dessas pessoas devem ser membros honorários do Conselho real. Com isso temos a Ministra Pietra Lunna e Lorde Deverroux. Os outros nove membros devem ser preenchidos por pessoas de confiança do herdeiro. No caso, você.
-Já tenho alguns nomes. –Valentina disse, sem hesitar. Gray aguardou que a princesa continuasse- Você, claro; os Generais; Daniel, sem duvida. São as pessoas em quem mais confio. Mas temos que acrescentar mais quatro nomes e para isso precisarei da ajuda de vocês.
-Será um honra. –O Almirante disse, no momento em que os Generais, junto de Daniel, entraram na sala.
-Que bom que chegaram. –Valentina dirigiu-se aos recém chegados- Estávamos falando sobre o Conselho que será ativado e vocês estão nele.
-Valentina... –Daniel começou a dizer, mas ela foi até ele e o puxou para um canto mais afastado da sala, enquanto os Generais passavam algumas informações para o Almirante.
-Preciso de você Daniel. –Ela disse de uma vez- Não há mais ninguém em que eu confie.
-Mas preciso cuidar dos negócios de meu pai. E para isso vou precisar estar em casa.
-Cuidarei para que um mensageiro se encarregue de trazer todas as informações que você precise, até aqui. –Ela segurou das mãos de Daniel- Temos feiticeiros mensageiros muito ágeis. Você será informado de tudo, assim que acontecer. Será como se estivesse em casa. Mas preciso de você aqui.
Daniel apertou a mão da princesa enquanto pensava.
-Ficarei aqui. –Ele disse, o que fez a princesa –incrivelmente- sorrir. Um sorriso de verdade.
-Obrigada Daniel. –Valentina o abraçou.
-Não poderia quebrar uma promessa antiga. –Ele disse, enquanto ainda se abraçavam.
-Promessa? –Valentina perguntou, se afastando um pouco.
-Sim. Não se lembra? –Valentina fez que não com a cabeça- Quando éramos pequenos -você devia ter uns oito anos- nós estamos brincando perto do rio e, não me lembro como, você escorregou e caiu na água. A correnteza estava forte por causa da tempestade da noite anterior e...
-Eu fui arrastada. –Valentina interrompeu
-Foi. –Daniel confirmou, enquanto as imagens daquele momentos retornavam à mente da princesa.
-E então você correu pela margem, tentando me alcançar, mas água me puxava e me levava para o fundo. Eu pensei que fosse morrer. De novo.
-Mas então eu te alcancei.
-Você me alcançou e conseguiu me tirar da água. E eu te agradeci.
-E pediu que eu prometesse que não te abandonaria. Não importa o que acontecesse.
-E você prometeu.
-Prometi e estou cumprindo. –Ele sorriu. Valentina piscou e uma lagrima de alegria escorreu por seu rosto.
-Obrigada Daniel.
CAPÍTULO 3
O velório aconteceu no grande pátio do castelo, onde havia uma grande escadaria que levava para uma das portas de entrada. Lá se encontravam dês de nobres de varias partes de Fantasy Land a empregados do castelo. Todos de expressão triste e cabeça baixa.
Os dois caixões foram colocados sobre mesas de madeira nos degraus, preparadas para esta finalidade. Os pés das mesas foram feitos de forma que ficassem firmes nos degraus e os caixões ficassem inclinados em direção ao povo que via a cerimônia. Havia um espaço de cerca de dois metros entre os dois caixões. No ponto mais alto da escadaria estava um feiticeiro velho e muito conhecido, porta voz em varias cerimônias reais. Ele havia preparado um longo e belo discurso sobre a vida dos governantes, e falava com tanta emoção que era difícil não prestar atenção no que ele dizia. Mas a verdade é que, mesmo com tudo isso, os olhos de todos estavam na princesa. Ele estava na escadaria, parada em um ponto entre os dois caixões. Olha fixamente para os pés, mas nem isso, nem a fina renda que cobria seu rosto impediam a todos de verem que as lagrimas corriam livremente. Seus ombros tremiam com os soluços.
De pé nos degraus, à esquerda da princesa, estava o Almirante, os Generais, Daniel, os membros honorários do conselho e Condessa de Furrar que, depois de ficar viúva, havia se tornado muito próxima da rainha. Todos tinham os olhos baixos, menos Daniel, que não havia tirado os olhos da princesa dês de o momento em que a cerimônia havia começado. Ele sentia a dor que ela sentia. Havia sentido o mesmo quando perdeu seu pai. Mas sabia que o que Valentina sentia era muito pior, pois havia perdido não só um pai, mas também uma mãe, e também um rei e uma rainha.
-E aqui, nesta triste manha, nos despedimos daqueles que foram governantes e pais maravilhosos, com o discurso de nossa princesa e futura rainha, Valentina. –Houve um minuto de silencio antes de Valentina levantar o rosto. Ela não disse a ninguém, mas estava rezando para que os espíritos a ajudassem a falar sem desabar em lagrimas.
-Eu não preparei nenhum discurso. – A voz da princesa ecoou, firme, por todo o pátio, alcançando os ouvidos até daqueles que estavam mais distantes- Vou apenas dizer aquilo que meu coração me diz para dizer- Há quase dezoito anos nosso mundo parou pela morte de uma princesa. Pela minha morte. Mas todos ficaram felizes por que eu revivi. Hoje, nosso mundo para pela morte de nossos governantes, mas isso é tudo o que nós temos, pois sabemos que eles não irão voltar. –O lábio inferior da princesa tremeu, mas ela engoliu o choro e continuou, firme- Nós perdemos um rei e uma rainha, que governaram nosso reino com força e sabedoria e nos protegeram de todos os males. Eu perdi um pai e uma mãe, que me criaram com amor e sabedoria e me ensinaram que um dia eu teria que proteger a todos nós. Mas eu não esperava que esse dia chegasse tão rápido. Não esperava que minha vida... Nossas vidas pudessem dar uma reviravolta tão brusca. –Ela deu uma pausa e olhou para onde estavam seus amigos, aqueles em quem ela mais confiava. Todos deram um leve aceno com a cabeça, incentivando-a a continuar- Não prometo a vocês que serei tão boa quanto meus pais foram, mas prometo que morrerei tentando. Mas agora eu peço, diante de todos vocês, que me ajudem nessa trajetória, e peço que passem isso para todo o povo de Fantasy Land. Peço aos espíritos que nos iluminem e guiem a alma de meus pais para que, assim, [i]eles[/i] possam me guiar. Peço por todos nós. –Ela fez outra pausa e depois continuou, sendo seguida pelo coro de todos que a assistiam, enquanto dizia os votos de gloria aos governantes que era conhecido por todo o povo de Fantasy Land há gerações — Vida longa ao nosso rei e nossa rainha. Que mesmo depois do ultimo sopro de vida, suas almas sábias possam no guiar e nos iluminar. Vida eterna ao nosso rei e nossa rainha.
Quando a princesa abaixou a cabeça novamente, indicando que havia terminado seu discurso, vários homens grandes e fortes, vestidos de preto foram até os caixões e os colocaram nos ombros. A passeata seguiria pela capital até o Vale da Luz, um lugar iluminado, onde eram enterrados todos aqueles que mereciam.
A procissão seguia ]cantando musicas antigas em gloria de guerreiros, feiticeiros e heróis. Mas Valentina seguia em silencio, ladeada por Daniel à sua esquerda, e Gray à sua direita, cada um segurando uma mão da princesa. Ela não chorava mais, mas parecia tão perdida em seus pensamentos que ninguém ousou interrompe-los.
Durante o percurso, várias pessoas se juntaram ao cortejo, que seguiu por meia hora até o Vale da Luz, onde duas covas já haviam sido abertas, embaixo da arvore do rei, que havia sido plantada lá no dia de seu nascimento. Os caixões desceram lentamente às covas, enquanto os espectadores entoavam o hino de Fantasy Land, que falava de gloria, paz e prosperidade. Enquanto as pás de terra cobriam os caixões, feiticeiros faziam crescer ramos das mais belas flores, que cobriram o espaço em volta da arvore e se enroscaram no tronco e nos galhos da arvore. Quando estava pronto, Valentina seguiu novamente para o espaço entre os túmulos, onde colocou a placa de bronze com inscrições de esperança e os nomes do Rei e da Rainha.
Depois da cerimônia, varias pessoas vieram falar com a princesa. Nobres, feiticeiros... Pequenos comerciantes com seus filhos iam até ela, emocionados. Famílias de cidades vizinhas haviam viajado a noite inteira só para despedir-se do rei e da rainha e ver a princesa.
A princesa. Tão amada por todos, agora sofria, mas estava cercada de pessoas dizendo que acreditavam nela e que rezariam por ela...
Ao fim de tudo, Valentina, Daniel, o Almirante e os Generais voltaram de carruagem para o palácio, enquanto o povo dispersava aos poucos. Pouco se falava. Às vezes os quatro militares diziam algo sobre o que fazer a seguir, mas Valentina não disse uma só palavra. Daniel, havia se sentado de frente para a princesa, que olhava pela janela, sem realmente ver.
A carruagem adentrou os portões do castelo. Estava nublado e a uma chuva fina e gelada havia começado a cair. De repente Valentina respirou fundo, o que fez todos se assustarem um pouco.
-Acabou. –Ela disse, olhando para longe, com os olhos arregalados, como se estivesse surpresa
-Não, -General Horn disse- é apenas o começo Valentina. O começo de algo novo.
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