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Capítulo 1

A primeira reunião do conselho já estava marcada. Seria naquela noite, às sete. Já se passaram três dias dês de o velório. Valentina não se arrastava mais pelo castelo, mas andava sempre séria e parecendo tensa, como se estivesse segurando-se para não transparecer seus verdadeiros sentimentos.

Daniel já havia sido instalado em uma belíssima suíte, no mesmo corredor onde ficava o quarto da princesa. Seus objetos pessoais já haviam sido trazidos por feiticeiros mensageiros, junto das ultimas informações sobre os negócios de seu pai.

O Conselho Emergencial (como era chamado o conselho que seria ativado em situações como essa) se reuniria na sala conselho real (que era o grupo que aconselhava o rei ou rainha em seu governo). A sala era longa e retangular, com uma grande porta dupla de um lado e altas janelas com belos vitrais. No lado da sala oposto ao da porta, ficava a cadeira do rei, rainha ou herdeiro. Paralelas às paredes mais longas ficavam as cadeiras dos membros do conselho, que normalmente eram quatro, mas haviam sido colocadas mais cadeiras para os outros membros do Conselho Emergencial. Mas como havia um numero impar de conselheiros, um dos lados ficou com uma cadeira a mais, dando uma aparência um tanto quanto desigual à bela sala.

Todos os seis membros convocados já estavam reunidos quando a princesa chegou, trajando um belo vestido vinho escuro. O vestido era longo, feito de seda e estava parcialmente coberto por um longo casaco preto, um pouco mais curto que o vestido, mas que era marcado na cintura exatamente no mesmo lugar em que o vestido se ajustava ao corpo esbelto de Valentina. As mangas longas e largas do sobretudo cobriam suas mãos pálidas, mas o casaco estava aberto na frente, de modo que o vestido ficasse bem a vista, assim como o decote em U, que não era muito avantajado, mas chamativo o bastante para que todos notassem. Contrastando com seus trajes, os longos cabelos vermelhos da princesa haviam sido presos em duas tranças frouxas que caiam suavemente sobre seus ombros.

-Desculpem o atraso. –Valentina disse, enquanto caminhava em direção à sua cadeira, diante do olhar atento de todos- Podemos começar.

-Que os espíritos estejam conosco e nos iluminem. –Lorde Deverroux proferiu, dando inicio à reunião.

-Bem, senhores, -Valentina disse, sua voz soando poderosa pela sala. A princesa parecia tão madura e diferente naquele dia... Estaria quase irreconhecível se não fosse suas feições marcantes, que eram suaves mesmo em seus dias mais tensos- Sabemos que nosso conselho ainda está incompleto, por isso preciso da ajuda de todos vocês. Gostaria de uma lista de possíveis membros até amanha. Quero que cada uma faça uma lista e eu tomarei farei minhas decisões. Informarei a todos sobre estas em nossa próxima reunião.

-Se me permite majestade, –Pietra tomou a palavra suavemente- acho que seria interessante se todos os membros aqui presentes se comprometessem a não escolher seus indicados simplesmente por amizade e afinidade, mas por competência.

-Acho sua sugestão muito pertinente Pietra. –Valentina deu um sorriso de aprovação para a feiticeira- Todos se comprometem?

Todos concordaram com acenos de cabeça e murmurando algo como “sim majestade”, o que soou pouco convincente para Valentina. Mas conhecendo seus amigos sabia que eles seguiriam o acordo. Só tinha algumas duvidas sobre Deverroux. Era um homem influente e muito cheio de si, mas a princesa tinha algumas duvidas sobre sua... Confiabilidade. Dês de pequena, quando via o Lorde pelo castelo em dias de reunião, sentia aquele embrulho no estomago. Muitas vezes, quando o homem havia ido cumprimentá-la, tentando soar doce e amigável para a pequena princesa, o embrulho no estomago se tornava uma careta, e Valentina dava as costas e ia brincar, ao som das repreensões de seus pais.

-Muito bem. –Valentina disse, e então se dirigiu à Pietra- Preciso de informações sobre as táticas de governo de meus pais. Como eram as reuniões, o que era decidido. Quero seguir o que eles faziam. Pelo menos no inicio.

-Seus pais eram governantes sábios Valentina. –Pietra começou- Sabia como tomar as decisões certas. Juntos. Tinham como prioridade as necessidades do povo...

O resto da reunião seguiu com longas histórias da sabedoria do Rei e da Rainha, perguntas da princesa e dos outros membros. Hora Pietra falava, hora Deverroux. Ao fim da reunião, já eram mais de nove da noite.

-Boa noite a todos. –Valentina despediu, quando já estavam todos no corredor. Daniel e Valentina seguiram juntos para um lado, os outros seis seguiram para o outro.

-A reunião foi dentro de suas expectativas? –Daniel perguntou, soando um tanto quanto formal para uma conversa entre os dois.

-Sim... –A princesa respondeu vagamente, sem olhar para Daniel.

-Valentina. –Daniel segurou o braço da princesa, a forçando a parar e olhar para ele- Você está diferente.

-Sei que estou. Só quero ser o melhor para o meu reino e...

-Você será! Você pode agir com toda essa formalidade nas reuniões, mas nunca agiu assim comigo!

-Não era minha intenção Daniel. Desculpe-me se minha atitude te incomoda...

-Está vendo?! –Ele segurou a princesa pelos dois braços e a sacudiu de leve- Quero a antiga Valentina de volta!

-Me solte Daniel! –Valentina se afastou, espantada. Daniel levantou as mãos, num sinal de redenção.

-Como quiser. –Ele disse, soando triste- Só preciso que entenda uma coisa. –Ele se aproximou novamente de Valentina, mas não a tocou- Eu espero de você, como rainha, tudo o que o povo de Fantasy Land espera. Mas como pessoa, como amiga, só espero aquela garota alegre que cresceu junto comigo. Não quero que os acontecimentos recentes interfiram entre nós dois. E eu tenho certeza de que você também não. –Com isso, Daniel começou a caminhar pelo corredor, mas foi impedido pela voz de Valentina.

-Espere Daniel. –Ele parou e virou-se para ela, que correu até ele e o abraçou com força- Só quero tudo aquilo de volta. Nem que seja só quando estou com você. –Ele a envolveu com seus braços- Nem que seja por alguns instantes... Só não sei se isso é possível por enquanto. –Ela soava como aquela doce e sonhadora garotinha novamente e isso fez Daniel sorrir.

-É possível. Não tenho duvidas quanto a isso.

-Obrigada Daniel. Por tudo. Mas principalmente por não desistir de mim.

Os dois caminharam juntos pelos corredores até chegarem a seus respectivos quartos. Se despediram e se separaram.

Naquela noite Valentina demorou a dormir. Ficou se revirando. Pensando em tudo aquilo que Daniel havia dito. Ela não via mais o passado em seu presente. Isso era um fato. Tudo havia mudado para ela. Suas vontades, expectativas... Sonhos. Mas ela sabia que queria tudo de volta. Queria poder se sentir ela mesma novamente. Queria poder sorrir sem sentir o peso de um reino em suas costas. Mas era tarde demais. Tudo o que ela podia fazer e se esconder na fortaleza das lembranças e, por simples minutos, imaginar que não existiam problemas, ou tristezas, ou preocupações.

E então ela dormiu. Sonhou com aquele dia em que ela e Daniel se perderam na floresta e sua única preocupação de verdade era se seus [i]pais estavam[/i] estavam preocupados com os dois. Eles ficaram a tarde inteira vagando. Tentando encontrar um caminho de volta. Até que ouviram vozes. Os guardas reais que os procuravam. Quando voltou para os braços de seus pais, a pequena Valentina chorou por ter seus pais de volta. Agora seus problemas haviam acabado. Estava tudo bem...

Mas então aquela lembrança... Aquele sonho se dissolveu e Valentina retornou à realidade, despertando ao som de suas cortinas sendo abertas.

-Bom dia Mielle. –Voz da princesa desperta assustou a criada.

-Oh! Majestade! Perdoe-me! –Mielle tentou se desculpar- Não queria acordá-la.

-Não se preocupe Mielle. –Valentina sorriu, esfregando os olhos sonolentos- Tenho muito que fazer. Chega de dormir.-Valentina esticou os braços e o corpo, com um longo bocejo- Estou faminta. –A princesa se sentou na beirada da cama

-O desjejum já será servido majestade.

-Obrigada. Desço assim que me trocar.

Mielle fez um reverencia e saiu, apreçada.

Valentia escolheu um de seus vestidos mais simples, para que pudesse se vestir sozinha. Ela longo vestido creme com botões na frente, que tinha um volume suave sem precisar de anáguas. Calçou um par de sapatilhas pretas, escovou os longos cabelos e deixou o cômodo.

Quando chegou à sala de refeições, o Almirante e os Generais já estavam lá.

-Bom dia senhores. –Valentina cumprimentou e sentou-se em sua cadeira de sempre.

-Bom dia. –Os quatro homens disseram quase juntos.

-Como passou a noite? –Gray perguntou

-Bem. –Valentina respondeu- Só demorei um pouco para dormir.

-Bom dia. –A voz de Daniel veio da porta por onde Valentina havia acabado de entrar.

-Bom dia Daniel. –Valentina sorriu quando Daniel entrou, lembrando-se do sonho. Lembrando-se daquilo que havia prometido a si mesma: Ela sempre se lembraria de quem foi. Nem que Daniel seja a única coisa que ainda a liga ao passado feliz.

Durante o café da manha, todos tentaram manter os assuntos profissionais longes da conversa. Valentina tentava sorrir e agir como agiria há duas semanas atrás e os outros pareciam incentivá-la a tentar mais.

Depois da refeição, Valentina foi para a biblioteca passar o tempo. Depois das dez e meia teria treino, como Gray havia deixado bem claro.

-Não pense em faltar. –Ele disse.

Às dez a princesa foi se trocar. Vestir as roupas adequadas para o treino. Calças, botas, um sobretudo até a coxa que tirava o ar masculino dos trajes. Gray apareceu nos aposentos da princesa, enquanto Mielle fazia uma de suas famosas tranças nos cabelos de Valentina.

-Está pronta? –Ele perguntou.

-Quase. –Mielle respondeu pela princesa, enquanto dava uma laço cuidadoso na ponta da trança- Pronto.

-Obrigada Mielle. –Valentina agradeceu e seguiu Gray pelos corredores.

-Postura Valentina! –Gray gritou, ao som de suas espadas se chocando. Gray fez um movimento de pulso e a espada de Valentina voou de sua mão. De novo- Valentina... O que está acontecendo?- Gray perguntou, num som de repreensão.

-Nada... –A princesa respondeu- Eu... Vamos mais uma vez.

-Não. Vamos fazer uma pausa. –Ele pegou as duas espadas a as colocou lado a lado perto de uma arvore. Depois se sentou nas raízes e convidou Valentina a sentar-se ao seu lado- Você está desatenta a manha inteira. O que houve?

-Nada Gray. Só estou com a cabeça cheia de coisas e...

-Valentina, -Gray pegou a mão da princesa- sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe.

-Sei Gray. –Valentina sorriu um pouco, mas logo seu sorriso se desfez- É nosso primeiro treino depois de... Tudo. Ainda estou me acostumando com isso.

-Tudo bem. –Gray soltou a mão da princesa e ficou de pé- Você escolhe o que vamos fazer agora então.

-Serio?–Valentina pensou um pouco- Arco e flecha? Pode ser?

-Se acha que vai se concentrar melhor...

-Na verdade, -Valentina interrompeu- é porque não preciso me concentrar tanto.

-Tudo bem. –Gray riu- Vamos lá.

-Ótimo! –Gray parabenizou Valentina, quando ela acertou pela quinta vez consecutiva o alvo há cem metros de distancia. Eles já estavam ali há quase quarenta minutos.

-Podemos descansar Gray? –Valentina soava cansada e já havia baixado o arco.

-Já está quase na hora do almoço. –Ele deu de ombros. Um criado veio buscar o arco de Valentina e as flechas.

-Obrigada Felix. –Valentina sorriu para o homem. Ela fazia questão de saber o nome de todos os que a ajudavam em seu dia a dia. O homem sorriu sem graça, fez uma reverencia e se retirou.

-Vamos? –O Almirante perguntou, oferecendo um braço para a princesa.

-Vamos. –Valentina passou o braço pelo de Gray e os dois seguiram para o castelo.

Capítulo 2

Mais tarde, daquele dia, Valentina recebeu as listas de nomes enviadas pelos membros do conselho. Com base nisso tomou algumas decisões: Organizaria um baile, que aconteceria em algumas semanas com os membros do conselho, os nomes das listas e mais alguns nomes que lhe vieram em mente depois. Começou a comunicar os empregados sobre a festa fez algumas exigências quanto a comidas e decoração. Não seria uma festa muito grande, então duas semanas seria o bastante para organizá-la.

O fato é que Valentina tinha alguns planos para essas duas semanas que estavam por vir. Ele tinha uma missão. Uma busca. E ia precisar da ajuda de algumas pessoas para isso. E ela sabia que pelo menos com uma delas ela realmente poderia contar.

O resto do dia a princesa passou na biblioteca. Pesquisando mapas e histórias que pudessem ajudá-la em sua busca. Em momento algum o foi interrompida. Na verdade, alguém só foi procurá-la quando o castelo estava praticamente deserto e todos os outros estavam dormindo.

-Valentina? –A voz de Daniel veio da porta. A princesa estava sentada em um sofá próximo a uma mesa, onde algumas velas iluminavam sua leitura.

-Sim?-Ela levantou os olhos para ver Daniel, que se aproximava.

-Não vai dormir?

-Mais tarde.

-Já é tarde Valentina.

-Hum... –A princesa fechou o livro e o colocou na pilha ao seu lado, junto com os outros- Daniel... Posso te pedir uma coisa?

-Claro. –Ele se sentou ao lado de Valentina, numa das poucas partes do sofá que não estava coberto por livros. A princesa hesitou um pouco antes de prosseguir.

-Quero sair em uma busca. Uma busca a Moonelene, a feiticeira que, possivelmente, me salvou.

-Moonelene? Mas ela não está... Morta.
-Acredito que não. Desaparecida. Escondida. Talvez. Mas ainda não cheguei ao ponto.

-Continue.

-Quero que venha comigo. Não devemos demorar muito mais que uma semana. De acordo com minhas pesquisas ela está escondida em algum lugar entre as Montanhas de Gastres e as florestas no norte.

-Valentina.... Isso é loucura!

-Não! Não é Daniel. Eu preciso encontrá-la. Dês de pequena eu sinto que foi ela quem me salvou. Preciso saber o por que. E o significado disso tudo. Você vem comigo?

-Sim. Mas não porque concordo com essa loucura, mas porque sei que você não vai desistir dessa idéia. Não posso deixar que vá sozinha.

-Obrigada Daniel! – A princesa abraçou o amigo e ficou de pé- Agora preciso descansar. Vou falar com Gray amanha. Ver se ela virá conosco. Pretendo sair em dois dias. Boa noite.

Valentina deixou o cômodo e deixou Daniel sozinho, pensativo. Ele sabia não deixaria Valentina ir sozinha, também sabia que Gray não iria gostar da ideia. Tinha esperanças de que os dois pudessem convencê-la a desistir. Ficou sozinho, por alguns minutos antes de apagar as velas e ir se deitar.

Na manha seguinte, Valentina foi falar com Gray, quando ele a esperava para os treinos.

-Preciso falar com você. –Ela disse, o que uma expressão de surpresa surgir no rosto do Almirante.

-Estou ouvindo. –Ele disse.

-Bem... É que preciso de sua ajuda. Em uma... Expedição.

-Que tipo de expedição?

-Preciso encontrar Moonelene. Sei que foi ela quem me salvou e preciso saber o que isso significa.

-Isso é loucura! Pretende procurar alguém que não é visto há anos?! Você ao menos sabe se ela está em Fantasy Land? O se está viva?!

-Ela está viva. E sei onde encontra-la. Digo... Sei onde ela pode estar. Será uma expedição de poucos dias Gray. Uma semana no máximo. Se não a encontrarmos nesse prazo voltaremos para casa. Mas quero que venha comigo.

Gray respirou fundo.

-Quando pretende partir? –Ele perguntou. Valentina sorriu, tendo aquilo como um sim.

-Amanhã, pela manhã. Darei mais detalhes ainda hoje.

-Tudo bem. Quem sou eu para contestar. –Ele deu de ombros.

-Obrigada Gray! –Valentina abraçou-o. E os dois empunharam suas espadas.

Naquele mesmo dia, depois do jantar, Valentina pediu que Gray e Daniel a acompanhassem até seu quarto para que ela pudesse dar-lhes informações sobre sua expedição. Ela já havia anunciado sobre sua ausência pelos próximos dias, mas havia combinado com seus companheiros de jornada que não diria o verdadeiro motivo da partida. Por isso anunciou que estaria fazendo um levantamento pessoal sobre a situação de algumas áreas de Fantasy Land e por isso partiria.
Os três seguiram para os aposentos da princesa, onde poderiam conversar sem serem interrompidos.
-Bem, primeiro quero agradece-los por estarem fazendo isso por mim. –A princesa começou- O apoio de vocês é muito importante para mim. Mas existem algumas coisas que vocês precisam saber. -Ela foi até sua penteadeira, onde havia um papel antigo enrolado, como um pergaminho, e outros papéis. Pegou o papel enrolado e o esticou sobre a cama. Era um mapa de Fantasy Land. –Inicialmente iremos até as Florestas do Norte. Se ela estiver lá sentirá nossa presença e virá em nosso encontro.
-E se não estiver? –Daniel perguntou
-Então seguiremos para as Montanhas de Gastres. Existem poucas grutas habitáveis nessa época do ano. Será relativamente fácil encontra-la em uma delas.
-E se não a encontrarmos?-Gray perguntou, antes que Daniel o fizesse.
-Então voltamos para casa. Se for para eu encontra-la ela virá até mim. Sei que virá.

Os dois relutaram em concordar, mas acabar cedendo aos argumentos da Princesa. Os três partiriam na manha seguinte, por volta das sete da manha. Iram se encontrariam nos estábulos e cavalgariam até uma Vila de Feiticeiros às margens das Florestas do Norte. Lá deixariam os cavalos e seguiriam a pé pela floresta. Seguiriam uma trilha direta que levaria a uma das passagens menos perigosas pelas Montanhas de Gastres. Fariam uma busca por ali, desceriam no outro lado da montanha e decidiriam como voltar para casa durante uma pequena estada em uma das vilas de feiticeiros ao sul das montanhas. Isso se não encontrassem Moonelene na floresta. Mas Valentina tinha esperanças e não as abandonaria.

Valentina não dormiu muito bem. Seu sono era cortado varias vezes por pensamentos que pipocavam em sua mente. Ela não conseguia achar uma posição confortável. Varias vezes se encontrou com os olhos abertos, fitando o teto.

Por fim, por volta das três da manha, ela desistiu. Não iria, nem poderia, dormir agora. Levantou-se e foi arrumar-se para sua jornada. Vestiu um par de calças de treino é botas pretas até o joelho. Vestiu um de seus casacos longos e bem acinturados, fez uma trança frouxa nos cabelos, pegou seu cinto com sua espada deixou o cômodo.

Valentina seguiu até a cozinha, que ainda estava vazia. Em menos de uma hora os empregados chegariam para começar a preparar o desjejum. Valentina encheu duas sacolas com algumas frutas, pães e biscoitos.
Na terceira colocou seis cantis cheios de água. Somente para o tempo antes de chegarem ao primeiro córrego pelo caminho.
Fechou bem as sacolas, as distribui por um dos braços e com a mão livre pegou uma maçã, à qual foi mordiscando em seu caminho até os estábulos.
Gray já a esperava, mas Daniel parecia não ter chegado ainda.
-Bom dia. –Valentina disse, tirando outra maçã de uma das sacolas e jogando-a para Gray.
-Bom dia. –Gray mordeu a maçã- Obrigado.
-Nenhum sinal de Daniel?
-Não até agora, mas ele já deve estar vindo. Nós é que estamos adiantados.
-Falando de mim? –A voz de Daniel seguiu imediatamente com sua entrada nos estábulos.
-Na verdade sim. –Valentina sorriu e jogou outra maçã para o recém-chegado.
-Estou aqui.
–Estamos prontos para partir então. Os cavalos já estão selados.
-Ótimo. O quanto antes partirmos melhor.

Capítulo 3

Valentina estava montando em sua cavalo quando notou o pedaço de papel preso ao arreio. Era amarelado, sujo, rasgado. A princesa pegou o papel e o desdobrou. Alguém havia rasgado aquele pedaço de um papel maior, por isso a aparência rasgada. E era um papel antigo, guardado há algum tempo. Estava sujo de terra e bem amaçado, dobrado em dez partes.

-Gray, -Valentina disse, esticando o papel em direção ao almirante- foi você que colocou isso aqui?

-Não. –Ele respondeu, dando de ombros.

Valentina voltou-se novamente para o papel. Havia algo escrito nela, a carvão. A caligrafia era elegante, mas estava bastante borrada, o que deixava difícil ler, mas não impossível.

[i] Esta carta eu escrevo à princesa predestinada. Aqui, agora, nada mais que o futuro já escrito. O destino já traçado não há mais de ser esperado, mas sim procurado. A cura e o fogo irão se encontrar, em uma busca que irá terminar antes do que se espera. A lua irá guiar sua busca, rumo à própria lua. Sem medo, sem receios. Em breve o sangue selará a vida. A magia se tornará aliada. Não tema, não hesite. Aquilo que tanto se espera será encontrado em sua procura.

Estarei esperando.

M. [/i]

No canto da folha havia o desenho de uma lua crescente.

-Ela está nos esperando. –Valentina disse, com as mãos tremulas, sem tirar os olhos da carta.

-Quem? –Daniel perguntou. A princesa não respondeu, apenas releu a carta, dessa vez em voz alta.

-Princesa predestinada. Sou eu, está claro. Cura e fogo. Moonelene tem o poder da cura, o fogo parece ser, mais uma vez, eu.

-A princesa dos cabelos de fogo. –Daniel concluiu.

-A lua irá guiar sua busca, rumo à própria lua. Ela é a lua. M. Moonelene. Isso é um convite. Está claro que ela quer que eu vá até ela. Mas esta carta é a prova de que ela esteve aqui. E ela pode ainda estar. Ela irá nos guiar até a hora certa. Então iremos encontra-la.

-Então vamos.- Gray disse, virando seu cavalo rumo à saída dos estábulos.

-Esperem. –Gray parou.- Isso é uma lua crescente. –Valentina passou o dedo sobre o pequeno desenho no canto da folha. –Em quantos dias é a lua crescente?

-Dois ou três. –Daniel respondeu- Não sei ao certo.

-Iremos encontra-la logo. –Valentina sorriu. Então virou seu cavalo, como Gray havia feito, e saiu dos estábulos, sendo seguida pelos dois amigos e, agora, companheiros de jornada.

Os três cavalgaram por uma hora, até chegarem à fronteira da Capital. A partir dali eles estariam em uma zona de feiticeiros e em breve chegariam à vila onde deixariam os cavalos. Fizeram uma pausa de vinte minutos depois montaram novamente.

Quinze minutos e eles já estavam adentrando na vila. A princesa foi recebida pelos súditos com alegria. Ela sorria e acenava, gentilmente, para a multidão que a seguia até o criador de animais que cuidaria dos cavalos.

Os três entraram com os cavalos em um estábulo, onde um senhor grisalho estava de costas, agachado em um canto, acariciando um bezerro recém nascido.

-Jorge Hogwiins?-O Almirante perguntou, o que fez o homem levar um pouco de susto e se virar.

-Oh! –O senhor exclamou ao ver a jovem princesa- Majestade! Ao que devo essa honra?

-Estou em uma jornada Sr. Hogwiins. –Valentina disse, descendo de seu cavalo negro- Seu nome é conhecido na Capital. E meus pais já confiaram seus animais ao senhor várias vezes.

-S-sim. –O homem gaguejou um pouco, enquanto ficava de pé- É verdade.

-Preciso que cuide de nossos cavalos por alguns dias. Cinco. No máximo. Se não retornarmos até lá, pode envia-los para a Capital.

-Claro, claro... –O homem estava de pé, mas mantinha-se um pouco curvado- Mas posso fazer uma pergunta majestade?

-Claro.

-Se a senhorita não voltar em cinco dias... Isso significa algo ruim?

-Dificilmente. Só significa que pegamos outro caminho.

-Sim... Isso me deixa mais calmo.

-Aqui está seu pagamento. –Gray entregou um pesado saco de moedas ao senhor.

-Mas isso é muito.

-São cavalos puro-sangue, treinados para servir à corte. Devem ser muito bem cuidados.

-Podem deixar comigo. Seus cavalos estão em boas mãos.

Enquanto os três caminhavam pelas ruas da vila, rumo ao inicio da trilha que seguia pela floresta, todos que viam a princesa paravam, se assustavam e faziam uma reverência. Depois faziam comentários baixinhos e sorridentes para a pessoa ao seu lado.

Depois de poucos minutos de caminhada, as casas e pessoas começaram a sumir, dando lugar a arvores, que iam ficando mais densas, até que, finalmente, eles estavam, definitivamente, na floresta.

Com a ajuda de uma bussola os três seguiam para o sudeste. Por varias vezes sentiram que estavam sendo seguidos. Quando o sol estava a pino, os três pararam para comer. Comeram algumas frutas e pães e beberam água. Não demoraram muito a seguir. Caminharam por mais quatro horas, dando pequenas pausas. Ao chegarem em uma clareira, comeram mais algumas frutas. Aquele foi o momento em que Valentina teve certeza de que eles estavam sendo seguidos. Mas ela não disse nada aos companheiros, pois sabia quem os estava seguindo. Moonelene.

O Sol já havia se posto há quase uma hora quando eles se deram conta de que seria difícil seguir no escuro. A floresta era densa e a luz do luar não era o suficiente para iluminar o caminho. Instalaram-se às raízes de uma frondosa arvore, comeram mais um pouco e dormiram.

Gray foi o primeiro a acordar. Estimou que fossem quase cinco da manha. Ainda estava escuro, mas a lua já mal podia ser vista. Valentina ainda Dormia ao seu lado e Daniel também, ao lado dela. O Almirante ficou de pé. Bebeu um pouco da água de seu cantil e deu uma volta pelos arredores.

-Também teve problemas pra dormir? –Daniel perguntou, quando Gray voltou a se sentar ao lado da princesa. O Almirante não havia notado que não era mais o único acordado.

-Um pouco. –Gray deu de ombros, mas olhou para a princesa. –Parece que somos os únicos- Ele passou os dedos suavemente pela face adormecida de Valentina. Daniel suspirou. Ver a proximidade entre Gray e a princesa o havia deixado um pouco enciumado.

-Ela não deve demorar a acordar.

-Espero que não. Não podemos partir tarde.

Os dois fizeram silencio quando a princesa suspirou e se mexeu, virando-se para o lado de Daniel, pousando a cabeça em seu ombro. Ela respirou fundo mais uma vez e seus olhos se abriram.

-Bom dia. –Ela disse, despreguiçando-se junto a Daniel.

-Bom dia. –Daniel sorriu.

-Que bom que acordou. –Gray disse- Não podemos demorar. Valentina sentou-se. Os primeiros raios de sol já haviam surgido no horizonte. Os olhos dourados da princesa percorreram a mata, a procura de qualquer indicio de que Moonelene poderia estar ali. Nada. Nem mesmo aquela sensação de estar sendo observada. Os três estavam sozinhos. Ao menos por enquanto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.