Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

7 Capítulo VI: A Mácula Perpétua da Pestilência


Notas iniciais
Como prometido, voltei hoje, e se vocês forem rápidos novamente, prometo tentar voltar na quarta ou na quinta-feira. =) Muitíssimo obrigada pelos comentários lindos! Vocês são uns amores. ... Dedico esse capítulo à Keiko Scarlet Haruno Chan pela recomendação divosa que fez para a Fanfic. Obrigada mesmo, eu amei! *-* Boa leitura!

Dead World Assembly

“A proximidade dos mortos-vivos é um fator que sempre tem de ser levado em consideração, nadando como um tubarão por baixo de cada decisão e cada atividade deles”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 43).

Capítulo VI:

A Mácula Perpétua da Pestilência

Na manhã seguinte, Sasuke sentiu que daria um dos seus braços por um maço de cigarros. A falta da nicotina já dava indícios de estar começando a afetar o seu humor, tornando-o instável e macambúzio.

Ele vestiu a camiseta surrada e saiu do quarto apenas para se deparar com Sakura, já desperta e ajoelhada sobre o assoalho de madeira escura, tendo um balde com água e sabão ao seu lado e uma esponja nas mãos. Encontrou-a esfregando vigorosamente a crosta de poeira com uma expressão convicentemente raivosa. Mechas de cabelo cor-de-rosa caíam-lhe pela face, ocultando seus olhos.

Por um instante, ele permitiu-se sentir surpresa e talvez até um pouco de gratidão, mas o momento não durou muito.

— Hn. Bom dia — ele murmurou ao passar por ela, indo em direção à cozinha, e jurou tê-la visto enrijecer.

— Bom dia, Sasuke — respondeu quase intimidada, parando para descansar um pouco.

Ele demorou mais do que habitual na cozinha, surpreso pela louça da noite anterior ter sido lavada e pelo fato de que Sakura havia feito o café usando um pouco de pó instantâneo. Quando voltou à sala, viu-a soerguer o olhar timidamente:

— Espero que não tenha se importado — disse ela, remexendo na bainha de sua camiseta de forma nervosa. — Eu levantei cedo e... Bom, pensei em lhe agradecer por ter salvado a minha vida ontem e por ter me acolhido.

— Lavou a louça suja e fez o café? — brincou ele com ar divertido, enviesando lentamente as sobrancelhas negras. — Não precisava ter feito isso, Sakura.

Ela continuou torcendo a bainha da camiseta entre os dedos inquietos.

— Imaginei que seria justo, já que você foi bastante generoso comigo. E também... — ela desviou o olhar, encabulada; um sorriso espalhava-se pela sua boca — Bom, você não cozinha muito bem. Sem ofensas.

— Sinta-se à vontade para cozinhar de agora em diante então — ele sorriu e voltou para a cozinha, deixando que ela absorvesse suas palavras e o sentido implícito nelas. Ele realmente estava prometendo que cuidaria dela agora?

Sakura retomou a limpeza, tentando não prestar muita atenção em Sasuke enquanto o via circular pelo apartamento com um olhar analítico. Percebeu que as engrenagens do cérebro dele trabalhavam por trás de seu semblante circunspecto; a postura ao poucos desmistificava o rumo de seus pensamentos embatucados e do entrecerrar de seu olhar negro.

— Temos que sair mais tarde — ele anunciou com sua voz de barítono, cruzando os braços e olhando através das janelas vedadas, para o coro de gemidos que havia diminuído consideravelmente lá embaixo nas ruas.

— O quê? Por quê? — Sakura piscou, levantando-se do chão úmido.

Sasuke não hesitou em respondê-la.

— Nossos suprimentos estão quase no fim. Precisamos de comida e água, principalmente, mas há mais coisas em falta e eu não quero correr nenhum risco desnecessário.

— Entendi — ela aquiesceu. — Mas você disse que “nós” teríamos que sair, se eu o ouvi direito.

Sasuke sorriu de canto e Sakura deu de ombros.

— Devo supor que não tenho direito a opinar sobre isso, não é?

— Está com medo de ir lá fora? — ele conjecturou, pasmado.

— Bem, digamos que não me recuperei completamente do que aconteceu ontem.

— Ora, vamos, pensei que você pudesse se entusiasmar com a ideia de estourar algumas cabeças podres. Eu honestamente estou me sentindo entediado aqui dentro.

— Suas noções de entretenimento são bizarras — ela rebateu ácida, adejando os cílios negros.

Sasuke pareceu ponderar, mas o sorriso zombeteiro em sua boca jamais se ausentava e estava certamente começando a irritá-la. Sakura sentiu o sangue fugir do rosto quando o viu direcionar o olhar esquadrinhador para o corpo dela, demorando-se em suas pernas desnudas.

— Posso sugerir outras formas de entretenimento então...

Sakura atirou a esponja úmida nele sem pensar, corada de fúria, com os olhos relampejando tempestuosos e as bochechas infladas.

— Não banque o engraçadinho! — ela demandou dividida entre uma consternação indignada e uma excitação crescente. — Quebrei os dois braços do último babaca que encheu meu saco.

Sasuke sorriu lascivo, mas ela sentiu seus ânimos se afrouxando pelo brilho de diversão no olhar dele.

— Ei, calma! Estou apenas me divertindo, sabe? — Os olhos faiscaram: — Mas eu admito que a visão de você de quatro foi bem excitante.

— Ah, cale a boca! — sibilou, tempestuando em direção ao quarto.

Quase uma hora mais tarde, Sasuke chamou-a para que pudessem ir, à porta do quarto, e com todos os traços de diversão extinguidos da face pálida. Sakura prendeu o cabelo com um elástico que encontrou em uma das gavetas essa manhã, tirou os shorts de algodão e vestiu a calça suja de brim, calçando os coturnos por último, sentada sobre os degraus de madeira. Segundo ele, não sairiam do prédio ainda, mas havia algo que ele queria —e devia — verificar e já tinha adiado o compromisso por tempo demais.

Ela havia escondido o canivete furtado no bolso da frente da calça e segurava-o entre o punho rigidamente ocluso. Sasuke já estava à porta, à sua espera, brandindo uma machadinha, sua expressão estava cautelosa e quase imperceptivelmente transfigurada para o rosto de um executor.

— Nós vamos dar uma volta pelo condomínio — ele informou, encostando a porta às suas costas. — Não é muito longe; é um prédio adjacente, mas fique por perto. Eu não terminei de limpar todos os blocos.

Sakura sentiu um arrepio na base da nuca, mas ocultou sua insegurança com um displicente dar de ombros.

— Tudo bem.

— Hn. Tente fazer o mínimo de ruído, essas coisas parecem ouvir através das paredes.

Ele a conduziu pelo lance de escadas que haviam subido no dia anterior, mas desta vez fizeram o percurso oposto. Sakura sentia o coração martelando de forma brutal a sua caixa torácica e o canivete suíço em seu bolso era um triste e insuficiente conforto. Cerrando os dentes, ela só conseguia pensar em sua Glock e no quanto a queria por perto, carregada com um novo pente e pronta para atirar.

Os estreitos feixes de luz matinal estendiam-se como dedos esqueléticos sobre os degraus de metal, no entanto, as sombras ali dentro fulguravam como onipresentes coadjuvantes, espiralando em rodamoinhos que despertavam a imaginação e invitavam os desavisados a atravessá-las.

Já no térreo, na recepção revirada pelo avesso, a escuridão tornara-se inexpugnável e obrigava Sakura a prestar atenção o dobro de vezes em seus passos, cuidando para não acertar ou esmagar algum detrito de mobília ou um caco reluzente de vidro colorido.

— O que você espera encontrar nos outros prédios? — ela perguntou timidamente enquanto o via equilibrar o cabo estreito da machadinha no ombro, carregando-o como alguma espécie de inveterado lenhador.

Sasuke olhou-a por sobre o ombro rapidamente, mas manteve o ritmo de seus passos.

— Qualquer coisa que nos seja útil; desde comida enlatada a garrafas de água, rolos de papel higiênico, toalhas, cobertores, mudas de roupas limpas, utensílios domésticos... — ele deteve-se subitamente, ajeitando a machadinha pesada sobre os ombros: — Mas não vou reclamar se encontrarmos alguns artigos de luxo também. Algumas caixas de munição seria sorte demais.

“Eu já limpei todos os prédios do meu bloco, e há três dias comecei a inspecionar e a explorar os apartamentos do bloco adjacente, encontrei muitas coisas por lá, inclusive alguns mordedores desgraçados que já tinham se transformado há algum tempo.

— Entendi — ela ciciou, protegendo os olhos do mormaço quente que ardia lá fora. O cheiro dos mortos trazido pelo vento era quase insuportável e lembrava a uma pilha de detritos humanos decompondo a céu aberto.

Sakura olhou para o grande portão frontal de aço que vira no dia anterior e apontou um dedo para ele, soerguendo as sobrancelhas finas:

— Como esse portão funciona exatamente? Há algum gerador reserva que ainda funciona por aqui?

Sasuke respondeu-a com a voz monocórdia, mas por baixo havia um quê de desânimo e frustração que ela reconheceu de imediato:

— Há sim um gerador reserva, mas ele funciona à base de energia solar.

— As maravilhas do mundo sustentável — ela desdenhou com um sorriso e ele assentiu.

— Tentei limpar os paneis há algum tempo, mas não entendo nada daquela porra. Sei que sem uma manutenção contínua, o gerador provavelmente não vai durar muito, então venho fazendo economias com a energia de que ainda disponho.

— A rede elétrica entrou em colapso há várias semanas — ela lembrou com uma nota amarga na voz, depois suspirou. — Não antes da rede de comunicação começar a falhar. Sabe se alguma estação de rádio amadora ainda funciona por aqui?

— Só captei alguns relances de transmissões, mas é sempre a mesma ladainha — ele franziu o cenho. — Continuam repetindo sobre a porcaria do centro de refugiados em Yokohama e sobre a cura que estão pesquisando e desenvolvendo lá.

— Eu pensei em seguir para lá no começo, depois que saí de Tóquio... — Sakura engoliu em seco. — Mas as estradas principais estavam sempre bloqueadas por veículos abandonados, um verdadeiro cemitério de carros, ou estavam lotadas de mortos. Por isso sempre optei pelas estradas secundárias. Pareceu-me mais... sensato evitar as rodovias maiores e agora sei que estava certa. Eu nunca teria chegado viva à Yokohama.

— É só a porra de uma miragem no fim, não é? — Sasuke rangeu os dentes. — Meu irmão foi para lá, para proteger a cidade, mas eu sei que não havia mais nada a ser protegido lá. Se Tóquio caiu tão rápido assim, então é óbvio que as outras metrópoles também seguiram o mesmo caminho.

Sakura não disse mais nada e eles atravessaram o gramado — que já crescia — envoltos em um silêncio raivoso que expelia frustração e a dor da perda dos entes queridos, fosse para a praga, fosse para a distância incapaz de ser vencida.

Rapidamente irromperam no térreo do bloco de apartamentos convizinhos. Ali, o ar estava terrivelmente impregnado pelo cheiro da morte e de uma mistura de carne em putrefação e excrementos. Moscas zumbiam eufóricas pelo ar frio e a escuridão se arrastava pelo piso de cerâmica. Borrifos de sangue arterial negro manchavam as paredes e restos de tecido cerebral ainda secavam sob o clima úmido.

Sasuke pelo visto havia arrastado os cadáveres de que havia dado conta há alguns dias e os incinerado a julgar pelos rastros no piso, como deu a entender que tinha feito em meio às vociferações tresloucadas de sua voz enrouquecida e de sua mente deturpada na noite anterior. Ainda assim, Sakura mantinha-se perto dele, pisando onde ele pisava, respirando somente quando ele respirava. Ele a assustava de vez em quando, mas os dias de solidão que passou na estrada ainda estavam vívidos demais em sua cabeça.

O medo comprimia seu estômago como um punho torcendo suas entranhas. Ela já havia enfrentado mordedores em todos os lugares e a todas as horas do dia ou da noite, mas estar sob o manto da escuridão ainda a assustava.

Eles subiram as escadas de metal, cuidando para abafar os passos o máximo possível. O ar mofado e temperado pelos odores dos mortos era difícil de respirar e a boca dela estava seca por conta da ansiedade. Mas logo Sasuke a conduziu por um estreito corredor com apartamentos em ambos os lados no sexto andar, e ambos começaram imediatamente a vasculhar o primeiro deles.

— Fique por perto, eu ainda não inspecionei esse aqui — disse ele, à porta do apartamento 32B e com a machadinha em riste diante do corpo.

Ele lentamente girou a maçaneta e afastou a porta com um pequeno gemido. Sakura tentou espiar por sobre o ombro dele, vendo-o comedir seus passos nas tábuas do assoalho que rangiam sob seu peso. O apartamento 32B estava assustadoramente em ordem; nenhum móvel quebrado, nenhuma nódoa oleosa sobre o carpete floral, nenhum resto humano saudando-os.

Sasuke tomou a frente, mantendo a machadinha sempre pronta para golpear, mas conforme os cômodos revelavam a sua aura fantasmagórica e abandonada, eles relaxavam e já começavam a procurar pelos preciosos mantimentos. Nos velhos e empoeirados armários da cozinha encontraram alguns enlatados, alguns pacotes de macarrão e arroz, algumas caixas de leite que já haviam passado há muito tempo do prazo de validade e algumas facas quase novinhas.

No quarto do casal, Sakura achou algumas roupas que ficariam enormes nela e de gosto duvidoso também, mas acolheu com gratidão a roupa de cama limpinha e guardada no armário embutido da parede. Algumas revistas velhas também chamaram a sua atenção, além do rádio à pilha que ainda funcionava surpreendentemente bem.

Sasuke, no quarto ao lado, revirava uma pilha de roupas em uma gaveta da cômoda à procura de algo que pudesse servir nele. Teve mais sorte na gaveta de baixo onde encontrou — graças aos céus — um maço de cigarros com três ou quatro cigarros ainda restantes, um isqueiro de prata, um bloco de anotações e uma caneta-tinteiro com o reservatório pela metade.

Ele estava inspecionando um relógio analógico Seiko com pulseira de aço cromado e tentando determinar o seu valor quando ouviu um pequeno ofego vindo do banheiro. Seu sangue gelou e ele largou o relógio no mesmo instante, correndo até Sakura com a machadinha em riste.

Irrompeu no cômodo escuro de piso ladrilhado arfando e já suando quando a pulsação dolorosa por trás dos seus olhos injetados lhe permitiu focalizar a cena: Sakura estava diante de uma banheira de louça antiga olhando cabisbaixa para algo ali dentro.

Sasuke adiantou-se ao correr até ela e pegá-la pelo braço firmemente, afastando-a da banheira. Ele olhou para ela, viu seus olhos cheios de lágrimas, o lábio inferior tremente e a desolação em seu rosto.

Olhou para baixo quase com repulsa, até ver completamente o pequeno embrulho no meio da banheira, envolto em várias camadas de mantas e se remexendo constantemente, grunhindo guturalmente e vocalizando seus gemidos viscerais.

Sakura cobriu a boca e sacudiu a boca incrédula, mas Sasuke já sabia o que teria de ser feito; na banheira, agitando seus bracinhos podres e revirando seus olhos de botão, um bebê zumbi com no máximo um ano de idade grunhia para o casal estacado à sua frente. Havia sangue nas mantas que o envolviam e uma grande cicatriz denteada em seu ventre apodrecido, próximo ao pequeno umbigo.

— Sasuke... — Sakura sussurrou, fitando-o com um olhar que mesclava desespero e súplica, mas ele meneou a cabeça para os lados e ergueu a machadinha mesmo assim.

— É só outro monstro, Sakura. Só outro monstro.

E desceu a lâmina afiada contra a pequena cabeça da criatura, rachando o crânio e deixando que sangue negro arterial esguichasse da abertura, borrifado na banheira. Os olhos do pequeno zumbi apagaram-se no mesmo instante, a luz medonha por trás dele extinguindo-se como uma lâmpada queimada. Os pequenos lábios podres que exibiam pequenos dentes de leite apodrecidos pararam de se mexer e os bracinhos despencaram molengas ao lado do corpo miúdo.

Sakura sentiu a bile subir-lhe pela garganta como dedos de fogo e ácido e correu até a privada, abaixando-se a tempo para vomitar violentamente. Sasuke, entretanto, permaneceu ali, diante da pequena criatura que ele acabara de apagar, observando com nojo o tecido cerebral e os pedaços de crânio que haviam grudado na lâmina de sua machadinha.

— É só outro monstro — ele sussurrou; se para ela, se para ele, não sabia. Mas estava acabado, de qualquer maneira, e ele não podia se dar ao luxo de sentir culpa ou miséria por nada.

Quando isso terá um fim?, perguntava-se, mas o eco de suas palavras ricocheteavam como estilhaços de balas nas densas paredes de sua mente abalada.

E em resposta à sua indagação havia apenas o vazio, o silêncio, o nada.

* * *

Amanhã já não haverá vida

Sem mais cadeias de poder.

Arch Enemy — Trecho de Yesterday is Dead and Gone.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo. =) O que eu gosto em TWD é que lá não há reservas: há zumbis de todas as idades e jeitos! A maioria dos filmes de zumbi que eu assisti nunca exibiu uma criança zumbi, creio eu por ser forte demais, mas em TWD é diferente, o realismo que há na série (fora a maquiagem perfeita) é incrível. ... Enfim, mais uma vez obrigada à Keiko Scarlet Haruno Chan pela recomendação e eu responderei os reviews ainda hoje. Até o próximo.