Notas iniciais
Feliz natal, pessoal! :D Como havia prometido... Aí está o capítulo sete. Obrigada a todos que estão sempre comentando! Nos vemos nas notas finais. ;) ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Durante a tarde, uma névoa fria e lúgubre baixa na comunidade e todo mundo se encolhe dentro da casa, tentando ignorar o fato de que há uma linha tênue entre estar protegido e ser um prisioneiro”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 44).

Capítulo VII:

Uma Elegia Infecciosa

— Podemos enterrá-lo? — ela havia perguntado, um pouco depois de se recuperar daquela sensação nauseante, olhando-o fixamente, como se tentasse lhe dizer que não desistiria da ideia com facilidade.

Sasuke abaixou a machadinha, evitando focar os olhos na lâmina agora suja com um sangue negro e coagulado. Sakura fungou e enxugou os olhos nas costas da mão. Seu rosto pálido tremeluzia abatido e assombrado em meio às sombras do banheiro.

A contragosto, mesmo que se sentisse contrariado, ele pegou-se concordando. De fato, seria um ato desumano queimar aquele corpo como se se tratasse de qualquer outro. Recostando a base da machadinha nos ladrilhos do piso calmamente, ele por fim respondeu-a:

— Faça o que tiver que ser feito e me encontre lá embaixo dentro alguns minutos; vou cavar uma cova no jardim frontal.

— Obrigada — ela sussurrou, afastando-se deliberadamente a fim de deixá-lo passar.

Inevitavelmente, seus olhos lacrimosos encontraram a pequena criatura que agora jazia imóvel no fundo daquela banheira de louça arcaica. Ela não conseguia parar de imaginar como aquela criança devia ter sido doce e pura quando viva. Agora, sua existência havia sido apagada, sua curta jornada terminara tão precocemente, e sua quintessência atravessara o limiar entre a vida e a morte.

Sakura tentou nomear aquele rostinho pequeno com uma infinidade de nomes; estava pasma por — surpreendentemente — não sentir asco por aquela criatura. Sentia na verdade um profundo sentimento de comiseração e empatia. Ajoelhando-se diante da banheira, olhou para a pele desgarrada do rostinho do bebê, a fileira imperfeita de dentes de leite negros e podres, os ralos e oleosos fios de cabelo que se agarravam à cabeça.

Eu sinto muito, ela quis desesperadamente dizer. Mas ao invés disso, seus lábios moveram-se, trêmulos e descontrolados. As palavras jorraram de sua boca quase incoerentes e atropeladas pela dor incompreensível que empalava seu peito.

Apenas mais tarde, Sakura percebeu que até então estivera rezando.

Lá embaixo, sob o mormaço quente e o céu riscado de nuvens, Sasuke recostou-se ao capô de um carro, abandonado diante do monumental portão cinza gradeado de aço. Um Subaru impreza que ele havia averiguado há alguns dias, mas que por falta de sorte não estava com a chave na ignição, de um cinza chumbo que luzia fracamente naquele dia nuvioso. Itachi havia cobiçado um modelo parecido há alguns anos e ele se lembrava do dia em que foram à concessionária — só ele e o irmão — para ver o modelo e o preço, mas Sasuke sempre preferira os esportivos aos sedãs.

Revirando o bolso da calça até encontrar o maço de cigarros furtado, ele puxou um e colocou-o entre os lábios, apanhando o isqueiro de prata e acendendo-o. Protegeu a chama do vento com uma das mãos e crispou o semblante em concentração até que sentiu a nicotina correr pelo seu corpo e afrouxar os nós tensionados e quebradiços dos seus nervos em frangalhos.

Expirou a densa fumaça branca e olhou entediado para as criaturas que se contorciam por trás do gigantesco portão, rosnando e grunhindo. Um deles parecia particularmente mais agressivo e mais agitado se comparado aos outros, espalmando as mãos podres e oleosas sobre o portão, enfiando-as entre os vãos da grade e tentando alcançar Sasuke a todo custo. Grunhia, encrespava o rosto podre e esgarçava a boca malcheirosa, babando uma gosma preta. Mas os olhos de tubarão não o deixavam em momento algum.

Lentamente, ele desencostou-se do capô do Subaru e andou em direção ao portão, os olhos fixos no rosto selvagem do mordedor. Estacou a mais ou menos um metro da edificação vazada, com o cigarro aceso pendurado na boca e os punhos oclusos dentro dos bolsos da calça de brim.

Segurou o cigarro entre os dedos polegar e indicador e deu uma profunda tragada. Afastou-o dos lábios apenas para expelir a densa fumaça, desta vez, porém, a névoa de nicotina dissolveu-se na cara raivosa do zumbi, embaciando seus olhos de botão, envolvendo-os tal como uma cortina espessa de fumo.

O mordedor esforçou-se para enfiar todo um braço pelo portão, deslocando um osso esfarelado do ombro no processo, e esticando a mão suja e podre diante do rosto do rapaz que mal se moveu, mesmo quando os dedos carcomidos passaram a centímetros de sua face, arranhando o ar sem parar.

Sasuke lentamente deu as costas à criatura selvagem, tragando o cigarro uma última vez antes de descartá-lo com um piparote. Havia uma pá velha recostada a uma pilastra de concreto e ele a apanhou. Encaminhou-se até o jardim e procurou por um pedaço de solo maleável que pudesse cavar.

Enquanto o fazia, começou a cantarolar distraidamente uma música que Itachi gostava de ouvir. De um britânico, um tal de Ben Howard. A canção se chamava “Oats in the Water” e narrava uma longa jornada até o autodescobrimento. Ou talvez uma exaustiva odisseia até o fundo do abismo.

Vez por outra, Sasuke surpreendia seu irmão cantando aquela música em voz baixa. Ele ciciava na solidão autoproclamada de seu quarto: “Go your way. I’ll take the long way’round. I’ll find my own way down. As I should”. E ele nunca entenderia o aparente fascínio de Itachi por aquela letra.

Mas cantá-la lembrava-o do irmão, da quase inexpressividade de seus olhos, do seu sorriso involuntário quando se dirigia a Sasuke, do ressentimento repreendido e alimentado pelo pai dia após dia e da autoflagelação silenciosa que o levava a suportar tantas cicatrizes e feridas. Tudo em nome da família, a instituição mais sagrada.

Que piada, ele ruminava enquanto revirava a terra úmida com a pá.

Sasuke continuava cavando aquela cova, não se importando com o tamanho, mas sim com a profundidade ideal. O solo abria-se diante dele como uma mandíbula escancarada, cedendo arenoso sob a sua pá, emanando um odor que era quase agradável e quase familiar demais.

There’ll be oats in the water, a canção ressoava tão límpida quanto o correr cristalino de um regato em sua cabeça, percorrendo cada um dos seus pensamentos embotados como um fluxo contínuo.

Sasuke cerrou os dentes, mas continuou a cavar. There’ll be birds on the ground. There’ll be things that you never asked for. Oh, how they tear you now!Ele parou um pouco, enxugando o suor que já porejava sua testa, apoiando-se na pá firmemente fincada no solo. Havia um montículo de terra à sua esquerda e a cova já tinha provavelmente uma profundidade necessária.

Minutos depois, Sakura surgiu ao longe, com um embrulho nos braços e um livro de capa dura preta nas mãos. Ela não disse nada enquanto se aproximava da cova improvisada e Sasuke olhou mais atentamente o livro que ela segurava, só então percebendo o seu erro: era uma bíblia. O livro mais importante que reunia os dogmas cristãos.

Mesmo assim, ele permaneceu em silêncio, vendo-a lentamente abaixar-se e depositar o pequeno embrulho no fundo do buraco, completamente enrolado em um cobertor sujo e malcheiroso. Afastou-se de súbito, como se se sentisse intimidada e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, a outra mão mantinha a bíblia junto ao peito.

— Encontrei-a no quarto do casal — ela esclareceu, notando o olhar inquisidor de Sasuke. — Estava nos fundos de uma gaveta, junto a um rosário. — Sakura sorriu sem humor. — O mais ridículo nisso tudo é que eu nunca fui uma pessoa religiosa. Nunca acreditei que pudesse haver um... — engoliu em seco, encontrando dificuldades em dizer as próximas palavras, mas foi adiante: — Um desígnio para todos nós. Meus pais eram bastante religiosos e apegados às práticas do xintoísmo. Mas imaginei que essa liturgia fúnebre fosse adequada também.

Ela inspirou profunda e calmamente, hesitando com a bíblia nas mãos.

De chofre, sustentou o olhar, firme e decidida, e então abriu a bíblia:

— O Senhor é o meu pastor — começou ela a citar o famoso salmo 23, de Davi —, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome. — Uma pausa para que ela pudesse recuperar o fôlego. — Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam...

Sakura abaixou-se a fim de apanhar um punhado de terra com a mão livre e deliberadamente despejou-a sobre o corpo frio no fundo da cova.

— Preparas uma mesa para mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo e o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

E por fim ela expirou, aliviada, como se houvesse acabado de tirar o peso do mundo dos ombros. Mas por que então Sasuke ainda o sentia envergando as suas costas com tão severa opressão?

Ele vagarosamente percebeu a sua deixa e começou a apanhar terra do montículo ao seu lado e a despejar na cova, cobrindo o pequeno embrulho com salpicos de grãos arenosos e pequenos cascalhos. Enquanto o fazia, ouviu Sakura murmurar à meia voz.

— Não consigo parar de pensar na mãe dele. No que a levou a deixá-lo naquela banheira, no que sentiu quando percebeu que o perderia... Isso é tão injusto quanto cruel. Essa provação... é mais do que a fé de muitos de nós pode suportar.

— Pensei ter te ouvido dizer que nunca foi religiosa — ele rebateu, ofegando pelo trabalho braçal repetitivo de apanhar terra e despejar terra. O suor escorria pelo seu rosto.

Sakura sorriu sem humor outra vez.

— Essa coisa está mudando a forma como eu vejo as coisas, está mudando tudo dentro de mim... A verdade é que eu não sei mais no que devo acreditar. Não sei se há algum propósito nisso tudo, mas há vezes em que eu desejo... Eu não sei, ter . A fé agora parece o único empecilho aceitável entre a minha sanidade e a loucura que me espera no fim dessa montanha-russa.

Sasuke cerrou os dentes por conta do cansaço e finalmente alisou a terra por cima da cova com a parte inferior da pá. Enxugou o suor do rosto e baixou os olhos para o túmulo improvisado daquele bebê.

— “E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo”. Apocalipse, capítulo 20; versículo 13. — Sasuke disse repentinamente, atraindo o olhar de Sakura, que o fitou com um contido regalo. Ele simplesmente deu de ombros. — Minha mãe era cristã — acrescentou por fim, abandonando a pá e dando-lhe as costas enquanto seguia de volta para o apartamento que haviam limpado ainda há pouco.

Sakura fitou o túmulo com olhos opacos e distantes e pressionou a bíblia de encontro ao peito novamente, seguindo lentamente atrás de Sasuke, para que carregassem o que já haviam conseguido para o apartamento que ocupavam no bloco A.

Sondando superficialmente os demais apartamentos naquele sexto andar, eles não se depararam mais com pequenos incidentes. Ainda conseguiram encontrar mais alguns enlatados, pacotes de biscoito, assim como uma garrafa de uísque Jack Daniels, fones de ouvido, um DVD portátil com alguns filmes desconhecidos, uma maleta de ferramentas Bosch, alguns frascos de remédios para insônia, calmantes, antibióticos e alguns livros surrados.

Eles colocaram tudo dentro de uma mochila velha e uma caixa de papelão e carregaram para o apartamento antes do meio-dia. Depois de guardarem todos os mantimentos, Sakura retirou-se para a cozinha para preparar o almoço enquanto Sasuke averiguava cada um dos achados.

Antes que o velho relógio de pulso dele acusasse treze horas, ela serviu o arroz decorado com fatias de carne enlatada e alguns legumes em conserva em tigelas de louça. Comeram em silêncio, sentados lado a lado no sofá, compartilhando uma refeição saudável e tentando ignorar o coro de gemidos crescente lá fora.

Sakura guardou a bíblia furtada junto à cabeceira de sua cama enquanto Sasuke procurava esquecer os fantasmas do passado debaixo do chuveiro, lutando contra o frio que lhe forçava a cerrar o maxilar e a enrijecer os músculos do corpo.

A triste canção Oats in the water ainda ressoava em sua cabeça, tão clara como se o irmão a estivesse cantando para ele, ali. Apoiando ambos os braços no azulejo, ele deixou a cabeça pender dos ombros, inspirando e expirando devagar entre os lábios semiabertos.

Tanta merda tinha acontecido, Sasuke ponderava, perdido nos sussurros espectrais — ou seriam gemidos? — do seu passado. Flashes da infância conturbada atravessavam sua cabeça como projeções em preto e branco em um painel gigantesco. Mas ele fez o que julgou ser o certo, e disso não se arrependia — não poderia se arrepender.

Pressionando os dedos contra as pálpebras cerradas então, ele deixou-se afundar no abismo aterrorizante que se abrira dentro da sua mente fortificada. Mas os fantasmas estavam sempre lá, à espreita, ciciando como demoniozinhos astutos e perseverantemente pacientes.

Em meio a tantos devaneios alucinados, pegou-se lembrando da primeira vez em que o pai o forçara a ir com ele e Itachi a uma caçada. Lembrava-se bem de seu entusiasmo inicial, pelo pai — aparentemente — estar pretendendo passar mais tempo em companhia dele. Lembrava-se também da euforia pueril minguar logo nas primeiras horas, quando viu o pai, com seu rosto duro e seus olhos de tirano, acertar uma corça no flanco esquerdo com seu rifle de caça.

O sorriso de Fugaku se dividia entre o sadismo e a excitação enquanto guiava Itachi e Sasuke até onde o animal agonizava, em meio à relva perfumada de outono, ainda se contorcendo com espasmos delirantes.

Itachi não disse uma única palavra aquela tarde toda, mesmo quando Fugaku retirou a sua faca do coldre e rapidamente a empurrou para as mãos tímidas e inseguras de Sasuke, ainda um garoto medroso na época com não mais do que sete anos.

Vamos, Sasuke, esfole a porra do animal!, o pai vociferara, demandando com uma urgência amedrontadora enquanto o pobre menino cambaleava em direção à presa caída. Ele nunca se esqueceria da intensidade esmagadora dos olhos do pai sob a aba do boné azul-marinho, dos lábios grossos comprimidos, do músculo do queixo saltado, da veia pulsante no pescoço moreno.

E enquanto o menino debruçava-se sobre o animal, debilmente agarrando a faca com ambas as mãos e esvaziando sua bexiga de medo, o pai continuava a assomar acima dele, cruel, tirano, opressor.

Não seja marica e corte logo essa merda!, ele gritava e Itachi apenas, lentamente, abaixava a cabeça em consentimento, em subordinação, em obediência. Sasuke se lembrava do terror que sentiu ao segurar aquela faca grande e afiada, se lembrava do medo nos olhos do bicho, que se debatia incapaz diante dele. Ainda que chorando, ele obedeceu ao pai e virou a lâmina em direção à carne tenra e quente da corça.

E ele cortou, e cortou, e cortou.

* * *

Eu não estou pronto para me deitar

Não estou pronto para desaparecer

Eu não estou pronto para morrer.

Demon Hunter — Trecho de Not Ready to Die.

Notas finais
Bom, a maioria da população japonesa segue as práticas do xintoísmo, mas uma pequena parcela foi convertida ao cristianismo, ainda que represente uma fatia bem mínima, cerca de 2% da população. ... Para quem não lembra, a música "Oats in the water" tocou no capítulo 5 da 4ª temporada de TWD. Ela foi dedicada ao Hershel, e a primeira vez que eu ouvi a música, com o Hershel chorando naquela cela, eu caí de amores por ela. Se alguém quiser matar a saudade daquele velhinho (saudades dele D:) ouvindo essa música linda, aí está o link: http://tioique.com/2013/11/11/a-musica-do-episodio-5-da-4a-temporada-de-the-walking-dead/ ... Enfim, até o próximo e não se esqueçam de comentar porque assim eu posso voltar mais depressa. :) Responderei os reviews, se puder, ainda hoje.