Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

56 Capítulo LV: A Última Caminhada entre os Sucumbidos


Notas iniciais
Quinquagésimo quinto capítulo que eu dedico à BitterSweet e à Andy Uchiha pelas lindas recomendações! E a todos que ainda não desistiram de DWA (sério, obrigada pela paciência imensa), eu também dedico esse capítulo! Espero que gostem! ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Por um momento, Philip apenas encara Brian e a escuridão parece aumentar em volta deles. A cidade parece se estender até a eternidade, como a paisagem de um sonho. Brian sente a pele toda arrepiada, como se o simples fato de colocar isso em palavras — de falar em voz alta — tivesse soltado o gênio do mal de uma garrafa. E eles nunca, nunca mais vão conseguir colocar o gênio de volta. Philip bebe um pouco do vinho. Na escuridão, seu rosto está triste e contraído”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 162).

* * *

Capítulo LV:

A Última Caminhada entre os Sucumbidos

* * *

Era tarde da noite em Settsu quando Sakura e Kabuto enfim se permitiram respirar aliviados: todos os preparativos para a última jornada — que começava com o nascer do sol do dia seguinte — foram concluídos.

Não que houvesse o suficiente para encher o porta-malas do Nissan-Leaf, mas eram bugigangas e alguns apetrechos que eles reuniram nos últimos dias, saqueados de residências próximas, e que poderiam se fazer necessários na jornada derradeira que enfrentariam.

Inquieta pelos flocos de neve que eram soprados para o vidro sujo da janela, Sakura desistiu de tentar esconder o fato de que estava nervosa e se afastou, fechando bem as cortinas pesadas com um suspiro. Uma única vela bruxuleava discretamente num canto mais afastado e ela era capaz de jurar que ouvia os roncos de Kabuto através da parede fina que a separava do quarto ao lado.

Voltou para a cama e se aconchegou debaixo dos cobertores junto a Sasuke, que ressonava tranquilamente. Ao menos um consolo para as suas aflições: um deles conseguia descansar naquela noite perturbadoramente silenciosa. Satisfeita por isso, abraçou-o na semiescuridão e suspirou outra vez.

Ela se lembrou com um sorriso de como Sasuke havia fungado com impaciência quando ela não permitiu que ele saísse da cama para ajudá-los a carregar o carro. Pensou que teria de recorrer a táticas mais agressivas para mantê-lo em repouso, mas no fim ele ouviu o bom senso e se resignou de que o melhor era descansar mais um pouco e guardar todas as forças para o dia seguinte.

Fechou os olhos para finalmente tentar dormir um pouco quando um toque em sua mão a fez enrijecer o corpo e se levantar um pouco para observar o rosto de Sasuke, agora desperto.

— Acordei você?

— Não. — Ele mentiu e ela se desculpou com um sorriso. — Tive um pesadelo — confessou à meia-voz, num sussurro temeroso sob a respiração áspera.

Sakura voltou a deitar a cabeça no ombro dele, correndo os dedos de cima a baixo pelas suas costelas, sobre a camiseta. Inspirou seu cheiro limpo e se curvou o suficiente para beijar a pele do pescoço.

— Foi um pesadelo com o seu irmão? — Não era preciso ser um gênio para saber quem havia protagonizado os sonhos ruins de Sasuke, especialmente com a expectativa de um reencontro pendendo entre ambos, uma promessa que o amanhã também traria.

Sasuke assentiu fracamente, engolindo a seco. Em resposta, Sakura o abraçou um pouco mais forte, buscando consolá-lo de possíveis resquícios do pesadelo que ainda pudessem perturbá-lo.

Felizmente, aquecidos e acalentados por uma falsa sensação de segurança, ambos pegaram no sono depressa. Precisariam de toda a energia de que pudessem dispor para os possíveis percalços que enfrentariam no dia seguinte.

E, de fato, o primeiro grande desafio com o qual se depararam com a chegada da alvorada foi a nevada contínua que voltara a fustigar a região. Flocos de neve tinham tornado a tingir o mundo enganadoramente pacífico por trás daquelas janelas sujas de um branco tão puro que fazia lacrimejar os olhos.

A nevada não estava forte o suficiente para fazê-los repensar a viagem ou mesmo para atrapalhá-la, mas eventualmente poderia progredir para uma nevasca e era esse prospecto que os inquietava. Ainda assim, Sakura ajudou Sasuke a vestir um pesado casaco de lã negro, por cima do suéter de caxemira que ele já usava. Seus dedos abotoaram todos os botões e seus lábios acabaram se curvando num sorriso ante a carranca de Sasuke.

— Eu poderia fazer isso sozinho — ouvi-o resmungar enquanto suas mãos alisavam os ombros, onde o casaco “emprestado” ficara um pouco justo demais.

— Não, não poderia — ela teimou, resistindo ao impulso de rir da careta que ele fez quando a sua mão alisou o abdome, bem sobre os pontos, para provar seu ponto. — Eu vou à frente dessa vez, tudo bem? Você vai cobrir a minha retaguarda, mas é só. Kabuto vai cobrir a sua retaguarda.

— E de repente ele é confiável o bastante para você — Sasuke desdenhou quando Sakura colocou suas luvas, cobrindo os curativos que ainda levava ao redor da palma direita com couro marrom de qualidade.

— Sim, ele é. Acho que ele provou que pode ter ímpetos de bravura quando quer. — Deu de ombros, oferecendo um par de luvas similar, porém de couro negro, para Sasuke.

Ela se sentou na cama se casal para apertar os cadarços dos seus coturnos. Kabuto surgiu sob a soleira, espiando diligente o cômodo antes que seu olhar repousasse em Sasuke e Sakura, conferindo se ambos já estavam prontos.

— Está na hora — anunciou soturno, e uma aura sobrecarregada de tensão assentou-se entre os três de repente, quase tão fria quanto a brisa contínua que soprava flocos de neve do lado de fora.

Sakura engoliu em seco, mas terminou por assentir. Pôs-se de pé e tentou esboçar um sorriso para os outros dois a fim de encorajá-los. Não pareceu surtir o efeito desejado, tampouco ela era capaz de amenizar os próprios receios. Mas não tinham escolha: ou se arriscavam naquela última jornada, ou poderiam perecer ali mesmo em Settsu. Encontrar o grupo de Itachi era a melhor chance que tinham de sobreviver a esse mundo insano.

Por isso, os três logo deixaram o cômodo, assim como a casa para trás. Agarraram-se aos seus casacos uma vez que pisaram na calçada semicongelada, coberta por uma tênue camada de gelo, e embarcaram no Nissan-leaf. Sakura ocupou o banco do motorista, Sasuke o do carona, e Kabuto se enfiou no banco traseiro.

A rua estava deserta, mas isso não trouxe o alívio esperado para nenhum deles. O céu estava cinza-gelo, tomado por nuvens densas. Nem sinal do sol ou de que a nevada daria uma trégua.

Sakura exalou uma suave fumaça branca no ar enregelante daquela manhã invernal. Fechou a porta do carro e girou a chave na ignição, dando a partida no motor. Olhou para os ponteiros do painel por precaução. Tinham combustível suficiente. Podiam conseguir.

Desviou o olhar para Sasuke, acomodado no banco do carona ao seu lado, e assentiu para si mesma. Resvalou os olhos para o retrovisor e encontrou o semblante apreensivo de Kabuto no espelho: a última esperança da humanidade.

Decidiu que eles tinham que conseguir. E, finalmente, manobrou o veículo para longe do meio-fio, em direção à rua atulhada de lixo. Dirigiu com mais cuidado do que o usual, ciente de que o mesmo gelo que cobria as calçadas também cobria as ruas de Settsu.

Os prédios pelos quais passavam, no cenário caótico que era o centro, suspiravam inquietos junto às rajadas de vento como fantasmas lamuriantes. Um ou outro morto se arrastava de algum beco fétido ou de um canto escuro, respondendo ao ronco baixo do Nissan-leaf que cruzava as ruas abandonadas da cidade.

— Itachi disse que nos encontraria na entrada da cidade — Sasuke a lembrou, ou talvez tenha apenas comentado consigo mesmo, reafirmando o fato para lhe trazer conforto.

Sakura conteve o ímpeto de sorrir ante a empolgação tímida que ouvia no tom de voz dele. Sasuke estava ansioso para rever o irmão, e por mais que tentasse disfarçar isso sob sua fachada séria, o êxito que obtinha nisso era praticamente nulo.

A animação pueril dele a fez ter vontade de rir. Tirou a mão do volante do carro para apertar a mão dele de forma rápida e asseguradora.

— Logo, logo você o verá outra vez — prometeu solene e manobrou o Nissan-leaf por mais uma rua, desviando de outros veículos abandonados no meio da rua, de cadáveres frios ou do que restara deles. — E aí nós vamos poder relaxar um pouco.

— Eu só vou conseguir relaxar depois que estiver embarcado na porra do helicóptero em Shizuoka e a caminho de Kunashir. Sugiro que façam o mesmo — Kabuto resmungou enquanto olhava pela janela para as criaturas que rastejavam pelas calçadas.

Sakura e Sasuke se entreolharam, mas não disseram nada. De fato, mesmo que encontrassem o grupo de Itachi sem nenhum percalço, ainda tinham uma longa jornada pela frente até a salvação que lhes fora prometida: uma ilha controlada por militares russos onde esperavam encontrar abrigo definitivo.

— Corte o papo de merda, Kabuto — Sakura murmurou para quebrar a tensão que voltara a se assentar. — Estamos a um passo de sair desse inferno.

O biomédico estreitou os olhos e ajeito os óculos sobre o nariz, mas não disse mais nada. Voltou o olhar para a janela com uma expressão taciturna. Olhou para os esqueletos de alguns prédios que haviam sido consumidos num incêndio incontrolável e não tão recente, estavam pretos de fuligem. Corpos carbonizados ainda podiam ser vistos, estirados em frente às suas fachadas, ou ainda capazes de se mover de forma limitada como alguns poucos desgraçados.

Cada esquina parecia querer contar uma história diferente para eles, cada uma delas carregava um passado marcado por massacres e orgias canibalescas. Kabuto decidiu que estava pouco interessado no que elas tinham a lhes dizer.

Desviou os olhos para longe no momento em que Sakura dobrava outra esquina, manobrando o Nissan-leaf em direção a uma avenida larga e clivosa; estavam próximos da entrada da cidade.

Mas então ela freou o carro de forma tão abrupta que todos os três ocupantes ricochetearam nos seus assentos, contidos pelos cintos de segurança, os pneus cantando de forma abrupta no asfalto frio.

— Ah, merda! — ela exclamou com os dedos rijos em torno do volante e com uma expressão embasbacada na face pálida.

— Que porra foi essa?! — Kabuto se inclinou para frente para olhar pelo para-brisa e o que viu o deixou estupefato.

Sasuke estava mudo e fuzilava o para-brisa, ou melhor, o que ele via pelo para-brisa, além dos flocos macios de neve que se chocavam contra o vidro-sujo. Kabuto voltou a se recostar contra o banco traseiro, os ombros caídos.

— Merda, merda, merda! — praguejou num eco da própria Sakura, que cerrava os dentes para não vocalizar mais xingamentos.

Os três olharam para a grande avenida, para os edifícios que a orlavam, e para muito mais além, cerca de quinhentos ou seiscentos metros adiante, para a mancha negra que se movia ao final da ladeira, viva e pulsante, como um tumor gigante. Vinham num passo trôpego porém contínuo, tomavam tudo, espalhando-se como uma doença.

Seu coro finalmente se fez audível, sobrepondo o assobio do vento; era assustador. Soavam como um enxame de vespas furiosas — talvez estivessem mesmo famintas. Estavam maltrapilhos e encardidos, ostentavam olhos mucosos e opacos, e mandíbulas escancaradas com dentes podres e negros como lápides em um cemitério.

Eram centenas... Não, eram milhares de mortos-vivos marchando em suas direções. Cinco mil mortos-vivos sedentos por carne fresca. O exército do apocalipse, cantando num só coro e trazendo o arauto de morte e devastação por onde quer que passassem.

E acabavam de se interpor entre Sasuke, Sakura e Kabuto, e a única oportunidade que eles tinham de salvação.

Cinco mil mortos-vivos entre eles e o único acesso — fosse entrada ou saída — a Settsu. E consequentemente ao grupo de Itachi também.

* * *

Naruto abaixou o vidro do jipe militar Toyota Xingu e colocou a cabeça para fora, o vento gelado despenteou mechas do seu cabelo e ardeu na pele do seu rosto. Ele cheirou o ar enregelante daquele princípio de manhã e franziu o nariz quando colocou a cabeça para dentro do carro outra vez, subindo o vidro com pressa.

— Ainda acho que essa nevada vai se transformar numa nevasca cedo ou tarde — comentou com Itachi enquanto sacudia flocos de neve do seu cabelo louro espetado e erguia as lapelas da sua jaqueta, usando-as para cobrir seu pescoço. — Eu sinto isso no ar, Itachi.

O mais velho anuiu, mas não disse nada. Estreitava os olhos para os flocos de neve que se chocavam contra o para-brisa do jipe. Se continuasse naquele ritmo, teria de ligar os limpadores e se ligasse os limpadores isso queria dizer que a nevada estava aumentando.

— Vamos manter o ritmo, estamos quase lá — comentou por fim, mas trocou de marcha e seu pé exerceu um pouco mais de pressão no acelerador, fazendo subir o ponteiro do velocímetro no painel.

Deidara e Kiba vinham em outro veículo logo atrás, um Honda Fit vermelho; o homem loiro no volante disparava seu olhar maníaco para a autoestrada tingida de branco pela nevada provavelmente à caça de qualquer alvo em potencial enquanto o outro, menos tolerante às gracinhas do primeiro, encarava carrancudo os outeiros e os pinheiros cobertos de neve que orlavam a pista.

Naruto espiou o Honda Fit colado na traseira do jipe de Itachi pelo retrovisor, uma olhada nas expressões antagônicas dos seus dois únicos ocupantes bastou para que o loiro revirasse os olhos cerúleos e afundasse no assento.

Lembrou-se do momento em que se despediu de Hinata, em Hirakata. De como prometeu a ela que voltaria. Sabia que ela estaria segura com a mulher chamada Temari, ela parecia ser bastante durona e autoritária, porém muito confiável. Gaara por outro lado, seu irmão, era um enigma ambulante, mas Naruto inexplicavelmente gostava dele. E o sentimento ainda parecia ser recíproco.

Hinata estava em boas mãos, assim como sua irmã, Hanabi, convencia-se. Não ousaria trazê-las consigo para aquela jornada.

O próprio Itachi estava apreensivo com essa missão de resgate, Naruto conseguia ver com sua visão periférica o modo como os dedos dele se agarravam com força ao volante, deixando os nós brancos, ou o modo como ele mantinha os olhos sempre fixos na estrada, os lábios apertados e curvados para baixo nos cantos.

Suspirou, refestelando-se no encosto do banco de couro.

— Você ‘tá tenso, Itachi.

Pela visão periférica, Naruto também viu que ele ergueu as sobrancelhas escuras, franzindo a testa.

— E não era para estar? — perguntou de modo retórico, sem desgrudar os olhos negros e injetados da pista.

— Não estou dizendo isso — Naruto se defendeu, enfiando os punhos gelados dentro dos bolsos de sua jaqueta para tentar aquecê-los. — A gente está mais perto do que nunca de encontrar o Sasuke, mas mesmo assim você continua com essa cara.

Itachi tombou o semblante apático para Naruto, tornou a franzir a testa, desgrudando os olhos abissais da estrada pela primeira vez em horas.

— “Essa cara”? — ecoou visivelmente afetado.

Naruto bufou pelo nariz.

— É, essa cara. Como se alguém tivesse atirado no seu cachorro ou algo parecido. Tenta relaxar um pouco, ‘tá legal? Estamos quase lá de qualquer forma.

Itachi suspirou, meneou a cabeça devagar e voltou a encarar a pista que se cobria paulatinamente com uma camada fina de neve. Naruto precisou conter um sobressalto quando escutou o riso baixo e rouco de Itachi reverberar dentro do interior completamente vedado do veículo.

— É — ouviu-o concordar vagamente. — Estamos quase lá.

Naruto tirou as mãos geladas de dentro do bolso e as soprou na esperança vã de aquecê-las. Começou a cantarolar uma canção qualquer que lhe veio à cabeça para tentar matar o tempo, empolgando-se quando viu que Itachi sorria minimamente com toda a sua cantoria.

Num instante, Naruto olhava para as linhas mais suaves do semblante de Itachi, no outro, ele enrijeceu todo o corpo, empalideceu e esbugalhou os olhos escuros. Então ele freou bruscamente, pisando fundo no pedal do freio. Naruto ricocheteou no banco enquanto os pneus cantavam no asfalto frio.

— O que foi que houve?! — inquiriu para o moreno com urgência, aprumando-se no assento e voltando os olhos para a pista.

Todo e qualquer protesto morreu na ponta da sua língua, nos seus lábios escancarados, que só foram capazes de externar uma única frase sussurrada:

— Ah, caramba.

O Honda Fit vermelho parou logo atrás do jipe Toyota Xingu, de forma bem menos dramática e brusca. O vento assobiou do lado de fora com maior ímpeto, soprou mais flocos de neve contra o para-brisa dos dois veículos.

Naruto soltou seu cinto de segurança para se erguer no assento. Esfregou os olhos com os nós dos dedos e piscou, tudo para se assegurar de que não se tratava de uma miragem: a visão pavorosa ao fim da autoestrada, tomando conta das duas pistas da Via-Expressa.

— Itachi, me diz que eu ‘tô sonhando acordado — murmurou com assombro.

O moreno cerrou os dentes em resposta, mas não ousou vocalizar palavra alguma exceto pelo xingamento ríspido que lhe pendia da ponta da língua e que foi impossível de conter:

— Porra.

* * *

Sasuke, Sakura e Kabuto aguardavam dentro do veículo calados e sem saber o que fazer. Estavam de mãos atadas e o silêncio pesava entre eles. Olhavam pelo para-brisa, meio abaixados nos assentos, para a horda gigantesca que se arrastava sem rumo no fim da avenida.

Os mortos-vivos se moviam como tentáculos descoordenados a partir das duas pistas, mancando e coxeando, gemendo em uníssono aquele coro pavoroso que enchia o ar invernal da mesma forma que o prenúncio de uma tempestade violenta o faria. Eram como uma ferida purulenta imensa e feia, um cardume profuso e putrefato.

Sakura apertou os dedos ao redor do volante, descerrou os dentes para ser a primeira a quebrar o precioso silêncio, mas mesmo quando o fez, fez questão de sussurrar as palavras, temendo que qualquer excesso de ruído atraísse aquela turba para eles:

— O que vamos fazer?

— Não dá para passar por eles — Kabuto descartou a solução mais óbvia e suicida. — São muitos. Porra, são milhares! Nunca vi tantos deles reunidos assim antes.

— Eu já — Sakura murmurou, assentindo consigo mesma. — Quando Sasuke e eu passamos por Osaka. Foi a maior horda que já vi.

— Talvez eles tenham vindo de lá — Kabuto completou, ajeitando os óculos no rosto. — É impossível prever seus padrões de comportamento, o modo como alguns acabam vagando sozinhos, ou como outros se juntam em grupos pequenos ou numerosos. Mas isso aí já é ridículo — chiou, recostando-se ao banco com um suspiro.

Sakura olhou para Sasuke, que não havia dito uma única palavra desde então. Ficou preocupada com a raiva que viu nos olhos dele, no semblante dele. Ele estava tão perto de reencontrar o irmão, mas agora cinco mil cadáveres famintos se colocavam entre ele e Itachi.

Ela conteve o reflexo de dizer qualquer palavra a ele, sabia que seria em vão. Nada seria capaz de consolá-lo — ou de aplacar seu ódio destrutivo. Mordeu o lábio inferior antes de estender a mão para o porta-luvas. Abriu-o e tirou de lá o único mapa que possuíam, cuidadosamente dobrado.

— O que está fazendo? — Kabuto quis saber, inclinando-se na ponta do banco outra vez a tempo de vê-la desdobrar o mapa e apoiá-lo no volante.

— Deve ter outra forma de sairmos da cidade — comentou, correndo os olhos pelas linhas que demarcavam o mapa.

Não tem outra forma — Sasuke finalmente se manifestou, cuspindo cada palavra através dos dentes cerrados.

Sakura e Kabuto se viraram para ele. Sasuke respirava de forma errática, ruidosa. Seu peito subia e descia de um jeito violento e intimidador, como se estivesse prestes a rebentar e a expulsar toda a raiva que o acometia.

— Podemos tentar — Sakura insistiu conciliadora, mas o moreno deu pouca atenção.

Ela engoliu em seco, percebeu que o papel fino do mapa tremia em suas mãos. Assistiu, estupefata, a Sasuke cerrar os dentes de forma audível. Em seguida, ele levou a mão à maçaneta da porta e a puxou, saindo do carro. A corrente de ar frio que invadiu o interior do veículo e a atingiu nada teve a ver com o frio que a tomou, assentando-se no seu estômago.

Sakura largou o mapa e também saiu do veículo enquanto Sasuke contornava o Nissan-leaf, marchando na direção da horda. Ela correu até ele, ignorando as rajadas geladas que lhe penetravam até os ossos, e o agarrou pelo casaco, empurrando-o de volta para o carro.

— Que porra você acha que está fazendo, Sasuke?! Volte para o carro! — urgiu, fazendo força para empurrá-lo na direção oposta a que ele queria seguir.

Com o semblante distorcido pelo ódio, os olhos injetados e arregalados, Sasuke gritou contra o vento feroz que soprava ao redor deles:

— Que porra você acha que estou fazendo, Sakura?! Eu vou acabar com isso de uma vez por todas! Vou acabar com esses filhos da puta, um por um! Eu estou cansado de toda essa merda! Eu vou explodir cada um desses bostas, e ainda vou queimar o que sobrar deles!

— Sasuke, você não está pensando com clareza — Sakura argumentou, fincando os dedos nos braços dele de forma quase dolorosa. — Olhe para eles, Sasuke! Porra, só olhe! São muitos para darmos conta, caralho!

— Foda-se — ele sibilou, resistindo aos puxões de Sakura. — Foda-se esse mundo de merda, foda-se eles, foda-se tudo!

— Seu imbecil estúpido — ela rosnou, negando-se a desistir. — Não vou deixar você se matar, está me ouvindo?! Trate de se acalmar e de voltar para a merda do carro!

Vendo que não estava tendo êxito, ela decidiu mudar a abordagem. Soltou os braços dele e envolveu seu rosto com ambas as mãos, trazendo-o para baixo e erguendo-se na ponta dos pés. Beijou-o de forma dura e obstinada, pressionando seus lábios nos dele, contornando a boca dele com a língua.

Escutou-o rosnar — ou gemer — de forma rouca, um som bestial, vindo do fundo da sua garganta. Ainda assim o beijou. Até que ele cedeu e retribuiu o beijo com tanto entusiasmo quanto Sakura.

— Não vou desistir de você, Sasuke, tampouco vou deixar que você desista de si mesmo — assegurou quando se afastou, olhando-o nos olhos, que já não desbordavam tanta raiva como antes. — É melhor se acostumar com a ideia. Estamos juntos nessa, até o fim, até as últimas consequências — prometeu, contente porque ele havia deixado de resistir aos seus avanços e se permitira ser recostado ao para-choque e capô do Nissan-leaf.

A voz de Kabuto soou a seguir, quebrando o momento, estava afetada por uma nota inconfundível de ironia:

— Se o casalzinho já terminou de discutir a relação, talvez queiram saber que estão tentando nos contatar pelo rádio.

Sasuke e Sakura olharam do biomédico, recostado à porta aberta do Nissan-leaf, para os rostos surpresos um do outro. Correram até o carro e apanharam o radiocomunicador que emitia chiados estáticos. Apoiaram-no no colo de Sasuke, que também pegou o bocal e girou o botão para permitir a comunicação.

— Itachi — ele chamou, a boca bem próxima ao bocal. — Estou na escuta. Pode falar.

Silêncio. Outro chiado alto ecoou. E, por fim, uma voz masculina.

Sasuke? — Ele parecia aliviado. — Você está bem. — Não foi uma pergunta, foi uma constatação.

— Sim, mas temos um problema. Um fodido de um problema, Itachi — Sasuke murmurou com o semblante contraído, mas conseguiu controlar a raiva dessa vez.

Estou vendo — o outro concordou, sombrio. — Eles são muitos, Sasuke, e não parece que vão migrar para outro lugar tão cedo. Não vou conseguir entrar na cidade, não com eles tomando todo o acesso.

Sakura olhou através do para-brisa para o céu que escurecia depressa demais para o seu gosto. Nuvens densas eram sopradas pelo vento cada vez mais impetuoso. Os flocos de neve que se chocavam contra o para-brisa agora se acumulavam em maior número nas bordas e sobre os limpadores desligados.

— Sasuke, tem outra nevasca a caminho — ela concluiu com pesar, despejando ainda mais tensão entre os três.

— Itachi, tem uma nevasca a caminho — Sasuke informou o irmão mais velho depois de um momento. — Não podemos esperar, é arriscado demais.

Sim, eu sei — o irmão mais uma vez concordou. — É por isso que tenho um plano para tirar vocês de Settsu, irmãozinho.

Os três se entreolharam, mas nada disseram. O único som a reverberar dentro do veículo fechado era o chiado do obsoleto radiocomunicador.

— Que plano? — Sasuke interpelou o irmão depois de outra pausa, engolindo em seco enquanto pensava nos riscos que todos correriam para colocá-lo em prática e no preço que pagariam se algo desse errado.

Mas ele confiava em Itachi. Itachi não falharia com eles — com ele.

Itachi não respondeu num primeiro momento. Pareceu durar uma eternidade, mas o silêncio voltou a ser rompido pela voz cadenciada do moreno, soando abafada pela estática do aparelho.

Eis o que quero que façam por mim — disse por fim e começou a passar instruções detalhadas do que os três precisariam fazer.

Isso é, se ainda quisessem sair com vida de Settsu.

* * *

Você me pediu para te amar

E eu te amei

Amarrei a minha alma e me submeti

Então quanto parti

Só levei comigo as cicatrizes

O meu outro eu já se foi

Agora não sei a qual lugar pertenço mais.

Slipknot – Trecho de Dead Memories.

Notas finais
Próximo capítulo é AÇÃO, AÇÃO, AÇÃO, E TIRO, PORRADA E BOMBA! HAUHAUAHAUHAUAHAU ... Eu nem prometo que não vou demorar de novo porque, né, fiquei quase um ano sem aparecer por aqui, PORÉM, eu tive meus motivos: primeiro, eu concluí minha pós ano passado e foi um ano muito tenso pra mim por causa da Monografia. Me estressei mais do que podia, estou vivendo as consequências de ter passado tanto estresse ano passado, aliás. Mas graças a Deus, fui aprovada pela banca e ainda tirei uma nota maravilhosa na minha Monografia! :D O segundo motivo é que como estou aos poucos deixando o fandom de Naruto (e consequentemente parando de escrever Fanfics SasuSaku), estou desenvolvendo muitos projetos originais, até já tenho um deles concluído. E o terceiro motivo é que ano passado eu consegui um emprego depois de muito tempo desempregada, e eu tô gostando muito de trabalhar na minha área de formação, que é o que eu sempre quis, ou seja, tenho só os fins de semana agora pra escrever porque no meio da semana eu chego praticamente morta em casa huahuahsuahsua. ... Mas, enfim, falando sobre TWD. Ai, que tristeza admitir que eu dropei a série =( Não tenho mais ânimo pra assistir, especialmente depois da covardia que fizeram com o Carl. Queria muito que seguissem as HQ's, e como isso não vai rolar, dropei a série. Triste, mas vida que segue. ... Amores, estamos no final de DWA! O próximo capítulo é o clímax da história. Depois vai ser só coisa boa, prometo! Hehe Eu vivo dizendo que quero que o fim de DWA inspire esperança, então não temam! ;D Nos restam dois ou três no máximo + o epílogo, eu creio. Então, apertem os cintos e preparem suas armas porque essa (loooooooonga) viagem finalmente está chegando ao fim! ... Obrigada a todos que seguem lendo, comentando, favoritando e recomendando! Nos vemos no próximo! o/