Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

57 Capítulo LVI: Assembleia do Mundo Morto


Notas iniciais
Nem acredito que estamos aqui, depois de mais de um ano de hiatus e com a Fanfic prestes a completar SEIS ANOS! Hahahaha Capítulo dedicado à Livzmoon, Ayahira e Phraysee pelas recomendações maravilhosas! Muito obrigada e espero que gostem desse capítulo, se ainda acompanharem a Fanfic! XD Sem mais delongas, o ANTEPENÚLTIMO capítulo de Dead Word Assembly! Boa leitura!

Dead World Assembly

“Nenhum deles consegue ver direito. São todos lançados contra uma porta dentro do recinto coberto de tábuas, protegendo os rostos dos destroços flamejantes — pedaços do ônibus, estilhaços de metal e uma chuva de cacos de vidro — que passam voando pela porta. Brian consegue ver um pouco do reflexo pela vitrine de uma loja do outro lado da rua: a explosão, a meia quadra de distância, mandou um ônibus de 20 toneladas pelos ares; num enorme e horrível cogumelo de fogo, a força da explosão destruindo a carroceria, a onda de ferro quente atravessando uma multidão de zumbis com o brilho violento de uma supernova. Inúmeros corpos são varridos pela onda, incinerados pelo fogo, alguns deles despedaçados pelos estilhaços que voam pelos ares, as partes mortas dos corpos voando pelo céu da tempestade, como uma revoada de pássaros tentando fugir”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 188).

* * *

Capítulo LVI:

Assembleia do Mundo Morto

* * *

Era por volta das dez horas da manhã quando o trio, composto por Sasuke, Sakura e Kabuto, terminou os últimos preparativos para o plano arriscado de Itachi. Cada minuto contaria, e cada segundo desperdiçado poderia colocar todo o plano perigosamente arquitetado a perder.

Àquela altura, a nevada se tornara uma nevasca. O vento cortante soprava flocos de neve contra o rosto desprotegido de Sakura, forçando-a a apertar os olhos e a aguentar a sensação ardente causada pelo frio intenso contra a sua pele. Seus dedos estavam rígidos e desajeitados. Ainda assim, usou-os para reunir todos os itens que seriam utilizados para colocar o plano em ação.

Depois de pegar o último galão de gasolina no porta-malas do Nissan-Leaf, ela o fechou. Carregou-o consigo até o ponto onde Sasuke estava, de costas para ela, e de olho na movimentação da horda numerosa no fim da pista-dupla. Sakura ainda tinha calafrios a cada vez que os olhava, tão pequenos como formigas da distância em que se encontravam. Mas, o vento carregava o coro dos seus gemidos — amplificados pelo imenso espaço vazio no qual se aglomeravam — até ela e faziam com que o seu estômago se retorcesse de medo, bem como o fedor que exalavam.

— Como estamos? — ela questionou, espiando a expressão soturna de Sasuke; havia flocos de neve derretendo no cabelo negro, e a respiração constante dele tornava-se uma bruma no ar terrivelmente gélido.

— Eles pararam de se mover há meia hora. Agora, só ficam ali, coxeando e gemendo. Os filhos da puta... Parece até que estão debochando de nós — queixou-se entre dentes.

Sakura suspirou. Ergueu uma mão e tocou o ombro de Sasuke. Então se virou para procurar por Kabuto e para averiguar se ele tinha encontrado o que precisavam. Afastou-se pela rua congelada, pisando com cuidado sobre o gelo que cobria o asfalto. O céu acima dela estava pálido como leite, e as nuvens varridas pela ventania constante começavam a se aglomerar num mesmo ponto, sinalizando que a nevasca não cessaria tão cedo, muito pelo contrário.

Aos poucos, toda a paisagem estava sendo soterrada por uma densa camada de neve. Tudo, desde as árvores desfolhadas que se erguiam como silhuetas escuras e silentes no meio-fio até os grandes edifícios fantasmas que a rodeava estavam se tingindo de um branco tão puro que lhe doía os olhos observá-lo por muito tempo. Para piorar, a visibilidade estava decaindo a cada hora. Precisavam se apressar e sair de Settsu o mais depressa possível. Se não fossem apanhados pela nevasca violenta que os céus tempestuosos prometiam fazer cair sobre eles, seriam pegos sem dúvida pela horda que guardava o único acesso à cidade, uma vez que eles não permaneceriam letárgicos daquela forma para sempre.

Sakura apertou o agarre em torno do galão de gasolina e se encontrou com Kabuto na metade do caminho. O biomédico tinha as lentes dos óculos um pouco sujas e o cabelo prateado estava despenteado pelo vento. Ela abaixou os olhos para as mãos dele, e percebeu que uma delas estava cerrada em torno de algo.

— Encontrou o que estava faltando?

O meio sorriso dele pegou-a de surpresa, assim como o pequeno retângulo brilhante de metal que ele lhe mostrou quando abriu a mão: um isqueiro.

— Já temos tudo o que precisamos, eu acredito.

Sakura percorreu o entorno com os olhos de um jeito ansioso. A fachada do imenso edifício acima deles estalava vez por outra, a estrutura rangendo de modo tímido como um morto-vivo monstruoso. Os flocos de neve se chocavam contra os vidros das janelas, espiralando como num rodamoinho sobre as suas cabeças. Ela apartou os lábios e exalou uma longa lufada de ar, que esbranquiçou no ar gélido daquela nevasca.

— Então vamos logo dar o fora da merda dessa cidade — sussurrou no momento em que Sasuke se unia a eles.

— A horda está se movendo de novo. Movimentos lentos, mas está. Parece que a nevasca está deixando-os mais irritados a cada minuto.

— Ou famintos — Kabuto corrigiu com um sorriso deturpado, olhando para Sasuke, que se limitou a fulminá-lo e a dar as costas outra vez, afastando-se na direção contrária pela qual viera.

Sakura apressou-o em seguida:

— Ele está certo. Vamos dar o fora daqui.

Kabuto, entretanto, não desperdiçou um último comentário mordaz para ela.

— Ou morrer tentando, não é mesmo? É tudo ou nada.

Sakura assentiu duramente e se virou para seguir Sasuke. Kabuto a acompanhou, mantendo-se um pouco mais atrás. Desceram o quarteirão e dobraram numa esquina a cerca de cento e cinquenta metros. Desse ponto em diante, enxergaram, mesmo à distância, o posto de combustível depredado e caindo aos pedaços. O posto era a parte crucial do plano, além da mais arriscada, mas ele não tinha ousado dar voz a seus receios mesmo quando o irmão mais velho de Sasuke passou a instruções a eles do que deveriam fazer através do rádio.

Sasuke e Sakura tinham concordado com cada detalhe, oferecendo suas opiniões vez por outra enquanto encaravam, de cenho franzido, o mapa da cidade de Settsu desenrolado sobre o capô do carro diante deles. Mas que merda, ele praguejou apenas para si mesmo com um cerrar da mandíbula. Que merda que merda que merda que merda. Ainda assim, não diminuiu o passo. O vento estava se tornando agressivo a cada minuto, tentava forçar o seu corpo a se mover na direção oposta — na direção da horda lá embaixo.

Estavam mesmo apostando todas as fichas naquele plano suicida, e Kabuto não estava nem um pouco contente com isso. Porém, as alternativas enervavam-no ainda mais. Ficar preso em Settsu com a nevasca que se aproximava e com uma horda de pelo menos cinco mil zumbis famintos não estava nos seus planos. Por isso, acatara a decisão de Sasuke e Sakura.

Por falar neles, Kabuto, ao se aproximar, notou que ambos já cuidavam dos detalhes finais do plano de Itachi. Um ônibus grande tinha sido estacionado no fim da rua e foi na direção dele que ela seguiu, subindo os degraus e ocupando o assento do motorista; tinha tido uma sorte imensa ao toparem com um ônibus quase intacto estacionado numa rua adjacente e o melhor: com um tanque ainda pela metade de combustível. Sakura, já com as mãos sobre o volante, deu a partida no veículo imenso, manobrando-o pelo asfalto congelado com cuidado para posicioná-lo no fim da rua, virando-o na direção do posto de gasolina.

Sasuke, a trinta metros dela, acenou com a mão, dando o sinal para que acelerasse. Sakura o fez, soltando o peso do pé no pedal do acelerador e ganhando velocidade. Os limpadores trabalhavam a todo vapor para manter os flocos de neve longe do para-brisa, e consequentemente do seu campo de visão.

Com muita calma, ela levou o ônibus até o posto de gasolina, posicionando-o perto de uma das bombas de abastecimento, o motor roncando baixinho sob os uivos do vento. Kabuto olhou nervosamente à sua volta, e mais além na direção da horda cujo coro de gemidos chegava até eles como o zumbido de cinco mil vespas. Por sorte, nenhum deles pareceu ter reagido ao ruído.

Kabuto venceu a distância que ainda o separava dos outros dois, e estagnou ao lado da bomba de estacionamento no momento em que Sasuke pegou a mangueira e pressionou a alavanca, borrifando um jato de gasolina de encontro ao chão de concreto, direcionando o jato para a carroceria do ônibus em seguida. O odor forte fez o nariz de Kabuto coçar e seus olhos lacrimejarem. Sakura tivera o zelo de estacionar o ônibus bem no meio do posto.

O que realmente lhes interessava, entretanto, era o líquido amarelado que jorrava da mangueira e encharcava a carroceria do ônibus e que provinha de um poço subterrâneo de líquido inflamável, talvez não tão cheio quanto eles decerto rezariam para que estivesse, mas que viria a calhar, de qualquer modo.

Sakura desceu do ônibus e pegou a mangueira de outra bomba de abastecimento para ajudar Sasuke, chegando, inclusive, a disparar jatos generosos de combustível dentro do veículo. No fim, os três se inclinaram para trás para olhá-lo, completamente ensopado e com um rio de gasolina fluindo pelos seus pneus altos e empoçando no chão.

Kabuto virou o rosto para fitar os dois companheiros suicidas:

— E então, vamos começar? — sugeriu com um meio sorriso.

Dez minutos depois, Sakura tinha voltado ao Nissan Leaf, estacionado a uma distância razoável do posto de combustível. Virou-o numa rua paralela e estreita à avenida que ocupavam. No momento certo, aquela haveria de se tornar a rota de fuga dos três, e a única chance de escaparem de uma horda faminta de cinco mil mortos-vivos.

Sasuke carregava dois galões cheios com gasolina enquanto se aproximava a passos apertados. Ele depositou os dois galões de gasolina no chão de concreto e então indicou com a cabeça para que Kabuto o ajudasse a mover a peça final do plano: um veículo abandonado, um Toyota Sienta cujos bancos estavam sujos de sangue seco e cujo volante se tornara pegajoso com alguma gosma nojenta. O painel de controle mostrava que ainda havia um pouco de gasolina no tanque.

Juntos, Sasuke e Kabuto se posicionaram na traseira do Sienta e começaram a empurrá-lo, movendo-o na direção do posto de gasolina. Uma vez que o posicionaram ao lado do ônibus, Sasuke imediatamente apanhou um galão e entregou o outro a Kabuto para que espalhassem a gasolina sobre a carroceria do automóvel. Eles chegaram, também, a atirar o líquido para dentro do veículo. O cheiro forte da gasolina fez os olhos de Kabuto lacrimejarem pela segunda vez.

Uma vez terminado, afastaram-se vários passos para que Kabuto entregasse a Sasuke o cilindro de metal que os salvaria, o isqueiro que encontrara nas redondezas. Kabuto não demorou a dar meia-volta e correr pela nevasca, ganhando distância do posto. De jeito nenhum seria aquele a acender o pavio daquela dinamite potente. Alegremente deixaria o serviço sujo para Sasuke, que não hesitou em fazê-lo.

Ele se afastou do posto sem jamais se virar, flocos de neve haviam se grudado ao seu cabelo negro e agora derretiam. Seus dedos estavam gelados e um pouco dormentes, mas ele não se permitiu ser desajeitado naquele momento. Tudo dependia daquela pequena fagulha, daquela flâmula tímida que tremia no vento invernal.

Sasuke deslizou o polegar pela roldana de metal, criando uma chama pequena. Com um arremesso perfeito e muito bem calculado, ele atirou o objeto de encontro ao Toyota banhado em gasolina, torcendo para que o fogo não se apagasse enquanto dava meia-volta e corria para longe dali na direção do Nissan Leaf.

Não assistiu ao momento em que o cilindro colidiu com o carro, nem testemunhou o instante em que as chamas explodiram na carroceria do Toyota, incendiando-o imediatamente e envolvendo-o numa manta escaldante e brilhante de fogo. Também não viu o momento em que o fogo se espalhou para o veículo vizinho ao Sienta, o ônibus encharcado de gasolina que eles tão cuidadosamente prepararam e armaram para explodir como uma bomba-relógio.

Sasuke estava a dez passos do Nissan Leaf quando a primeira explosão aconteceu: um estrondo que sacudiu o chão sob os seus pés e pareceu inverter o mundo de cabeça para baixo. Ele se atirou para dentro do interior do veículo, fechando a porta enquanto se virava para observar o cogumelo de fogo que se erguia de encontro ao céu leitoso. Uma coluna de fumaça negra começava a se erguer junto ao fogo.

Sakura continuava por trás do volante, os dedos rígidos, a postura tensa. Ela também olhava para o fogo que se alastrava pelo posto de gasolina, em parte assustada, em parte fascinada pela beleza letal do espetáculo. Por um momento, o som das labaredas consumindo o aço de ambas as carrocerias os embalou. Então, a voz de Kabuto quebrou o silêncio denso:

— Porra, foi exatamente como o seu irmão prometeu, Sasuke! BOOM! — exclamou, o olhar vidrado no fogo do outro lado da avenida.

Sakura cerrou os dentes e se forçou a averter os olhos da cena. No outro extremo da ladeira, a horda tinha começado a se mover, atraída pelo estrondo da explosão de antes e pelo brilho do fogo contra o céu. Coxeavam e bamboleavam sobre as pernas mirradas, mas os passos sem dúvida estavam se tornando mais curtos. Não se esparramavam, antes se movendo como um único ser, como se partilhassem uma mesma consciência. Era assustador de assistir.

Aos poucos, foram enchendo a avenida com seus murmúrios mortos, cinco mil vozes erguendo-se como uma só num cântico que precedia a morte e a destruição. Eram como arautos dos caos, visões decididamente pavorosas e originárias dos piores pesadelos imagináveis.

— Eles estão vindo! — Sakura alertou os companheiros, o corpo se retesando no banco do motorista, os dedos se apertando ainda mais ao redor do volante.

Kabuto e Sasuke prenderam os cintos de segurança em torno dos corpos. O primeiro ocupava o banco do carona, ao lado de Sakura, enquanto Sasuke estava sozinho no banco de trás. Tensos, os três se prepararam para o momento em que dariam início à fuga. Tinham de esperar pelo momento certo ou colocariam tudo a perder, e Sakura sabia disso.

Enquanto isso, os mortos se aproximavam cada vez mais, hipnotizados pelo calor e pela cor das chamas que ardiam no posto de combustível. Os primeiros deles caminharam sem medo de encontro ao fogo com uma devoção suicida, e desapareceram por trás de uma cortina negra de fumaça tóxica. Uma horda numerosa ainda seguia atrás deles.

Foi quando a segunda explosão aconteceu, maior e mais destruidora do que a primeira. Tão intensa que sacudiu os edifícios ao redor, trincando os vidros das janelas enquanto o fogo se alastrava pela avenida e envolvia mais zumbis num abraço inescapável. Desta vez, o cogumelo de fogo subiu três vezes mais do que o seu antecessor, as extremidades das labaredas alcançando uma altura tenebrosa. A coluna de fumaça triplicou de tamanho e encobriu o céu. A força da explosão varreu os mortos-vivos mais próximos como uma mão gigantesca, despedaçando-os com o seu impacto e atirando-os para cima e para os lados. Uma chuva de pedaços de cadáveres em decomposição e fluídos escuros cobriu a avenida juntamente com o fogo.

Mas para cada morto-vivo despedaçado pela força da explosão, havia mais dez no seu encalço, arrastando-se na direção do posto de combustível. A explosão dizimara os que vinham pela dianteira, porém na retaguarda os errantes ainda cantavam o seu cântico penoso.

— Agora, Sakura! Vai, vai! — Sasuke urgiu.

— Eu sei, eu sei! — ela devolveu, girando a chave e dando a partida no motor, afundando o pé no acelerador e soltando a embreagem para arremeter para frente a toda velocidade.

Os pneus do Nissan Leaf cantaram no asfalto antes que o veículo disparasse pela rua adjacente, o ruído agudo atraindo a atenção de vários zumbis que estavam mais próximos e fazendo-os virar a cabeça ao mesmo tempo. Sakura desceu a ladeira a toda velocidade, não poupando o motor do automóvel. Conseguiu percorrer cerca de cinquenta metros antes que o primeiro errante surgisse na rua, um vulto envolto em chamas que se lançou na direção do carro.

Sakura desviou dele sem dificuldade ao girar o volante para a direita, mas então outro apareceu, e mais outro. E quando deu por si, ao menos duas dezenas de errantes tinham invadido a rua adjacente, abrindo e fechando as mandíbulas podres enquanto as pernas frágeis levavam-nos adiante.

— Mas que porra! — Kabuto praguejou, um eco da reação da própria Sakura, que se limitou a cerrar os dentes e a continuar seguindo em direção ao fim da rua.

Pelo visto, não podiam contar mais com a distração do incêndio no posto de combustível. A horda havia localizado uma presa mais interessante, e voltara os seus olhos predatórios para ela.

— Não pare, não importa o que acontecer! — Sasuke a urgiu, agarrando o encosto do banco dela.

Eu não vou parar, merda, ela pensou em resposta, mas àquela altura pelo menos uma centena de zumbis já havia invadido a rua, irrompendo de esquinas atulhadas de lixo e saindo de dentro de prédios. Os limpadores trabalhavam a todo vapor a fim de afastar os flocos de neve do para-brisa, limpando seu campo de visão. Ela ia costurando agilmente com o automóvel através da rua, evitando bater num deles pelo máximo de tempo possível.

De repente, tornou-se impossível desviar de um, pois um pequeno grupo se reunira na direção oposta e Sakura se viu forçada a atropelá-lo, lançando-o por cima do para-brisa. Uma mancha verde-escura e gosmenta sujou o vidro no local onde o cadáver colidira. Os limpadores espalharam-na, ampliando a mancha e impedindo-a de ver com clareza, mas ela não ousou reduzir a velocidade por causa disso. Colidiu com o segundo morto, e então com um terceiro, que conseguiu se agarrar ao capô por alguns segundos antes de ceder e escorregar. As rodas dianteiras passaram por cima dele, depois as traseiras, provocando solavancos em todos e fazendo-os se segurar nos seus assentos.

Estavam quase no final da rua, que terminava numa curva ampla para a esquerda e desembocava outra vez na avenida principal. Sakura diminuiu apenas um pouco no momento certo, virou o volante e dobrou ainda em alta velocidade, enfim retornando ao único acesso de Settsu, que se conectava com a Via-Expressa de Kinki.

Uma vez na avenida, entretanto, o número de mortos-vivos praticamente triplicou. Apesar dos olhos marejados, continuou a seguir adiante, voltando a pisar fundo no acelerador agora que a pista se transformara numa única reta. Bateu em outros cadáveres, passando por todos eles feito um borrão. Mas à medida que avançava, mais difícil se tornava desviar deles; começavam a se fechar em torno do Nissan, afunilando-se num túnel estreito e grotesco com mãos podres estendendo-se para tocar a carroceria.

Sakura também passou por cima de mais deles, até que chegasse ao ponto dos pneus se tornarem escorregadios pelo fluídos que os cobriam. Pedaços de corpos e órgãos apodrecidos ficaram presos no capô e nos limpadores conforme os mortos continuavam a rolar por cima do teto do carro.

Ela perdeu um retrovisor ao colidir contra um deles, e as manchas pretas de gosma tinham coberto quase todo o vidro da sua janela. Os pneus começavam a derrapar graças aos fluídos que os cobriam e ao gelo no asfalto, estava se tornando mais difícil manter o carro estabilizado e em linha reta a cada segundo. Então, o último edifício de Settsu ficara para trás; estavam oficialmente na Via-Expressa de Kinki, mas longe de estarem a salvo.

— Continua em frente! — Sasuke exigiu, daquela vez agarrando o ombro dela.

Através das lágrimas que lhe toldavam os olhos, ela aquiesceu e continuou, não ousando diminuir a velocidade mesmo quando o túnel de cadáveres estreitou-se mais, e ainda mais, em torno do carro. Kabuto gritava uma imprecação vez por outra, amaldiçoando os mortos que batiam de encontro à sua janela e encolhendo-se no banco a cada solavanco que o veículo sofria.

O túnel composto por cadáveres reanimados em diferentes estágios de decomposição se fechou ao redor do veículo, tomando-o por completo e fazendo-o perder a velocidade pouco a pouco. Toda a luz desapareceu por trás de pelo menos uma centena de corpos pútridos.

— Agora, Sakura! — Sasuke deu-lhe o sinal pelo qual ela esperara.

Num último gesto desesperado e abrupto, ela virou todo o volante para a direita, levando o Nissan Leaf através da pista até um dos acostamentos, e além, na direção do descampado que orlava a margem direita da pista. Os cadáveres que o cobriam se desprenderam quase todos de uma vez no momento em que uma depressão do terreno fez o carro sofrer um solavanco muito mais violento. As rodas escorregadias tocaram grama seca e neve ao invés da pista, e então continuaram por mais vinte metros antes que parasse.

— Agora, porra, AGORA! — Sasuke gritou para Sakura e para Kabuto.

Eles desprenderam os cintos de segurança todos ao mesmo tempo e abriram as portas, saudando o vento congelante e o fedor dos mortos. Desceram do Nissan Leaf aos tropeços, desviando dos cadáveres atirados ao chão que se esforçavam para se pôr de pé outra vez.

A mão de Sasuke se fechou ao redor da mão de Sakura, puxando-a para perto e para que não perdesse o ritmo da corrida nem por um segundo. Kabuto vinha logo atrás, resfolegando no ar invernal, os óculos tortos no rosto corado; não havia tempo para ajeitá-los.

O coro de vozes era quase ensurdecedor, enchia o descampado com uma ressonância bizarra orquestrada por ninguém menos do que a própria morte. À esquerda deles, cerca de dois mil cadáveres ainda se aglomeravam na Via-Expressa de Kinki, movendo-se todos ao mesmo tempo como um imenso tentáculo. Sakura desviou os olhos deles e continuou a correr. Mas mesmo que seus pés vacilassem, Sasuke a puxaria e a faria continuar, tinha certeza disso pela força com que ele agarrava a sua mão, não afrouxando o seu aperto.

Eles correram na direção das árvores mais além, uma tímida floresta de abetos coberta pela neve, pois as árvores lhes dariam mais cobertura para a fuga. Estavam chegando, e cada metro que ultrapassavam significava um metro mais perto da salvação que Itachi e seu grupo lhes prometia. Só precisavam ultrapassar a horda e estariam a salvo. Ele lhes dissera que os esperaria num ponto seguro, com armas prontas para disparar e motores ligados para a fuga.

Mesmo uma vez sob a cobertura das árvores, os três não pararam para recuperar o fôlego. Continuaram a correr sem descanso, e Sakura sentia que os seus pulmões explodiriam a qualquer momento. Ela só se permitiu olhar para trás uma única vez, para ver, por entre as árvores, a fumaça negra do incêndio que causaram ainda subindo em direção ao céu, e para ver os cadáveres que seguiam nos seus encalços, grunhindo e gemendo, os olhos amarelos faiscando feito faróis na luz pálida do dia.

— Não para, Sakura, não para! — Sasuke a repreendia a cada vez que ela dava o menor sinal de que desistiria, de que não conseguiria mais dar um passo sequer.

Os músculos das suas pernas estavam queimando, seu coração batia acelerado no peito, o seu tórax havia se comprimido e os seus pulmões suplicavam por ar. Mas ela não conseguia respirar. Suas costelas doíam, sua garganta e boca estavam secas, e o ar frio lhe fazia arder o rosto.

— S-Sasuke — ela conseguiu gemer, tentando apertar a mão dele, mas as forças lhe faltavam.

Ouviram um grunhido, que só poderia pertencer a Kabuto, e se viraram a tempo de ver o biomédico ser pego por dois errantes, que caíram sobre ele, derrubando-o de bruços no chão coberto pela neve da floresta.

Sakura engoliu com dificuldade e arranjou forças de algum lugar de dentro dela para alertar o parceiro:

— Sasuke, não podemos deixá-lo morrer!

Cerrando os dentes, Sasuke se forçou a dar meia-volta, arrastando-a consigo e correndo na direção oposta pela qual deveriam fugir. Soltou a mão dela no último momento, no momento em que alcançaram Kabuto, para que ele pudesse tirar de cima dele o cadáver que tentava fechar os dentes ao redor da carne macia e quente do seu pescoço, empurrando-o para longe.

Sakura tirou uma faca do seu esconderijo e agiu, rápida, enfiando a lâmina no crânio de um enquanto Sasuke chutava o outro de cima do biomédico, afundando a bota no rosto podre do morto-vivo. Kabuto, que choramingava e que cujos óculos pendiam do rosto, ergueu-se com a ajuda de Sasuke, e no segundo posterior a isso os três estavam correndo pela floresta outra vez.

Correram por mais ou menos sessenta metros antes que fossem interceptados por mais errantes. Forçados a mudar a rota de fuga, seguiram pelo leste, adentrando a floresta cada vez mais. Os sons dos mortos enchiam-na, sufocando qualquer outro barulho, qualquer outro ruído que não fosse a canção fúnebre que cantavam com as suas cordas vocais frágeis.

Trinta metros adiante, foram interceptados outra vez e forçados a alterar a rota de fuga. Até o ponto em que se viram cercados por quase todos os lados com errantes surgindo por trás de cada árvore, fechando-se à volta deles como um punho de carne morta. Se não agissem, seriam esmagados.

— Por aqui! — Sasuke indicou para uma ravina à direita deles, e a princípio recebeu olhares céticos dos companheiros de fuga.

Mas conforme a horda triplicava de número e se acercava determinada deles, Sakura e Kabuto seguiram Sasuke, descendo aos solavancos pela ravina, agarrando-se a raízes e galhos. Kabuto foi o primeiro a tropeçar numa raiz sobressalente, rolando o restante do percurso até o chão lá embaixo. A neve amorteceu um pouco da sua queda. Sasuke e Sakura caíram em seguida, um depois do outro. Uma vala com cerca de um metro e meio de fundura foi onde caíram. Havia uma mistura de neve e lama enchendo-a. Molhados, cansados e doloridos devido à queda, os três tentaram se erguer para sair dali, mas não conseguiram a tempo.

O primeiro cadáver se jogou do topo da ravina e caiu entre eles com um baque úmido. Perdeu o braço esquerdo na queda e a perna se dobrou num ângulo estranho. O morto, porém, não se atentou a isso. Fitou os três com seus olhos amarelados e estendeu a mão restante para eles. Sakura agiu depressa outra vez ao enfiar a faca entre os olhos luminosos do cadáver. Mas outros caíram em seguida, tombando cada um com um baque violento e explodindo diante deles, enchendo a vala pouco a pouco.

Kabuto gritou quando um cadáver agarrou seu tornozelo, chutando-o a fim de se livrar dele. Sakura trabalhava o mais depressa que conseguia, espetando a lâmina da sua faca repetidamente. Mas os mortos se multiplicavam como gafanhotos. Começaram a cair uns por cima dos outros, e não demoraram a soterrar Sasuke, Sakura e Kabuto, engolindo-os por baixo de uma pilha de corpos reanimados.

Fluídos fedorentos eram borrifados em todas as direções, misturando-se à lama e à neve. Sakura gritou tanto de raiva quanto de desespero quando percebeu que suas pernas estavam soterradas debaixo de muitos cadáveres. E os corpos continuavam a cair por cima deles, explodindo às suas voltas com mandíbulas se fechando às cegas e à procura de um ponto onde pudessem enterrar seus dentes podres.

— Porra, porra, porra! — Sasuke grunhia, recusando-se a desistir. Golpeava às cegas tanto quanto os zumbis, afastando um no momento em que outro caía de lá de cima e o soterrava de novo.

Kabuto choramingava no outro canto, derrotado, enquanto uma mão podre escalava seu corpo. O peso de todos aqueles corpos sufocou-os, minou as forças que ainda lhe restavam. Nos momentos finais, Sasuke só se lembraria de virar-se para Sakura, usar o braço que ainda estava livre para puxá-la de encontro a ele, e pressionar sua testa à dela. Tudo estava perdido.

Então, uma saraivada de tiros abateu os cadáveres lá em cima antes que estes pudessem se atirar pela ravina. Os três olharam para cima ao mesmo tempo enquanto mais tiros ecoavam, abatendo mais errantes, e mais errantes.

Uma voz soou acima deles:

— Protejam-se!

Agindo mais por instinto do que por qualquer outra coisa, Kabuto cobriu o rosto enquanto Sasuke puxou Sakura contra o seu peito. Mais tiros soaram, mas desta vez abateram os cadáveres que estavam na vala com eles. Tiros perfeitos que acertavam os crânios dos mortos, e nada mais.

Quando o último deles foi abatido, uma mão se estendeu para Sasuke.

— Vamos dar o fora daqui, agora! — urgiu-o.

Sasuke olhou para cima e encontrou um rosto familiar, acompanhado de um par de olhos muito azuis. Não acredito no que viu por um momento, mas pegou a mão de Naruto ainda assim, chutando os cadáveres que comprimiam as suas pernas a fim de libertá-las. Assim que se colocou de pé outra vez, estendeu os braços e ajudou Sakura a sair enquanto Naruto ajudava Kabuto.

Mal se viram fora da vala e começaram a correr pela floresta outra vez: a fuga ainda não havia terminado. Avançaram pela mata sem descanso até emergirem de novo no descampado que orlava a Via-expressa, desta vez não se viam mais cadáveres. Dois automóveis estavam estacionados no meio da autoestrada com os motores ligados.

— Anda, vamos! — Naruto os apressou, levando-os em direção aos veículos e urgindo-os a entrar em seguida.

Kabuto entrou no carro parado atrás do jipe militar sem que fosse necessário lhe pedir duas vezes. Sakura se aproximou do jipe, porém não entrou. Decidiu esperar por Sasuke. Ele, porém, parou no meio do caminho e deu meia-volta, lançando um olhar de desculpas à Sakura.

— Naruto, o Itachi! O meu irmão ficou para trás, não ficou?! Preciso voltar! Preciso achá-lo! — murmurou depressa.

— Sasuke, volta! Entra no carro! — Naruto pediu e se afastou do jipe pronto para fazer Sasuke mudar de ideia.

Agarrou-o pelos ombros e tentou forçá-lo a seguir na direção contrária.

— Temos que ir, Sasuke! Temos que sair daqui!

— Você não entende, caralho! — Sasuke explodiu. — O Itachi ficou para trás com aquela horda! Eu preciso voltar para salvá-lo! Eu preciso...

— O Itachi ‘tá bem, porra! Ele sabe se virar! Agora, ENTRA NO CARRO! — ele devolveu, também erguendo a voz.

Sasuke se preparou para usar da violência se fosse preciso para afastar Naruto, e viu que o amigo também pensara a mesma coisa que ele. Mas então uma figura solitária saiu da floresta, correndo na direção deles. Sasuke pensou que desabaria sobre os próprios joelhos antes que tivesse a chance de dar uma boa olhada na face do irmão.

Itachi os alcançou depressa, resfolegando no ar invernal. Flocos de neve tinham se grudado ao seu longo cabelo negro. Mas se ele estava cansado, o seu rosto pouco denotava. Ele lançou um olhar longo e profundo ao irmão mais novo antes de decretar para que todos o ouvissem:

— Vamos logo embora daqui.

A fuga havia chegado ao fim. A cavalaria viera salvar Sasuke, Sakura e Kabuto. Agora, só lhes restava uma última jornada, e então estariam a salvo do fim do mundo. Em Kunashir, a salvação derradeira os aguardava. Mas, por enquanto, as reuniões e os reencontros há tanto aguardados deveriam esperar.

* * *

Ouça o soar das trombetas!

Os anjos da discórdia estão reunindo o seu rebanho

Faces tão belas, línguas tão venenosas

Uma assembleia do mundo morto.

[...]

Ouça o soar das trombetas!

Nosso império sufoca e desmorona

Tão terrível perda nos gerará a todos

Criados a partir dessa assembleia do mundo morto.

Draconian — Trecho de Dead World Assembly.

Notas finais
Pra quem não acompanha a minha página no Facebook, a Fanfic já está todinha escrita e eu só estou revisando os últimos capítulos e postando. O penúltimo capítulo sai amanhã, e o último capítulo e o epílogo saem no domingo, fiquem atentos! ;) E não se deixem enganar, nós ainda temos fortes emoções pela frente, então se preparem! Hahaha Muito obrigada pela paciência e até amanhã! o/