Dead World.
5 Fugindo outra vez.
Notas iniciais
Os tiros ribombaram no chão como bombas explodindo, estraçalhando o asfalto e furando o metal dos nossos veículos com uma força destruidora. Eram todos em sequências, e o pá pá pá pá pá das balas ricocheteavam com um eco assustador, destruindo os vidros do carro de Antonio e as janelas do trailer. Alguém gritou, e o puxão do meu pai aumentou.
– Corra, John! – ele gritou, a voz abafada pelos barulhos dos tiros e o estalar alto e estridente das hélices dos helicópteros. Antonio ligou seu carro, e o motor rugiu na manhã abafada.
– ENTREM AGORA PORRA! – gritou Caroline de dentro do trailer, assustada enquanto pulava de volta no banco do motorista e tentava ligar o imenso ônibus. Minha mãe gritava alguma coisa para eu, e meu pai finalmente largou meu braço quando uma rajada de tiros passou há poucos centímetros de nós dois.
A fumaça era a pior coisa, queimava os olhos como ácido e atrapalhava a respiração de tal modo que eu tossia mais do que conseguia inspirar ar puro. Os helicópteros deram rasantes o mais próximos que eles conseguiam, os militares nas janelas mantinham-se firmes nos disparos.
Antonio girou com o carro até o outro lado da estrada, pisando fundo no freio até contornar o trailer, tentando fugir desesperadamente dos tiros que enchiam o capo do automóvel.
A fumaça revirou num rodamoinho assim que um dos helicópteros deslizou por cima do trailer, que tentava também fugir dos tiros. Caroline dirigia, e assim que ergui a cabeça até onde ela tentava virar o volante para seguir o carro de Antonio, um dos tiros arrebentou os vidros dianteiros do trailer, que se estilhaçaram em centenas de milhares de pedaços sobre Caroline e sobre o chão. Ela abaixou-se no exato momento em que uma nova saraivada de tiros foram disparados sobre o ônibus, que derrabou na estrada até a beira, chocando-se contra o lado esquerdo do carro de Antonio. Ouvi gritos de dor, tentando focalizar minha visão nas costas do meu pai, que corria logo à minha frente.
O segundo helicóptero passou voando ao meu lado, sacudindo as areias ao lado da estrada, algumas pedras e toda a fumaça do incêndio. E uma nova sequência de tiros saiu de uma das metralhadoras, o que me fez cair no chão duro de asfalto e sentir uma queimação extremamente dolorosa na batata da perna esquerda.
Xinguei alto, com a perna doendo tanto que eu era incapaz de me mover. Estiquei-me no chão, tateando com a mão direita a minha perna, constatando o que eu já duvidava. Muito sangue empapava minha calça, vazando de um buraco profundo que perfurava minha carne e osso. A dor era tão grande que me cegou durante alguns minutos, e o que me restou foi me arrastar inutilmente, tentando me aproximar do trailer que se chocou contra o carro, mas Caroline já tentava recuá-lo, tentando dar espaço para que Antonio passasse e, em seguida, ela pudesse tirar o ônibus da linha de tiros.
– JOHN! – gritou minha mãe, e eu pude vê-la em pé na entrada do ônibus, as mãos acenando na minha direção. Ela se segurava na porta, e gritou alguma coisa para o meu pai, que parou à meio caminho, olhando por cima do ombro na minha direção. Os helicópteros voaram para mais longe, provavelmente para que os homens nas janelas pudessem recarregar suas metralhadoras, e o chão brilhava com cápsulas de balas refletindo a fraca luz do sol. Me empurrei pelo asfalto, ralando as mãos enquanto puxava meu corpo. A perna doía cada vez mais, numa dor que superava a capacidade de sofrer, eu sentia o sangue escorrendo por toda a minha perna, enchendo minhas roupas. O buraco do tiro abria e fechava a medida que eu me movia e junto com ele minha consciência se desvanecia um pouco mais.
Tudo girou ao redor, e eu quase gritei para que o mundo parasse e a dor fosse embora. Ouvi passos correndo até mim, e a voz do meu pai, rascante e autoritária, chegou até meus ouvidos baixa e distante. John, eu não quero morrer! Eu não quero virar uma daquelas coisas.
Anna deveria ter sentido isso também, pensei, deveria ter sentido o mundo escurecendo e a dor enchendo por completo enquanto sentia a vida esvaindo de seu corpo junto com o sangue e as preocupações do mundo material. Eu estava morrendo também, e quando a dor se tornou forte demais para que eu pudesse aguentar, e escutei os helicópteros retornando para uma nova leva de tiros, deitei no chão de asfalto quente, desistindo de tentar sobreviver. Fechei os olhos, esperando os tiros que com certeza viriam.
E os braços que me envolveram, me apertando firme e me puxando, bem poderiam ser os braços da morte.
Acordei deitado na cama do trailer, com várias vozes e rostos flutuando ao meu lado, mas nada mais importava para mim além da dor excruciante na minha perna. Escutei passos, e murmúrios assustados e preocupados. Kate estava ali, e chorava descompassadamente. Eu queria abraçá-la, queria dizer pra minha pobre irmã que tudo ficaria bem, que eu não morreria, que a dor iria passar.
Mas a dor não passou, e dessa vez veio em ondas pulsantes e agudas envolver meu corpo, como laços permanentes de agonia, e meu estômago revirava sem pudor. Eu sentia vontade de cuspi-las fora, mas o resto de sanidade dentro de mim me impediu de fazer isso. Minha garganta doía, meus olhos lacrimavam e alguém acabara de rasgar uma das pernas da minha calça, remexendo com dedos hábeis a ferida de bala que havia percorrido carne, músculo e osso.
Meu corpo sacudiu-se como se eu próprio não estivesse controlando-o, e minha cabeça pareceu que iria explodir. Chamei por ajuda e ouvi o que me pareceu ser centenas de vozes respondendo, e senti mãos tocando delicadamente em mim.
– Por favor, — pedi, chorando e soluçando. – faça a dor parar. Por favor, termine com a dor!
Mas as vozes e as mãos não fizeram a dor parar, e eu abri meus olhos e me obriguei a retirar a cortina de escuridão que os cobria. Eu queria ver quem estava me ajudando, quem estava me privando da paz e deixando a dor continuar me consumindo como labaredas.
A esposa de Antonio eram quem remexia na ferida da minha perna, e algo dentro de mim buscou refúgio naquilo. Ela era enfermeira, minha mãe havia me dito uma vez... Ela sabe como fazer a dor parar.
Minha mãe também chorava, percebi assim que suas mãos fizeram carinho na minha testa suja e suada, retirando meus cabelos que insistiam em cair sobre meus olhos e beijando minha testa com delicadeza. Tentei manter-me naquele gesto, esquecer a dor ou tentar dormir.
A esposa de Antonio apertou alguma coisa contra minha perna, parecendo fazer um torniquete ou qualquer coisa que estancasse o sangue. Gritei quando ela umedeceu a ferida com álcool, ou provavelmente deveria ter sido isso. Lágrimas desceram pelos meus olhos, e me debati novamente, mas dessa vez várias mãos me impediram, me mantendo firme na cama.
O trailer sacolejava na estrada, e eu não escutei mais os helicópteros ou os tiros. Estamos salvos, pensei, afundando minha cabeça de volta no travesseiro e respirando fundo.
– TRAGAM PANOS LIMPOS! — pediu a esposa de Antonio, enquanto eu tentava desesperadamente lembrar seu nome. A dor enevoava meus pensamentos, e limitei-me a apenas deitar na cama, torcendo para a dor passar.
– Segurem o John, isso vai doer.
As mãos tornaram a me apertar com força, e eu suspirei, chorando e lembrando de Anna e se ela havia sentido toda essa dor antes de morrer. Me desculpa, meu amor, eu não pude salvá-la e a culpa foi toda minha.
E quando as mãos pequenas da esposa de Antonio tornaram a apertar minha perna ferida, a dor foi tão grande que eu senti novamente as trevas rodopiando ao meu redor.
E em seguida desmaiei outra vez.
Fale com o autor