Dead World.
6 Cheiro de sangue.
Notas iniciais
Nos dias que se seguiram eu mergulhei e acordei no mar de alucinações e sonhos durante todo o nosso percurso. Ouvia as vozes ao meu redor sussurrando coisas, perguntando se eu estava sentindo dor, tentando me acalmar ou apenas chorando em silêncio. A pequena cama de solteiro onde me colocaram deitado já estava completamente úmida de suor, e eu sentia minha bexiga cheia e dolorida quando acordei na manhã do quarto dia após nossa fuga do Exército.
- Ele está acordando! — exclamou a voz da esposa de Antonio, que parecia estar sentada do meu lado remexendo na minha atadura da ferida da perna. Eu tentei balbuciar alguma coisa, mas a voz simplesmente não saía. Passos apressados se fizeram presente, e em seguida as mãos da minha mãe acariciaram minha testa.
- Você está bem, querido? — ela perguntou, soando mais calma do que eu lembrava alguns dias atrás. Talvez isso significasse que eu estava fora de perigo. A esposa de Antonio conseguira salvar minha vida, então. Tenho que agradecê-la qualquer dia. – Você dormiu por dias, — minha mãe continuou, deslizando os dedos pequenos e macios pela minha testa coberta de suor. — você perdeu muito sangue.
Abri e fechei a boca, a garganta queimando de tão seca, e consegui formular a palavra “água” com certa dificuldade. Imediatamente, e sem saber quem fazia isso, um canudo foi colocado na minha boca e puxei a água com lágrimas nos olhos de agradecimento. Me remexi na cama, sentindo a perna estalando de dor e a voz de Kate, minha irmã caçula, ecoou pelo quarto do trailer.
- Bom dia, John. — ela disse, parecendo tímida e assustada por me ver naquela situação, deitado numa cama, pálido e sem forças nem para falar. Pisquei na direção dela, forçando um sorriso e tentando mostrar que já estava melhorando. Kate permaneceu parada na entrada da porta, o sacolejo incessante do trailer percorrendo a estrada a fazia parecer que estava tremendo: seu cabelo estava um emaranhado de castanho como se passarinhos tivessem feito um ninho ali, mas no demais minha irmã parecia bem. Mais magra do eu me recordava, mas bem.
- Querida, vá com o papai vigiar a estrada. — brincou minha mãe, fazendo parecer que aquela era uma função importantíssima para o grupo. Eu lembro que minha mãe costumava fazer isso com Kate quando queria ela longe de problemas, imaginava algo importante e pedia que ela fizesse. É claro que agora com o mundo desmoronando ao nosso redor tudo já parecia ter o dobro de importãncia que tinha antes.
- Onde nós estamos? — perguntei, arfando de cansaço. Qualquer tipo de esforço parecia demais para mim. Afundei a cabeça no travesseiro, sentindo novamente a bexiga doendo de tão cheia. Eu precisava mijar.
- Já saímos do Colorado há pouco mais de 12 horas, mas seu pai e os outros ainda não decidiram para onde vamos. — uma nova sacudida no trailer fez minha perna estalar de dor, e mordi meus lábios com força para evitar gritar. O rugido do motor ecoou por todos os lados, e eu soube o que estava acontecendo na hora.
- Estamos ficando sem gasolina. — disse, tendo a certeza de que estava com a razão no momento em que fitei a fisionomia séria da minha mãe e da esposa de Antonio, que permanecera sentada em silêncio enquanto cortava tiras de tecido limpo, possivelmente para trocar minha atadura.
- Sim, John. É verdade. — minha mãe disse, sem parar de acariciar minha testa. Aquilo me deixou sonolento, e senti minhas pálpebras fechando de sono outra vez. Tentei lutar contra, não queria dormir, eu queria levantar e ajudar meus pais e os outros.
Abri os olhos algumas horas depois, bocejando e tentando me acomodar com mais conforto na cama. Não havia ninguém no quarto comigo, e as sombras da noite já se arrastavam ao meu redor. O trailer estava parado, e um silêncio mortal dominava todo o lugar.
- Tem alguém aí? — perguntei, com a voz baixa e a perna voltando a doer. Não conseguia me mexer mais do que alguns centímetros na cama, mas mesmo assim me esforcei para erguer a cabeça e dar uma olhada ao redor. — Mãe? Pai? Kate?
Ninguém me respondeu, e alguma coisa naquele silêncio completo me deixou agoniado. Tentei levantar da cama, ignorando a dor na perna e forçando meu corpo para o lado, até a beira da cama. Joguei a perna boa para o chão, usando toda a minha força dos braços para me levantar.
- Mãe? — chamei novamente, aguentando toda a dor excruciante que subia pela minha perna assim que forcei meu peso sobre ela. Imediatamente eu achei que não fosse aguentar de dor e desmoronar no chão, sem vida e sem forças, mas consegui me manter de pé com algum esforço.
Me arrastei com dificuldade para fora do quarto, só para constatar que o trailer estava mesmo vazio. A cozinha parecia do mesmo jeito que eu me lembrava, não havia ninguém no banco do motorista e a porta de entrada estava entreaberta. Lá fora, atráves da janela e mais além, a noite já se fazia presente. A lua brilhava com força no céu distante e não havia ninguém por perto.
- Tem alguém aí? — exclamei, começando a ficar preocupado. Caminhei com dificuldade até a porta de entrada, me segurando nos móveis para evitar que caísse no chão e respirando com dificuldade.
Como se tivessem me escutando, a porta se abriu com um chute e eu caí no chão sobre a pia da cozinha, derrubando as panelas num estardalhaço que ecoou pela noite como um som de mal agouro. Fitei a porta e a estrada deserta do lado de fora com um misto de pânico e incredulidade subindo pelo meu estômago. Senti uma tontura quando vi a horda de zumbis caminhando e entrando no trailer, e quando mais eu tentava me mexer para fugir mais a minha perna doía e sangrava.
Três walkers subiram ao mesmo tempo no trailer, se arrastando e grunhindo na minha direção, obviamente sendo atraídos pelo sangue da minha perna. Agarrei uma panela, fechando os olhos e rezando baixinho. Gritei por ajuda, mas os walkers não pararam e avançaram pra cima de mim, agarrando minhas pernas e braços enquanto eu me debatia de agonia e tentava acertá-los com a panela.
Eu não senti as mordidas, apenas a escuridão. E em seguida mais nada.
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