Dead Nation
5 Presos à outra dimensão
Hayley
Um tiro certeiro havia acertado a mão direita de minha adversária, vi a adaga que ela segurava girar no ar e cair a uns trezentos metros. Olhei para o cronometro no placar, 58 segundos para o final.
A Colt Python em minha mão era prateada e não muito pesada, com detalhes em preto no seu extenso cano, não era uma arma comum, a maioria das armas ali eram criadas pelos guardiões e como não se passava de um treinamento ao invés de balas, eram usados lasers não mortais, mas que ainda assim feriam.
Tive que esperar pelo menos 10 segundos até que a arma se carregasse automaticamente. Calculei todos os ângulos. A garota estava curvada para frente, alisava a área na mão atingida, e não prestava atenção em nada ao seu redor. O garoto ainda estava paralisado e me encarava por cima dos óculos esperando pelo o meu próximo movimento. Ryo ainda estava no chão.
Eu teria que terminar com aquilo.
Girei a Colt, segurando-a com as duas mãos e a apontando para baixo na lateral direita do meu corpo. Sai em disparada passando por Ryo, tomei impulso e pulei com os dois pés juntos nas costas da minha adversária, houve um grito e depois um estrondo no chão, ela havia caído. Eu estava no ar. O garoto tirou o cano da Sniper, apoiando-a apenas com o braço esquerdo, mirou e disparou em minha direção, virei meu corpo lentamente para a direita e vi o laser vermelho passando por mim. Comecei a cair, virei de costas, coloquei a Colt entre minhas pernas segurando-a com as duas mãos, dobrei o corpo um pouco para frente, e atirei. O laser azul atingiu o meio das costas do meu adversário.
Deslizei sentada no chão. Depois de 3 segundos o apito final tocou. Levantei e respirei fundo antes de olhar para o placar. Ganhamos de 2 a 0. A maioria dos novatos gritava de emoção, outros estavam paralisados e os veteranos xingavam.
Pude ver Megan, Nathaly e Miuk me encararem, mantive minha cabeça erguida.
- Parabéns aos novatos! — Erin havia falado com emoção ao microfone e continuou a dizer mais algumas coisas que não consegui entender.
Minha atenção estava todo em Ryo que ainda permanecia ao chão. Uma equipe médica fazia curativos na garota, e o garoto de óculos estava sendo levado por uma maca.
Caminhei lentamente até Ryo, ele levantou a cabeça e olhou em meus olhos sem demonstrar qualquer emoção, estendi minha mão e ele, mas ele recusou e levantou tremulo se colocando de pé em minha frente. O seu peito estava descoberto, nossa adversária havia feito um “x” onde se localizava seu coração. Prendi a Colt em meu cinto, peguei o potinho com a pasta transparente que Holy havia me dado no bolso traseiro da minha calça, ele o olhou com curiosidade, com as mãos tremulas, passei lentamente meus dedos com a pasta no “x” em seu peito, ele agarrou os meus pulsos, respirou fundo e apertou os olhos para mim.
* * *
O despertador tocou às cinco horas. O banheiro estava cheio. Megan, Nathaly e Miuk não estavam lá, muito menos Holy. Algumas novatas vieram falar comigo, tentei ignorar todas e tentar ser educada, o que não dava muito certo. Eu sempre havia sido daquele jeito, talvez um pouco fria demais, sempre tentando me virar sozinha e sobreviver a tudo.
Minha pele estava mais pálida do que o normal, os cortes nas minhas bochechas haviam sumido completamente, havia olheiras enormes embaixo dos meus olhos e meu estomago roncava.
O refeitório estava mais vazio do que a noite anterior, todos ali eram novatos, se via uma meia dúzia de veteranos. Não encontrei Holy, então me senti a vontade de ir até o balcão central e encher uma bandeja com todos os tipos de comida que podia se imaginar.
Apoiei a bandeja no balcão enquanto pegava um pouco de ovos mexidos, pão, uma laranja e uma caixinha de leite. O bracelete no meu pulso direito começou a piscar, e quando olhei para o lado vi Ryo colocando algumas frutas em sua bandeja, ele não me olhava e também não dizia nada, virei minhas costas e sentei em uma mesa ao canto, sozinha.
Esperei que ele viesse sentar comigo, mas o vi em umas três mesas de frente a minha, comendo com a cabeça abaixada. Fiz o mesmo, de vez em quando o olhava por cima dos olhos, e então voltava a atacar a minha comida. Quatro novatas tentavam chamar a sua atenção na mesa ao seu lado.
- Tolas. — Falei um pouco alto demais e as vi me encarar e Ryo fez o mesmo.
Quando cheguei ao centro de treinamento A, todos olhavam para mim. Alguns meninos davam sorrisos maliciosos e cochichavam quando passava por eles:
- Gata, não quer treinar comigo e conhecer o poder da minha espada?
- Oh, tem namorado ou companhia para mais tarde?
- Gostosa.
Idiotas, se eu pudesse…
- Ei, vocês deveriam tratar melhor uma dama. — Disse uma voz suave masculina.
Levantei meus olhos.
Ele era alto, tinha o corpo magro, porém, com músculos definidos, a pele extremamente branca, as feições do rosto um pouco feminina, os cabelos que iam até o final de suas costas eram brancos com reflexos em lilás como a cor de seus olhos, as orelhas eram grandes e pontudas. Ele era um Elfo! Vestia roupas de guardião, exceto pela camisa que era longa e tinha uma abertura no peito. Nas mãos, um arco prateado e na outra uma bolsa com flechas.
Minha boca abriu um pouco, ele sorriu e então senti minhas bochechas queimarem.
- Esses caras estão te incomodando? — Perguntou me olhando apontando com a cabeça em direção aos garotos.
Neguei.
- Meu nome é Ryan, sou um elfo, mas você já deve ter percebido isso. — Outro sorriso, este um pouco mais largo. — Qual o seu nome?
- Hayley. — Fechei minhas mãos em punho tentando não fazer meu corpo tremer.
- Nome maneiro. — Ele me encarou por um tempo. — Você é diferente dos outros por aqui. Não sei… sua pele, suas feições…
Meu corpo congelou.
- Bonita. — Continuou. — E tímida.
Sorri de um jeito pouco estranho, mas sorri.
- Senhor Ryan, estava a sua procura. — Era Erin. — Senhorita Hayley, — Ela me olhou de um jeito estranho, engoli seco. — Regil está a sua espera.
Assenti e passei meus olhos para Ryan novamente.
- A gente se vê. — Disse ele.
- Tchau.
Regil seria o meu instrutor. Era alto e muito musculoso, sua pele era bronzeada, bem diferente dos outros do submundo, tinha os cabelos dourados que caiam sobre os ombros e os olhos lembravam a de um felino.
Me entregou um par de luvas de couro pretas que vinham até os meus pulsos e eram abertas, de modo que os dedos ficavam para fora, adaptou o Ilusion a elas, eram um circulo prateado com uma luz azul no meio, e ficavam nas costas da minha mão. Quando passava a mão direita por cima da esquerda, uma lista com diferentes armas aparecia, fui passando tranquilamente meus dedos por cada um deles, antes de selecionar, eles explicavam a especialidade e característica de cada arma, tinha até uma tonfa ali.
- Tonfa? — Perguntei olhando para Regil.
- Sim, faremos teste de aptidão hoje, então selecione a tonfa. — Disse com a voz grossa e rígida.
Levei um tempo até conseguir selecionar a tonfa o vi se irritar.
Ele veio pra cima de mim, me dando dois golpes nas laterais da cabeça, vi tudo rodar, não sabia como me defender, o próximo golpe veio no meio do meu peito e então caí de costas para o chão, logo me coloquei de pé.
- ESTÁ MALUCO? — Gritei.
- Se isso fosse uma luta, você já estaria morta. — Disse calmamente. — Vamos ter que trabalhar o seu ataque corpo a corpo.
Engoli seco.
- Agora se aqueça, vai ser um treinamento difícil.
Fiz uma série de exercícios por trinta minutos, logo em seguida escalei duas vezes as paredes de pedra com facilidade, e agora eu teria de aprimorar os meus ataques sem o uso de armas de fogo.
Respirei fundo.
Regil veio para cima, desviei de alguns, mas também apanhei feio. E quando foi a minha hora de atacar, selecionei as tonfas um pouco mais depressa, cruzei meus pulsos em frente ao meu rosto como um sinal de defesa até que elas surgissem no meio das minhas mãos, eu poderia usar aquilo em outras ocasiões. Regil deu um sorriso disfarçado, ele percebera o que eu estava fazendo. Girei as tonfas em minha mão, e antes de partir para cima dei uma boa olhada em Regil.
Eu estava pronta.
Usei a parte maior das tonfas para ataques de longa distancia, atacando cada parte descoberta do meu adversário. Com um movimento rápido, agarrei suas costas, o prendendo pelo pescoço com uma das tonfas, segurando fortemente cada uma das pontas, ele a segurou e levou meu corpo por cima de sua cabeça, depois me atirou para baixo, minhas costas bateram no chão frio e minha cabeça nas suas botas. Senti um choque percorrer todo o meu corpo.
- Um pouco descuidada, mas ágil, precisa de mais força em seus ataques. Vamos parar por hoje.
Assenti.
- Ei Regil, como está lidando com a novata? — Gritou Erin do outro lado do centro de treinamento. Ryan estava bem ao seu lado, ele me enviou uma piscadela. Abaixei a cabeça e senti minhas bochechas queimarem novamente.
- Estamos indo muito bem. — Fez um OK com a mão direita.
- Que tal um desafio?
Ele deu um sorriso malicioso.
- Você sabe o quanto eu adoro desafios.
- Meu aprendiz contra a sua. — Ela olhou para Ryan, depois para mim e voltou os olhos para Regil.
- Eu topo.
O centro de treinamento C estava vazio, era um simulador. Não lutaríamos corpo a corpo, entraríamos em um jogo, em outra dimensão. Eu e Ryan fomos presos cada um em uma cadeira que ficava em frente a um telão, ligaram cabos em nossos corpos e um capacete enorme foi colocado em nossas cabeças.
No começo tudo estava escuro, alguns segundos mais tarde a palavra “carregando” apareceu em vermelho. Depois estávamos dentro de uma floresta fechada, não se ouvia o som de pássaros, o chão era úmido e escorregadio.
O meu Ilusion havia desaparecido e o de Ryan também. Ele estava a trezentos metros a minha frente, trocamos olhares e senti minha barriga congelar.
- Como perceberam, vocês estão sem os Ilusion, terão q… arran… at… — A voz de Erin falhou e desapareceu.
- O que? O que temos que fazer? Erin? Erin? — Ryan gritava desesperado correndo para os lados. — Isso é alguma brincadeira?
Fiquei sem ar e senti cada músculo do meu corpo se enrijecer.
- Ryan, o que está acontecendo? — Minha voz saiu tremula.
- Estamos presos aqui.
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