Hayley

O tempo naquela dimensão passava rápido. Pegamos uma trilha e ao final dela havia uma praia deserta. Aquilo não se tratava de uma floresta e sim uma ilha. A noite era fria e densa. As copas das arvores brilhavam com pequenos pontos de luz fluorescente de diversas cores. O céu estava coberto por estrelas. Encolhi meu corpo e encarei a imensidão oceânica a minha frente.

Ryan voltou com alguns gravetos, folhas secas e pequenos ramos, agachou e agrupou tudo, depois começou a esfregar duas pedras. Demorou alguns minutos até conseguir fazer a primeira faísca, e depois de um tempo uma fogueira começou nos aquecer.

Ele sentou ao meu lado e suspirou.

– Desculpe. Eu não sei o que fazer. – Olhei para o lado e o vi tremendo de cabeça baixa.

– Deve ser um problema no sistema, vão resolver logo isso.

– Não acho que seja um problema no sistema. – Me encarou.

– Do que está falando?

Ele abriu a boca, mas não disse nada, apenas passou os olhos para o que estava atrás de mim. Sua expressão mudou, os olhos se regalaram e balbuciava: — Or-Orrrr-Oriccc-ORCS!

Virei meu corpo e então vi três sombras enormes a trezentos metros de nós.

– Hayley, o que vamos fazer? Estamos sem equipamentos aqui!

Um clarão iluminou o céu, e como em uma tela de um jogo, duas barras de HP foram abertas na extremidade esquerda, uma com o meu nome e a outra com o de Ryan, na extremidade direita um cronometro já marcava cinco segundos.

Cada Orc possuía um equipamento diferente, um tinha uma maça, o outro um machado de pedra e o ultimo um arco.

– O que esta acontecendo? – perguntou assustado.

– Estamos dentro de um jogo, está vendo aquelas barras? – Apontei – É o que no resta de vidas, se chegarem à zero, morremos. E tem o cronometro, não sei se possuímos um tempo máximo para matar os Orcs, mas temos que começar logo.

– De que jeito? – Voltou a olhar para os Orcs.

Ryan estava começando a perder a postura, parecia uma menininha que estava prestes a ter um ataque histérico, e por isso, meu sangue começou a ferver dentro de mim.

Soltei um grito e saí correndo em direção aos Orcs, e quanto mais me aproximava, percebi que cada um possuía uma barra de HP a direita de suas cabeças.

– HAYLEY! – gritou ele.

– PARA DE AGIR COMO UMA CRIANÇA E VENHA ME AJUDAR! – Não o olhei, prestava atenção no Orc com o machado de pedra a 100m a minha frente.

Peguei impulso, e percebi que minhas habilidades aumentaram, consegui saltar mais alto. Minha força era maior, senti o impacto dos meus pés na barriga grande e flácida do Orc, e depois dei o primeiro chute em sua boca horrenda, ele caiu, mas ainda não havia acabado. Sua barra de HP havia diminuído apenas dez por cento, essa luta seria difícil. Caí de pé a um metro da cabeça do Orc e olhei para Ryan que continuava no mesmo lugar com a cabeça abaixada.

O vi a levantar vagarosamente.

Ajeitou o corpo e depois começou a correr. Sua velocidade havia aumentado, chegou até mim em 2 segundos. O Orc que eu havia derrubado começou a se levantar, os outros dois não prestava atenção em nós, continuavam parados nos observando, como estatuas de pedra. Eles não se aproximariam enquanto não fossem atacados. Pelo menos, um ponto positivo.

Voltei a minha atenção a Ryan, ele olhava o Orc com uma postura rígida e preocupante. O Orc girou e atirou o machado em sua direção, ele não escaparia daquilo a tempo, ou escaparia? Travei em meu lugar e então tudo aconteceu em câmera lenta.

A dez centímetros de o machado atingir sua cabeça, Ryan jogou o corpo para o lado e então começou a correr em direção ao imenso Orc. Saltou, ele não deve ter percebido que nossas habilidades aumentaram, voou por cima da cabeça do Orc, tentou se agarrar a ele e depois de cinco segundos estava com a cara na areia.

Quando conheci Ryan há algumas horas atrás, não imaginava que era tão patético. Ele me defendeu e pareceu ser durão com aqueles garotos que tentaram tirar proveito. Mas, se tratava apenas de uma criança tentando mostrar ao mundo que poderia fazer alguma coisa, por mais que, a sua personalidade e aparência demonstrassem algo totalmente diferente.

O Orc havia levantado a perna. Ryan provavelmente morreria esmagado se eu não impedisse. E mais uma vez, nossa sobrevivência ali dependia de mim, mesmo sabendo que não poderia dar conta de tudo. Sou a garota fraca que conviveu com seus medos por toda a vida. Mas ali e agora, eu não os deixaria tomar conta de mim.

Peguei uma pedra e taquei com força, acertei em cheio o meio de sua cabeça, sua perna se abaixou lentamente, se virou de frente para mim e soltou um grunhido.

– Venha me pegar, otário! – corri 100m, o Orc corria lentamente em minha direção, parei, dei um sorriso de canto e então me virei, ele estava bem próximo. Saltei e joguei minhas pernas para frente atingindo sua barriga, ele vacilou e logo caiu. Mais dez por cento de sua HP. – Agora o Gran Finale!

Olhei para o lado e vi uma arvore a 300m, um de seus galhos estava caído, teria que ser rápida, antes que o Orc levantasse novamente. Rapidamente cheguei até lá, puxei com força o galho, olhei para a ponta, era afiada e resistente, só precisaria de força.

Então voltei a minha atenção ao Orc. Coloquei o galho em frente ao meu corpo e corri, depois de alguns segundos estava no ar, e nos próximos, enfiava o galho no peito do Orc, atingindo o seu coração. Grunhiu alto, vi sua barra de HP zerar e seu corpo se tornar fragmentos pequenos de luzes prateadas que tomaram formas de duas machadinhas prateadas com cabos decorados.

Não eram pesadas, mas muito afiadas. Ryan se aproximou e as encarou assim como eu. Sua expressão era melancólica. Conseguia sentir o seu ar de culpa bater em mim. Por um momento senti pena e depois raiva.

Não era hora de pensar naquilo, eu tinha que acabar com mais dois Orcs.

Chamei a atenção do que carregava uma maça. Ele correu em minha direção, pronto para me atacar. Quando estava a 50m de distancia girei as machadinhas e saltei, as cravei no meio de sua cabeça, logo caiu. Comecei a bater com as machadinhas em sua nuca, me divertia com aquilo, revezava os braços batendo cada vez com mais força, o sangue gosmento do Orc respingava no meu rosto e braços, mais uma, e a cabeça do Orc havia se separado do seu corpo.

E então me lembrei de Ryan e o olhei.

Sua aparência estava assustada. O corpo do Orc virou luzes prateadas, que desta vez se tornaram um vidrinho com um liquido vermelho, era uma poção de recuperação de HP, e um diamante azul, que serviria de teletransportador. Os coloquei dentro do bolso da minha blusa.

– Ryan, eu...

– Hay, cuidado! – Ele gritou, mas antes que pudesse saber do que se tratava, senti algo prendendo o meu corpo, eu começara a ficar sem ar. O ultimo Orc me segurava em sua mão, pensei que me devoraria, mas apenas grunhiu alto, quase me fazendo desmaiar com o bafo que cheirava a carniça misturada a enxofre.

Eu não sabia o que tinha acontecido, mas o Orc havia se calado, seus olhos começaram a se fechar, despenquei de sua mão e cai de joelhos na areia. Quando o olhei novamente, vi uma sombra rápida percorrendo todo seu corpo e umas faixas prateadas. Era Ryan. Um sorriso se abriu em meu rosto.

O corpo do Orc explodiu em diversas luzes, dessa vez coloridas. Ele havia dropado um arco prateado e decorado, uma bolsa com flechas e um pergaminho. Ryan logo os pegou e correu até mim, caindo de joelhos em minha frente.

– Você está bem? – Ele me abraçou, senti meu corpo se enrijecer e meu coração pulsar forte.

– S-sim. E você?

– Estou bem. – Me soltou e ficou me olhando por um tempo, depois deu um sorriso. – Desculpa por não ter reagido antes, fui um idiota.

– Não se preoc... Ai. – Senti cada músculo do meu corpo doer, olhei minha barra de HP, estava pela metade.

– Hay, o que foi?

– Nada, só estou cansada.

– Venha, vamos voltar para perto da fogueira, está muito frio e você precisa descansar. Vou ficar de guarda esta noite.

Ele me carregou no colo até lá.

Sentamos lado a lado enquanto a fogueira estalava e nos aquecia. Abrimos o pergaminho onde estava escrito:

“O canto espalha-se em todos os cantos e prantos de Selene.”

– Quem é Selene? – Perguntei.

– É a Deusa dos mares.

– O que esse poema quer dizer?

– Não faço idéia, só o que sei é que você tem que descansar e resolvemos isso pela manhã, mas antes, beba a poção.

– Não!

– Não o que?

– Não posso desperdiçar a poção, pode servir mais tarde para alguma coisa.

– Hayley, não seja teimosa, beba logo isso. – Ele se colocou agachado ao meu lado e começou a mexer no bolso da minha blusa, eu tentava o impedir, mas cada vez ele chegava mais perto, sentia meu corpo tremer e meu coração pulsar forte. Respirava fundo. – Achei! – Nossos lábios quase se encostaram quando levantou a cabeça, ficamos em silencio enquanto nos encarávamos, seu rosto começou a ficar vermelho.

– Er...

– Ah é... Beba. – Colocou o vidrinho com a poção entre nós.

Depois de ter tomado a poção, ele foi pegar mais alguns gravetos e os jogou na fogueira, sentou novamente ao meu lado e suspirou. Comecei a encarar a fogueira em nossa frente e sentia seus olhos me encarar.

Suspirei.

– Ta... Agora você tem que descansar. Deita e apóia sua cabeça na minha perna.

– O QUE? – Gritei de imediato.

– Deita a cabeça na minha perna, vai ser mais confortável.

O encarei.

– É melhor não, eu estou bem e...

– Fique quieta e deita logo! – Ele me puxou e então deitei, encostando vagarosamente minha cabeça em sua perna.

Meus olhos foram se fechando aos poucos, enquanto Ryan cantarolava uma canção conhecida, mas que eu não conseguia recordar de onde já tinha escutado antes. Era algo distante.

* * *

Acordei já de manhã e minha cabeça estava apoiada na bolsa de flechas. Minha visão estava embaçada, e via dois vultos sobre a água do mar. Pisquei varias vezes e quando olhei novamente, Ryan estava com água até a canela e olhava para o que parecia estar em seus pés.

– Ei Ryan, o que esta fazendo aí? – Gritei. Ele não havia virado para me olhar e nem havia respondido. Tirei meus tênis, amarrei as machadinhas no meu cinto e fui até ele. Coloquei a mão em seu ombro. Seu corpo se enrijeceu. – Ry... – Quando virou, pude ver que seus olhos preenchidos por uma luz verde. – Que droga é essa?

– Nós temos que ir... Temos que ir até o castelo da minha amada Selene, ela está me esperando. Temos que ir. Você tem que ir também. Ela disse que você é uma convidada especial. Temos que ir.

Dei um tapa em sua cara, mas ele permaneceu do mesmo jeito.

– Temos que ir. – Repetiu e voltou a olhar a imensidão a sua frente. – NÓS TEMOS QUE IR! ELA ESTÁ ME ESPERANDO! – Se jogou na água e nadou rapidamente até onde o mar começava a ficar mais profundo e então mergulhou.

– Ryan! – Nadei o mais rápido possível, e chegando próximo ao ponto onde ele havia desaparecido tomei fôlego e mergulhei.

Vi a sombra de Ryan a 300m de profundidade, e abaixo dele, luzes iluminavam o fundo do mar, quanto mais me aproximava, elas iam tomando formas. Era uma cidade submersa. Eu não tinha mais fôlego, o que restava de oxigênio em meus pulmões foi se esgotando, tinha perdido Ryan de vista, vi duas sombras se aproximarem rapidamente de mim e me agarrarem, e então, apaguei.



Quando acordei estava em uma cela escura, um guarda estava em frente, indo de um lado para o outro, parecia impaciente e tinha uma postura rígida. Caminhei e me agarrei às grades.

– Ei, por favor, me tire daqui.

Ele soltou uma gargalhada.

– Ninguém sai até a segunda ordem da Rainha Selene.

– Eu estou procurando meu amigo, viermos parar aqui por engano.

Outra gargalhada.

– Seu amigo será o futuro Rei de Serdin.

– Serdin? Rei? – Fiquei confusa.

– É onde você está querida. Ryan será o futuro Rei de Serdin, ele irá se casar com a linda Selene.

– Isso só pode ser engano!

– Não se preocupe. Daqui algumas horas você vai duelar com a Rainha, dependendo do resultado você poderá partir só, ou então – Ele deu um sorriso malicioso. – Morrerá!

Eu não sabia muito do que esperar. Estava em uma cela escura, sem nenhum equipamento, nem mesmo estava com as minhas roupas, usava um vestido branco simples. O que me fazia pensar em quem havia as trocado. Não poderia usar o diamante como teletransporte para sair dali. Por quê? Simples, eles estavam junto com meus pertences, em algum lugar.

Me encolhi no banco da cela e abracei minhas pernas. Agora eu realmente não sabia o que fazer. Teria que duelar de qualquer forma, e teria que tirar Ryan dali junto comigo. Sabia que ele não havia escolhido se casar por vontade própria, seus olhos deixavam aquilo bem claro, Selene o hipnotizou, ela era a Rainha dos Mares, uma sereia. E isso se resumia o enigma escrito no pergaminho.

Eu não sei nem como e nem o porquê, mas me lembrei de Ryo e senti uma pontada no peito. Ele era um idiota orgulhoso e metido, mas que havia me defendido de Megan, Nathaly e Miuk no refeitório no meu primeiro dia. Meu bracelete não havia brilhado desde que fomos para o treino, e aquilo provava que ele não estava perto. E por mais uma vez me senti sozinha e assustada.

* * *

– Está pronta para perder? – Gritou Selene.

Selene era encantadora em sua forma humana, seu corpo bem estruturado, sua pele branca como leite, seus cabelos longos e loiros que lhe caiam em duas tranças sobre seu corpo e seus olhos azuis profundos. Estava sentada no trono em um patamar com um ancião do seu lado direito e Ryan, em seu estado normal, estava a sua esquerda e me olhava com tristeza.

A população inteira de Serdin ocupava as arquibancadas.

– Espere, eu tenho uma coisa a dizer. – Todos nas arquibancadas pareciam agitados.

– Acha mesmo que darei ouvidos a um ser como você? – Disse com uma voz enjoada e depois deu uma risada irônica.

– Eu sou apaixonada pelo Ryan.

A platéia ficou exaltada, Selene me olhava com ódio e Ryan estava em estado de choque, aquele idiota provavelmente não entendeu que aquilo era parte do meu plano de sairmos de lá.

– Como ousa...?

– Selene, querida, a moça é apaixonada pelo rapaz e... – Quem dizia era o ancião ao seu lado, ele parecia frágil, tinha uma barba branca que lhe caia sobre o colo, os olhos eram da mesma cor que os de Selene.

– Papai, eu também sou apaixonada pelo meu Ryanzinho, e ele é por mim também, não é docinho? – Ela passava as unhas que aparentavam ser afiadas nas bochechas rosadas de Ryan que estava de cabeça baixa.

– Mas o conheço há mais tempo que você! Ele é meu! E eu o amo! – Disse olhando pra Ryan que levantou a cabeça rapidamente. Eu não conseguia demonstrar emoção nas coisas que dizia, por mais que tentasse.

– Cale-se, antes que eu a mate antes mesmo de termos uma luta justa.

– Selene, minha doce filha, Ryan não pertence ao nosso mundo...

– Já chega papai. Já tomei minha decisão. – Ela se ajeitou no trono e então continuou: — Você terá a chance de sair daqui com o meu Ryan, mas terá que me derrotar primeiro, e não será uma luta fácil. Caso perca, Ryan ficara aqui até o resto de sua vida. E eu sei que isso já é uma luta ganha para mim.

Olhei para Ryan, ele estava agitado, mas assentiu com a cabeça.

– Feito.



Depois disso, fui levada a uma sala para que eu me trocasse. Por sorte, tive minhas roupas de volta, minhas machadinhas e até mesmo o diamante, eles não deviam ter percebido que estava ali antes, o coloquei cuidadosamente no bolso da blusa novamente, eu provavelmente o usaria mais tarde.

Quando voltei à arena, todos estavam gritando. Selene já me aguardava do outro lado, usava um vestido babado rosa claro, luvas de couro brancas que combinavam com as botas de cano baixo, o cabelo estava totalmente solto e usava como equipamento uma espada. As barras de HP foram carregadas e o cronometro ainda estava zerado.

– Que comece! – Ela ordenou.

Um apito tocou e o cronometro começou a rodar.

Selene começou a correr em minha direção segurando a espada com as duas mãos. Cruzei as machadinhas na frente do meu rosto bloqueando seu primeiro ataque. Girei meu corpo e então cravei as machadinhas em suas costas, houve um grito, trinta por cento de sua HP foi perdida.

Correu até o outro lado da arena e esperou respirando fundo. Era a minha vez de atacar. Me aproximei dela rapidamente, ela bloqueou todos os meus ataques, mandou uma das machadinhas para longe e cravou a espada na minha perna direita, e depois a puxou de volta, cai de joelhos, não conseguia mais me movimentar, minha HP havia diminuído pela metade, e mais um ataque que ela fizesse, eu estaria morta, aquilo era uma luta perdida, eu morreria ali sem saber o que aconteceria com meu corpo fora daqui, não conseguiria levar Ryan de volta, eu era um fracasso.

Lagrimas escorreram pelo meu rosto.

Foi então que me lembrei do diamante, o peguei e então o arremessei para Ryan.

– Pegue Ryan, e fuja!

Ele o agarrou e o apertou forte na mão.

– Não posso ir sem você!

Dei um sorriso fraco.

– Eu vou ficar b...

O tempo havia parado, senti meu corpo se esfriar aos poucos, o golpe havia vindo por de trás, atingido o meio do meu coração. Minha vida de dor, ódio e medo passou pelos meus olhos e depois tudo ficou escuro.

Então, aquilo era a morte?

Ryan

O seu sorriso era algo que eu demoraria a ver, ou nunca veria novamente.

Senti uma onda de raiva percorrer meu corpo, enquanto via Hayley estirada ao chão. Olhava para o diamante em minha mão, eu não sabia que palavras mencionar ou o que deveria fazer para que ele me tirasse daquele lugar junto a ela, mas antes que isso pudesse acontecer, eu tinha que completar uma missão ali.

Peguei o arco que Selene havia me dado de presente junto com a bolsa de flechas, desci até a arena, onde ela se encontrava mandando beijos e tchaus para o público na arquibancada. Peguei uma das flechas, ajeitei no arco e então mirei a 500m em sua cabeça, houve agitação da platéia, ela se virou para me encarar.

– O que está fazendo meu Ryanzinho? – Ela deu alguns passos para frente.

– Eu não pertenço a você Selene! – Gritei.

Seus olhos começaram a ficar esverdeados, como da primeira vez em que a vi caminhando pela beira do mar, ela cantarolava e chamava a minha atenção, e quando me aproximei e a olhei nos olhos, me senti petrificado e algo havia tomado conta do meu corpo.

Eu teria de lutar sem olhar para seus olhos.

Seis guardas surgiram na minha frente, matei cada um com duas flechas, uma no peito, e a outra na cabeça. Era a única maneira de matá-los. Quando terminei, seria hora de Selene, e então, me dei conta que não tinha mais nenhuma flecha.

Ela soltou uma gargalhada.

Olhei para Hayley, em suas costas ainda permanecia a espada de Selene, corri até ela e a puxei, senti minhas bochechas queimarem ao olhar o pequeno corpo morto mergulhado em sangue a minha frente.

– Você pode salvá-la ainda se conseguir voltar para onde tudo teve inicio, um portal aguarda por vocês. – Ouvi a voz de Selene, ela estava parada a alguns passos de distancia. – Mas, eu e Hayley fizermos um trato, ela perdeu, e então como consequência, você terá que conviver comigo e aprender a me amar.

Minhas mãos tremeram, e agarrei forte o punho da espada.

Meus próximos movimentos foram rápidos, girei meu corpo e cortei algo sólido com a lamina da espada. Quando voltei a olhar Selene, sua cabeça rodava em câmera lenta no ar, e seu corpo estava caído de joelhos.

– Cala a boca vadia, você fala demais.

Joguei longe a espada e coloquei Hayley em meu colo, alcancei o diamante em meu bolso e então desejei voltar à floresta densa onde havíamos sido deixados da primeira vez. O diamante estourou em diversos pedaços azuis e em um piscar de olhos estava de frente a um portal.



– Ela irá ficar bem? – Perguntei ao médico dos guardiões.

– Estamos esperando os exames filho, mas o estado dela é grave. – Apoiou sua mão em meu ombro. – Você foi muito corajoso.

– Não fui. Ela me salvou a maior parte do tempo, se tivesse me esforçado, teria evitado tudo isso, toda essa dor que ela está sentindo.

Ele ficou calado e logo se retirou do quarto.

Não conseguia tirar os olhos de Hayley que estava deitada em uma maca com aparelhos ligados por todo o seu corpo, sua respiração era fraca e estava mais pálida que o normal. Segurei em sua mão gélida e a levei até minha boca e a deixei ali por uns estantes.

– Você deveria descansar Ryan. – Disse Erin apoiada na soleira da porta.

Meu corpo começou a tremer.

Pausei delicadamente a mão de Hayley ao lado de seu corpo.

– Isso é tudo culpa sua. – Baixei a cabeça, não tinha coragem de olhá-la.

– Do que está falando? Tivermos um problema técnico e...

– Se o problema fosse técnico, era só ter desligado os equipamentos, os guardiões têm uma tecnologia muito avançada, não deixariam um simples problema técnico matar um dos seus em um simulador, a própria maquina tem coincidência disso, a menos que alguém mexesse em suas configurações. Você deixou falhas, a primeira, na luta contra os Orcs, eles só atacavam se fossem atiçados, no entanto, um agarrou Hayley antes mesmo de algum de nós ter o atacado. Segundo, Hayley era sempre atingida. Terceiro, as lutas para mim eram mais fáceis, enquanto as dela eram mortais. E se essa luta não tivesse terminado ali, você encontraria jeitos de matá-la sem usar as próprias mãos, e um jogo seria perfeito para isso. Por isso que entrou nele como Selene. Você sabia que Hayley tentaria me salvar e a fez lutar contra você sabendo que para ela, seria uma luta perdida, e me prenderia ali até que o coração de Hayley parasse de bater aqui e então, só depois me traria de volta. Mas no final você permitiu que eu a trouxesse de volta. Por quê? – A olhei. — Você é muito boa na arte da ilusão, não é mesmo Erin?

Ela soltou uma gargalhada idêntica a de Selene.

– Vai precisar de muitas provas antes de me entregar ao conselho Ryan. A causa foi apontada como erro técnico. Enquanto o que aconteceu a sua amiguinha, foi que os equipamentos ligados ao seu corpo foram alterados junto com o sistema do simulador. Não me subestime, posso fazer da sua vida um inferno aqui. – Seu sorriso era malicioso. – Boa sorte a você, e – Encarou Hayley – A ela também.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.