— Acho que está muito tarde, Carla. Preciso ir embora — Elisa confessou, sentindo-se cansada e sonolenta, pois havia acordado muito cedo, só queria ir para casa, dormir, e nem mesmo a atenção de Leo a animava.

— Quer procurar por Joana? – A amiga perguntou, titubeando, sem estar muito a fim de fazer isso.

— Não! Não quero atrapalhar a minha irmã. Eu vou sozinha.

— Eu levo você até em casa, Elisa – Leo que ouvia a conversa se ofereceu, prontamente, para acompanhá-la.

— Não precisa, não tem perigo – insistiu, porém Carla olhou para ela, sem entender, já que seria oportunidade de ficar sozinha com Leo.

— Eu faço questão. É aqui perto, depois eu volto rapidinho – ele reiterou a proposta e ela ficou com vergonha de recusar outra vez.

— Obrigada. Então, vamos! – Elisa beijou o rosto de Carla – Agradeça a sua mãe, e se você ver Joana, avise a ela que já fui para casa. Charles deve levá-la para casa. Tchau.

As ruas do condomínio estavam quase vazias àquela hora da noite, a maioria dos moradores já dormiam, a brisa leve, que vinha do mar, chacoalhava as folhagens nos jardins e arrepiava a pele.

— Aqui é muito bonito e calmo – observou Leo, enquanto caminhavam lado a lado, ela com os braços cruzados na frente do corpo e ele com as mãos nos bolsos da bermuda, chutando, distraído, uma pedrinha ou um pedaço de galho que ficava no seu caminho.

— Isso aqui é um mundo meio artificial, onde quem tem dinheiro compra paz e tranquilidade, as cancelas deixam o mundo real do lado de fora – Elisa refletiu.

— É uma das vantagens de ter dinheiro, pode-se comprar muitas coisas até mesmo tranquilidade, consegui ter uma vida mais confortável e segura – Leo disse de modo triste.

— Mas, não se pode comprar algumas outras que são realmente importante, como a amizade, amor ou felicidade.

— Está pensando em Dani, não é, Elisa? No entanto, Charles e ele parecem ser amigos verdadeiros – Leo retrucou, com um sorriso de ironia.

— Talvez, mais por mérito de Charles do que do próprio Dani. Eu espero, sinceramente, que se um dia, caso Charles o contrariar de alguma forma, Dani não se volte contra o amigo, com todo aquele rancor que ele deve ter guardado no coração – Elisa considerou, só de pensar em Dani e sua soberba, sentia seu sangue ferver de raiva.

— Você é uma pessoa muito observadora, Elisa. Consegue entender a almas das pessoas em tão pouco tempo – Leo a elogiou, admirado, e ela sentiu-se orgulhosa por isso. — Qual carreira pretende seguir?

— Ainda não sei. – Ela deu de ombros. — Mas algum dia, pretendo escrever um livro. Sabe, eu gosto muito de escrever, imaginar coisas, criar história.

— Como assim? – Leo parecia realmente interessado.

— Sabe, eu olho para essas casas bonitas, onde moram famílias de aparência perfeitas, e fico imaginando como são realmente as pessoas que vivem ali dentro, seus amores, seus medos, seus pensamentos.

— Gostaria de ser assim também, talvez, ficasse mais fácil conhecer as pessoas, não acreditar tanto nelas, seria mais esperto, não me magoaria tanto – Leo falou, pensativo, deu um sorriso triste para Elisa.

Um carro passou correndo por eles, parando bem em frente da casa dela, que se assustou ao ver duas figuras saindo dele, uma delas tentando apoiar a outra, meio cambaleante. Mesmo de longe, Elisa as reconheceu e correu para elas.

— O que houve? – ela perguntou, irritada, a Maria, que tentava manter Lídia, visivelmente bêbada, de pé.

— Ela bebeu demais! – Maria respondeu, Leo se adiantou para ajudá-la.

Com muita raiva, Elisa se voltou e foi até a janela do carro, batendo com força no vidro da janela que foi aberto, pelo motorista que a fitou com um sorriso debochado. Ela colocou a cabeça para dentro do carro, lá dentro, estavam dois rapazes e uma garota, bem mais velhos que suas irmãs, também parecendo um pouco bêbados. Ela reconheceu o rapaz da sorveteria que estava beijando Lídia, na noite anterior.

— O que fizeram com a minha irmã? – Elisa perguntou, de maneira irada, em voz alta, na cara dele.

— Calma, maninha! Ela só bebeu um pouquinho demais! – O motorista respondeu, com a voz arrastada e um sorriso presunçoso.

— Vocês são uns loucos! Sabia que elas só têm quinze anos? – Elisa revelou com firmeza.

O sorriso de deboche de desfez no rosto do garoto, com um balde de água fria, deve consciência da roubada que poderia estar entrando.

— Não, não sabia! – A voz do rapaz saiu baixa e confusa.

— Então, fiquem sabendo e se afastem das minhas irmãs, senão vão arrumar encrenca! Entendeu?– Elisa advertiu, com o olhar em brasa.

— Tudo bem! Mas alguém devia vigiar melhor essas meninas. Adeus, maninha! – O motorista retrucou de um jeito cínico e arrancou com o carro, ela só deve tempo para se afastar, entretanto, concordou com o motorista.

— Vamos levar Lídia para dentro e colocá-la na cama – Elisa tomou o lugar de Leo ao lado da irmã – Obrigada pela ajuda, Leo.

— Não quer que eu ajude a levá-la para dentro? – Ele quis saber, solicito.

— Não precisa, a gente cuida disso – nesse momento, Lídia abriu os olhos, estava bem na frente de Leo.

— Olá, gatinho! – Ela falou com a voz arrastada, depois fechou os olhos de novo.

— Boa noite e obrigada, Leo.

E as irmãs entraram em casa, arrastando Lídia inconsciente, tentando fazer menos barulho possível, até chegarem ao quarto. Então, com muita dificuldade a deitaram na cama, tiraram os seus sapatos dela e a cobriram.

— Por favor, Elisa, não conte ao papai ou a mamãe! – Maria suplicou, com as mãos em penitência.

— Mas, Maria, o que vocês fizeram é muito grave.

— Por favor, Elisa, eu suplico! Prometo que não vai acontecer de novo, senão ficaremos de castigo – Maria estava a ponto de chorar, Elisa duvidava dessa história de castigo.

— Está bem! Eu não falo nada, mas, por favor, cuidado para não se meterem em mais encrencas. Vocês sabem o que poderia ter acontecido, aqueles caras são muito mais velhos até mesmo para mim.

— Eu sei, Elisa. Eu falei para Lídia, que não podia beber tanto assim, mas você sabe como ela, só faz o que quer. Acho que queria se exibir para o carinha, dá uma de mais velha.

— Dessa vez, vou deixar passar, mas de outra, vou contar para o nosso pai. Boa noite, Maria.

— Boa noite e obrigada, Elisa.

Elisa foi para seu quarto, preparou-se para dormir, olhou para o relógio que marcava duas horas da manhã, mas o sono não vinha ficou rolando na cama, os fatos do dia passando como um filme confuso na sua cabeça, até ouvir a porta se abrir lentamente. Joana entrou com cuidado, para não fazer barulho e acordar a irmã, que achava que dormia.

— E aí, como é que foi? — Elisa indagou, curiosa, apoiando-se nos cotovelos. Joana deu um pequeno grito, assustada, e voltou-se para a irmã.

— Ainda acordada, Elisa? Você me assustou! – exclamou, colocando a mão no peito, como para acalmar o coração.

— Eu estava curiosa. Como é que foi você e Charles, rolou uns beijinhos?

— Muito bom. Ele beija tão bem, e a gente conversou muito, sobre ele e sobre mim – Joana relatou, atirando-se na cama com grande suspiro e um olhar sonhador.

— Ainda tiveram tempo para conversar? – Elisa perguntou, com ironia.

— Claro, Elisa. Charles é tão engraçado e inteligente. Combinamos de nos encontráramos amanhã e almoçarmos juntos. E você, por que não está dormindo? Como voltou para casa?

— Com o Leo.

— Leo? Ele até que é bem bonitinho. Combinaram alguma coisa? – Joana quis saber, agora, era ela que estava curiosa.

— Não deu tempo – Elisa deu de ombros.

— Por quê?

— Nem te conto – Joana interrogou a irmã com os olhos —, por causa da Lídia!

— O que houve? – Joana sentou-se na cama, aflita, enquanto Elisa relatava sobre o encontro com as irmãs na porta de casa.

— E você acha que não devemos contar para o papai, Elisa? – Joana questionou, apreensiva.

— Eu prometi para Maria, que não faria isso, por enquanto, porque ela me implorou. Também, acho que aqueles carinhas não vão querer se meter mais com elas, depois que eu falei que tinham só 15 anos.

— Mas eu fico preocupada, com os outros que possam aparecer no futuro – Joana considerou, uma ruga de surgiu entre seus olhos.