De repente, você
7 A correnteza
— Quer ir até a água comigo? – Charles convidou Joana e ela aceitou prontamente. Todos haviam chegados bem cedo à praia e o sol acabara de erguer-se na linha do horizonte. Por isso, ao assistir aquela cena, Elisa imaginou como a irmã deveria estar apaixonada para aceitar entrar naquela água tão fria, que ela tanto detestava. Então, os dois caminharam juntos de mãos dadas, em direção a água, sob os olhares desinteressados das outras pessoas do pequeno grupo, que tomavam sol na areia.
— Quer entrar na água, Dani? – Caroline aproveitou a deixa e convidou o rapaz, toda lânguida.
— Não agora. Quero nadar mais tarde – ele respondeu, seco, sem se voltar para ela com os olhos perdidos em algum lugar do horizonte.
— Charles nos disse que você é um excelente nadador, Dani. Que foi o campeão da escola, por vários anos seguidos – Caroline continua sua tentativa de atrair a atenção do rapaz, em um tom falsamente alegre.
— Não sou grande coisa – ele afirmou, sem alterar o tom de voz.
— Mas, para você conseguir isso, tem que ter determinação e disciplina – ela insistia na bajulação.
— Eu, simplesmente, gosto de nadar – Dani desdenhou, erguendo os ombros, sem dar muita importância.
— Você está sendo modesto, Dani – Caroline completou, dando um soquinho de leve no ombro do rapaz. Enquanto isso, Elisa não estava aguentando mais aquela conversa chata e sem propósito.
— Você e Charles se conhecem há muito tempo? – Ela se intrometeu, mais para mudar de assunto do que por curiosidade, Caroline não gostou muita da intervenção dela, a olhou atravessado.
— Sim, estudamos juntos por muitos anos. Ano passado foi nosso último de escola, por isso estamos tirando férias juntos, antes de seguirmos caminho diferentes – Dani respondeu de um modo educado.
— Mas isso não significa o fim da amizade – Elisa argumentou, sem pensar.
— Claro que não. Charles é como um irmão para mim – Dani afirmou, olhando para ela, erguendo os óculos escuros para vê-la melhor. Pela primeira vez, Elisa sentiu alguma emoção e verdade na voz e no olhar de Dani.
— Bom para você poder ter uma amizade tão legal quanto essa, pior para aqueles que não tem – Elisa instigou com um tom sarcástico, pensando na história que Leo lhe contara, de como havia sido maltratado na escola por Dani e seus amigos, por não pertencer a mesma classe social que a deles. Ele lhe deu um olhar frio, que ela não quis enfrentar.
— Vou nadar um pouco – ele anunciou, levantando-se e caminhando, calmamente, em direção ao mar, sob o olhar das duas garotas, que deveriam ter pensamento bem opostos.
— Dani e Charles são muitos amigos, mesmo. Ele sempre está apoiando meu irmão, depois que ele termina com cada namorada e sofre muito com isso. Sabe, Charles é um romântico incorrigível e fica muito arrasado, pois todo o verão é a mesma coisa, sempre uma nova garota, ele fica apaixonado, para logo em seguida, como mágica, desencanta e ficar desiludido – Caroline relatou, estalando os dedos no ar, Elisa a olhou espantada. – Ops! Eu não devia ter dito isso, já que ele está namorando sua irmã agora. Mas, tenho certeza que com ela será diferente – finalizou com dissimulada consideração, porém, Elisa desconfiou que ela tinha dito aquilo por pura maldade, no entanto, não queria discutir, nem prolongar aquela conversa desagradável.
— Vou até a água. Estou com muito calor – Irritada, Elisa se levantou, repentinamente, pensando como sentia falta da sua amiga Carla, que não apareceu hoje na praia, possivelmente, por causa da festa na sua casa na noite anterior. Caminhou para a água, experimentando-a com os pés, percebendo que estava muito fria, por isso, entrou lentamente, deixando-se ser envolvida até ter boa profundidade para mergulhar de cabeça, começou a dar algumas braçadas, não era uma boa nadadora, então cansou-se rápido, deitou-se de costas, olhando o céu azul com algumas poucas nuvens quase transparentes, as ondas elevavam e desciam seu corpo em um suave balanço, ficou ali esquecida do mundo.
Como se despertasse de um encanto, aprumou-se, percebendo como havia se afastando demais da praia, onde as pessoas não passavam de pequenos pontos, assim começou a nadar de volta, mesmo batendo os braços e pernas com energia, permanecia no mesmo lugar, notou que foi pega em uma correnteza e um certo pânico se apoderou dela. Continuou a bater as pernas inutilmente, até sentir fortes dores, primeiro achou que tivesse sido mordida por algum bicho, mas depois compreendeu que era uma forte câimbra, assim achou que iria morreu afogada ali, apavorou-se, começou a agitar os braços, na esperança de ser vista por alguém na praia, já estava ficando cansada e a perna doía muito. Nesse momento, ouviu um barulho atrás dela, pensou que agora só faltava um tubarão ou algo parecido para piorar sua situação, apesar de não ser comum naquela região, agitou-se ainda mais.
— Calma, Elisa! – Ouviu atrás dela, sentindo alguém a segurar pelo pescoço, achou que iria se afogar e, por isso, ela se debateu ainda mais, e sua cabeça foi mergulhada na água fria, depois erguida.
— Calma, Elisa! – A voz autoritária ordenou mais uma vez, podia sentir o outro corpo contra o seu. – Senão não poderei ajudar você!
Ela reconheceu a voz e não gostou, mas se acalmou, sabia que poderia ser sua única chance de sobrevivência.
— Não fique agitada, vai ser pior para nós dois – Dani tentava transmitir calma. – Só flutue. Estamos em uma correnteza, não lute contra ela, só vai ficar cansada. Vamos deixar ela nos levar e esperar o melhor momento para sairmos daqui.
— Eu estou com câimbra – ela se queixou.
— Você é uma garota corajosa! Aguenta firme! Tudo vai dar certo, Elisa! Quando se sentir melhor, nadaremos para o lado para tentarmos sair daqui. – Ele a segurou pela cintura, o braço dele era forte e ela relaxou um pouco, naquele momento, sentiu-se mais confiante e tranquila com a sua presença ali. Assim, por algum tempo, os dois flutuaram juntos e, por sorte, foram levados para mais próximo da praia e conseguiram nadar para fora da correnteza e alcançar a areia, onde Elisa se atirou no chão de barriga para cima, com dificuldade de respirar pelo esforço, muito cansada e com a perna dolorida.
— Obrigada — ela falou, quase sem folego.
— Não foi nada. Você está bem? — ele quis saber, sentando-se ao lado dela, respirando profundamente.
— Estou só cansada! – respondeu, ainda ofegante – Só preciso descansar um pouquinho.
— Consegue andar? Estamos longe dos outros – ele indagou, também, com a respiração pesada.
— Acho que sim – ela respondeu e Dani se levantou e ajudou-a se erguer, pois ainda sentia a perna enrijecida vacilar e tinha muita dificuldade para andar.
— Você pode se apoiar em mim, se quiser – ele ofereceu.
— Não, estou bem – ela bancou a forte, mas no primeiro passo a perna resvalou e perdeu o equilíbrio, Dani a segurou com firmeza, rapidamente, pela cintura, antes que caísse. Ela sentiu a mão dele quente na sua pele fria, a segurando pela cintura.
— Não seja teimosa, eu ajudo você – ele a repreendeu e, sem escolha, ela aceitou, apoiando-se nele, envolveu sua cintura para se equilibrar. Não tinham imaginado como haviam se afastado, andaram uma boa distância até encontrar ver as outras pessoas do seu grupo. Joana veio correndo assim que viu a irmã apoiada por Dani, Charles veio logo atrás, mas os outros não se mexeram.
— Meu Deus! O que houve, Elisa?! Estava morrendo de medo, vocês desapareceram! – Joana exclamou, ansiosa, seus olhos úmidos, devia ter chorado.
— Não foi nada, só fui pega por uma correnteza, tive uma câimbra, mas, felizmente, Dani me ajudou – ela resumiu, querendo tranquilizar a irmã – Mais uma vez, obrigada, Dani.
— Não tem por que – ele respondeu, sem emoção na voz.
— Sim, obrigada, Dani, por ter ajudado a minha irmã – Joana disse, comovida.
— Eu faria isso por qualquer um – ele rebateu em um tom frio, afastando-se delas.
— Você quer ir embora? Consegue andar? Eu posso ir em casa pegar o carro? – Joana falava agitada.
— Não é preciso, só quero me sentar um pouco – Assim, Joana ajudou a irmã chegar até uma cadeira e se sentar, ao olhar para o lado sentiu a expressão contrariada de Caroline sobre ela.
— Você deveria tomar mais cuidado, Elisa. Nunca se sabe o que pode acontecer – Caroline falou de um jeito desafiador, com certeza, estava com ciúmes de Dani. Elisa pensou que ela seria a última pessoa do mundo para Caroline ter ciúmes, contudo, estava exausta, suas forças esgotadas para uma contenda.
— Acho que poderíamos almoçar agora. Toda essa emoção me deu fome – Tom, o namorado de Louise, abriu a boca pela primeira vez naquela manhã.
— Tom, você sempre está com fome – observou a namorada. – Mas, podemos ir agora. Já estamos muito tempo aqui.
— Onde iremos? – Caroline perguntou, querendo se livrar de Elisa.
— À um restaurante no final da praia. Temos que pegar o carro. Você vem conosco, Elisa? – Charles indagou, gentilmente.
Elisa refletiu um pouco, não estava com nenhuma vontade de passar a tarde com aquelas pessoas antipáticas, e apesar do olhar de súplica da irmã, ela recusou o convite.
— Estou muito cansada, depois do que aconteceu hoje, só quero ir para casa, agora. Vou almoçar com meu pai – ela afirmou, abatida.
— Pelo menos, deixe-nos levar você até em casa, Elisa – Charles insistiu.
— Obrigada, mas não precisa, eu vou ficar bem. Gosto de andar.
Na saída da praia, eles se despediram e se separaram, Elisa seguiu sozinha, pelos dois quarteirões até a sua casa. Apesar do caminho ser curto, suas pernas e braços doíam muito a cada passo, e quando estava quase chegando, ouviu alguém chamar pelo seu nome, olhou ao redor e viu Leo se aproximar apressado.
— Elisa, que bom encontrar você! Como está sua irmã? – ele perguntou, dando-lhe um lindo sorriso, que iluminou seu rosto.
— Acho que bem agora. E você, o que faz por aqui? – Ela, realmente, estava interessada.
— Vou ficar alguns dias hospedados com uns amigos.
— Aqui no condomínio?
— Não, perto daqui.
— Por que não vem até a minha casa e almoça conosco? — Elisa o convidou, querendo a companhia dele por mais tempo.
— Não vou incomodar? – ele indagou de um jeito tímido.
— Claro que não! Mas, por favor, não fale nada sobre o que aconteceu hoje de madrugada para o meu pai e a minha madrasta. Eles não sabem o que houve com Lídia.
— Pode deixar!
— Você não foi à praia hoje?.
— Fui, mas longe daqui. Sabe não quero ter mais encontros desagradáveis, você entende?
— Eu entendo. Se eu pudesse também o evitaria – disse, mas depois pensou com estava sendo ingrata, afinal, Dani salvou a sua vida, se ele não estivesse lá, provavelmente, teria morrido afogada.
— Não quero mais encontrar aquele tipo arrogante, que se acha melhor que todo mundo só porque tem muito dinheiro – Leo falou de forma rancorosa.
— Tem razão, não vale a pena se aborrecer com isso, Leo. Bem, chegamos. Entre! Vou avisar a minha madrasta que você está aqui e vai almoçar conosco.
Foi nesse exato instante em que Lilian entrou na sala, parou ao ver Leo.
— Lilian, esse é um amigo meu, Leo. Eu o convidei para almoçar. Tem algum problema?
Leo se adiantou e cumprimentou, gentilmente, e ela sorriu em resposta, era o sinal que tinha se rendido aos belos rosto e sorriso dele.
— Claro que não, Elisa. Será um prazer em tê-lo conosco, meu rapaz – respondeu quase cantando.
— Ah, Lilian! Joana não vai almoçar com a gente hoje. Ela vai almoçar com Charles.
— Charles? Aquele rapaz da casa amarela – a madrasta ficou bastante interessada, nos habitantes da casa mais luxuosa do condomínio.
— Sim, ele mesmo – confirmou Elisa
O sorriso da madrasta aumentou mais ainda, pois sabia que Charles era de uma família muito rica e ela adoraria ostentar para as amigas, que a enteada estava namorando um dos rapazes mais cobiçado do lugar, seria um trunfo e tanto.
— Então, podemos almoçar agora, pois, mais tarde, seu pai terá que ir ao aeroporto buscar seu primo. Lídia também não almoçará conosco, pois está doente, a pobrezinha! Acho que começou alguma coisa estragada ontem à noite, está de cama – Lilian relatou com um tom de pesar.
Elisa e Leo se entreolharam e sorriram um para o outro, com cumplicidade.
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