“Can-Can,

Quantas cartas eu já te mandei durante todo esse tempo? Pelo menos uma por semana? E faz quase um ano que estou aqui. Quantas vezes eu já disse que estou apaixonado pela Stormy? Acho que em todas as cartas desde que comecei a namorar. Sabe, essa égua já salvou minha vida uma dezena de vezes! Não consigo sequer imaginar voar com outro pônei. Recentemente tenho pensado bastante em noivado. Será que ela aceitaria? Fico com receio de que ela ache que estou indo rápido demais. Nem fizemos um ano de namoro ainda. O que você acha?

Outra coisa: como estão meus pais? Em todas as cartas que a mãe me manda, ela diz que está tudo bem, mas acho que ela não me diria se algo ruim acontecesse com eles, apenas para não me preocupar; você sabe.

Ei! A sua casa está ficando igual de madame, hein?! Quase não acreditei quando disse na última carta que havia comprado uma banheira. Tudo bem que é usada, mas mesmo assim é melhor que aquela bacia que você usava. E agora só falta instalar um sistema de aquecedor de água, pra parar de ter que aquecer a água do banho no fogão (risos). Estou morrendo de curiosidade de ver o seu barraco ‘reformado’. Lembro de quando só tinha o fogão e o sofá na sala.

É quase dezembro, a Noite da Lareira Calorosa está chegando e eu acho que vou para Germane a trabalho. Vamos levar a maior nevasca em vinte anos para a cidade! Então acho bom você também comprar um cachecol novo também. Enfim, posso aproveitar a oportunidade para te visitar e visitar os meus pais, além de apresentar a Stormy, que vem junto comigo. Aliás, podemos passar a noite de festa todos juntos. Se não for sair com suas amigas, é claro. Falando nas suas amigas, como está a Rain? Ela já tomou vergonha na cara pra te pedir em namoro? (Mais risos)

E o trabalho, como está? Espero que não tenha tido nenhum problema com pôneis bêbados na plateia de novo. Já passou quase o tempo para que você volte pro Sun, não é? Já falou com alguém de lá para saber quando você pode voltar? Estou torcendo pra que você não precise mais dançar nas tabernas; mesmo que você diga que eles pagam bem, acho que não vale a pena ter que se esquivar de garrafas só por uns trocados a mais. Toma cuidado com esse pessoal. E aposto que todo mundo já te disse isso, né? Bem, cuidado nunca é demais, principalmente com o traseiro mais maravilhosamente brilhante de todos! E que a Stormy nunca descubra que eu disse isso (mais risos). Mas, falando sério, durante todos esses meses eu não gostei nada de saber que você dançava nesses lugares. Francamente, a única diferença entre a taberna e a praça é que a taberna tem um telhado. E a praça às vezes é mais bem frequentada! Pelo menos fico satisfeito em saber que você está inteirinha. Quero encontrar minha amiga do jeito que eu deixei, está bem? Vou aguardar sua resposta ansioso como sempre.

Do seu, Clean Weather.”

A pônei de cristal deixou a carta do amigo no sofá e pensou em como as coisas haviam mudado depois de tantos anos. Sua casa parecia bastante respeitável agora que tinha mais móveis na sala e um papel decente na parede. Pensou em como seu pai ficaria orgulhoso de ver o bom trabalho que ela havia feito; desejava que ele estivesse ali. Deixou-se sorrir um pouco, imaginando o escândalo que ele faria caso ela trouxesse alguma pônei para casa à noite. Imaginou a discussão que teriam, na qual ela gritaria que era adulta e dona da própria vida. Ele provavelmente diria que era o dono da casa e que exigia respeito; e que ela ia ficar mal falada caso não maneirasse. Fato era que a relação aberta que Can-Can tinha com Rain não agradaria a Turner nem um pouco.

E além de sair para festas com a égua manchada, dançar em vários estabelecimentos proporcionava à vedete um número generoso de possibilidades para paquerar pôneis. Às vezes trazia alguém para casa depois de um show, um bilhete e uma caneca de sidra. Há muito Can-Can resolvera deixar de lado o conselho de Rhiannon para não bater papo com os pôneis da plateia. Geralmente, após uma apresentação, escolhia uma mesa que estivesse bem movimentada no salão e se juntava aos clientes para conversar e rir. À sua maneira, conquistava um público cativo para as danças. Quando tinha problemas com algum pônei ou se sentia incomodada com as atitudes de alguém que bebera demais ou que não possuía a educação necessária, esquivava-se como se pretendesse buscar uma bebida e sumia da taberna num piscar de olhos.

Talvez essa nova vida não tivesse o mesmo glamour da que tinha quando começara a trabalhar no cabaré, mas havia pontos positivos o suficiente para ser bastante interessante.

Ainda nutria grandes saudades do Sun, é claro, mas a agitação da vida nas tabernas e a adoração dos seus fãs – que apesar de poucos, eram só dela – fazia tudo ser prazerosamente suportável. A égua rubra adorava ser bajulada pelos pôneis que a viam dançar, falavam-lhe coisas bonitas, pagavam-lhe bebidas, às vezes traziam-lhe flores. Ela, por sua vez, ouvia os elogios e respondia com doçura, mas sem se deixar levar; bebia o que lhe era oferecido somente se fosse trazido por uma das garçonetes do estabelecimento; e aceitava as flores que lhe eram oferecidas, mas jamais as cheirava ou mordia na frente de ninguém. Can-Can possuía as próprias regras de cautela para lidar com o público: se saísse muito tarde da taberna, ia para casa de táxi; se pretendia sair acompanhada de alguém, fazia questão de não beber demais e avisar a um amigo – a pônei de cristal tinha pelo menos um em cada taberna, além de Allegro, fosse camareira, fosse garçom ou garçonete, fosse ajudante de cozinha.

Olhou para a carta de Weather mais uma vez. Pensou que o amigo ficaria preocupado se descobrisse que ela havia se tornado uma égua razoavelmente boêmia. Pegou papel, tinteiro e pena. Debruçou-se no chão do cômodo e escreveu.

“Clean,

Acha mesmo que é a hora certa para noivar? E isso vai fazer alguma diferença na relação de vocês para ser tão importante assim? Espera o aniversário de um ano de namoro e pensa um pouco mais. Acho melhor assim. E ainda, se você mesmo tem dúvidas de que ela aceitaria ou não é mais um motivo para esperar, para poder ter certeza. Sabe de uma coisa? É estranho imaginar aquele potro namorador estando noivo. Essa Storm Call te transformou de cafajeste em bobo apaixonado; ela deve ser muito boa mesmo.

Seus pais estão muito bem, não se preocupe. Eu estive ajudando a sua mama a preparar a lista de compras para a Noite da Lareira Calorosa. Ela vai fazer um tremendo banquete! Está morrendo de saudades de você e acha que você deve estar se alimentando mal, morando sozinho. Disse também que vai preparar todas as suas receitas favoritas. E ela já me perguntou pelo menos umas cinco vezes se você já me falou coisas sobre a nora dela. Dame Flight quer causar uma boa impressão e ao mesmo tempo fica desconfiada de saber se Storm presta para você. Deve ser coisa de mãe. O seu papa continua trabalhando no Sun e muito bem. Às vezes ele me conta o que acontece por lá; ele também ficou de me avisar quando Herr Finesse me quiser de volta. A propósito, eu acho que faremos a festa na casa da Fraülein Balance, porque é maior. Eu acho que vou convidar as garotas para participarem. Sky e Gale não pretendem ir para Manehattan visitar os pais, então vão estar sozinhas nessa noite. Eu ia convidar o Allegro, mas acho que ele vai viajar para passar a noite com a família. E a Rain deve ter planos, mas se eu insistir um pouco, ela topa aparecer também. E falando nela... não. Ela não me pediu em namoro, na verdade eu até prefiro que não faça isso. Nós duas temos uma boa amizade e eu tenho medo que um namoro pudesse estragar isso. Sem falar que de uns meses para cá ela tem saído mais com uma ex-namorada dela e... bem... sabe como é, eu não quero me envolver para me dar mal. E antes que você possa dizer qualquer coisa: sim, eu fico um pouco triste pensando nisso. Mas não é como se nós duas pensássemos que queríamos alguma coisa de verdade uma com a outra. Pelo menos nunca dissemos nada assim. Eu, pelo menos, nunca pensei muito em dizer que queria namorar. E antes que você possa dizer qualquer coisa mesmo: idiota!

E bem, eu trabalhei bastante, não podia deixar a minha casa como estava, não é? Andei pensando até em comprar um novo sofá, mas este me lembra papa, então eu não tenho coragem para jogar fora. Minha casinha está bem mais aconchegante hoje em dia. E como tenho colchas novas e lenha na lareira, há muito tempo não dá mais para sentir frio na sala. Papa dormiria muito melhor se estivesse vivo. Às vezes eu ainda penso nele deitado no sofá, dormindo. Você não imagina a falta que ele ainda me faz. Queria que ele ainda estivesse aqui. Íamos comemorar a Noite da Lareira Calorosa como uma grande família...

O trabalho está tranquilo, não tive mais problemas com pôneis bêbados. Ninguém atirou garrafas em mim. Conheci um monte de pôneis, alguns pégasos já me falaram um bocado de Cloudsdale. Tenho vontade de conhecer essa cidade, uma pena não poder. Também encontrei um pônei de cristal outro dia, é tão raro ver alguém como eu que até tomei um susto. Acho que é o mais excepcional que me aconteceu nas tabernas ultimamente. De resto, continua tudo igual: eu danço e me divirto.

Outra coisa: é sério que vai trazer uma nevasca assim? Mesmo? Só para estragar a festa de todo mundo?! Espero que você pelo menos faça o favor de colocar as piores nuvens em cima de um bairro que não seja o nosso. E aliás, desde quando você trabalha com nevascas? Achei que você mexia com tempestades tropicais! Mas que seja, vou te esperar ansiosa. Vai ser uma noite maravilhosa.

Com muito amor, Can-Can.

P.S.: Mostre ao Joe essa parte:

Joe, obrigada por aturar esse idiota tagarela e escrever as cartas dele. Espero que tenham se tornado bons amigos neste ano. Boas festas!”

Deixou o lápis cair da boca e releu a carta duas vezes antes de ir ao quarto colocá-la num envelope. Veria Weather após quase um ano. A ideia animou-a bastante; sentia saudades enormes do amigo. Guardou o envelope num alforje. As orelhas de Can-Can levantaram-se, de súbito, ao ouvir uma batida na porta da frente. Curiosa, voltou à sala perguntou quem batia. Nightingale respondeu e esperou que a amiga a deixasse entrar. Não demorou muito para que a porta se abrisse de uma vez e a égua rubra recebesse a amiga com um abraço amistoso. “Oi, Gale. Tudo bem?”, disse. A pônei bege assentiu em silêncio, olhou por cima do ombro da amiga, avaliando se havia alguém dentro da casa, e perguntou, “Tá ocupada? Queria conversar contigo”.

Surpresa, Can-Can pediu para que ela entrasse e fechou a porta em seguida. “Algum problema?”, perguntou e indicou o sofá para que a visita se sentasse.

A pônei terrestre trotou devagar ao assento e deixou seus alforjes no chão enquanto dizia, “Lembra de Lorde Herzen?” Can-Can pensou por um instante, buscou na memória o nome que lhe era quase familiar.

“Von Herzen, o grifo que é amigo de Herr Grandiose”, Gale ajudou. “Eu costumava sair com ele quando ele vinha pra cidade. Nos convidava pra festas chiques...”

“Oh, sim. O que tem ele?”, Can-Can retrucou. Lembrara-se de que havia ficado preocupada com o fato do grifo chamar Gale à mesa no Sun para conversar no dia em que começaram a dançar juntas. Como nada de ruim havia acontecido e como a pônei bege parecia se divertir saindo com o lorde, as amigas pararam de dar muita atenção. Principalmente porque ele morava na terra dos grifos, vinha para Equestria somente uma vez ao mês e não se demorava mais que cinco dias.

“Me mandou uma carta, chegou hoje lá em casa”, Gale afirmou pensativa. Jogou-se por sobre o braço do sofá para alcançar um alforje e tirar de dentro dele um envelope.

Sem entender onde a amiga queria chegar, a pônei de cristal comentou, “Mandou? Que fofo da parte dele”.

Nightingale bufou e explicou, “Ele quer que eu vá morar na terra dos grifos pra ficar perto dele”. Pegou a amiga de surpresa. Can-Can balbuciou descrente e Gale entregou a carta para ela. Enquanto a pônei de cristal lia rapidamente as palavras no papel, Gale comentava que teria uma casa grande, empregados as pencas, seria sustentada pelo dinheiro do lorde e não teria de mover um casco para fazer coisas que não quisesse. Tudo o que ela comentava estava escrito na carta – era uma proposta muito generosa, talvez até demais. A mensagem terminava com juras de amor dignas de um nobre.

“Isso é sério”, a vedete vermelha murmurou. “Nossa!”

“Ele é casado”, Nightingale afirmou brava. Suas palavras foram como socos nos estômagos de ambas. “Ele quer que eu viaje meio mundo para ter a amante mais perto e mais disponível.”

“Que crápula!”, Can-Can exclamou. Trotou até o sofá e sentou-se ao lado da amiga. Releu a carta em silêncio. Gale olhava para os próprios cascos, tinha uma expressão ferida no rosto. “Espera, quando você descobriu que ele tem esposa?”

“Eu sempre soube. Ele nunca escondeu isso de mim”, Gale confessou pesarosa.

Can-Can teve de se conter para não usar seu olhar mais censurador contra a amiga. “Então qual é o problema aqui, de verdade?”, perguntou finalmente.

“Eu gosto dele”, a pônei terrestre sussurrou. “No início era só diversão, sabe? Mas depois de um tempo... sei lá. Tem alguma coisa nele que me fascinou de uma forma que eu não esperava...”

“Você vai aceitar a oferta dele?!”, Can-Can interrompeu-a com um gritinho desaprovador e esganiçado.

“Não! Quer dizer... acho que não. Não”, Gale balbuciou confusa. “Eu queria viver perto dele, mas não quero viver desse jeito... Eu sou tão burra! Ser amante só é legal quando você não se apaixona...”

“Isso é loucura. Você devia ter jogado essa carta fora logo depois de ter lido”, disse severamente a égua rubra – que não era nenhuma santa, de fato, mas nunca se envolvera com pôneis compromissados (até onde sabia, pelo menos) e repudiava a atitude.

“Eu fico pensando que não posso deixar a Sky aí sozinha. Acho que morreria sem a minha maninha e...”

“Ele é casado, como você pode sequer pensar na possibilidade de ir e ficar vivendo de amante dele? Gale! Por Celestia!”

“Von me ama mais do que ama ela!”, Nightingale retrucou, brava.

“Essa é a mentira que ele diz para você, ou a mentira que você diz para si mesma?!”

“Ah, mas que droga! Eu vim aqui porque preciso de ajuda e é assim que você fala comigo?”, Gale bradou, levantou-se do assento, colocou os alforjes nas costas com um movimento rápido e preciso e adiantou-se em direção à porta. “Pelo jeito que você é com a Rain, achei que você me entenderia!”

Can-Can pulou do sofá e logo se interpôs entre a amiga e a saída. Respirou fundo, estava ofendida pela comparação dela. “Não! Desculpa. Não vai não. Vamos conversar. Eu preparo um chá e você me conta o que está sentindo”, disse com calma e encarando a égua bege nos olhos. “Senta de novo aí.”

Nightingale relinchou baixinho e desviou o olhar. Considerava partir, mas o pensamento de que não havia outro alguém de confiança e disponível para falar sobre aquele assunto a fez voltar-se para o sofá e suspirar. Can-Can já se adiantara ao armário de panelas para pegar a chaleira, enquanto perguntava à visitante se preferia chá de camomila ou erva cidreira. Gale deu de ombros e foi sentar de novo; naquele momento pouco importava o chá que preferia. Começou a contar sobre sua relação com o lorde: haviam se conhecido na noite de estreia da dança delas no Sun, o grifo, cuja pelagem era de cor caramelo no corpo, possuía nas asas e na cabeça penas castanhas que faziam um belo dégradé para loiro nas pontas e usava uma gravata borboleta negra e uma cartola alta e pomposa, que o deixava mais parecido com um comerciante do que um nobre. Ele havia convidado todas as quatro dançarinas, mas se dera por muito satisfeito com a presença de apenas uma delas e cumprimentou-a com um aceno de cabeça e um sorriso torto. Herzen tinha modos muito polidos e, apesar do ar de superioridade, emanava graça e simpatia, conversando com todos os pôneis à mesa como se fossem iguais. Não demorara para que Gale percebe-se que o grifo era um amigo muito estimado por Herr Grandiose, que contava várias pequenas grandes aventuras que os dois já tinham vivido; mas que a maior batalha que já enfrentaram juntos fora tentar fazer o grifo entender que em Equestria deveria usar uma indumentária adequada para ir a festas ou bailes; grifos não costumavam usar gravatas. Tampouco Lorde Herzen parecia confortável com a que usava, pois a mexia insistentemente a cada minuto. Nightingale fazia seu melhor para não dizer nenhuma bobagem, fazia inferências tímidas e ria nos momentos certos; não ousava cometer erros, afinal, estava na mesma mesa que um nobre e que seu patrão. Não demorou muito para que o grifo começasse a contar suas próprias histórias a respeito de sua terra; a voz dele era grave, profunda e muito segura, como que se estivesse acostumado a falar para plateias. A vedete sentia um pequeno frio na espinha sempre que ele falava, e desejava que Grandiose falasse cada vez menos, para dar vez ao grifo. Gale sequer notara os outros convidados por muito tempo; sabia que um deles era o prefeito de Germane, os outros dois pôneis ela não fazia questão de conhecer. Estava encantada com a figura do grifo. E toda as vezes durante a conversa em que ele se referia a ela, olhava-a nos olhos. Os grandes olhos verde-escuros dele pareciam muito perspicazes, penetrantes, como se pudessem ver através dela. Quando o lorde elogiou – mais uma vez – a dança de Nightingale e suas amigas, e olhou-a nos olhos, ela não teve como resistir a vontade de morder de leve o lábio inferior antes de agradecer-lhe as palavras. O olhar perscrutador de Herzen notara o movimento e, em troca, ele sorriu, dessa vez com uma pontada de lascívia. Fez o coração dela disparar.

Que que eu tô fazendo? É um grifo, Nightingale pensou. Nunca se imaginara flertando com alguém que não fosse um pônei; pior ainda, nunca pensou que se sentiria tão atraída por um grifo! Por baixo da mesa, ela sentiu o toque macio de uma pata, e a fria pontada de uma garra, em sua coxa direita. Quase deu um pulo. O lorde conversava com o prefeito enquanto fazia o discreto afago que a deixara sem palavras e pálida de susto. Quando o susto passou, um rubor fortíssimo se apoderou do rosto dela. Por Celestia, eu não sou assim bobona, a vedete gritou mentalmente para si mesma. Um dos pôneis que ela não conhecia havia reparado na expressão de desconforto no rosto dela e perguntou-lhe se estava tudo bem. Automaticamente, ela respondeu-lhe que tudo estava ótimo e que estava muito satisfeita com aquela noite. Quando disse isso, as garrafas do grifo apertaram de leve sua coxa, fazendo-a estremecer e deixando o outro pônei com um olhar de dúvida. O pônei desconhecido deu de ombros, virou-se para falar com o prefeito e não deu mais atenção à vedete pelo resto da noite, como se não valesse a pena falar com ela. As conversas continuaram animadas na mesa madrugada adentro.

Herzen não tirava a pata da perna de Gale, e ela não tinha vontade suficiente para protestar. O toque não era nem um pouco inocente, mas não chegava a ser digno de repulsa – ao menos não era digno da repulsa daquela égua. Quando o salão já se encontrava vazio, Herr Grandiose fez menção de partir. O lorde grifo levantou-se rapidamente e sinalizou para um intendente que estava próximo à porta de saída para que chamasse as carruagens de todos. O prefeito despediu-se de forma amistosa e saiu, seguido dos dois outros pôneis – talvez fossem seus secretários –, Grandiose abraçou a todos – já muito bêbado – e saiu cambaleando sem se despedir direito de ninguém. Herzen virou-se para a vedete e perguntou seu endereço, disse que fazia questão de levá-la para casa e estendeu um braço para que ela se apoiasse. Ela aceitou o apoio e saíram do cabaré direto para a grande e opulenta carruagem – puxada por quatro garanhões entediados – que os esperava na rua. O grifo ajudou-a a subir, como se a jovem pônei fosse uma criatura da mais alta estirpe. Ele deu indicações ao cocheiro e pediu que pegasse o caminho mais longo até o centro.

Cética, Can-Can interrompeu a história da amiga. Sua xícara de chá já estava vazia entre os cascos. “É sério?”, perguntou – havia uma sugestão surpresa em sua voz por causa das possibilidades do passeio numa carruagem fechada envolvendo a amiga.

“Claro que é”, Gale retrucou séria. Tomou todo o seu chá de uma só vez e continuou: “Enfim, o importante não é o passeio de carruagem, apesar de ter sido muito bom. A questão é que depois daquela noite ele mandava mensageiros levarem bilhetes para mim todos os dias. A gente sempre saía quando ele tava pela cidade. Ele me levava nos restaurantes chiques, nos clubes sociais, uma vez ele até quis me comprar um vestido, mas eu recusei. Preferia alguma coisa mais fácil de esconder”.

“Tipo o quê?”

“Brincos e colares. Vários deles.”

Impressionada, a vedete vermelha imaginava se o lorde realmente gastara seu precioso dinheiro com joias de verdade para a amiga.

“Mas é muito mais que isso, sabe? A gente ama a companhia um do outro. Ele gosta de estar do meu lado, e eu gosto de estar com ele. Eu faço ele rir! Von adora meu senso de humor. E ele me diz um monte de coisa bonita, me faz suspirar feito potrinha. Já sentiu isso alguma vez?”

Can-Can não respondeu, mas meneou a cabeça como se considerasse uma resposta. “Eu... já falei que o seu príncipe encantado é casado, não? Aliás, você mesma disse isso”, falou, por fim.

“Ah, por favor...”, Gale replicou, entediada, revirando os olhos.

“É sério, Gale. Pensa um pouco.”

“Mas ele gosta mesmo é de mim!”

“E ele vai se separar da esposa para ficar com você?”, Can-Can inquiriu.

“Não!”

“Por que não?”

“Você sabe como são esses casamentos de gente da alta. Tem um monte de coisa envolvida. Coisas de terras e nome de família...”, Gale tentou justificar, insegura; sua voz enfraquecia quanto mais buscava desculpas.

“Então! Olha só o que você está dizendo! Ele não vai casar contigo. Vai te manter como amante, é isso mesmo que você quer?”

“Casamento é só um pedaço de papel, Can-Can. Isso pouco importa se a gente se ama de verdade!”

A égua rubra abriu a boca para protestar, mas pensou que nada do que dissesse faria a amiga parar de considerar, de verdade, a proposta. “Fala com a Sky”, murmurou.

“Hum?”

“É que se você quiser mesmo ir, tem que avisar para ela. Aposto que a Sky vai precisar de um tempo para assimilar tudo isso. E talvez ela seja capaz de colocar na sua cabeça o tamanho da bobagem que você está pensando em fazer”, Can-Can explanou com calma. Nightingale olhou para os próprios cascos e sua expressão se fechou em pesar.

“Ela não vai te morder. Ela te ama mais que tudo nessa vida”, a pônei de cristal assegurou. No fundo, sentia que a amiga só tinha ido até ali a fim de tentar ganhar coragem para conversar com a irmã. Can-Can equilibrou os pires e xícaras um em cima do outro e levou-os para a pia.

“E se ela não quiser me deixar ir?”, Nightingale perguntou insegura. Era estranho ver a amiga daquele jeito; ela não era do tipo de pônei que sentia receios ou que duvidava de si mesma.

“Skylark? Só pode estar brincando. Do jeito que ela é? Capaz de querer ir com você”, Can-Can brincou, voltando ao lugar no sofá.

“Tô falando sério.”

“E quem é ela para proibir você? Achei que você era a mais velha.”

“Can-Can, por favor...”

A égua rubra desculpou-se. Estava apenas tentando aliviar a tensão. Mais uma vez assegurou para Gale que conversar com a irmã era a melhor coisa a se fazer naquele momento. A pônei bege concordou, respirou fundo e levantou. Abraçou Can-Can com força e partiu. A vedete vermelha ficou na porta da frente, vendo a amiga ir e pensando no conflito que devia existir na mente dela naquele instante. É tão surreal que parece mentira, pensou. Fechou a porta quando Nightingale virou a esquina.