De laços e fitas
20 Capítulo 20
A neve caía devagar, mas já cobria as ruas próximas à casa de Can-Can. Trotar pela imensidão branca era difícil. E o desafio era aumentado pelos presentes que carregava nos alforjes. Sem falar na torta de maçã que equilibrava com muita cautela nas costas. A ida até a casa de Fraülein Balance nunca havia sido tão desafiadora.
Conforme passava pelas casas dos vizinhos, Can-Can espiava as famílias reunidas em volta da lareira, os potros brincado pelas salas e os bonecos de crochê. Amava a Noite da Lareira Calorosa, era sua preferia do ano. Lembrava de quando ganhou sua Marca e do pai. Sorriu sozinha no meio da rua.
Apressou o passo, pois os outros convidados já deviam ter chegado. Perguntou-se por que nunca antes tivera a ideia de comemorar a noite na casa da professora, ou por que seu pai nunca pensara nisso também. Os dois poderiam ter tido alguém a mais com quem passar as festividades durante anos. Naquele momento, porém, isso pouco importava. Avistou o casarão de Balance ao chegar na esquina; estava completamente coberto por luzes pisca-pisca de cores diversas, todas as luzes de dentro da casa também estavam acesas. Um poste no jardim estendia a bandeira de Equestria, que tremulava de leve no vento frio. O lugar parecia cheio de vida e alegria.
Bateu na porta repetidas vezes, com pressa para entrar. Ouviu risos e conversas em voz alta vindos de dentro da casa. Herr Warden abriu a porta e recebeu Can-Can com um amistoso sorriso. Ele usava um gorro vermelho sobre a cabeça e aquecedores de orelha na mesma cor. Abraçaram-se e o garanhão tomou os alforjes dela para colocar os pacotes junto com o resto dos presentes. Em resposta ao olhar ansioso da égua rubra, ele disse que Weather ainda não tinha chegado, mas que já devia estar na cidade àquela hora. Can-Can suspirou, mas seu coração pulava de felicidade. Não via a hora de reencontrar o melhor amigo. “Flight e Mind estão na cozinha, preparando a comida”, Warden falou enquanto seguia para o cômodo que era usado como sala de aula na casa da professora.
Can-Can ajeitou seu fiel cachecol no pescoço e adiantou-se para a cozinha. Dame Flight estava cortando vegetais no balcão. Ela usava um avental que tinha a bandeira de Equestria bordada na frente. Sorriu ao ver a pônei de cristal. Balance sentava-se num banquinho próximo ao fogão e esperava uma torta assar. Quando viu a convidada, voou para abraçá-la com força. “Feliz Noite da Lareira Calorosa!”, bradou a professora. Can-Can retribuiu o cumprimento e o abraço. Em seguida foi deixar no balcão a torta que havia trazido e abraçar a mãe de Weather.
“O que tem no forno, Fraülein?”, a vedete perguntou sorrindo. Já sentia um cheiro bom vindo do forno.
“É uma receita especial de família. Não posso falar do que é a torta, mas vocês vão adorar”, Balance explicou contente.
“Hah! Da feita que eu morder um pedaço, descubro o que é isso aí. Nem sei por que você tenta esconder a receita de mim, Mind”, Flight desdenhou, confiante. As três pôneis riram juntas. A pégaso azul logo perguntou para a pônei de cristal onde estava sua boneca de crochê. Infelizmente, os bonecos não eram uma tradição das festividades de Can-Can, pois Turner achava que a confecção deles custaria um dinheiro que poderia fazer falta nos dias seguintes à festa. Flight lamentou e concluiu que, no ano seguinte, a vedete teria sua boneca.
“Eu nem sei como costurar uma”, Can-Can disse.
“Isso é o de menos. Eu te ensino”, Flight retrucou de imediato. “Bem. Deixa eu terminar de cortar essa salada. Vai colocando a mesa, por favor.”
Can-Can assentiu. Ainda não tinha perdido sua habilidade em arrumar mesas; os anos de trabalho na faxina do Sun haviam servido para algo, afinal. Balance não podia sair de perto fogão para ajudar, pois, segundo ela, sua receita tinha de ser vigiada para dar certo. Por fim, a vedete colocou dez pratos à mesa; até aquela manhã eram apenas nove, mas um convidado inesperado havia surgido – coisa que a tinha feito torcer o focinho como jamais fizera antes.
Após a mesa ser posta, decidiu espiar a pilha de presentes na sala de aula. Tinha comprado muitos presentes, apesar de não muito caros. Comprara livros para a mãe de Weather e para Balance, gravatas novas para Warden e Weather, discos da Condessa Coloratura para Sky e Gale, um perfume para Rain, uma presilha de cabelo para Storm Call, e, por fim, meio à contragosto, um broche – comprado às pressas e barato, porém bonito – para Silk Yarn. Não via a pônei ciano há quase seis meses, mas sabia que ainda não gostava dela. E quando Rain pediu para que pudesse levar a modista para a festa porque ela não tinha com quem comemorar a data, Can-Can ficou tentada a recusar. Mas pensou que não faria grande diferença se recusasse, pois, a dona da casa na qual a festa se passaria era Balance, e bastaria pedir à professora para que a unicórnio pudesse ir. Há algum tempo Rain passara a sair bem mais com Silk, além de fazer cada vez menos visitas a casa de Can-Can. E apesar de não gostar nem um pouco do rumo que essas coisas estavam tomando, fazia o seu melhor para não deixar que esses pensamentos pudessem atrapalhar sua noite.
Conferiu os presentes por alguns instantes. Havia vários. E de todos os tamanhos. Imaginava o que poderia haver dentro de cada embalagem, como se ainda fosse uma potrinha ansiosa. Batidas na porta chamaram sua atenção, e quando chegou na entrada, Skylark e Nightingale já eram recebidas por Warden. As irmãs cumprimentaram o garanhão com educação e depois se jogaram em cima de Can-Can para desejar felicidades. As duas pareciam bem contentes; a vedete ainda não sabia qual era o resultado da conversa delas a respeito de lorde Herzen e sua ousada proposta.
“Você não faz ideia do presente que a gente comprou pra ti!”, Skylark bradou por cima da amiga no chão.
“Você vai adorar!”, Gale completou, seu sorriso ia de orelha a orelha.
Talvez seja melhor eu nem saber, Can-Can pensou. Do jeito que as amigas eram, podia esperar qualquer coisa de um presente delas; mas algo que a pudesse constranger de algum modo era bem mais possível. Assegurou a si mesma de que não abriria o presente delas na frente dos outros pôneis. Só para garantir, a voz na sua cabeça falou.
“Rhiannon não vem?”, Skylark perguntou após averiguar rapidamente os arredores.
“Eu fui até a casa dela fazer o convite, mas ela disse que ia viajar para encontrar a família”, Can-Can respondeu.
“Que pena.”
As amigas saíram de cima de Can-Can e correram para cumprimentar as éguas na cozinha. Skylark havia ficado bastante amiga de Balance; fazia visitas a casa-escola durante os fins de semana para brincar com os potrinhos e ensiná-los a dançar. A presença dela havia aumentado bastante a quantidade de pôneis que deixavam de matar as aulas, além de ter atraído novos alunos.
Antes que a égua rubra pudesse ir com as amigas para a sala de estar, outro toque da campainha avisou que mais alguém havia chegado. Seu coração deu um salto e ela galopou até a porta da frente. Dessa vez conseguiu chegar antes de Warden. Abriu a porta num puxão e deu de cara com Rain. Ela tinha um sorriso caloroso rosto e alforjes cheios; usava uma travessa com chifres de rena na cabeça.
“Feliz Noite da Lareira Calorosa!”, bradou animada, a égua loira.
O sorriso de Can-Can sumiu antes que pudesse responder qualquer coisa, pois reparara que Silk também estava lá, usava uma travessa semelhante e trazia um embrulho nas costas.
Forçando um sorriso, a égua rubra recebeu-as da forma mais amigável que pôde, desejando-as boa noite e dando passagem para que entrassem. Rain franziu o cenho, pensativa; considerou ir embora naquele instante, pois percebera que Can-Can não estava à vontade. Porém, Silk deu seus primeiros passos para dentro do casarão e entregou o pacote que trouxera à vedete.
Can-Can segurou o embrulho entre os cascos sem entender. Era macio, provavelmente havia um tecido dentro.
“Rain me falou que você estava dançando em tabernas com uma saia. Tipo... durante todos esses meses. Ela deve estar um lixo agora”, Silk comentou, sem fazer contato visual. “Fiz esse vestido baseado na roupa que vocês usavam no cabaré. Não é tão chique, mas fiz com um tecido que deve durar bastante.”
Boquiaberta, a jovem dançarina não acreditava no que acabara de acontecer. Não soube sequer agradecer.
“Esperamos que você não precise usar, porque Finesse deve te chamar de volta pro cabaré nos próximos dias, mas é um presente. E fica como garantia, né?”, Rain murmurou, tentando quebrar o gelo que o silêncio de Can-Can havia criado.
“C-Claro! Sim. Muito obrigada. Mesmo. Entrem, vamos. As garotas devem estar ainda na cozinha. Vou arranjar uns petiscos para vocês”, a égua rubra falou apressada.
Levou as duas até a cozinha para conversarem com o restante dos convidados. Sky e Gale entreolharam-se nada satisfeitas, ao verem a convidada inesperada. Quando viram o pacote que Can-Can carregava nas costas, fizeram expressões de dúvida.
A pônei de cristal moveu os lábios por trás de Silk, falando que a modista lhe dera um presente. As irmãs ficaram muito surpresas, mas se recompuseram a tempo de cumprimentar Rain.
“Já são quase nove horas. Cadê o Clean?! Não acredito que tá movendo nuvens até agora. Se fosse eu, já tinha terminado há muito tempo”, Flight reclamou e franziu o cenho. As lentes dos óculos, que faziam seus olhos parecerem muito grandes, a deixavam com uma expressão muito mais severa do que realmente tinha naquele momento.
Os pôneis mantiveram-se conversando, faziam retrospectivas sobre o ano de cada um. Silk e Rain ficaram afastadas dos demais; no canto da cozinha, cochichavam e davam risinhos. Cada vez que Can-Can ouvia um riso da modista, não sabia se ficava mais impressionada ou desgostosa. Sentia pontadas de ciúme lhe assaltarem; respirou fundo e se controlou.
Silk viera à festa desarmada e havia trazido um presente que faria o de Can-Can parecer uma ofensa, afinal, os vestidos que a modista produzia geralmente eram bonitos e feitos sob medida, de modo que houvera algum esforço em sua confecção. Sem mencionar que até o momento ela não tinha dado suas típicas alfinetadas em ninguém, e parecia contente! Era estranho ver a pônei ciano contente. De repente, Silk plantou um beijo rápido na bochecha da égua manchada. Ninguém além de Can-Can notou – e o motivo da estranha felicidade daquela pônei atingiu-a como um pégaso caindo do céu em sua cabeça.
Elas estão namorando, pensou com amargura. Relinchou baixinho e virou o rosto para olhar Balance tirar sua torta especial do forno. O delicioso cheiro da massa se espalhou pela cozinha como fogo num palheiro.
Farejando o ar, Silk veio admirar a torta mais de perto.
Para não precisar olhar a modista, Can-Can virou o rosto mais uma vez; agora observava Rain, que tinha um sorriso sereno no rosto e fitava Silk com todo o carinho que possuía.
Aquela cena chateou Can-Can. Bufou, levantou-se de seu lugar próximo ao balcão e trotou até o corredor, justamente quando alguém bateu na porta da frente. Estancou. Na segunda batida, seu coração pulou junto.
Galopou a toda velocidade até a entrada. Abriu a porta e, finalmente, deu de cara com Weather. Ele tinha mudado o penteado; seu cabelo crespo e volumoso dera lugar a um corte militar milimétrico. E seu rosto parecia mais maduro, de algum modo. Mas ainda era Weather, era impossível não o reconhecer. Pulou e abraçou-o com toda a força que tinha.
Ele riu alto, abraçou a amiga e girou-a no ar três vezes. Nesse momento a pônei de cristal pôde perceber que já não se lembrava como a risada dele era gostosa de ouvir, e como o abraço dele era o que mais apreciava depois do de Turner. Can-Can tinha os olhos marejados e os pelos fulgurantes de emoção.
“Eu senti tanto a sua falta, seu idiota!”, ela exclamou. Nem percebia que estava perto de chorar.
“Mas eu te escrevia toda semana! Tá chorando por quê?!”, Weather brincou e usou um casco para enxugar as pálpebras da amiga.
“Seu moleque! Escrevia toda semana pra ela e pra mim só uma vez no mês?!”, Flight gritou, aproximando-se rápido para abraçar o filho. Tomou o lugar de Can-Can entre os cascos dele e avaliou-o, para ver se não tinha machucados ou feridas, como se ele não passasse de um potrinho. Warden veio logo em seguida, abraçou o filho e a esposa ao mesmo tempo. Can-Can ficou ao lado deles, o sorriso em seu rosto ainda não sumira e suas bochechas começavam a doer. Algumas cabeças de pôneis curiosas espiavam, da cozinha, toda aquela comoção.
O pégaso azul se afastou dos pais algum tempo depois e se reaproximou da melhor amiga. “Para de chorar, Can-Can. Quem está sendo idiota agora?”, ele disse ao limpar o rosto dela de novo e abraçá-la.
“Cala a boca. Eu posso”, ela retrucou, teimosa e cheia de carinho.
“Cadê a minha nora?”, Flight perguntou entre o abraço dos dois amigos.
“Sim! Ali no taxi, com as nossas coisas!”, Weather lembrou, largou a amiga e adiantou-se para a rua, onde um garanhão ajudara uma égua a colocar dois caixotes na calçada. Quando o pégaso azul chegou lá, ela reclamou que já não precisava mais da ajuda dele.
Storm Call era uma égua muito bonita. Mais alta que a maioria. Seus olhos eram como duas safiras. Sua pelagem era cinzenta; os cabelos da crina e da cauda, longos e ondulados, alternavam dois tons mais escuros que o corpo. A Marca dela era uma nuvem carregada, da qual três raios escapavam em direções diferentes.
Os pais de Weather foram até perto do taxi para brigar com o filho. Como podia ter deixado a namorada para carregar a bagagem? Discutiram na calçada. Storm cumprimentou os sogros no meio da confusão e se aproximou de Can-Can, no batente.
“Ele escreve mais para você do que me chama para sair”, Storm brincou e estendeu um casco amigavelmente.
“Jura? Ah, mas ele só falava de você nas cartas mesmo...”, Can-Can retrucou e encostou no casco da pégaso cinza. Ambas sorriram.
Uma movimentação atrás de Storm chamou atenção. Weather vinha junto com os pais e levava os três caixotes nas costas; parecia que ia desabar a qualquer momento, mas aguentava. Estava mais forte, devia ter treinado bastante em Cloudsdale. Ao passar pelas duas e entrar no casarão, soprou um beijo para a namorada. Can-Can convidou a pégaso a entrar e indicou onde os presentes deveriam ser deixados. Finalmente todos estavam lá. E enquanto observava a quantidade de pôneis reunida para festejar, lembrava do pai e na falta que ele fazia ali. Aquela era a primeira noite da Lareira que não passava junto dele.
Todos se reuniram na sala de estar. A ceia só seria servida após a meia noite. Conversavam animados.
Skylark e Nightingale, assim como Herr Warden e Dame Flight, estavam muito interessadas no trabalho de Storm com tempestades; perguntavam o quão perigoso era e se algo de ruim já havia acontecido alguma vez. A pégaso cinza se evadia de algumas perguntas e diminuía o perigo verdadeiro de seu emprego nas respostas. Fora instruída a fazer isso por Weather, que preferia não preocupar os pais. Silk e Rain conversavam felizes com Balance a respeito de receitas de família. E Can-Can colocava os assuntos em dia com o melhor amigo.
“E nas noites de quinta e sábado, uso o nome de Velvet Red”, disse orgulhosa, como se sua farsa fosse grande façanha.
“Precisa mesmo disso?”, Weather perguntou, cético.
“Claro! O dono do ‘Cavalo Triste’ teria me demitido se soubesse que também danço no ‘Trindade’. Você não imagina a quantidade de taberneiros que odeiam uns aos outros”, ela explicou.
“Por Celestia! E aquele tal pônei que jogou uma garrafa em você?”
“Às vezes os clientes bebem demais e fazem bobagem. Na verdade, ele estava tentando acertar o amigo na cadeira do lado, mas errou. Dá para acreditar? Pelo menos eu vi a garrafa antes dela acertar a minha cabeça. Meu problema mesmo são os garanhões idiotas que tentam passar o casco no meu flanco quando eu desço do palco.”
“E algum deles já conseguiu?”, Weather perguntou, rindo.
“Uma vez. Eu só não escoiceei a cara dele para não perder o emprego.”
“Pois devia, pra ele aprender”, a pégaso replicou, dessa vez seriamente.
Can-Can deu de ombros. “Aliás, hoje à noite não era para acontecer a maior nevasca em anos? Não parece grande coisa”, falou olhando pela janela pequenos flocos brancos caírem com calma.
“Você disse para deixar as piores nuvens longe do bairro, então...”
“Sério? Hum...”
“Ei, me diz o que você achou da Stormy! Ela não é o máximo?!”, ele falou, de súbito, cheio de expectativa.
“Simpática. Gostei dela. E muito bonita também. Mas talvez ela seja bonita demais para você”, Can-Can respondeu com risinhos.
“Nem vem! Vai procurar a sua”, Weather disse, brincalhão. Logo apontou para Rain, que não desgrudara de Silk por um único segundo naquela noite, e falou, “Pode me explicar?”
“Falei na carta da última semana. Prefiro não comentar mais nada sobre isso”, a égua rubra murmurou quase brava.
Uma expressão de entendimento passou pelo rosto do pégaso e ele replicou, “Sério que você deixou ela trazer a outra pra cá?”
“A outra? Parece mais que a outra sou eu.”
“Não respondeu minha pergunta.”
“Deixei, claro. Achei que a Rain não viria se eu recusasse. Ela não ia querer deixar a Silk passar a noite sozinha. Além de que, se ela pedisse à Fraülein, de que adiantaria eu negar?”, retrucou exaltada.
“Tá bom, tá bom. Vamos deixar isso pra lá. Você consegue coisa muito melhor, sério”, Weather disse, tentando acalmar a amiga.
“Não está ajudando, seu idiota”, Can-Can disse.
“Calma, não precisa descontar em mim.”
Eu sou uma burra, pensou. Pediu desculpas ao amigo. Não podia deixar uma bobagem como aquela afetar-lhe assim, afinal, aquela era uma noite de companheirismo e união entre os pôneis. Sacudiu a cabeça e plantou seu melhor sorriso no rosto.
“Bem melhor assim”, Weather falou. Storm o chamou do outro lado da sala; Dame Flight queria conversar com os dois a respeito de dividirem um apartamento. O pégaso disse que voltaria rápido e partiu para ter uma conversa provavelmente constrangedora.
Skylark se aproximou de Can-Can e perguntou sem rodeios, “Como é que você convence uma mula de que ela está fazendo uma coisa burra?”
“Gale?”
Sky assentiu, mas acrescentou logo, “Acho que essa noite isso vale pra Rain também”.
Can-Can relinchou. Mais pela situação da égua manchada do que pela irmã de Skylark. “Enfim, ela vai?”, perguntou após um suspiro.
“Ainda não sei. Ela não me disse o que pretende com todas as palavras, mas tá trocando cartas com aquele grifo há uns dias. Não aguento mais ver um envelope pipocar no meio da sala com aquele cheiro de enxofre de dragão”, Sky contou, muito insatisfeita.
“E você não vai fazer nada?”
“O que eu faria? Nasci junto, mas não grudada com ela. A vida é dela.”
“Sky...”
“Vou ficar com saudades, se ela for. Mas não vou tentar impedir”, Skylark concluiu, entristecida. “Papai e mamãe não vão gostar nada se souberem disso. Passei meses mandando cartas pra tentar fazer as pazes, e quando eu tô começando a conseguir resultados, olha o que acontece.”
Can-Can abraçou a amiga. Não havia muito mais que pudesse dizer para ajudá-la. Skylark, porém, voltou a se animar. Assim como a vedete vermelha, não queria deixar que algo estragasse sua noite.
“Tô morta de fome. Se soubesse que vocês só comem depois da meia noite, tinha ficado em casa”, a pônei terrestre falou e riu.
“Se quiser roubar uma empadinha, eu não conto para ninguém”, Can-Can sussurrou em resposta. Sky abriu um largo sorriso no rosto, tal qual uma potrinha, e trotou rapidamente até a cozinha, sem olhar para trás.
A noite foi muito agradável. Havia comida boa de sobra, uma pilha de presentes a serem trocados no dia seguinte, e um clima de amizade que rondava pelo ar. Weather fazia gracejos a torto e a direito. Sky e Gale cochichavam e riam o tempo todo. Dame Flight discutia com Fraülein Balance métodos de deixar suas receitas cada vez melhores. Herr Warden, bastante sucinto, observava a festa com olhos de patriarca satisfeito. Silk e Rain namoravam discretamente. Can-Can falava para Storm de todas as histórias que vivera com o melhor amigo, e contava todos os podres dele apenas por diversão. A pégaso cinza brincava sobre tudo; até mesmo do que desaprovava nas condutas de Weather. E quando chegou sua vez de contar histórias para Can-Can, contou com detalhes sobre as vezes que ele teria morrido se ela não estivesse voando com ele. E eram mais numerosas do que ambas gostariam.
“Como vocês podem viver com um trabalho desses?”, a égua rubra perguntou impressionada.
Storm pensou um pouco, mordia a parte interna da própria bochecha quando o fazia. “É difícil explicar. Estar lá em cima, entre as nuvens, é uma coisa única. O vento forte, o barulho de trovões! Deve ser coisa de pégaso”, ela explicou, ganhando a simpatia de Can-Can por completo ao dizer isso.
“É o que eu sempre dizia para ele!”, a vedete bradou feliz.
“Aliás, ele me falou bastante sobre você pra saber que o seu trabalho também não é assim tão seguro”, Storm disse; parecia preocupada. “Jogam garrafas em você? Jura?”
“Aposto que o Clean aumentou a história. E só foi uma vez. Geralmente eu tomo cuidado e não há problemas”, Can-Can assegurou.
“E vale a pena? Esse risco todo?”
“Eu podia responder a mesma coisa para você, mas... já trabalhou fazendo faxina? Eu já. E prefiro não voltar a isso”, a égua rubra comentou. “Mas tem mais. Toda vez que eu subo num palco, é uma alegria. Quando eu trabalhava no Sun, sempre que via a plateia, as luzes, as roupas que eu usava, me sentia até como uma princesa.” Can-Can sentiu-se meio boba por ter dito aquilo. Felizmente, pareceu divertir Storm, que assentiu sorrindo.
“Conhece muitos lugares de Equestria?”, Can-Can perguntou de repente.
A égua cinza surpreendeu-se. Estendeu as grandes asas e bateu-as duas vezes. “Oras, eu sou um pégaso. Já voei por tudo quanto é canto. De Canterlot ao Reino de Cristal, e por aí vai”, replicou orgulhosa.
“O Reino de Cristal?!”
“Sim! É uma beleza. Nunca foi até lá? Pois devia. Clean me disse que você sempre se destacou na multidão aqui por ser uma pônei de cristal, lá você passaria despercebida! Digo, talvez não. Pôneis bonitas não costumam passar despercebidas”, Storm falou gentilmente.
Can-Can ficou sem jeito pelo elogio.
“Já viajou alguma vez?”
“Fui a Baltimare uma vez. Num final de semana com Sky e Gale”, a vedete respondeu. Lembrava de poucas coisas daquela viagem. Recordava que haviam ido para uma festa e bebeu um drink forte que a fez passar mal. Ficou a maior parte do resto do final de semana na cama, dormindo e acordando, adoentada. Mas, pelo menos havia passeado um pouco pela cidade antes de precisarem partir.
“Baltimare. Cidade divertida. Tenho amigos que moram lá.”
As duas conversaram até a hora de dormir. Balance preparou os quartos de hóspedes no andar de cima para comportar seus convidados daquela noite. De manhã, abririam os presentes.
*** *** ***
A troca de presentes na manhã seguinte foi muito animada. Exceto pelo momento em que Can-Can teve de trocar embrulhos com Silk; tudo foi bastante silencioso. A modista tomou o broche e elogiou-o educadamente. A vedete, no entanto, teve de se render à bondade que Silk demonstrara por fazer-lhe um vestido. Era simples, de fato, mas bonito e de tecido bom. Lembrava mesmo aos que Can-Can usava no Sun para dançar. Até as meias de renda haviam vindo junto. Quando agradeceu pelo presente, as palavras da vedete foram muito verdadeiras.
“Fico feliz que tenha gostado”, Silk murmurou com simplicidade. Era evidente que queria paz na comemoração.
Os pôneis aguardaram algum tempo para poderem partir. Mesmo que o pior da nevasca tivesse ocorrido no centro da cidade, havia muita neve do lado de fora. Foram embora aos poucos. Weather foi para a casa da família, carregando seus caixotes. Rain e a namorada partiram para o apartamento da vedete. Nightingale saíra mais cedo que os outros, enfrentando a neve alta – do tamanho de um pônei adulto – da rua, logo após trocar seus presentes, para ir aos correios. Skylark preferiu ficar para ajudar Balance a lavar as louças.
Can-Can foi para casa com a cabeça cheia. Só dançaria no dia seguinte, felizmente. Não queria ter de ir trabalhar ainda pensando em como uma pônei que adorava estava com uma pônei da qual não gostava nem um pouco. Talvez elas não estejam namorando, pensou. Em seguida pensou que estava se iludindo; é claro que havia um motivo para Rain ter passado a visitá-la muito menos e não dormirem mais juntas. Entrou em casa.
“Eu devia ter dito que não queria ela lá!”, gritou para as paredes. Não sabia se sentia mais frustração ou raiva. Foi para o quarto, deitou na cama, enterrou a cara no travesseiro e gritou mais uma vez.
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