Eu sou Naga, uma lâmia da tribo das escamas silenciosas, que é como nós nos identificamos. Não só porque não fazemos ruído conforme nos deslocamos, mas – especialmente – porque não somos lá muito de aparecer. Acho que podemos dizer que somos um bando de gente retraída; acho que nos qualificam como gente que fica “na sua”, ou seja, não queremos perturbar, nem ser perturbados.

Como lâmias, fomos agraciadas pelo Um com uma longa vida. Em teoria, não morremos de idade como os seus outros filhos, mas trocamos de pele de tempos em tempos, como um ritual de renovação que nos possibilita viver mais do que as pessoas das demais tribos.

Mal sabia Ele que essa seria uma bênção, mas também uma maldição! Pois essa diferença na duração de nossas vidas não ficaria sem ser notada pelos demais, muito menos pelos humanos, que – comparativamente aos filhos dessa terra – têm vidas incrivelmente curtas.

Assim, não sei de onde, nem porquê, surgiu essa ideia de que o sangue das lâmias poderia trazer a vida eterna, ou ao menos alongar a vida desses infelizes, que não sabem fazer uso do tempo que lhes é dado, e buscam alongá-lo em vez de fazê-lo valer em uma vida que seja algo para se orgulhar.

Assim, começaram a nos perseguir e, como somos uma tribo devotada ao estudo e à contemplação da obra Do Um, mesmo que alguns de nós tenham presas venenosas, não somos conhecidos por grandes feitos militares ou de termos grandes guerreiros na história da nossa tribo; muito pelo contrário, ou seja, presas fáceis!

Logo, não foi difícil para os humanos nos aprisionar e ir drenando nosso sangue, fazendo experiências, comendo nossa carne (pois podemos regenerar parte da nossa cauda se cortada, que melhor "prova” da nossa capacidade de prolongar a vida?), enfim, o Inferno, não quero nem lembrar!!!

Da noite para o dia, começaram a nos caçar! Sem capacidade bélica, um povo pacífico por opção, dispersos pelo mundo, sem uma comunidade, uma unidade central para coordenar os esforços de resistência, começamos a beirar a extinção, antes mesmo de tentar desmentir essa ideia absurda de longevidade.

Foi nessa época que recebi o chamado Do Um: reunir os que sobraram de nossa tribo em um lugar seguro para que pudéssemos esperar um novo tempo em que poderíamos, novamente, andar por esse mundo sem medo.

Assim, difundi mensagens em línguas esquecidas, músicas que lembravam a posição de nosso santuário, de uma forma que somente aqueles que tivessem o conhecimento acumulado da tribo das escamas silenciosas pudessem entender. Dessa forma, começamos a nossa migração para o Norte.

O Norte que nos era tão especial, por ser quente demais para os outros filhos Do Um, e em especial para os humanos malditos. Porém, para nós – de sangue frio – nos parecia especialmente acolhedor.

E os dias de segurança se transformaram em meses, e os meses em anos, e o nosso santuário começou a nos parecer uma prisão. Agora estávamos reféns do nosso próprio sucesso: a salvo, mas cativos! Com o tempo e a idade, nossos números começaram a diminuir. Sim, diminuir, pois ninguém sabe por quê, começamos a ter cada vez menos crianças, e os velhos começaram a ficar cada vez mais letárgicos, alguns passando mesmo a hibernar em suas tocas, cada vez mais alheios ao mundo externo.

E aquele que parecia ser o nosso oásis começou a se tornar sufocante. O que era temporário não suportou uma ocupação permanente; com cada vez menos coisas para fazer, para ocupar a mente, confinados, presos àquela situação de insegurança e imobilidade, alguns de nós começaram a ter a saúde mental comprometida.

Para piorar, com o aumento populacional, o que se conseguia produzir com os recursos locais começou a não ser mais suficiente e tivemos que começar a racionar. Agora, a situação começou a ficar crítica, com brigas internas por recursos e uma crescente preocupação pela sobrevivência.

No meio de toda essa confusão, O Um me manda para o outro lado do continente buscar esse novo sacerdote! Sei que faz tempo que não temos um novo sacerdote, e eu sei o quanto eles têm sido necessários nesses tempos; afinal, nem todas as outras tribos têm a mesma longevidade que nós, e com o tempo, muitos de nós têm voltado para a companhia Do Um, deixando seus filhos cada vez mais sozinhos e desamparados.

E agora eu tive de me ausentar, e por mais tempo do que gostaria, e como foi difícil encontrar esse novo sacerdote!

E francamente!

O que O Um estava pensando? Um mestiço? Nem mesmo alguém que possa ser chamado de um verdadeiro Filho Do Um! Que piada de mal gosto, e agora toca a mim transformar isso que caiu no meu colo – ok, figurado, pois não tenho colo – em um sacerdote.

Logo eu, Naga a estudiosa, Naga a sábia, Naga a dos muitos anos, Naga a reclusa! Ó, o que eu não daria para ter de volta a minha Fortaleza da Solidão, para poder ter o silêncio e a paz que me foram roubadas.

Maldito dia em que achei que o melhor a fazer era trazer os meus irmãos lâmias para o refúgio. Que decisão errada! Quem diria que Naga, que nunca erra, erraria, e feio assim.

Agora sou obrigada a depositar minhas esperanças nesse anteprojeto de sacerdote. Que credenciais ele tem? Criado num fim de mundo, por um sacerdote caipira, de uma tribo com zero a quase nada de tradição na doutrina Do Um, uns camponeses nascidos e criados num fim de mundo...

Pelo que pude ver na cidade, ele está mais para um guerreiro do que um sacerdote! Tudo bem que ele se colocou sempre à frente de tudo, pronto para se sacrificar e se responsabilizar pela salvação do nosso povo; ao menos isso eu tenho que reconhecer.

Porém, fala sério, ainda tem mais essa coisa estranha de ele incluir e focar suas ações em construir uma comunidade que consiga a inclusão dos meio-sangues, dos híbridos! Fala sério!

E ainda mais estranha, essa ideia de criar uma nova tribo, essa tribo de mestiços, os Filhos da Noite! Que ideia mais maluca!!!

Ok, posso concordar que é uma necessidade nossa encontrar um lugar para que os híbridos possam se integrar à sociedade, que há muito tempo têm se isolado, tanto das tribos Do Um quanto da sociedade humana. Mas fala sério, um recém-ordenado lançar as bases para uma nova tribo! Isso nunca se ouviu falar antes! Um absurdo!!!

Porém, uma coisa eu estou certa: estou cansada, exausta, não só dessa longa viagem, mas especialmente dessa situação toda em que já esgotei minhas possibilidades em buscar uma solução!!!

Agora penso que podemos dar uma chance às novas ideias dessa pequena aposta Do Um. Que ele possa nos abrir novos caminhos, algo que eu divido muito... Afinal, O Um nunca me abandonou, me colocou alguns desafios maiores do que eu achava que conseguiria resolver, mas nunca me abandonou.

Enfim, foca na tarefa em mãos, e bora de volta para casa!

Espero que possamos – nós, lâmias – voltar para a nossa vida de estudiosos, devotados ao poder de contemplar os céus, traçar o curso dos astros, adorar as letras e os números, nas nossas sagradas escrituras de matemática e registro das histórias dos povos Do Um. Sim, éramos mesmo uma tribo de nerds, cujo sonho era morar – escondidos de tudo e todos – em uma biblioteca secreta, sem sermos atrapalhados!!

Agora era voltar para casa, e o mais rápido possível.

Espero eu – pelo amor Do Um – que esteja tudo bem por lá!!!