Parece que com o sonho com O Um a nossa relação mudou um pouco.

Como O Um colocou, a tribo das Lâmias estava em perigo, e eu pude perguntar à Sra. Naga o que estava acontecendo, então ela teve a coragem de me contar, ao menos por alto, a situação.

Assim, nossa viagem agora era um misto de pressa com precisão! Sim, mais dinheiro, e sim, mais pressa!!!

O nosso objetivo era ir rápido, mas também juntar tudo o que poderíamos necessitar quando chegássemos. Porém, agora que eu sabia que íamos para uma localização secreta, e que o sucesso da segurança das lâmias dependia, em grande parte, de não revelar a localização da aldeia oculta, tínhamos que tomar precauções para não chamar a atenção nem revelar a direção que estávamos tomando...

Agora fazia sentido esse caminho – muitas vezes aleatório – que íamos tomando. Afinal, ir em linha reta poderia indicar uma direção a quem quisesse nos seguir, certo?

Como eu ainda poderia me disfarçar, mas a Sra. Naga não, não tínhamos lá muitas opções. Ela sempre chama a atenção onde quer que estejamos, não apenas porque era grande e uma sacerdotisa, mas porque era – ela mesma – única!

Contrariando algumas recomendações do Mestre, divulguei algumas das minhas habilidades para a Sra. Naga.

O Mestre, que sempre esteve ciente de que este mundo nunca seria amistoso comigo, um mísero híbrido, ainda mais nascido na noite sem luas, me avisou para ser bastante cauteloso com quem confiar meus segredos.

Parte disso eu já sabia, pois quase ninguém – nem na aldeia, no Moinho ou mesmo na Cidade – tinha consciência de quem eu realmente era, do que tinha feito, ou mesmo da total abrangência das minhas habilidades (nem ao Mestre tinha contado o poder de "vestir" a pele das pessoas).

Assim, contei para Naga que tinha o armazenamento espacial, a minha caixa de artigos, e que ela era bastante grande, o que poderia nos ajudar – e muito – a transportar o que necessitaríamos. Assim, ela podia pensar no que quisesse comprar; desde que tivéssemos o dinheiro, poderíamos transportar de uma forma discreta.

Aumentei a frequência dos serviços nas Guildas, e a Sra. Naga começou a fazer porções para podermos vender e comprar: alimentos (grãos, carne seca, farinha), suprimentos (tecido, combucas, talheres e roupas), insumos (ferramentas, corda, sementes etc.), assim como remédios e tônicos para fortalecer a população das lâmias assim que chegássemos.

Nessas horas, ter lembrado de fazer o registro na recém-criada Guilda de Mercadores (que implementamos na antiga Catedral que foi destruída) fez toda a diferença! Pude comprar no atacado, e não nas vendinhas. Isso nos dava um melhor preço e, ao comprar menos vezes, porém em maiores quantidades, facilitava sermos mais discretos.

Pelo que falou a Sra. Naga, a situação parecia mesmo terrível, após todos esses anos de isolamento.

Nossa viagem começou a se parecer com uma preparação para uma travessia, enchendo o barco com víveres de todos os gêneros de primeira e segunda necessidade.

Agora que a Sra. Naga não precisava manter – ao menos de mim – a necessidade de ter o nosso trajeto secreto, adotamos uma nova tática para evitar deixar um rastro. Aproveitando as habilidades de navegação de Naga, que conhecia – e tentava me ensinar – a navegação pelos astros, podíamos cortar caminho entre as cidades através de florestas e outras passagens desconhecidas dos homens que ninguém ousava cruzar.

Assim, podíamos jantar, dar uma volta na cidade e desaparecer para aparecer quilômetros depois em uma direção completamente aleatória. Algumas vezes chegamos a passar mais de uma vez na mesma cidade, para poder dar um nó em eventuais perseguidores.

E assim fomos, de cidade em cidade, indo e vindo, rondando as bordas do Mar de Areia, buscando chamar pouca atenção. Afinal, nenhuma atenção era difícil de evitar, né? Buscávamos quando e onde desaparecer da civilização...

Uma das coisas que me chamou a atenção nessas cidades é que, embora muitas tivessem sido construídas nas margens de um rio, todos os rios desapareciam no Mar de Areia. Não importa quão caudaloso fosse o rio; algumas cidades fizeram como os egípcios, usando barragens para controlar as cheias e irrigar os campos. No final, toda a água sumia nas areias do Mar de Areia!

Tipo, mesmo nas cidades de estuários – como o Capibaribe em Pernambuco – com suas vegetações de mangue e caranguejos vivendo na lama, toda a água “sumia” na areia. Insólito mesmo, tipo: cadê a água que estava aqui? Sumiu!!!

Isso me levou a mudar meu olhar, cada vez mais atento a qualquer poça d'água que aparecesse. Afinal, o nome para onde estávamos indo era no centro mesmo do Mar de Areia, não é?

E assim, virei o maior fissurado por água que esse mundo jamais viu! Se passávamos por uma nascente, bora tirar no mínimo 20% da água. Se por um rio, era colocar o quanto desse na caixa de itens, tentando não baixar o nível do rio mais do que 5 cm. Valia o mesmo para os lagos que encontrávamos. Até poças de lama nas estradas eu não estava perdoando.

Pode parecer medo, e era!!! Afinal, água é vida, certo? E desde os romanos, que nos ensinaram que qualquer cidade começa com um suprimento seguro de água, ou seja, eles sempre construíam ao menos um aqueduto – uma tubulação para levar água em cima de pontes e arcos (muito legal) – até a vida na comunidade.

Lembrando que o nível mais alto da cidade era mesmo definido por até onde você consegue bombear água para cima!!! E quem mora na comunidade nos morros sabe que essa altura – de até onde vai a água – muitas vezes é o que delimita a última linha de casas (ao menos até instalarmos novas bombas d'água, e aí a comunidade sobe um pouco mais no morro).