Ele recebia esse nome por uma obviedade, era meio que como o deserto do Shara na Terra: uma grande extensão de areia, areia até perder de vista, até se perder de vista.

Uma região evitada a todo custo por todos os seres viventes e não viventes desse mundo!

Realmente um lugar perfeito para se esconder!

Quem diria que nesse lugar inóspito estaria a aldeia perdida das Lâmias?

Eu com certeza não!

A proximidade do Mar de Areia não passava despercebida, pois à medida que nos aproximávamos da sua borda o clima é a vegetação ia mudando. Penso que seja porque esse planeta tenha o seu polo Norte permanentemente inclinado par o Sol e as estações — diferentemente de na Terra — são controladas pela distância do Sol e não pela inclinação que no nosso caso, que no caso da Terra marca os trópicos de Capricórnio e Câncer.

Saímos da região das florestas, entramos numa região como o cerrado, com suas árvores baixas e retorcidas, cidades perdidas, escondidas em encostas de morros que se despontavam aqui e ali.

Para finalmente entrar na pré-zona da morte, nem a Caatinga do meu avô era tão quente!

Isso me trouxe recordações! Depois de fazer um nome e um dinheiro no morro, tive a oportunidade de dar um presente para a minha Mãe, uma das poucas férias que tiramos juntos.

Ela escolheu voltar para a sua cidade, ver o seu Pai mais uma vez antes de ele morrer, e esse seria o meu presente para ela, uma viagem de volta à sua cidade natal.

Que viagem!

Dias naquele ônibus, horas naquela poeira da sem tamanho, refeições sem fim na beira da estrada, até chegar naquela parada na estrada, com aquele anti-Projeto de avô, fingindo não estar ansioso para conhecer o neto, mesmo que filho de uma quenga como ele sempre gostaram de lembrar!

Provavelmente porque ele sentia que seu tempo estava acabando e gostaria de deixar algo de si para trás, ele buscou me tratar muito bem.

Em verdade, descobri depois, é porque ele só tinha tido filhas e agora tinha um “Cabra Macho” para tutelar e moldar à sua imagem e semelhança...

Tão logo chegamos, me levou para conhecer a tudo e todos, passeando com o “neto ostentação”, desfilando nos bares com os conhecidos, mostrando quanto a semente dela era boa, que tinha gerado aquele cabra da peste.

Enfim, me senti levemente usado, mas como minha Mãe estava feliz, fui — até certo ponto – concordando com tudo aquilo ali.

Incluso com ele me levando para ir conhecer as propriedades dele e dos vizinhos, mostrando o que o pessoal da Emater, equipe de extensão rural formada por técnicos que ensinavam a tirar mais daquele solo pobre e clima castigado, tinha ensinado para diminuir os impactos da seca. Quão verde estava as suas lavouras, que tipo de planta tinha ali, assim meio que totalmente se vangloriando do conhecimento que ele tinha, fazendo uma comparação comigo, que nada sabia do que era viver no sertão (ao menos até aquela data).

Mal sabia eu quanto essas lições me seriam úteis nessa nova jornada.

No fim, voltei para o Sul Maravilha, deixando minha Mãe, e o dinheiro da passagem de volta para quando ela decidisse, se decidisse, voltar.

O que não deu outra, por que ela mesmo se lembrou do porquê de ela ter decidido sair de lá.

Pois tão logo o avozinho querido não tinha mais o netinho para se vangloriar, e teve que ficar com a filha quenga, que toda a agressividade e machismo votou à tona, e assim minha Mãe, também voltou para o sul maravilha, rapidinho.

Porém isso era muito no passado, literalmente a uma vida de distância. E agora estava eu me preparando para entrar onde ninguém considerava possível sobreviver.

Pelo que a Sra. Naga me disse, nosso objetivo era um oásis a Leste do Salar. Esse salar era uma poça de água tão cheia de sal, que ele não conseguia mais dissolver, ficando parecido com uma raspadinha de gelo, só que quente e com cristais de sal no lugar do gelo, e que estava meio que no centro do Mar de Areia.

Ou seja, um lugar que bem poderia ter saído de contos e lendas do deserto, e que tínhamos que chegar, com pressa, mas com discrição. Sem dar pistas para quem quer que estivesse nos perseguindo (não sei, e nem quero discutir, o grau de paranoia da Sra. Naga).

Ou seja, a travessia era mesmo uma questão de vida e morte, um erro, e você vai ficar um cadáver a secar na areia.

Lembrando que o Salar, é como o Mar Morto — que fica entre Israel, Palestina e Jordânia — uma depressão tão funda (dizem que foi feita pela queda de em asteroide), que nenhuma água escapa dele, ou seja, a chuva chega e evapora, chega e evapora, chega e evapora, chega e evapora.

E ai fiquei imaginando todos aqueles rios que sumiam no mar de Areia, o quanto de água não evaporava, deixando o sal – mesmo que pouco — para trás, por todos esses anos e anos...

Assim que – ao longo dos milênios — a água vai embora e só sobra o sal. Fazendo com que tomar aquela água fosse pior que tomar água do Mar.

A quantidade de sal é tão grande que as praias ao redor do Salar não são de areia, mas de sal....

Pois o vento traz as águas para a margem, que evaporam e vão deixando para trás cristais de sal.

Quem tenta mergulhar, não afunda, pois até a densidade da água é afetada pela quantidade de sal.

Pelo lado positivo, a lama do fundo é tida como cosmética, bom para fazer peeling e limpeza de pele (só precisa ter água doce para poder limpar tudo depois certo?).

E era para lá que estávamos indo...

Não bastava somente a areia, a falta de ponto de referência (afinal é tudo plano), tinham também as tempestades, que poderia cobrir a pessoa dos pés até a cabeça, se ela ficasse parada.

Ou seja, mesmo durante a tempestade, tem que andar, se mexer, só não se sabe para onde, pois nessas horas, a visibilidade era nula.

E de onde estávamos, podíamos ver no horizonte as nuvens de areia se levantando cada vez que uma delas se aproximava da borda do Mar de Areia.

Que O Um tenha piedade de nós!

Assim passamos as semanas, rondando as cidades fronteiriças do mar de areia, de onde saiam caravanas que arranhavam a borda do Mar de Areia, como caranguejos andando de lado, até a próxima cidade.

Algumas delas eram cidades antigas, outras novas, umas já tinha passado pelo seu apogeu, quando o rio que trazia os barcos ficou assoreado com o depósito da lama trazida pelo rio ficando raso demais para os barcos passarem, e seus portos não recebiam – nem entregavam – mercadorias.

Cidades mortas, como no livro do Capitães da Areia do Jorge Amado, comunidades à margem da sociedade, sem que ninguém lhes dê atenção ou importância, somente existindo.

Aliás, essa estagnação parecia mesmo ser a lei por ali! Seja nas cidades, seja na própria comunidade das Escamas Silenciosas!

Mas enfim, bora circular, despistar, comprar mantimentos e ir em direção ao ponto ótimo para entra no Mar de Areia. Parte de mim queira ir logo, e a outra parte, queria nunca tentar...

Assim que, numa das vezes que estávamos viajando com uma dessas caravanas nas bordas do Mar, em um final de tarde, quando as primeiras estrelas no horizonte se apresentaram para nosso olhar, a Sra. Naga virou para mim, e disse:

- Vamos, é agora!

E assim, deixamos o mundo civilizado e entramos no Mar de Areia, ou como se dizia na região, para nunca mais serem vistos...

A ideia é sermos uma nota de rodapé numa das muitas caravanas que faziam as baldeações entre cidades, saindo em direção à cidade das lâmias.

E foi quase isso!

No início da noite estava tranquilo, com o fim do dia, e o calor diminuindo a marcha se fazia leve e os passos eram fáceis e, rapidamente, começamos a nos distanciar da civilização.

Conforme a noite se aproximava, e a escuridão tomava conta de tudo, à medida que a claridade do Sol se punha no horizonte, as estrelas iam aparecendo timidamente, uma a uma, e o céu ficava preenchido de luzes.

A partir desse momento, para nos guiarmos tínhamos somente as estrelas e as pálidas luzes das luas no céu noturno. Hoje tínhamos duas das irmãs nos acompanhando, assim – como a Sra. Naga, de cabeça levantada, com a sua língua balançando docemente no ar, com tentando buscar o sabor do lar não mais tão distante agora, no que ela disse:

- Hoje é um bom dia para entrar no Mar!

E lá ia ela, feliz de poder estar voltando para casa, e eu atento para não a perder de vista e assim me perder nesse local mais inóspito que jamais vira em todas as minhas duas vidas!

Andamos até o dia começar a clarear, quando a Sra. Naga tirou um embrulho da sua bolsa, abriu cada aba com cuidado e tirando parte do conteúdo, colocou na boca.

Era o café da manhã!

Ela me jogou um pedaço de pão com queijo – quantas lembranças da casa do Mestre – voltou a fechar o pacote com o tecido e colocar o embrulho na bolsa.

- Vamos, temos que aproveitar antes que o dia fique realmente quente.

E não imaginava o quanto de verdade isso significaria!

A quantidade pequena de comida era algo essencial, pois agora, comer demais, levaria mais sede, e que levaria a tomarmos a nossa água, que pesava carregar, e que iria acabar em algum ponto – o qual eu não sabia qual seria.

Ou seja, era racionamento total, comida e água, até chegarmos ao nosso destino.

E para “melhorar” a minha situação, como a Sra. Naga era meio serpente, grande parte do seu corpo ficava em contato com o solo, ou seja, quase nada afundava na areia, já minhas patas de lobo, mal tocavam a superfície quente da areia, já afundavam, tornando cada passo um pouco mais pesado que o anterior...

E assim íamos, ela deslisando e eu afundando, me arrastando.

Ela sorrindo e eu me acabando...

E assim foi até a metade da manhã, quando a Sra. Naga olhou para mim e disse:

- Penso que você está com calor não?

Imagina só! Eu só tava com minha língua toda do lado de fora, arfando como se não tivesse oxigênio no ar!!! Lembrando a todo momento que cachorros não suam, assim que não tinha lá muito como regular a minha temperatura...

- Vamos acampar aqui, para que você possa se acostumar ao calor e, assim que estiver ambientado, vamos diminuir nossas paradas para o mínimo necessário....

E a velocidade com que aquela li\íngua vibrava indicava o seu crescente grau de impaciência comigo...

Parecia que havia uma relação inversa, quanto mais "em casa" ficava a Sra. Nada, mais "o que eu estou fazendo aqui" ficava eu...

E não pense que acampamento era comida, cama e descanso, mas era mais cavar um buraco, para afastar a areia mais quente da superfície, estender uma lona, graças Ao Um, branca (para esquentar menos), e tentar dormir um pouco dentro desse carro parado no estacionamento!!!

Pois era como eu me sentia.

No quarto dia, sob o olhar de reprovação da Sra. Naga, a água do meu cantil acabou.

Tipo me olhando com total desprezo para eu sacudindo o cantil vazio para cima e para baixo, sobre uma boca escancarada, esperando — com esperança- que caísse alguma gota de água...

A coisa toda foi tão impactante que eu comecei a — discretamente — tirar água da minha caixa de artigos — par matar a sede, diretamente do meu dedo!!! Com direito a lavar a cara e o molhar os pelos na tentativa de diminuir o calor...

Assim que tentava ser mais o mais discreto possível, buscando fugir do olhar de reprovação da Sra. Naga. Cada vez ficava mais claro que ela não estava lá muito feliz em me ter consigo ali naquela situação, isso era claro.

E toca caminhar...

Ração, dormir no estacionamento (trancado no carro), andar, mais ração, menos água, mais estacionamento.

Sra. Naga cada vez mais ansiosa, querendo me colocar no ombro – para ir mais rápido — ou me deixar para trás, dependendo da hora do dia...

E assim foram acontecendo os dias, as noites e os desesperos e horizontes foram se multiplicando e se sobrepondo de uma forma que – se você me perguntasse – eu não saberia quantos dias haviam se passado deste que abandonamos a civilização e no horizonte começou a aparecer uma miragem que não parecia ir embora.

E, ainda mais estranho, é que ela ficava maior e maior com o tempo...

Deveria ser alucinação, com certeza, pois por aqui só tem areia, e mais areia...

E, então, tão súbito quanto foi nossa saída da civilização, a Sra. Naga anunciou:

- Cheguei!