Notas iniciais
Prólogo simplesinho, mas só pra introduzir. Agradecimentos a Daniela e Rafael, que sugeriram perguntas para Rita Skeeter.

Dei uma última olhada no espelho, checando minha aparência. Meus cabelos loiros estavam caprichosamente arrumados em lindos cachos, e meus olhos castanhos, lentes de contato que havia comprado, ganhavam um brilho a mais com o óculos que usava, um com aro de pedrinhas.

Em contraste, meus queixos volumosos podiam me fazer parecer mais rude do que era, mas isso não importava. Chegava a dar um toque mais severo a minha aparência, digno de uma mulher tão importante como eu.

Minhas roupas, como sempre, eram de alta costura e de seda. Dessa vez, estava usando um terninho extravagante da cor verde, um verde chamativo.

Peguei minha linda e indispensável bolsa de couro de crocodilo, e chequei pra ver se tinha bastante pergaminhos ali. Sim, havia em grande quantidade, mas onde estava... vi minha fiél Pena de Repetição Rápida sobre a mesinha de cabeceira da sala, e a coloquei dentro do bolso interno do meu casaquinho.

Aparatei até a entrada da sede do Observatório Potter, uma rádio que um dia já foi clandestina devido a problemas com o Ministério da Magia e com Aquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear. Estremeci pensando no maior vilão de todos os tempos da comunidade bruxa, e adentrei o prédio.

O hall de entrada era forrado por um tapete macio com os dizeres "Armada de Dumbledore", um claro sinal da sua lealdade com o moço da cicatriz. Torci a cara, ignorando aquele claro aviso de que inimigos de qualquer um daquela panelinha não eram bem-vindos, e me dirigi a recepção.

– Boa tarde. — me anunciei, e a mocinha sentada na cadeira quase caiu de susto. Francamente, deixavam qualquer um trabalhar aqui? — Sou Rita Skeeter, trabalho para o Profeta Diário.

A menina me encarou, confusa, e tive uma vaga impressão de que a conhecia de algum lugar.

– Rita Skeeter? Pensei que tivesse se aposentado. — ela disse, curiosa. — O que faz aqui?

Suspirei diante de tamanha idiotice.

– Estou agendada para participar do programa da manhã. — respondi, e a menina continuou me olhando com cara de confusão. — Fui convidada para anunciar sobre meu novo talk show. Francamente, isso aqui é sempre desorganizado assim?

A menina corou, sem graça, e começou a procurar algum papel naquela bagunça de folhas em cima da sua mesa. Comecei a bater minhas unhas na bancada, e vi que a garota engoliu em seco ao ver o tamanho delas. Cinco centímetros de uma que poderia ser uma excelente arma pintadas da cor escarlate.

–Sinto muito, moça, eu sou só uma funcionária temporária. É meu primeiro dia e não me avisaram nada da senhora aparecer. — ela se descupou, constrangida. — Me desculpa mesmo, já vou achar o cronograma.

Revirei os olhos, e ia me preparando para criticar o serviço dela quando percebi quem ela era, Victoire Wesley. Também, pudera, como reconhecer alguém que está com o cabelo todo despenteado? Tirando a Granger, claro, aquela ali podia fazer o que quissesse com o cabelo, sempre seria lembrada pela fuinha que tinha em cima do cabelo.

Olhei para o relógio, constatando que faltava apenas cinco minutos para ir ao ar.

– Escute, mocinha, eu vou subir até lá, okay? — avisei, me afastando. — Estou atrasada e não posso perder isso.

– Mas... mas... — a garota tentava dizer algo, mas foi interrompida por uma algazarra na entrada. — Saia já daí, Thiago!

Me aproveitando de sua distração, me esgueirei para dentro de um dos elevadores e esperei chegar no andar certo. Aproveitei pra retocar o batom, e fazer um pequeno registro com esse breve encontro com Victoire.

Assim que as portas do elevador foram abertos, dei de cara com um outro recepcionista, e este pareceu abobado ao me ver.

– Rita Skeeter? — ele exclamou, sem parecer acreditar. — O que faz aqui?

– Estou agendada para o programa matinal. — avisei, começando a ficar irritada. — Mas que espelunca é essa em que ninguém sabe o que acontece?

– Rita Skeeter! — Lino Jordan apareceu, saindo de uma sala. — Fico feliz que tenha vindo. Queira entrar aqui, por favor.

Ignorando o recepcionista que ainda me encarava, fui andando com a cabeça erguida atrás de Lino Jordan. Ele me apontou uma cadeira de cano alto, e um mostrou um microfone de lapela.

– Você se senta nessa cadeira e fala diretamente para o microfone, okay? — ele perguntou. — Você pode ir ao banheiro e tomar água nos intervalos.

– Eu sei como isso funciona, querido, tenho anos de experiência. — falei, me sentando.
– Muito bem, vamos começar. — ele disse, se sentando.

"Vamos entrar no ar em uma contagem de trinta segundos", uma voz anunciou de algum lugar.

Abri minha bolsa e deixei sobre a mesa um rolo de pergaminho e minha pena, pra que eles pudessem trabalhar. Lino me encarava, como se perguntando algo, mas o ignorei. O que eu fazia com o meu trabalho era problema meu.

" Dez segundos para começar", a voz tornou a repetir. Me sentei ereta, preparada. Era hora do show.

– Bom dia, senhoras e senhores. — Lino Jordan anunciou, e sua voz provavelmente foi ouvida pelo andar inteiro. — Estamos ao vivo pela rádio Observatório Potter, apresentando mais uma edição do seu programa favorito, Amigos de Potter. Eu sou River e a meu lado, tenho uma convidada um tanto quanto... excêntrica.

Lino olhou pra mim, disfarçando uma careta, e ignorei seu comentário.

– Nascida em 1951, Rita Skeeter...

– Perdão? — eu o interrompi, indignada. — Uma dama não deve ter o ano de seu nascimento revelado. Para deixar claro, caros telespectadores, tenho 43 anos pra vocês.

– 43?? — Lino caçoou, dessa vez sem disfarçar a risada. — A senhora devia ter essa idade a duas décadas atrás.

Me senti extremamente ofendida, e teria ido embora se essa divulgação não fosse tão importante. Era uma coisa boa, pensei comigo mesmo, era minha volta ao topo.

– Como você é engraçado. — falei, fingindo achar graça de uma piada. — Muito boa.

Lino conteve uma risada, e tornou a falar.

– Também chamada por Rainha das Penas, nossa ilustríssima convidada mostrou grande talento ao longo dos anos. — Lino começou a ler a folinha que eu posso ter acidentalmente editado algumas horas atrás. — Trabalhou para o Profeta Diário como correspondente de fofocas, e escreveu algumas das melhores matérias para O Pasquim. Repórter, biográfa e repórter, essa incrível mulher é bem mais do que um rostinho pálido ou um belo par de olhos verdes, mas uma ... excelente comunicadora? — Lino coçou a cabeça, como se duvidando do que lia. — Hum, tenho certeza de que não escrevi isso, mas vamos improvisar. Rita, conta pra gente, é verdade que você é assídua consumidora dos produtos Ivone?

– Ah, sei que minha pele permaneceu jovem ao longo de todos esses anos. — respondi, dando uma risadinha. — Mas não uso nenhum produto trouxa pra permanecer jovem.

– A senhora sem dúvida nenhuma continua com o mesmo tom de pele pálido de sempre, Rita. — Jordan continuou, rindo. — Senhores espectadores, Rita vai nos trazer uma grande novidade em instantes, mas antes, gostaria de fazer algumas perguntas a ela.

Olhei pra ele, cheia de dúvidas. Perguntas? Esse não era o trato, isso não estava nos scripts.

– Claro, querido, pode perguntar o que quiser. — concordei, dando de ombros. — Sou um livro aberto, e uma alma totalmente honesta. Na verdade, está pra nascer alguém mais sincero do que eu. Não tenho nada a esconder, sabe?

– Sei... — Lino falou, checando as fichas em sua mão. — Os ouvintes poderão mandar perguntas para Rita Skeeter, então fiquem de ouvidos atentos hein. A primeira pergunta vai ser uma que sempre quis fazer. Rita, você já chamou Dumbledore de caduco obsoleta, e ridicularizou e hostilizou Harry Potter, o escolhido. E Dumbledor já descreveu seus textos como "Encantadoramente Desagradável".

– Ah, Dumbledore e eu temos um longo histórico de amizade. — o interrompi, antes que ele fizesse uma pergunta que me deixasse mal na fita. — Você sabe, as melhores amizades são assim. A gente se ofende, mas é tudo na base da brincadeira. Temos um apresso muito grande um pelo outro.

– Não era isso que eu ia perguntar, mas...

– Por falar em Dumbledore, minha biografia sobre ele vai voltar a venda em breve. A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore, edição de luxo e limitada.

– Eu não... Vai voltar a vender esse livro? — ele perguntou, surpreso. — Mas já não se acha pra vender a anos!

– Eu sei, incrível não é? E vai vir com uma incrível promoção na Floreios & Borrões, pagando um precinho a mais você leva a biografia de Snape : Santo ou Canalha?

– Senhoras e senhores, a primeira novidade de Rita Skeeter nessa manhã! — Lino Jordan anunciou. — Quando vamos poder comprar esse dueto, Rita?

– Ainda não tem data de previsão, mas quando chegar eu mando alguns exemplares para a rádio. — informei. — Ah, e a biografia de Harry Potter já foi reposta nos estoques, essa já podem comprar.

– Que bom que tocou nesse assunto, Rita. — Jordan disse, sorrindo. — uma ouvinte nossa acaba de mandar uma pergunta sobre isso.

– Pode mandar.

– É verdade que essa sua biografia sobre Harry Potter possui um quarto de verdade e um terço de besteira?

– Eu não... Quem perguntou isso? — perguntei, inconformada.

– Os nomes são anônimos, Rita, não posso dizer que foi a J.K...

– Ta bom, ta bom. — falei, fazendo pouco caso disso com um gesto na mão. — Pode mandar a próxima.

– Um ouvinte pergunta o motivo de você ter sido expulsa dos terrenos de Hogwarts. — ele perguntou. — Isso é verdade? O que tem a dizer a respeito?

Passei a mão pelo meu cabelo, me certificando de que meus fios de ouro puro continuavam em ordem.

– Como eu disse anteriormente... — comecei, pensando com cuidado em cada palavra. — Minha relação com Alvo Dumbledore sempre foi das melhores. Tenho certeza de que... hum... este ouvinte em questão está equivocado. Veja bem, Dumbledore e eu nos conhecemos a décadas, temos uma amizade muito... forte. É, é assim que eu classificaria.

– Certo. Temos aqui uma pergunta da Daniela... digo, de um ouvinte anônimo. Você alguma vez já usou de artimanhas pesadas para conseguir um furo de reportagem? No que consta, você se trancou em um aramario de vassouras para entrevistar Harry Potter.
Mas, a questão que quero saber é, você já fez trocas do tipo "ousadas" por informação?

– O QUÊ? — falei em voz alta. — Sou uma senhora de respeito, quanta ousadia! Esses jovens de hoje em dia, onde irão parar? — Ajeitei meu decote, com a cara o mais horrorizada possível. — Sou uma mulher de princípios, e jamais usaria de meios ilegais para transpassar informações. Ao contrário do Observatório poter, que começou infring...

– Certo, certo. Vamos a um rápido intervalo mas já voltamos. Deixo com vocês uma bela balada de Celestina Walberck.

Uma música tediante começou a tocar, parecia até que a voz da cantora era de defunto. Lino se levantou, contrariado.

– Rita, quando eu aceitei seu pedido para vir se divulgar aqui, deixamos claro no acordo que você não mexeria no roteiro. E que não iria, de jeito nenhum, ofender um membro desta companhia e o pior, o nome dela!

– Tem provas de que mexi em algo? — perguntei. — E que eu saiba, me fazer esse tipo de pergunta não constava no SEU convite. — revidei. — Espero que no próximo bloco, o senhor seja fiel ao que promete. Que espécie de perguntas foram essas?

– Selecionei as melhores. — Lino falou, voltando a se sentar. — Tinha um ouvinte implorando pra que eu perguntasse se a senhora já pensou em se matar, ele até enviou sugestões pra isso.

Estufei o peito, ignorando ele. Esperei pacientemente para que aquela música horrível acabasse e voltássemos ao programa.

– Estamos de volta, caros telespectadores, com ninguém menos que Rita Skeeter. Ela tem uma grande novidade pra contar, e tenho certeza de que vocês ficarão muito... ér... tenho certeza de que a roda da fofoca vai se agitar.

– Obrigado, Lino. — me intrometi, cansada de tanta enrolação. — Posso divulgar agora a notícia? Tenho outros compromissos, sabe como é.

– Sei, aposentados se reerguendo devem ter muito trabalho. Diga, Rita, da sua novidade.

– Claro, claro querido. Foi com muita surpresa que fui convidada pela emissora...

– Convidada? A senhora passou dos anos implorando para...

Dei um pisão no pé do garoto que o fez perder o fôlego, e prossegui.

– A emissora Sistema Bruxo de Televisão me convidou para apresentar um programa de talk show, onde eu entrevistaria as mais diversas pessoas. Sinto- me honrada com tal privilégio, e mal vejo a hora de divulgar a lista dos entrevistados!

Lino ainda não falava, meu salto agulha realmente o machucou.

– Como eu ia dizendo, vamos ter várias entrevistas. Funcionários do Ministério da Magia, de Hogwarts, alunos e ex alunos. Elfos domésticos, fantasmas, e incluindo famílias de trouxas que tem algum parentesco com algum bruxo famoso. Vai ser um sucesso!

– Ai... — Lino gemeu de dor. -E qual vai ser o nome do programa, Rita?

– De Frente com Rita Skeeter. Não tem horário definido ainda, mas fiquem de olho.

Lino continuava com a expressão de dor, e Ted Lupin apareceu na porta.

– Vamos a um rápido intervalo comercial, mas voltamos em breve com Ted Lupin. — Lino anunciou, e ofertas de produtos como o novo bisbilhoscopio começaram a soar pelos alto falante invisíveis. — Está dispensada, senhorita Skeeter. Queira ir embora, sim? E não apareça mais.

Recolhi minha pena, meu pergaminho e coloquei dentro da bolsa. Passei por Ted Lupin, que me olhava com uma expressão divertida no rosto, e me preparei para ir embora. Com fé em Merlim, não precisaria mais voltar aqui.

– Rita, Rita, aquilo é verdade? — o recepcionista perguntou. — Vai ter mesmo um programa seu, de entrevistas?

Fiz um muchicho com a boca, mas abri um grande sorriso.

– Sim, é verdade. Fique no aguardo, porque isso vai dar o que falar.

Notas finais
Galera, o próximo capítulo já vai trazer nosso primeiro entrevistado oficial, mas vai demorar um pouquinho ta? Quero colocar uma capa na fic, fazer um trailer pra ele... deixa eu arrumar essas coisinhas antes de começar pra valer. Beijos