De Frente com Rita Skeeter
2 Cho Chang
Notas iniciais
"Rita : Seu nome é Cho, certo?
Cho Chang : Sim!
Rita : Qual era sua casa em Hogwarts?
Cho Chang : Corvinal.
Rita : Por que aceitou fazer essa entrevista?
Cho Chang : Porque achei que estava na hora de contar a minha versão!"
Comecei a ler boa parte do roteiro do meu primeiro programa, irritada. Não bastasse aquele cenário medíocre eu ainda teria que ser obrigada a falar o que eles queriam?
— Pode deixar, querido, vou fazer direitinho — errado. Eu iria ignorar toda aquela porcaria e fazer do meu jeito. — Quando nossa convidada chega?
— A qualquer momento — meu produtor respondeu. — Lembre-se, Skeeter, nem todo mundo vai com a sua cara, e não foi tão simples assim convencer Cho Chang a aparecer.
— Tanto faz -respondi, me sentando na minha cadeira. — Veremos se até o fim do mês não terei uma fila de espera.
O produtor se afastou, indo ajeitar as câmeras, e fiz uma bolinha de papel com aquela porcaria que tinha lido. Voltei a olhar para o meu cenário. Uma mísera mesa de madeira e uma cadeira do outro lado, onde o entrevistado iria ficar. Decepção me resumia.
Queria um grande cenário, uma platéia, tudo o que uma estrela como eu tinha direito. Mas tudo bem, eu daria um jeito. Trabalharia pra mostrar que ainda conseguia audiência, e que tinha muitos leitores espalhados por aí.
Não com aquele script, claro. O que eles pensavam que eu iria fazer, um programa meia boca para atrair meia dúzia de espectadores? As pessoas podiam reclamar do meu jeito um tanto quanto... empolgante, sim, essa era a palavra certa. Podiam não concordar com meus métodos, mas todos eles gostavam de uma boa fofoca. O que iria me diferenciar é meu jeito espontâneo e verdadeiro, minha forma sincera. O que eles queriam era apagar justamente isso, minha essência.
A porta lateral foi aberta, e Cho Chang passou por ela. Percy Wesley tinha recusado nossas cartas, dizendo que só em um caso de desespero que viria ao meu programa. Cedrico Diggory sequer nos respondeu, e acabei com ela. Ótimo, que maravilha. Quem gostava de Cho Chang? As pessoas queriam bruxos famosos, não aqueles esquecidos com cara de bobões.
— Olá — ela disse, indo a passos lentos para a cadeira. — Acabaram de me explicar sobre como vai ser a entrevista e li o roteiro. Isso vai ser melhor do que imaginei, seu produtor me explicou tudo e amei. Tenho muitas coisas a dizer, Rita, e seu espaço vai ser muito útil.
— Sei, sei — respondi, olhando para a porta. O roteirista tinha acabado de sair, e essa era minha grande chance. Peguei minha varinha por baixo da mesa e apontei para a porta. Cho tinha algumas pergaminhos na mão, provavelmente dando uma última checada. — COLLOPORTUS — sussurrei, trancando a porta.
— Perdão? — Cho perguntou, confusa.
— Vamos começar — anunciei, animada. — Só deixe que eu impeça qualquer um de aparatar aqui, não vamos querer intromissões. APARATTO REPELIUM. Pode sair do esconderijo, Tom.
Tom trabalhava no Caldeirão Furado, mas foi só prometer que um dia eu o deixaria frente a frente com Harry Potter que aceitou vir me ajudar. Uma promessa que um dia eu cumpriria, ou assim esperava. Um dia, eu entrevistaria O Eleito, e até lá era necessário muita positividade, vibrações negativas não me levariam a lugar nenhum.
Tom ativou o equipamente e fez um sinal positivo, hora do show. Fitei Cho Chang mais uma vez. Cabelos pretos, olhos estreitos da mesma cor.
— É descendente de chineses? — perguntei, só pra descontrair o clima.
— É meio óbvio, não acha? — ela respondeu, com aquele tom de voz de menina ingênua e dei meu melhor sorriso. Até o fim do dia, eu acabaria com a ingenuidade dela. — Estamos começando?
— Cho, você nasceu em 15 de março de 1979, estou correta? — perguntei, e coloquei minha Pena de Repetição Rápida sob a mesa. — Você é mundialmente conhecida por ter sido membro da Armada de Dumbledore, e esse foi um dos motivos que fez com que você pedisse pra ser a primeira entrevistada, queria desabafar. Como isso afeta sua vida no cotidiano?
Cho franziu a testa, estreitando aqueles olhinhos pra mim.
— Perdão, mas eu não pedi pra vir aqui, você e sua produção que lotaram minha casa com cartas e corujas. Mas sim, vim principalmente pela Armada — Cho deu um suspiro, pensativa. — Tenho tantas coisas a dizer, e nem sei por onde começar. Queria mostrar o meu lado, a minha versão da história, sabe? Mesmo sendo a senhora a entrevistar, achei que fosse valer a pena.
— Não respondeu minha pergunta, meu bem — a lembrei.
— Claro que ter sido membro da Armada muda muito a sua vida, mesmo depois de décadas. Recebo um grande carinho pelos admirados, é muito bom.
— Você é uma das mais odiadas da Armada — pontuei. — Não vejo esse carinho que você disse. Pelo que me consta, com muita frequência bombas de bosta são jogadas na sua casa.
Cho ficou com o rosto todo vermelho, uma confirmação a uma cena que eu mesma fui pequenininha confirmar.
— Bem... Pensei que fosse começando a falar da minha casa comunal — ela olhou pra onde o Tom estava. — Já estamos filmando?
— Não, não, só estamos num teste.
— Não me avisaram de teste nenhum — ela disse, desconfiada.
Eu precisava começar com algo mais leve, não levantar suspeitas. Fingi conferir meus scripts e cruzei minhas pernas, um claro sinal de que não estava nenhum pouco desconfortável. Uma pessoa desconfiada observava tudo, desde a postura aos modos. Se eu mostrasse o quão relaxada estava, Cho abaixaria sua guarda.
— Cho, sua casa em Hogwarts foi a Ravenclaw, a Corvinal, e na época da escola você foi a apanhadora do seu time.
— Sim, sim. Foram grandes momentos, esses. Uma das coisas que mais sinto falta dessa época da escola é de passar horas no meu antigo salão comunal, de representar minha casa, de jogar quadribol por ela.
— Você sempre usou a mesma vassoura, uma Comet 260. Era por que não tinha dinheiro pra comprar uma nova?
— Eu... — Cho me olhava desconcertada, como se eu tivesse perguntado algo idiota. — Era a minha favorita, só isso. Cada um tem aquela sua vassoura preferida, aquela que não abre mão. Essa era a minha.
— Sua influência e paixão pelo mundo do Quadribol veio desde cedo, não?
— Sim, desde os seis anos. O Tornados de Tutshill, ou Tutshill Tornados é minha paixão desde pequena.
— Você se identifica com o Tornados por eles serem rápidos ou por usarem vestes azuis?
— Não sei se entendi bem a pergunta — ela disse.
— Eles tem vestes azuis, assim como sua casa. Uma possível identificação com a Corvinal, ou por eles deterem o record britânico pela captura de um pomo de ouro em uma partida?
— Corvinal, eu acho. Não entendi a segunda opção.
— O record deles é de 3 segundos, o tempo que você levou pra beijar o Harry. Você trocou o Cedrico pelo Harry nessa quantidade de tempo também?
Cho ficou desconcentrada. Soltei uma das minhas risadinhas, e decidi ir para outra pergunta.
— Os membros da Armada não falam mais com você, e mesmo o Harry tendo te desculpado depois, ainda rola certo ressentimento. Gostaria de dizer algo sobre isso?
Cho suspirou, olhou da minha pena para a câmera que Tom segurava e voltou a me encarar.
— Eu... fico feliz que tenha feito essa pergunta. É muito triste ver aqueles que um dia chamei de amigos me virando as costas. Tem dias em que, pensando na época em que fui aluna, me recordo de todas aquelas reuniões da AD e de como eles eram unidos, verdadeiros. E hoje eles nem olham na minha cara. É confuso, Rita. E é triste. Queria dizer a eles que...
— Depois você deixa seu recado — interrompi — Você acabou de dizer que eles eram unidos e tudo mais, mas caguetou todos eles, os seus amigos. A culpa foi sua, não?
Cho respirou fundo, provavelmente tentando lembrar de algum discurso decorado.
— Eu me arrependo do que fiz, claro. Não foi certo, mas as pessoas precisam saber que não tive escolha.
— Espera, só um momento. Vou reformular a pergunta. Por que você agiu como uma cagueta?
— Mas eu não caguetei, essa é a questão! Eu precisei proteger minha família!
— Uma típica resposta de uma dedo-duro.
— Eu estava sobre o efeito da poção Veritaserum, fui obrigada! Torno a repetir, fui obrigada a dizer a verdade, não tive escolha.
— Draco Malfoy não teve escolha, meu bem.
— Rita... — Cho falou, irritada. — Vai ser assim nossa entrevista? Se no teste está me insultando...
— Insultando? — perguntei, incrédula. — Insulto seria eu te dizer que nas fanfics de Harry Potter... Conhece fanfic, sim? Claro que conhece, você tem um perfil chamado Katie Leung. Não faça essa cara, comigo não existem segredos, querida. Nas fanfics, os usuários te retratam como uma vadia, e sua descendência também.
Cho abaixou o rosto, parecendo abalada. Tinha uma aparência razoável e oriental, nada que fosse algo a mais do que normal ou comum. Podia não ser bonita, porém, não era um trasgo da vida.
— Próxima pergunta. É verdade que sua escola de samba é a X-9? Brincadeirinha. Olha, grande culpa da Armada de Dumbledore ter acabado foi sua. Você estragou uma das melhores coisas que aconteceram na vida do Harry, sem falar que o usou. Mas não podemos nos esquecer da sua melhor amiga, Marieta Edgecombe. A traidorazinha teve a memória apagada, mas sei que até hoje tem cicatrizes.
— Olha, eu não quero falar disso.
— Mas ela foi sua melhor amiga, precisamos falar dela! — Cho parecia constrangida, coitada- Eu sei que você era uma das mais populares na escola, vivia cercada por amigas. Rolou alguma brincadeira lésbica ali? Porque um grupinho desses...
— Rita, não está fazendo as perguntas que achei que fosse fazer.
— Seu patrono é um cisne, não é? Bonitinho. E o seu maior medo é a solidão. Você se sente esquecida?
—Rita...
— Seu nome significa outono. Me fez pensar se você já passou gripe pra um garoto através de um beijo.
— Eu realmente não...
— O que passou pela sua cabeça ao escolher uma amiga traidora no lugar do garoto que se tornaria o salvador de nossa pátria? Quero dizer, ele já era famoso na juventude, mas agora... Se arrepende da escolha que fez? Aposto que sim.
— Rita, estou te implorando para...
— Como consegue ser da Corvinal sendo tão tapada? Tudo bem, tudo bem, vamos voltar a fita. O Harry beija bem?
— Pode, por gentileza, parar de falar no Harry? E fazer essa pena parar ficar escrevendo? Está me incomodando o movimento contínuo dela.
— Ignore a pena. Ainda sente algo pelo Harry, por isso não quer falar dele?
— Rita, tenho sido muito gentil com você até agora, mas...
— Ficou com o Cedrico por amor ou pela fama dele?
— É difícil falar dele, perder um namorado porque ele morreu..
— Como se sentiu sabendo que Harry e Cedrigo saíram juntos do labirinto, mas um deles estando morto?
Cho se levantou, recolhendo seus rolos e indo até a porta.
— Estou caindo fora, Rita. Não foi isso que combinamos.
Deixei que ela destrancasse a porta e meu produtor entrou, confuso.
— O que... Cho, por que está indo embora? — perguntou, tentando fazê-la parar de andar.
— Pergunte a Skeeter — ela respondeu.
Guardei minha pena de repetição rápida e enrolei meu pergaminho, satisfeita.
— O que você fez? — meu produtor perguntou, pasmo. — Por que ela está indo embora?
— Porque já terminamos a entrevista — respondi, passando por ele.
Inorando seu discursinho de "vai ser demitida", fui até o corujal do edifício, entregando uma carta para ser entregue.
— O que está fazendo? — ele perguntou, irritada.
— Mandando para o Profeta Diário meu resumo da entrevista.
— Não pode fazer isso sem pedir permissão!
Olhei para aquele homenzinho, que achava que mandava em alguma coisa.
— Cale a boca, seu novato incompetente. Tenho anos de experiência, sei o que estou fazendo!
Ele continuou me seguindo, resmugando. Acenei para o Tom, o dispensando, e peguei meu casaco. Hora de começar minha divulgação.
"Profeta Diário — correspondente Rita Skeeter
Meu novo programa estréia com muita ansiedade por parte dos milhares de fãs que me seguem. Minha primeira convidada é Cho Chang, famosa por ter sido namorada de dois campeões Tribruxos : Cedrico Diggory e Harry Potter.
O primeiro, outrora morto por Aquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear e o segundo, ninguém menos que O Eleito.
Cho é suspeita de uma atitude juvenil nenhum pouco aprovada, porém muito frequente. Ela abriu o jogo e confessou ser uma das responsáveis pelo fim da AD-Armada de Dumbledore, juntamente com sua cúmplice e melhor amiga Marieta.
Em uma discussão acalorada, ela admite ter namorado Cedrico e Harry ao mesmo tempo e se arrependido por não ter aceitado o convite de Potter para o baile ir comigo. "Achei que o Cedrico tinha mais chances pra ser bem sucedido e o escolhi. Harry trazia muitos problemas, e nem era o mais bonito dos dois. Pensando bem, não era o mais bonito entre quase ninguém da escola, talvez apenas de Crabby e Goyle", a jovem Cho revela.
Segredos, revelações bombásticas e um lado dela que nunca veio a tona, mas que agora se tornará público. Não vai querer ser o único por fora dessa, vai?
Cho está pronta para dar sua versão dos fatos, estão prontos para ver?
De Frente com Rita Skeeter, toda terça. Na sua tv e no seu coração"
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