De Coração
1 O Surfista Suicida
Notas iniciais
Olha só quem chegou para mais uma nova históriaaaa! ~dançando~ Tô muito animada para escrevê-la, admito, principalmente porque envolve surf, Havaí, yaoi e cegos, olha só a combinação problemática que eu acabei de fazer, deuses.
MAS FIZ, JÁ ERA! Como eu já disse, tô animada, porém nervosa pra caramba, sério, tô roendo as unhas aqui, morta em dúvida eterna se deveria postá-la ou não; tô agindo por impulso, vamos ver o que dá.
Nossa, tô relendo as notas da história, tava super séria, credo o_o Eu mesma me dei medo - primeira vez que eu digo isso, já que pareço um esquilo de tão assustador.
Bom, queridos, quero já avisá-los de prontidão que ainda estou pesquisando sobre as ilhas do Havaí, não são nomes fáceis ou simples, um exemplo é este nome masculino maravilhoso: "Uahoomanaokahaku".
Easy, pff.
HUEUUHEUHEUHEHUE No mais, obrigada por ter clicado nesta fanfiction, espero que se divirta lendo este capítulo! u_u
Era rotina. Todos os dias, às sete e meia da noite, Kai entrava no Aloha Coffee, durante o último turno de seus amigos. Geralmente tomava um cappuccino simples, conversava um pouco com eles para se manter nas novidades e era acompanhado até em casa.
Antes de entrar no estabelecimento, dobrou sua bengala de alumínio, enfiando-a no bolso. Empurrou as portas duplas de vidro e entrou sem maiores dificuldades.
Àquela hora o estabelecimento não estava lotado, mas ainda assim, estava bastante movimentado. Kai podia ouvir choros de crianças, toques de celulares, conversas animadas e o triscar da louça na cozinha. Encaminhou-se ao terceiro banco à esquerda, que era designado apenas para pessoas com deficiências e lá se acomodou. A lanchonete era de estilo anos 50, com direito a poltronas vermelhas, jukebox e piso xadrez.
Kai podia ouvir “Can't Help Falling In Love” tocando, o que achou terrivelmente brega. Havia um casal de velhinhos dançando no cantinho da lanchonete, felizes.
- Take my haaand! — Luana apareceu como um fantasma ao lado de Kai, botando seu costumeiro cappuccino desenhado (daquela vez era um coelho) em sua frente. — Take my whole life toooooo! — Cantou, sentando-se ao lado do garoto enquanto retirava seu avental.
- Ah, não, por favor, poupe-me desta morte horrível — Kai gracejou, tateando a mesa em busca de sua bebida. Desfrutou do delicioso cappuccino enquanto era acotovelado por Luana.
- Então, Kai, como anda sua vida? — Perguntou, avulsa, apoiando o cotovelo nas costas do banco e encarando além do vidro, apreciando o mar pouco iluminado.
- Bem — respondeu o garoto, botando a xícara em cima da mesa novamente. Um bigodinho de espuma se formou embaixo de seu nariz. — Nada de anormal aconteceu, pelo menos. E a sua? Como anda?
- Não anda, rasteja — ela respondeu com desânimo. — Cê acredita que eu tô na seca há dois meses? Nem beijar eu beijei durante esse tempo.
Kai apenas riu, voltando a bebericar seu cappuccino. Prosaram descompromissadamente, mantendo sempre o papo em dia. Falaram desde as notícias sobre os ataques de tubarões-tigres até sobre cortar o cabelo de Kai, que já estava alcançando-lhe a nuca. Era sempre assim. O turno de Luana acabava meia hora antes do turno de Manu, o amigo deles. O garoto trabalhava na cozinha, por isso nunca aparecia em público, só em casos de emergência.
Era uma noite rara em Honolulu. Chovia forte, com direito a trovões e raios caindo distantes no mar. O Aloha Coffee tinha uma vista completamente privilegiada: estava numa posição em que dava para se ver o mar até numa área de cinco quilômetros, perto de rochedos. Aquela parte da praia era muito movimentada, por isso o sucesso da lanchonete. Luana tremia todas as vezes em que raios pousavam no mar, a menos de cinquenta metros, estrondosos.
- Caramba, que toró — comentou, encolhendo-se no banco. — Espero que lá em casa não alague.
O mar estava sendo iluminado pelos postes e pelos prédios nas redondezas, muitas vezes emitindo luzes coloridas, que davam graça àquele breu cheio de marés altas e perigosas. Ondas gigantescas se formavam ali perto, descansando apenas quando chegavam à areia. Era uma perfeita tentação a muitos surfistas, mas eles sabiam muito bem dos perigos dos mergulhos noturnos quando chovia, como tubarões-tigres, raios imprevisíveis e águas mais gélidas e profundas que o normal.
Preferiam se morder de vontade a ter de arriscar perder a própria vida.
Foi por isso que Luana gritou, exasperada, quando viu aquilo. Todos que estavam naquela lanchonete pararam o que faziam para encarar aquela cena completamente incomum e inacreditável. Kai percebeu a tensão do local; de repente, parou de ouvir os sons que estava habituado a ouvir — agora, já não havia mais crianças chorando, não havia conversas e nem toques de celular. Tudo ficou num desconfortável, raro e instigante silêncio.
O fato era que ninguém acreditava no que estava vendo. Todas as pessoas que se denominavam sãs, sabiam bem dos perigos do mar noturno. Mas, lá estava, desafiando todos os riscos, um jovem suicida só de cueca surfando como se fosse pleno meio-dia. Seu rosto sorridente de felicidade eterna era iluminado pelas luzes dos postes. Seus movimentos em cima da prancha eram hábeis, certeiros e experientes, chegando a serem hipnotizadores.
Estava mais do que claro que ele amava o que fazia mais do que tudo. Todos seguraram a respiração quando o jovem pulou uma onda agarrado a sua prancha e girou completamente no ar, caindo certeiro na água, sem se desequilibrar. Sua cueca azul estava mais do que encharcada, deixando pouquíssimo à imaginação.
- Luana! — Kai decidiu se pronunciar, não aguentando mais aquele silêncio aterrador. — O que está acontecendo?!
- Hã? — Luana ainda estava hipnotizada por aquele corpo hercúleo se movendo tão habilmente. Percebeu que aquele traseiro deveria ser tachado como ilegal. Sorria como uma boboca, quase babando. Só acordou quando Kai encontrou suas costelas, dando-lhe uma cotovelada. — Ai, Kai! — Gemeu em dor, acariciando o local enquanto dava ordem aos seus pensamentos. — Tem um maluco surfando agora.
- O quê? — Kai riu, mas estava incrédulo. — Não acredito! Como alguém pode ser tão… Sem noção? — Indagou com seus botões, imaginando o que se passava na cabeça de uma pessoa daquelas. Mas, de uma forma completamente desfuncional, Kai sentiu-se curioso. Não eram muitas pessoas capazes de fazer o que aquele jovem estava fazendo. “Talvez” pensou, apoiando o queixo na mão “numa dimensão aonde existem dragões, possamos ser amigos”.
- Sim… — Luana concordou, umedecendo os lábios — doidinho… E muito gato também, se você pudesse ver o tamanho daquela bunda, minha nossa Senhora… — Devaneou pervertidamente, fazendo Kai rir alto.
- Pare com isso, sua safada! — Recriminou-a, tentando alcançar algum pedaço de carne para beliscar. Luana apenas riu, mantendo seus olhos fixos naquele colírio para os olhos.
- Kale! Kale, seu idiota! — Kai pôde ouvir quando berraram. Espremeu os olhos, confuso.
- Tem mais um garoto lá! — Luana narrou prontamente para Kai, que confirmou.
Agora, todos os olhos curiosos da lanchonete pousaram sobre um garoto encapuzado que tentava correr, mas sua perna parecia não colaborar, já que ele mancava.
- Kale, seu filho da puta! Miserável! — O encapuzado berrava, parando de andar próximo às ondas violentas. — Tomara que morra dilacerado por um tubarão, seu desgraçado!
Kale parecia acordar de um sonho muito bom. Podia sentir todo seu corpo correspondendo àquele mar divino, as ondas batendo-lhe em seu rosto, a chuva retirando de seu corpo todas as impurezas, incertezas e dúvidas que possuía naquele momento. Sentia-se, por um momento, livre. Mas teve que se aprisionar novamente ao escutar Lucas berrando-o daquele jeito.
Franziu o cenho, por um momento decepcionado; se não fosse por seu corpo gélido, dedos dos pés congelados e tubarões-tigres espiando por aí, Kale poderia ficar a noite, dia e talvez o ano todo só surfando, apreciando aquelas águas divinas. Acompanhou o movimento de uma onda em pré-formação, pegando carona nela e, quando estava próximo à costa, jogou-se na água sem pensar duas vezes.
Sorriu ao chegar em terra, chacoalhando-se como um cão encharcado. Viu quando Lucas bufou, mancando até ele, botando o guarda-chuva acima dos dois, resguardando-os da chuva. Kale agachou-se e pegou sua prancha, botando-a embaixo do braço.
- Sabe o que eu deveria fazer com você? — Lucas rugiu, nervoso como sempre, ficando ainda mais irritado quando Kale apenas gargalhou, abraçando-se e dando uns pulinhos para se aquecer. — Deveria enfiar o cabo deste guarda-chuva na sua goela e começar a socá-lo, esmagando seu estômago e causando-lhe hemorragia interna, Kale!
- Wow, calma aí! — Kale surpreendeu-se com a ira do amigo, erguendo os braços num sinal de rendição. — Relaxa, cara, foi só uma surfada inocente! Foi só a minha forma de estrear minha estadia em Honolulu!
- Surfada inocente? Inocente, Kale? Porra, cara! Assim que chegamos fomos instruídos umas seis vezes para não fazermos mergulhos noturnos! Estava óbvio o porquê! Aqui é cheio de rochedos escondidos pelas marés altas, tubarões-tigres nadando por aí e a água é um gelo, cacete! Você poderia estar morto agora, seu filho da puta! — Lucas extravasou, pavio curto como sempre fora, estressado por vários motivos, entre eles o fato de ser amigo de um surfista suicida.
- Ah, o.k., mãe, prometo que não irei mais surfar à noite, se é assim que deseja, minha senhora. — Mas Kale não estava nem aí. Não era do tipo que se preocupava em morrer, apenas curtia o momento ao seu máximo.
Lucas suspirou, trincando os dentes; estava menos nervoso ao ouvir o outro prometer; sabia que Kale era irresponsável, mas nunca descumpria uma promessa.
- É bom mesmo, Kale. Tô falando sério, cara, se isso se repetir eu não vou mais te apoiar em nada, tá ouvindo? — Falou, jogando as roupas do amigo em sua cara.
Kale apenas assentiu, fingindo compreender o lado de Lucas. Fincou sua prancha na areia antes de começar a se vestir, erguendo escandalosamente sua perna ao tentar botar sua bermuda.
- Tenha decência, cara, dá para ver suas bolas — Lucas avisou, referindo-se a uma lanchonete ali perto, repleta de gente embasbacada, encarando-os como se fossem alienígenas.
Kale apenas virou sua cabeça para encará-los de volta, amarrando o cordão de sua bermuda. Lembrou-se que eles foram sua plateia aquela noite, por isso decidiu agradecê-los.
- OOOOI! — Berrou do nada, em plenos pulmões, para que todos presentes ali pudessem ouvi-lo. Lucas tomou um susto, não podendo acreditar no que Kale estava fazendo. — TUDO BEM COM VOCÊS? EU VOU IR AÍ PARA TOMAR UMA BEBIDA QUENTE COMO AGRADECIMENTO POR SEREM MINHA PLATEIA HOJE À NOITE! — Encerrou, esticando o braço para cima e balançando-o bruscamente, um aceno quase hostil.
Então, quase como se todos ali tomassem um choque de realidade, voltaram para seus respectivos lugares, acomodando-se como se nada tivesse acontecido ali. Luana quase teve uma síncope, falando coisas aleatórias, fazendo Kai cair na gargalhada.
- Onde está o Manu que não aparece, pelo amor?! — Ela começou, eufórica, olhando aqueles dois pela vidraça enquanto eles davam passos preguiçosos na direção do estabelecimento. — Temos que ir embora daqui agora! É vergonha alheia demais para eu suportar! — Começou, levantando-se — Kai, vou procurá-lo, aguenta aí — encerrou, pulando de seu assento e correndo até os fundos da lanchonete.
Kai revirou os olhos. Diferente de muitos cegos que conhecia, ele possuía o controle total de suas orbes. Seus olhos eram castanhos claros, completamente normais — o único defeito era que não enxergavam.
Tateou a mesa em busca de seu cappuccino que, àquela altura, já estava um pouco gelado. Terminou-o mesmo assim, apenas reforçando seu bigode de espuma. Botou a caneca em cima da mesa novamente, começando a devanear.
Pensou no surfista suicida e, quase que inconscientemente, sorriu. Sorriu porque sentiu que, caso não fosse cego, faria exatamente a mesma coisa. Enfrentaria sem medo aquelas águas abrangentes, mergulharia de cabeça no manto enegrecido e esqueceria de seus problemas. Esqueceria até mesmo de sua existência, deixando-se ser consumido por aquela parte do oceano.
Muitas pessoas diziam que morrer afogado era uma das mortes mais terríveis. Mas Kai não se sentia da mesma forma. Para ele, morrer nos braços do mar, deixando as águas que tanto amava consumirem seu corpo e até mesmo sua alma era um tanto quanto… Poético. Não havia morte melhor, sem dúvidas. Honroso, talvez.
Despertou apenas quando ouviu as vozes daqueles dois: o surfista suicida e o jovem seu amigo. Ambos entraram no estabelecimento fazendo a maior algazarra, já que o surfista puxara a porta no lugar de empurrá-la, provocando em seu amigo uma crise de risos.
- Eu vou sentar e você pede três bebidas quentes, tá? — Kale pediu para Lucas, que olhou-o confuso.
- Três? A terceira cê vai jogar no mar como oferenda? — Ironizou, vendo Kale revirar os olhos.
- Nossa, como você é engraçado, parabéns, já pensou em entrar no Soleil? É para mim também, né, babaca, tô com coragem de virar cinco cafés de uma vez no estado em que eu estou — disse, referindo-se ao gelo que seu corpo se encontrava e a sede que sentia.
Kai levantou-se de seu assento. Já estava ali há um tempo e sentia-se incomodado por estar sozinho. Iria procurar ambos por sua conta. Enfiou a mão no bolso, pegando sua bengala para poder ir até a cozinha sem pedir ajuda. Mas, assim que foi retirá-la de dentro do bolso, ela se enroscou no passador de sua bermuda, caindo no chão com um barulho desagradável.
Muitas pessoas, inclusive Kale, olharam para ver o que havia acontecido. Kai soltou um muxoxo ao sentir os olhares direcionados a si. Foi abaixar para caçá-la, mas foi prontamente impedido por Kale, que correu na direção do garoto e o impediu de se ajoelhar ao pegar em seu braço.
- Não precisa, eu pego para você — ofereceu-se, simpático, e Kai sentiu-se bobo ao perceber que era o maluco de agora há pouco. Kale pegou o objeto de alumínio que havia parado embaixo de um dos bancos, observando-o por um momento, curioso com sua funcionalidade. — Aqui, tome… — Disse, deslizando sua mão para os dedos de Kai, abrindo-os e depositando a bengala do garoto ali, que apertou-a com força.
- Ah, muito obrigado — agradeceu, um pouco arrepiado com as mãos extremamente gélidas do surfista. Kai deu uma chacoalhada em sua bengala, que se desdobrou rapidamente com estralos. Quando a bengala desdobrou sua última parte, acabou acertando em cheio a canela de Kale, que estava ali inocentemente, pronto para dar algum suporte caso o garoto necessitasse.
- Ai, caramba! — Kale urrou, consumido pela dor, curvando-se e acariciando sua canela atingida. — Isto não é uma bengala, é uma arma letal! — Dramatizou, gemendo em dor, sentando-se no banco azul.
- Desculpa, te acertei?! — Kai perguntou, perdido, segurando a bengala rente ao seu corpo, com medo de ela criar vida própria e voar na cara do surfista. Não era a primeira vez que isso ocorria. — Desculpa, de verdade, é que às vezes ela desestabiliza da minha mão e para em lugares não previstos. — Disse, realmente constrangido. — Onde que pegou?
- Na minha canela… — Grunhiu Kale, sentido.
- Ah, na canela? — Kai disse com um pouco de descaso. — Então foi easy. Teve uma vez em que ela pegou no meio das pernas de um amigo meu. — Contou, rindo ao lembrar-se dos urros de Manu.
- O quê?! — Kale exclamou, cético. — Esta arma mortal atingiu o saco do seu amigo?! — Ecoou em alto e em bom som, sem ética. Kai começou a rir alto, tateando atrás de si e voltando a se sentar, desta vez ao lado do surfista, que deslizou pelo banco para que ele pudesse se acomodar. — Caramba, se fosse comigo eu iria te encher de porrada!
- Você bateria em um cego? — Kai perguntou, um pouco surpreso.
- O quê? Ah, cara, pelo amor, eu tenho decência. Antes de te bater, eu tiraria seus óculos — gracejou, fazendo Kai voltar a rir. — Ah, a propósito, qual é o teu nome? Não quero continuar a conversar contigo e te chamar de “cara”. É como se eu estivesse falando com um indigente.
- Sou Kai — o garoto apresentou-se, sorrindo de lado.
- Olá, Kai, é um prazer conhecê-lo. Eu sou Kale — o surfista apresentou-se, pegando na mão de Kai, que novamente arrepiou-se com o toque gélido e repentino. Kai apertou a mão de Kale com força, sorrindo.
- Também é um prazer conhecê-lo, mesmo que você me parecesse louco à primeira vista — confessou, soltando-se de Kale e apertando o cabo de sua bengala numa forma de disfarçar seu embaraço.
- Normal, eu causo mesmo essa impressão nas pessoas — disse, rindo ao ver a expressão de espanto de seu novo conhecido. E foi aí, somente aí, que Kale percebeu o bigode de espuma no rosto de Kai. Ficou encarando-o por um tempo, pensando se deveria avisá-lo e como deveria fazer isto. — Ah, hm, Kai… — Começou, preferindo o jeito clássico.
- Sim? — Kai olhou para o lado, mas foi surpreendido quando algo tocou seu rosto. Recuou como instinto.
- Ah, calma, é que você tá com um bigodinho de espuma… — Kale disse de maneira mais natural possível, não querendo assustá-lo. Passou o polegar gelado por cima dos lábios dele, limpando seu rosto do bigodinho. Então, como se fosse a coisa mais normal do mundo, lambeu seu dedo em seguida. — Pronto, tirei.
- V-você… — Kai começou, estranhando. — Lambeu?
- Lambi o quê?
- Seu dedo.
- Ah, o dedo? Sim, lambi, por qu- — mas interrompeu-se. — Caramba, isso foi estranho pra cacete, né?
- Hã, sim… — Kai admitiu, sentindo que Kale era um sujeito esquisito demais. — Você poderia ter simplesmente dito para mim que estava sujo, eu mesmo poderia limpar.
- Ah, sim, eu poderia ter feito isso... — Kale disse mais para si mesmo do que para o garoto a sua frente. — Mas não importa, o que está feito, está feito! — Anunciou, encobrindo seu constrangimento.
Ambos se assustaram quando ouviram um pigarreio ao lado. Kale ergueu o rosto, vendo que era Lucas e mais duas pessoas que ainda não conhecia. Lucas tinha consigo as três canecas com líquido quente, seguradas de maneira habilidosa. Viu as duas pessoas encarando-o como se ele fosse da yakuza pronto para matar alguém a tiros.
- Kale. — Disse Lucas simplesmente, movendo os olhos depressa, sinalizando uma mesa. Kale assentiu e olhou uma última vez para Kai.
- Então, Kai, foi um prazer conhecê-lo, mas o dever me chama — despediu-se, bagunçando os cabelos do garoto antes de passar por ele, acompanhando Lucas até uma mesa em frente. Sentaram-se com Lucas depositando as canecas sobre a mesa, enquanto ele ajeitava com o indicador os óculos que quase caíam do nariz.
- Kai, querido — Luana apertou o ombro do amigo. — Então, o Manu quebrou alguns pratos porque ele é burro para cacete, então o nosso chefe mandou-o lavar toda a louça pendente — Luana lançou um olhar feroz para o amigo, que assobiava, indiferente. — Ele vai demorar séculos se fizer isso sozinho, então eu vou ajudá-lo. Você se importa de esperar?
- Sozinho? — Kai ergueu as sobrancelhas, surpreso. — Nem pensar, Luana. Vou para casa — determinou, levantando-se e segurando sua bengala com força.
- Ai, Kai, desculpa, sério. Cê não tá com raiva da gente, né? — Luana perguntou, cautelosa, realmente preocupada com esta opção.
- Quê? — Kai riu, divertido. — Claro que não, né, Lu. O Manu é desastrado e vocês vão pagar o pato, não tem nada demais — deu de ombros, apoiando-se em sua bengala.
- Ah, e eu tô super contente por ter quebrado umas louças, não é verdade? — Manu ironizou, mal-humorado como sempre. — Vejam só, estou saltitando tamanha é minha felicidade. Vamos todos para a cozinha que eu estou fazendo uma festa — encerrou com a cara de bunda típica.
Luana teve vontade de gargalhar, mas segurou-se e empurrou o peito do amigo, recriminando-o. Olhou com preocupação para Kai; era como se ela fosse uma segunda mãe para o garoto, sempre temendo que algo pudesse acontecer com ele quando ia para casa sozinho à noite.
- Tá bom então, Kai… Mas, sério, tome cuidado, o.k.? Ai, Manu, por que você foi quebrar essas malditas louças?! Morro de medo do Kai andar sozinho à noite por aí! — Disse, virando-se para o amigo (duas cabeça mais alta que ela — na realidade, qualquer um era maior que ela) e começando a soltar os cachorros em cima do garoto, que apenas revirava os olhos, despreocupado.
- Se não for um problema… — Kale caiu de balão na conversa, surpreendendo os três ali. — Eu posso acompanhar o Kai até em casa — propôs, dando de ombros. — Sabe, eu achei o garoto muito legal, e como há poucas pessoas legais no mundo de hoje, seria sandice desperdiçar uma chance de virar amigo dele. — Explicou ao ver o olhar de surpresa dos dois.
Kai sorriu, feliz pelas palavras. Gostava de ser elogiado — quem não, não é verdade?
- Por mim, tudo bem — disse, fingindo indiferença. Manu entreolhou Luana e Kai, ainda em dúvida. Não gostava da ideia de deixar seu amigo de infância perto do surfista louco que há vinte minutos surfava só de cueca por aí. Suspirou ao ver o olhar de Luana suplicando para que ele concordasse.
- Qualquer coisa, liga — foi somente o que disse, um ‘sim’ implícito, andando de volta à cozinha.
Luana sorriu para os dois; Kai já tinha dezoito anos, mas eles o tratavam como se tivesse dez. Repetiu o que Manu havia dito, dando um beijo na bochecha de Kai e correndo para a cozinha antes que o chefe arrancasse suas orelhas.
- Te tratam como se você fosse filho deles, não é? — Kale adivinhou, aproximando-se de Kai.
- Sim — Kai confirmou, sorrindo. — Mas não me importo, me acostumei.
- Eu também me acostumaria, admito. — Gracejou, olhando para Lucas, que terminava seu café. — Vai para casa agora?
- Sim — o garoto respondeu, espreguiçando-se e se levantando. Olhou para Kai e sorriu. — Oi, Kai, sou Lucas, o melhor amigo deste imbecil — cumprimentou o garoto, que estendeu a mão para cumprimentá-lo. Lucas apertou sua mão, sorridente. Gostara do garoto, mesmo que ele não tivesse bom gosto para amizades, como ele mesmo. — É um prazer. E, pelo amor, não leva a sério o que esse cara tem para dizer, ele caiu do berço quando criança, só fala e faz merda.
- Ha-ha-ha, nossa, como você é engraçado, Lucas, o Bozo sentira vergonha dele mesmo se te encontrasse agora — falou ríspido, xingando-o mentalmente por tentar embaçá-lo na frente dos outros. — Vem, Kai. A chuva parou, vamos logo antes que ela comece de novo. E, ah, Lucas, leva minha prancha para casa, faça este favor — encerrou, olhando feio para o amigo.
Lucas apenas riu, acenando para os dois enquanto se encaminhavam para a saída da lanchonete. Kale empurrou as portas ao tentar sair, mas elas, obviamente não abriram. Só notou seu erro na terceira vez em que foi tentar empurrá-las.
- Como eu sou burro, senhor — resmungou para si mesmo, puxando-as e passando, mantendo-as abertas para que Kai pudesse passar. Quando notou que o garoto continuava com sua bengala, soltou um muxoxo, pegando na mão dele. Kai, novamente, se arrepiou ao sentir o toque gélido vindo do nada. — Não precisa de bengala, Kai, eu tô aqui.
O garoto estranhou, espremendo as sobrancelhas.
- Ué, por que não? Você irá me levar no colo? — Brincou, ouvindo-o rir.
- Olha, não seria uma má ideia, mas, não, você irá fazer o que todos os cegos fazem quando acompanhados — disse, tomando a liberdade de pegar a bengala dele e dobrá-la, divertindo-se muito ao fazer isso. Pegou o braço esquerdo do garoto, guiando-o em direção ao seu braço direito, fazendo-o apertar seu bíceps. — Viu? Assim.
Kai não se sentiu muito confortável com isso, mas não disse nada a respeito.
- Você é muito estranho. — Admitiu entre um sorriso, guardando sua bengala no bolso.
- É, me dizem muito isso.
Notas finais
Há algumas coisinhas na fanfic que não batem lá muuuito com a realidade. Adotem como ficção, o.k.? Por exemplo, a localização do café e coisitas pequenas como isso :3
Para quem gosta de ver a foto dos personagens, deixarei-as no final da nota. Se você prefere imaginá-los, sinta-se à vontade o3o
Bom, agora... Se você leu até aqui, muito obrigada, de verdade. Se você gostou, continue acompanhando. Se você gostou mais anda, dê aquela ajudinha básica nos comentários, por favor! *w* Seu apoio e incentivo é importante, obrigada o///
Kale: http://40.media.tumblr.com/a5b31b78eef28acafafb82f257f9191d/tumblr_ng7vrqzhVW1qauhoxo1_1280.jpg (Francisco Lachowski, um gat1 que vive aparecendo na internet)
Kai: http://cdn-s3-1.wanelo.com/product/image/7244551/original.jpg (um passiv-, DIGO, um alguém aleatório achado no tumblr).
Lucas: http://data2.whicdn.com/images/21213437/original.jpg (Sam Way *suspirando*)
Por enquanto, é isso. Conforme eu vá achando fotinhos dos outros personagens, vou adicionando-os aqui, o.k.?
Novamente, obrigada por ler! :3
Fale com o autor