De Coração
11 Ciúmes
Notas iniciais
Kai nunca foi adepto à festas. No geral, era porque sempre se sentia deslocado e desconfortável, preferindo mil vezes estar em casa ouvindo música e comendo chocolate.
Mas, desde que conheceu Kale, sentia-se mais… Normal. O surfista não o tratava como um poço de inutilidade incapaz de vestir as próprias calças, definindo-o por inteiro como “cego”.
Para Kale, Kai definitivamente não era o “Kai, garoto cego que conheci”. E sim “Kai, o garoto estranho que gosta de Shakespeare que conheci”. Isso, para alguns, podia não fazer tanta diferença, mas a ele… Mudava tudo.
Por isso, surpreendeu-se de verdade por ser levado a uma espécie de festa e, olhe só, gostar! Kale era um imã para pessoas. Aonde estivesse, as pessoas iriam atrás dele, interessadas. E, como Kai estava junto a ele, começou a participar de todas as conversas que o surfista estava tendo. E não porque ele era intrometido e os interrompia, e sim porque as pessoas queriam que ele conversasse.
Como, por exemplo, quando Kale achou uma mesinha vaga para os dois se sentarem, indo atrás de algumas bebidas. Kai ficou esperando sozinho por alguns momentos, podendo ouvir a falação do local, sentindo um forte cheiro de comida.
– Cê gosta de refri? — O surfista brotou do seu lado, colocando um grande copo de Coca a sua frente com um canudinho.
– Quem não gosta, Kale? — Revirou os olhos, tateando a mesa à procura da bebida.
– Tá aqui — Sorriu, apertando a mão do garoto e guiando-a para o copo cheio. — Cuidado, vai derramar…
– Own, que fofo encontrar um casal gay por aqui! Me sinto menos deslocada! — Uma mulher alta, de cabelos curtos com mechas cor de rosa aproximou-se deles, sorrindo largamente.
Kale riu, nervoso, largando a mão de Kai por causa do comentário, olhando para seu próprio copo enquanto se sentava.
– Ah, vocês são discretos? Desculpa! — A garota pediu, mas não parecia arrependida.
– Hã… — Kale começou, desconcertado. — Nós não… Somos namorados.
– Jura?! Pois deveriam ser, combinam muito! — Então ela arrastou uma cadeira para a mesinha, sentando-se de pernas cruzadas. — Muito prazer, sou Roxanne. — E estendeu a mão a Kai.
Obviamente, ele não percebeu. Estava, na realidade, concentrado demais na voz irritante, ansiosa e fina que ela possuía. Kale riu com a situação, dando um tapinha em Kai.
– Ela estendeu a mão…
– Ah! Me desculpe! — Desculpou-se, afobado, cumprimentando-a com um aperto de mão leve. — Eu não vi, estava avoado — gracejou. — Sou Kai, é um prazer.
Kale o entreolhou. Se Kai não contou que era cego, quem era ele pra contar, não é mesmo? Achou incrível as pessoas não repararem.
– E você é o Kale, certo? — Pressupôs ela, apertando a mão do surfista. — Meus parabéns por hoje! Foi sensacional aquele aéreo no final!
– Obrigado... — Kale sorriu fraco, incomodado. Não havia simpatizado com ela.
– Rox! — Uma voz feminina menos irritante soou atrás deles. Kale virou-se para olhar, dando de cara com uma moça baixa, negra e com olhos saltados, pretos iguais a petróleo. — O que você tá fazendo aí?
– Fazendo amiguinhos! — Disse ela animadamente. — Eles não são uns fofos?
A garota observou-os, um copo de uísque na mão. Então permaneceu com os olhos em Kale, entreabrindo a boca, incrédula.
– Mentira que você é o filho da puta que passou em primeiro! — Exclamou ela, chocada. — Você e aquele loirinho aguado passaram que nem tratores por mim!
Kale ficou olhando-a, pensando o quão estranha ela podia ser.
– Hã... Desculpe? — Disse, sem saber, na realidade, o que falar. Kai deu uma risadinha.
– Ao menos, você foi classificada? — Decidiu falar pelo surfista.
– Fiquei em terceira, bonitinho. — Ela respondeu com orgulho. — Mas, na próxima, eu definitivamente irei ficar em primeiro! — Avisou com muita confiança, olhando para Kale.
O surfista sorriu, estendendo a mão a ela.
– Bom sorte, então... — Fez uma pausa, esperando ela dizer seu nome.
– Ariel — e o cumprimentou fortemente, erguendo o queixo. — Pra você também. E o seu namorado, foi classificado?
Kai sentia as bochechas pinicando, por isso ignorou o comentário e bebeu de seu refrigerante.
– Eles não são namorados, Ari! — Roxanne avisou, erguendo o olhar. — Mas eles não são uns lindos juntos?
– Ah, desculpe... — Respondeu ela, mas não parecia, de fato, constrangida. — Vamos, Rox, estamos os constrangendo.
– Aah, por quê?! — Ela choramingou, pegando os dedos de Kai. — Estou apaixonada por este aqui! Aliás, você gostou do meu cabelo? — Perguntou ela, acariciando suas madeixas cor de rosa.
Kai sorriu, podendo sentir a mão delicada pressionando seu pulso.
– Ele é cego — Kale decidiu explicar, olhando para Rox com certo desdém, não gostando da forma como ela falava com ele.
– Você é cego?! — Rox e Ariel exclamaram ao mesmo tempo, não conseguindo acreditar.
– Mas seus olhos são perfeitos! — Roxanne exclamou, incrédula.
– Ah, obrigado. Dizem mesmo que castanho é minha cor. — Sorriu.
Kale riu também, adorando o bom humor de Kai.
– Então... Você nunca viu seu próprio reflexo? — Rox perguntou, sentindo-se repentinamente triste.
– Estou perdendo alguma coisa? — Gracejou novamente, fazendo Ariel rir.
– Claro que está! — Rox exclamou, espalmando as bochechas do garoto. — Você é tão fofinho, dá vontade de apertar!
Kale não se reconheceu quando sentiu uma fisgada no estômago. Não gostou nada da forma como ela tratava Kai, como se ele fosse um bichinho fofo de pelúcia. Teve vontade de arrastá-lo para fora dali, para bem longe dela.
Por isso bebeu seu refrigerante, evitando encarar a situação, porque, se encarasse, provavelmente iria discutir.
A calmaria começou quando Lucas chegou, parecendo muito afobado, o rosto rubro. Ficou tímido perante todo aquele povo, mas limitou-se a cumprimentar a todos com um “oi” educado, arrastando uma cadeira para sentar-se ao lado de Kai.
– E aí, tudo bem? — Perguntou ele, estrategicamente posicionado sob o guarda-sol, sentindo-se, ainda, quente.
Kale não conseguia parar de olhá-lo presunçosamente, como se tivesse uma conversa telepática com ele onde dizia “eu sei que você se pegou com o Antony”.
Rox e Ariel se apresentaram ao míope, que também se apresentou educadamente, logo em seguida tirando uma sujeirinha dos cabelos castanhos de Kai. O tratava como um irmão mais novo.
– Bem, bem não tá, mas tá tudo bem… — Kale grasniu, dando um leve pontapé em Lucas, indicando com a cabeça Roxanne, logo depois fazendo um coraçãozinho, para, em seguida, apontar para Kai.
Lucas teve vontade de gargalhar alto; teve vontade de fazer com que Honolulu inteiro escutasse sua gargalhada, tamanha era sua vontade de rir, tanto pela estupidez de Kale, tanto por seu ciúmes sem sentido. Não havia mais máscaras: Kale gostava de Kai, e isso estava óbvio, exceto para os dois.
Lucas nem precisou olhar para Roxanne para presumir que fosse lésbica e, ainda mais, que namorava com Ariel. Então, de forma discreta e sutil, decidiu esclarecer para o tapado da coisa.
– Vocês não precisam responder, mas, do jeito que são adoráveis, tive vontade de perguntar… Há quanto tempo estão juntas? — Perguntou ele inocentemente, um grande sorriso cúmplice em seus lábios ao encará-las.
Ari sorriu de orelha a orelha, como se aquele assunto a deixasse imensamente feliz.
– Vai fazer onze meses daqui a quatro dias. — Respondeu ela, envolvendo o pescoço de Rox com blandícia, depositando um selo no topo da cabeça da garota.
Kale sentiu como se um disco parasse repentinamente de tocar. Ficou lá, parecendo um idiota, encarando-as. Não podia acreditar que estava sentindo ciúmes de lésbicas. Fechou os olhos, pendendo a cabeça para trás, perguntando-se porque era tão idiota. Então, de súbito, parou de repente, retesando seu corpo.
Ciúmes?
Ficou lá, jogado na cadeira, encarando tudo de ponta cabeça, sua mente girando. “Por que diabos eu tô com ciúmes dele?!”.
– Kale? — A voz do garoto o despertou, fazendo-o acordar num solavanco, encarando o rosto plácido de Kai.
– Oi?
– Você poderia, por favor, pegar algo para eu comer? — Pediu, meio envergonhado.
– Claro. O que você quer?
– Sei lá, pode ser carne. — Deu de ombros. Quando Kale se levantou, Lucas o interrompeu.
– Imagina, Kai, eu vou lá pegar. Eu também tô com fome, aproveito e pego para nós dois, tudo bem? — Disse ele, arrumando os óculos sobre o nariz, metódico.
– Ah, tudo bem, obrigado.
Lucas sorriu, andando calmamente até a parte onde se encontrava as panelas e churrasqueira. Arrumou para si mesmo um prato, ajeitando-o ao seu favor, completamente encabulado ao estar em torno de tanta gente. Lucas parecia um fantasma perto de todos aqueles surfistas bronzeados.
Surpreendeu-se quando sentiu sua camiseta ser puxada. Olhou para baixo, sorrindo ao encontrar Nicholas. O garoto estava todo sujo de terra, o cabelo louro já enegrecido tamanha sua sujeira.
– Lu, você viu o meu irmão? — Perguntou, e Lucas percebeu que ele estava acompanhado por uma garotinha.
– Bom, da última vez que eu o vi, ele estava conversando com o recepcionista a respeito da reserva pra você e ele — ignorou a lembrança quente de há alguns momentos. — E, oi! Quem é sua amiguinha? — Perguntou o míope, sorrindo amigavelmente para a garotinha.
Nick riu como se Lucas tivesse contado uma piada hilária.
– Ele não é uma menina! É o Leo — contou como se fosse muito óbvio.
Seria mesmo óbvio se Leo não estivesse usando um vestido. Seus cabelos eram curtos, castanhos escuros e chamuscados na ponta. Quando ele ergueu os olhos, sorriu, segurando a base de seu vestido preto com botões brancos.
– Você gostou do meu vestido? Minha mãe que fez! — Disse ele, todo animado, dando uma voltinha.
Lucas ficou encarando-o com os lábios crispados, completamente pego de surpresa. Nunca, nem em um milhão de anos, seria contra garotos usarem vestidos, mas nunca imaginou que um garotinho tão precoce já estivesse em conflito com sua identidade.
– Ele é lindo — elogiou, mordendo a bochecha. — Nick, se eu ver o Antony, eu aviso que você tá procurando por ele.
– Tudo bem! — Sorriu, mas logo foi surpreendido por Leo, que agarrou sua mão, puxando-o.
– Enquanto isso, vamos lá brincar! — Disse, acenando para Lucas enquanto continuava puxando o garoto.
O míope sorriu fraco, ainda processando a situação. Voltou à mesinha aonde estava sentado anteriormente, e surpreendeu-se com a quantidade de pessoas que havia se juntado naqueles cinco minutos afastado. Havia um rapaz negro com cabelo rastafári sentado em seu lugar, bebendo um copo de tequila, conversando com Kale. Do outro lado da mesa, tinha um garoto alto e meio magrelo conversando com um cara do tamanho do Manu, uma tatuagem de dragão atravessando suas costas.
Novamente sentindo-se um intruso no ninho, aproximou-se devagar, colocando na frente de Kai um prato com carne que havia pego.
– Obrigado — Kai agradeceu, à procura de um garfo.
– Este é o Lucas — Kale apresentou-o como se estivessem falando do míope há segundos. Todas aquelas cabeças se viraram em direção ao pobre Lucas, que apenas acenou timidamente. Odiava aquele tipo de coisa, já que lhe dava uma terrível sensação de julgamento.
No fim, Kale pegou uma cadeira para Lucas se sentar ao seu lado, continuando a conversa como se nada tivesse acontecido.
– Você tem um puta azar de ser amigo deste cara — o rapaz com rastafári disse a Lucas, apontando para Kale. — Ele só fala porcaria, sabia disso? — Seu tom de brincadeira tinha um forte fundo de verdade.
– Claro que sei — grunhiu, olhando para o surfista. — O conheço há anos, infelizmente.
– Que legal! E vocês se conheceram antes ou depois de você se descobrir gay? — Roxanne perguntou, seu ar ingênuo de quem pergunta aquilo despreocupadamente à tona.
Lucas e Kale trancaram o maxilar.
Ambos estavam tensos e gelados, perguntando-se o quão maldita aquela garota poderia ser. Se entreolharam, tendo uma conversa telepática nervosa sobre admitir ou não admitir.
A questão não era, em si, admitir, e sim admitir perto de Kai.
Kale não queria, de forma alguma, que Kai soubesse que Lucas era gay e que ele era bissexual. Não sabia que tipo de reação ele teria, e, caso Kai começasse a evitá-lo, não saberia o que fazer.
– Antes — Lucas respondeu, firme e forte como uma rocha. Acabara de tomar uma posição: dane-se se Kale queria omitir ou não sua sexualidade para Kai; não iria se dar ao mesmo trabalho. — Mas apesar de ser um completo babaca, ele me aceitou.
O surfista estava incrédulo, olhando para Lucas como se ele o tivesse traído absurdamente. Depois olhou para Kai, que se mantinha impassível, mastigando calmamente seu pedaço modesto de carne.
– Vou pegar um uísque, já volto — disse o surfista, realmente necessitando beber depois daquilo.
Ariel cutucou Rox, como se lhe repreendesse terrivelmente. As duas começaram a discutir, e Lucas sentiu-se incomodado com os olhares que estava recebendo do garoto magrelo e de seu amigo colossal com tatuagem de dragão. Ambos passaram rindo debochadamente.
– Sempre tem um viado… — O magrelo tagarelou com seu amigo, passando despreocupadamente por trás da cadeira de onde o míope estava.
Lucas já havia passado da fase em que aguentava insultos. Levantou-se de súbito, virando-se na direção dos dois.
– Sempre tem um o quê? — Rosnou, sem papas na língua. — Não sou eu quem está parecendo uma gazela indefesa que só insulta aos outros na companhia do namoradinho — e apontou para aquele protótipo de gigante, talvez alguns centímetros menor que Manu.
– Hey, hey, o que está acontecendo aqui? — O homem com rastafári interveio quando os dois brutamontes se viraram para Lucas, os punhos cerrados.
– Nada. Somente aquela típica ceninha “xingo os outros mas não aguento ser xingado”. Está na rotina de homofóbicos hipócritas, obviamente sexualmente mal resolvidos — Lucas grunhiu, a língua afiadíssima em ação.
Kai ficou boquiaberto, ouvindo a confusão com atenção, não querendo perder nenhum detalhe. Ficou surpreso pela ousadia de Lucas e por sua coragem — pelo o que ouviu, estavam em dois.
– Você tá querendo apanhar né, seu viadinho filho da puta? — O magrelo realmente estava disposto a xingar Lucas. O outro somente o encarava, mudo.
– Tem certeza que não está se referindo a si mesmo?! — Lucas empurrou a cadeira para o lado, os olhos faiscando por detrás das lentes.
– Lucas, vamos nos acalmar… — O homem com rastafári pediu, apontando para Ariel e logo em seguida para Kale, que já enchia pela terceira vez seu copo com uísque. A surfista entendeu, esgueirando-se discretamente até aonde Kale estava. — E, ei você, cara, para de ser idiota. Estamos aqui para curtir, não para brigar, apenas pare.
– Sabe o que é isso? — Rox obviamente não sabia ficar quieta. — É inveja, porque os dois ficaram com as últimas colocações, enquanto o Lucas é o melhor amigo do primeiro colocado! — Disse como se fosse muito sábia, erguendo o nariz.
Os dois olharam um para o outro, soltando risadas desaforadas logo em seguida.
– Primeiro, segundo ou último lugar não faz diferença quando você tem talento. — O magrelo praticamente cuspiu as palavras. — Ao menos conseguimos entrar na água, diferente de você. Vamos embora, Brand, já percebi que não somos muito bem-vindos — e sorriu, cínico, andando e sendo acompanhado pelo garoto colossal atrás de si.
Lucas bufou, sentindo os poros explodirem tamanha a raiva que passeava por seu corpo. Sua vontade era chamá-lo de volta e lhe dar uns belos socos para ele aprender a virar gente. Kale veio voando na direção do míope, os braços pateticamente dispostos em pose de luta.
– Cadê ele?!
– Já foi — Lucas respondeu, cruzando os braços com um suspiro. Ainda sentia os punhos trêmulos de raiva, como se estivesse realmente disposto a bater muito naquele magrelo cabeçudo.
– Você o enxotou daqui? — Kale perguntou, apoiando-se na cadeira aonde estava sentado anteriormente.
– Sim, foi épico — Kai se pronunciou com um sorriso. — Seu tom era cínico, mas ele com certeza estava com medo.
Lucas e Kale se entreolharam. Nenhum dos dois esperava tanta indiferença de Kai em relação à sexualidade de Lucas. O míope sorriu torto.
– E você tão preocupado... — Lucas riu, podendo gargalhar ainda mais ao ver a expressão de "puta merda" do surfista.
– Tô a fim de socar alguma coisa, por que você não me chamou antes para eu descontar no moleque? — Disse ele, e Lucas ficou em dúvida se era ou não uma brincadeira.
– Poxa, Lucas, você realmente deveria tê-lo chamado, eu iria adorar ver essa cena. — Kai gracejou, bebendo de seu refrigerante, os dedos sujos de molho. — Alguma alma caridosa pode, por favor, me dar um papel? — E ergueu os dedos lambuzados.
Kale andou até onde Kai estava, pegando um dos guardanapos, agarrando a mão do garoto e limpando seus dedos de forma carinhosa.
Todo mundo percebeu.
Ariel tampou a boca de Rox antes que ela soltasse uma de suas pérolas, provavelmente algo como 'como assim vocês não são um casal?!' meio indignada. Lucas engoliu em seco, completamente incrédulo de como Kai não percebia nem um pouco as insinuações completamente inocentes de Kale. Talvez seja porque Kai também era isento de maldade, principalmente porque não "via" ruindade nas ações do surfista.
– Cê eu estiver gripado e pedir um lenço, cê vai limpar meu nariz, também?
– Só se você pedir com jeitinho. — Kale respondeu, apenas levemente alterado por conta da bebida. Sabia beber e era extremamente forte em relação à bebidas alcoólicas, dificilmente perdendo o controle sobre si mesmo.
Kai fez uma careta desgostosa, quase cômica, como se o que tivesse ouvido fosse ridículo.
– É impressão minha ou você fica meio gay quando está bêbado? — O garoto podia sentir o cheiro de uísque impregnado na roupa do surfista.
– Não estou bêbado — Kale franziu as sobrancelhas.
– Então você é meio gay sempre? — A piada de mal gosto era marca registrada.
Risadas estrondosas romperam de todo o ambiente. O homem de rastafári era o que mais gargalhava, dando um tapa forte e amistoso no braço de Kai, quase desmontando-o inteiro.
– Adoro este garoto! — Exclamou, apontando logo em seguida para Kale, como se estivesse realmente tirando uma com sua cara.
– Mas ele de fato é meio viado, a outra metade se interessa por more- — Lucas iria continuar se Kale não o chutasse na canela. — Ai, porra!
– E sobre você, vou ensiná-lo a ter respeito! — Seu tom incitava certa prepotência, mas seus atos eram bobos. Kale envolveu o braço esquerdo no pescoço de Kai, encaixando seu cotovelo no queixo do garoto, fingindo lhe dar um mata-leão, puxando-o da cadeira com certa força.
– Para de ser infantil, Kale! — Kai pediu, apertando o braço de ferro do surfista. Não estava machucando-o, nem ao menos o apertava, mas sentia-se incomodado em seu corpo todo. Kale estava, por inteiro, colado nele. As costas do mais novo estavam pressionadas contra o tórax e no abdômen de Kale, sua região lombar sendo pressionada por suas coxas e pélvis, lhe dando uma sensação terrivelmente estranha. Apertou os olhos com força, dando dois passos para frente quando se lembrou, de súbito, do episódio do banheiro. Gemeu entrecortado, tentando se livrar do aperto maciço de Kale, sentindo-se ridículo por ter aquela espécie de pensamento. — M-me solta, tá machucando! — Mentiu, jogando a toalha quando suas próprias coxas se retesaram.
Era ilógico.
Completamente ilógico.
O surfista o soltou imediatamente, assustado com o que fez. Viu Kai acariciar a garganta, como se de fato tivesse machucado.
– Sério que te machuquei? Desculpa, Kai, de verdade. Não era nem de longe minha intenção, me perdoa.
– T-tudo bem... — Disse ele, voltando a se sentar com certa dificuldade, constrangido. Mas ninguém havia notado nem dado bola a uma briguinha ridícula de dois rapazes bobões.
Sentia-se estranho, extremamente afetado, um desconforto latejante em suas coxas. Recusou-se a acreditar que aquilo era uma possível ereção.
Não podia acreditar.
Não. Podia.
Kale Iwin não podia ter lhe dado uma ereção. Não, era fora de cogitação. Ambos eram homens, e Kale era um panaca. “Kale não me deixou excitado, foi só uma brincadeira!” disse a si mesmo, apertando a barra do shorts ao mesmo tempo em que mordia os lábios.
Estava negando até alma. No episódio do banheiro, negou também, até convencer a si próprio que não ejaculou pensando em Kale. Negou tanto, que acabou aceitando e comprando como verdade — Kai era ótimo para aceitar coisas ao negá-las.
– Tá tudo bem mesmo? Você tá um pouco… Pálido. — Foi acordado de seus devaneios pela voz do surfista, que lhe passava genuína preocupação. — O que aconteceu com sua perna? — Então tocou com gentileza a mão do garoto, que estava pressionada contra sua coxa, propositalmente amarrotando o shorts, a fim de esconder sua possível ereção.
– Nada! — Praticamente berrou, dando um tapa na mão do surfista com força, em pânico. Agradeceu por ninguém perceber novamente, já que um cara desastrado derrubou alguma coisa, todos prestando atenção nele e na bagunça que havia feito.
Kale nem teve a chance de mostrar sua cara de chocado direito. Uma garota magricela pulou em suas costas, puxando-o para baixo.
– Você é o Kale, certo? — Perguntou, toda animada. — Estão chamando todos os competidores no salão, para participarem dos joguinhos em grupo.
Kale ainda estava chocado demais para pronunciar alguma coisa.
– Muito obrigado, mas não gosto nada de joguinhos, principalmente os parecidos com ‘o da garrafa’. — Lucas negou gentilmente a uma mulata que também lhe convidou.
– Tudo bem — sorriu ela, andando até Kai. — E você, fofinho, vem?
– Claro que ele vai! — Roxanne sorriu, agarrando Kai. — Vai ser divertido demais para ele ficar de fora! Tem que interagir mais com outras pessoas, Kai.
O garoto apenas se sentiu ser puxado fortemente por Rox, que, impressionantemente falando, tinha muita força. Foi arrastado contra sua própria vontade, perdido.
– Na realidade, eu não gosto nem um pouco desse tipo de jogo.
– Não importa, você tem que participar! Vai que cai entre nós? Vou ter a chance de te dar uns beijinhos! — Brincou ela, rindo e abraçando-o, extremamente amorosa e apegada. Roxanne era do tipo que amava coisas e pessoas que julgava como “fofas”.
Kai crispou os lábios, nada satisfeito. Ainda sentia uma espécie de formigamento indesejável entre suas pernas, mas felizmente estava conseguindo se acalmar. Era ridículo pensar na hipótese de ficar excitado por causa de uma espécie de abraço — e nem ao menos foi um abraço!
Kale só acordou ao ouvir ‘vou ter a chance de te dar uns beijinhos’. Piscou, tenso, olhando de esguelha para a garota ainda em suas costas.
– Hm, claro, vamos… — Respondeu-a, incerto, apenas correspondendo no automático quando ela lhe puxou, guiando-lhe para aonde aconteceria os jogos. No caminho até lá, encarregou-se de pegar dois copos de tequila, bebendo-os em goles únicos.
– Tá na cara que você não é muito fã disso aqui — Ariel adivinhou, bebericando um copinho com vinho. — Eu também não sou.
Ambos se sentaram lado a lado em um banco circular, que ficava em frente a uma mesa redonda, onde vários surfistas competidores estavam já acomodados. Kale estava sentado entre Ariel e Roxanne (que estava sentada entre ele e Kai, ainda feliz ao lado do garoto, que apenas sorria forçadamente.
– O.k., então, todos os lugares já foram preenchidos? — Um surfista louro e bronzeado perguntou, colocando uma garrafa de vidro no centro da mesa, sorrindo ao olhar em volta. — É muito simples, acho que todos sabem como jogar, certo? Mas, apenas de praxe, vou explicar. A base e a ponta da garrafa vão definir quem beijará quem, o.k.? — E, dito isso, girou o objeto com força.
Kai e Kale não tinham, nem de longe, pensamentos e ideais iguais. Mas, naquele instante, seus desejos estavam sincronizados: ‘não caia em mim, não caia em mim!’. E suspiraram ao mesmo tempo, em alívio eterno quando a ponta e a base da garrafa pararam entre um garoto mestiço e uma jovenzinha loura.
Os dois deram um selo tímido, recatados, tendo de se inclinar bastante para conseguirem se beijar. Exclamações de “isso é beijo de fundamental!” se alastraram por toda o cômodo, fazendo-os ficarem rubros por causa do constrangimento.
Uma garota que estava sentada ao lado do rapaz louro girou a garrafa em seguida, curiosa para saber qual seria o próximo casal. Acabou que ela mesma caiu com outra garota. As duas, apesar das reclamações, acabaram por também selarem os lábios, fazendo caretas desgostosas em seguida.
Uma sequência de quatro casais aconteceu depois disso. Um hétero e três homossexuais, por conta da quantidade de surfistas masculinos presentes na brincadeira. Todos eles se beijavam com caras de desgosto, como se tocar em outros lábios masculinos fosse a pior coisa do universo.
Uma garota baixinha e morena ao lado de um dos surfistas classificados girou a garrafa. Todos olhavam com expectativa para a boca da garrafa, alguns temerosos e outros ansiosos com o resultado.
– Ah, não, meu Kaizinho! — Roxanne praticamente rosnou de desgosto quando a boca da garrafa apontou para Kai, que parecia alheio à toda a brincadeira.
– O quê?! — Ele e Kale exclamaram ao mesmo tempo, atônitos.
Kale sentia seu estômago arder, dolorosa e incessantemente. Não sabia se era culpa do uísque misturado à tequila, ou se era porque a ideia de ter Kai beijando outra pessoa fosse absurda demais para ele aguentar. Pressionou o estômago, preferindo muito mais a primeira opção.
A garota baixinha sorriu, as bochechas rubras com o resultado. Suas amigas lhe deram ombradas juntas com sorrisinhos, apontando para Kai num gesto de incentivo. Ela, então, se levantou num salto, todos assobiando e não se cansando de dizer como Kai era sortudo por ter saído com uma garota e, ainda por cima, bonita.
– Sério isso? — Kai estava confuso com toda aquela barulheira. Apenas assustou-se quando sentiu uma mão tocando delicadamente seu ombro. — Hã… Oi?
– Oi! — Uma voz delicada e feminina o cumprimentou, meio tímida. — Você é muito fofo, sabia disso? — Ela sorriu em seguida, como se dizer aquilo a enchesse de constrangimento.
Kai se retesou, sorrindo de lado, feliz pelos elogios. Sentiu quando foi puxado, obviamente uma preparação pelo beijo que iria receber.
E iria mesmo. Talvez, numa outra dimensão onde a vida de Kai fosse abençoada com a inexistência de Kale, aquele beijo poderia ter acontecido.
Mas, na dimensão em que viviam, o cenário era diferente.
Kale mandou tudo para o inferno e culpou a bebida. Quando o rosto daquela garota — e ela nem era tão bonita assim, aliás — estava bem próximo do rosto de Kai, o surfista explodiu. Roxanne pôde presenciar tudo: Kale serpenteou seu braço por detrás de suas costas, alcançando o rosto da garota com hostilidade, empurrando-o sem cerimônias.
– Kai, vem — determinou com uma voz dura, ignorando o olhar chocado de todos ali, inclusive o da garota, que estava caída no chão, a boca boquiaberta.
– O que diabos você está fazendo?! — Kai gritou ao ser puxado com rudeza pelo salão, podendo ouvir claramente os murmúrios de indagação ao se retirarem pela porta. — É sério, me solta!
– Se eu te soltar, você vai voltar para lá, não vai? — Kale ponderou, parando de andar quando estavam no parquinho, em frente ao hotel. Diversas crianças brincavam no balanço e no escorregador, inclusive Nicholas e seu novo amiguinho.
– E daí se eu voltar? Você tem alguma coisa a ver com isso?! — Kai forçou seu pulso, querendo se libertar do outro. — Por que as pessoas acham que podem controlar a minha vida?! — Grunhiu, mais indignado do que chateado.
– Eu não tô querendo te controlar. Apenas estou sendo sensato!
– Você? Sendo sensato? Ah, o.k., Kale, boa piada. Pode falar a verdade, eles estavam fazendo alguma sacanagem, não é?
– O quê? Não, Kai, claro que não. É que eu… — Tentou achar formas de se explicar, mas a verdade é que não havia razão. Talvez houvesse uma, mas Kale era lento demais para descobrir qual era. O soltou, relaxando os ombros, tentando ser sincero. — É, realmente, me desculpa. Não era minha intenção querer controlá-lo, é que… Eu vi como você foi simplesmente arrastado pela Rox, como estava ali de má vontade, assim como eu. Só achei que… Você não quisesse. Mas tudo bem, podemos voltar.
O surfista se afastou um passo, o enjoo fervente em seu estômago retomando com tudo junto com o pensamento de que aquela garota estaria os esperando.
– Na realidade, eu odeio esse tipo de jogo. — Kai admitiu de repente, suspirando enquanto pressionava os olhos, as mãos enfiadas no bolso. — Nunca passou pela minha cabeça que alguém consideraria me beijar de verdade. Eu meio que fiquei feliz por um instante, mas acabei de me lembrar que é apenas um joguinho — encolheu os ombros, sentindo-se um verdadeiro tolo.
– C-como assim, alguém considerar te beijar de verdade? — Kale indagou, temeroso em relação à resposta. Então, como se levasse um balde d’água fria na cabeça, complementou: — você nunca beijou ninguém, Kai? — A pergunta pegou a ambos de surpresa. Kale arregalou os olhos, como se duvidasse da própria indagação.
– É muito ridículo alguém ter dezoito anos e nunca ter beijado ninguém? — Encolheu ainda mais os ombros, sentindo-se desconfortável. — Não ria de mim. Meu horizonte não é tão grande como o seu. Geralmente as garotas só gostam de dizer ‘uau, ele é cego, que fofinho’, e me deixam nesta posição de objeto fofo para sempre. Ninguém realmente nunca me tratou como um ser humano sexualmente ativo e propenso a ter desejos ou, ainda mais, lábios. — E riu de sua própria piadinha. — Mais um lado ruim de ter deficiência: seu bv será muito provavelmente prolongado.
Kale engoliu em seco, sem saber o que dizer. A tequila já não era desculpa, estava completamente consciente.
– Você não acha traumatizante ter seu primeiro beijo num joguinho ridículo com alguém que nunca viu na vida? — Decidiu perguntar, olhando em volta, para as crianças.
– Primeiro de tudo: você acha que eu sou o quê? Uma garotinha de onze anos? E, segundo: eu não a veria de qualquer forma. — Kai suspirou, cruzando os braços. — Eu sei que não deveria ter sido tão grosso com você, mas é errado eu me sentir bem por isso? Você sabe, por alguém se sentir atraído por mim?
Kale sentia seu interior formigar. Para ele, era ridículo se sentir assim só com uma simples frase pronunciada por Kai.
– Definitivamente, não é. Mas, na boa, eu realmente não acho que isso seja um problema. Porque um ‘problema’ é para ser algo difícil de se resolver, não é? E um beijo é algo tão simples… Por exemplo… — E, para ilustrar o que dizia, espalmou o rosto de Kai, virando-o gentilmente e beijando-o atrás de sua orelha.
O garoto jamais pensou que ficaria tão chocado. Atônito e com a nuca latejando como se os lábios de Kale fossem feitos de lava, permaneceu quieto, os olhos levemente arregalados.
– V-você realmente está bêbado, Kale. — O garoto se pronunciou, sentindo seu corpo inteiro ferver. — Muito bêbado.
– Nem tô, Kai.
– Tá sim. Se você estivesse sóbrio, nunca faria algo como isso. E-eu preciso ir para casa. — Deu dois passos para trás, pronto para sair dali ao enfiar sua mão no bolso, à procura da bengala.
– Por que você acha que eu não faria isso caso estivesse sóbrio? E, espera aí, como assim, ‘ir embora’? Como que você vai?
– Usando minhas asas, é óbvio. Por que, você não está as vendo? Ah, é verdade, elas são invisíveis para gente idiota — tentou se afastar quando sentiu Kale tocando-o no antebraço. — Amanhã, quando você estiver sóbrio, a gente conversa. — Encerrou o assunto, acionando sua bengala e andando pelo gramado do parquinho com pressa, deixando Kale com cara de pateta para trás.
O surfista pressionou os olhos, cerrando os punhos como se quisesse se maltratar.
– Caralho, eu sou muito idiota! — Bradou para si mesmo, mordendo a própria mão em seguida.
Nick e Leo, que estavam sentadinhos no balanço, estavam mais do que chocados. Presenciaram a cena inteira, o maxilar caído tamanha incredulidade.
– Você viu isso?! — Nick indagou, baixinho, como se estivesse compartilhando uma confidência. — Ele falou palavrão! — Disse horrorizado, encarando Leo.
– Mais do que isso, Nick, ele beijou outro garoto! — Apertou a corrente do balanço com força, mordendo os lábios.
– O que é que tem? — Nick desprezou completamente a situação, erguendo uma sobrancelha.
– Não é errado? — Leo abaixou a cabeça, batendo seus calcanhares.
– Errado é falar palavrão, Leo. — Determinou, muito sério, os fios louros acastanhados tamanha a quantidade de terra em seu cabelo. — O meu irmão é o maior gênio do universo, e ele diz que falar palavrão encurta nossa vida. — Ergueu o queixo como se estivesse falando coisas muito sábias. — Mas ele gosta de garotos, e isso não encurtou a vida dele, então não tem como ser errado! Ele até tem um namorado, o Lucas — e sorriu, animado por falar do míope.
– M-mas… — Leo estava confuso, tudo o que ouvia em casa entrando em conflito com o que ouvia de seu amigo. — M-meu pai diz que garotos que gostam de outros garotos irão para um lugar longe de Deus…
– Será que neste lugar tem chocolate? Porque, se o meu irmão vai para lá, eu quero ir com ele. Mas se não tiver chocolate, eu acho que não vou, não… — E juntou as sobrancelhas, realmente pensando no assunto.
Leo ficou encarando-o, o queixo meio caído. Nicholas era apenas um ano mais novo que ele, e ainda era mergulhado em ingenuidade.
– Mas, vamos parar de nos preocuparmos com isso — Nicholas finalmente disse, acompanhando com o olhar o andar desengonçado de Kale para fora do parquinho. Saiu do balanço com um pulinho, posicionando-se atrás de Leo. — Amanhã começam as aulas, então vamos aproveitar — e, de súbito, empurrou as costas de Leo com força, balançando-o. — Vamos revezar. Eu te balanço um pouquinho, você me balança um pouquinho, tá bom?
Leo apertou com mais força as correntes do brinquedo, sentindo uma brisa gostosa envolvendo-o à medida que ia mais alto. Seu vestido parecia flutuar junto consigo, os cabelos bagunçando-se mais e mais. Sorriu, fechando os olhos, sentindo a sensação gostosa de queda e de segurança atingindo-o em harmonia. A qualquer momento sentia que iria sair voando dali, quase liberto.
– Tá bom — decidiu responder, seu sorriso alargando-se à medida em que ia mais alto.
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