De Coração

12 Isso Também Não Foi um Beijo


Notas iniciais
Olááá, chuchus! Como estão vocês? Demorei nada desta vez, não é? OJAOAOJJOA Tô muito inspirada ultimamente, tomara que permaneça assim por muito tempo HAHAH! Booom, antes de tudo, quero agradecer imensamente a todos que comentaram no cap. passado, vocês me deixaram muito feliz! Agora, sobre este capítulo: preparados para a chatice crônica do Kale? Porque vocês a terão ajskasasa Pobre Lucas xD Espero mesmo que vocês gostem do capítulo, Boa Leitura!

“Ow, vc chegou bem?”

“eu n queria ter feito aquilo. vc vai me odiar pra sempre?”

“do jeito que vc é, provavelmente vai ignorar todas as minhas mgns até esfriar a cabeça e me responder”

“n vou cobrar uma resposta”

“mas queria saber se vc tá bem”

“de preferência hj msm”

Ele seria mais fofo se fosse menos chato e insuportável — Luana admitiu, segurando com delicadeza os fios acastanhados de Kai, cortando-os com atenção de uma profissional. Ambos estavam na sala do apartamento da garota, Kai sentado numa cadeira em frente à TV, recebendo o corte de cabelo de Luana.

Essas mensagens eram do dia anterior, no domingo, dia da competição. Kai simplesmente decidiu espairecer sobre o ocorrido com Luana, preferindo dormir na casa dela para que eles pudessem conversar mais tranquilamente a respeito do assunto.

O garoto de fato ignorou todas as mensagens de Kale, nem se dando ao trabalho de abri-las para ouvi-las. Só no dia seguinte, quando Luana decidiu cortar seu cabelo, que ele as selecionou para ouvir juntamente com ela.

– O Kale alcançou níveis astronômicos de chatice. — Confessou, guardando o celular, não estando a fim de respondê-lo. — O que ele é? Uma garota carente?

– Ah, não é possível. Aquilo não era enchimento, pode apostar — sorriu com os lábios crispados, lembrando-se da agradável cena de Kale surfando seminu no dia anterior.

Kai ficou boquiaberto, sentindo seus fios serem repuxados com carinho.

– Eu não acredito que você ficou reparando! — E começou a rir em seguida, surpreso pela perversão dela. — Luana, sua safada!

– O quê?! Não tenho culpa! Era realmente impossível não reparar! O Kale é tipo um bolo de casamento ambulante, não dá para passar batido! E, senhor, que vela, Kai… Que vela… — Pensou, sonhadora, parando de cortar o cabelo de seu amigo para devanear.

Kai pressionou os olhos, rindo como se ouvisse a melhor piada do universo.

– Deixa só o Manu saber disso, Lua. Ou você vai ficar cega, ou o Kale vai ter sua velinha apagada… — E riu, pensando o quão idiota aquela comparação podia ser.

Luana alargou o sorriso, colocando a tesoura sobre o balcão, pegando o pente e começando a arrumar levemente os fios já mais curtos de Kai.

Pff, por que diabos ele faria isso? — Desprezou completamente a situação, rodeando Kai, parando a sua frente. — AH, meu Deus! — Exclamou de repente, pega de surpresa. — Como você está lindo! — Contemplou-o por um instante, realmente admirada. — Poxa vida, você tem que cortar o cabelo mais vezes!

– Você sabe que eu só corto quando ele começa a irritar meus olhos. Mas, de qualquer jeito, obrigado. — Agradeceu-a, sentindo quando a toalha de rosto fora despregada de sua camiseta, sentindo-se livre para movimentar os braços. — Deixando minha beleza nauseante de lado, vamos voltar ao tópico Manu.

– Depois de ontem, eu quero mais é que o tópico Manu vá para o inferno.

– Desde quando seu apartamento é chamado de ‘inferno’? Eu sei que Pono é um demônio, mas, poxa vida… — Nem eram oito da manhã e o humor Kai já estava com tudo.

Luana pegou a toalha salpicada de cabelo e a enrolou, batendo em Kai no ombro, restringindo-o.

– Não a chame de demônio, Manu dois! — Ralhou, fazendo uma careta ao lembrar-se do cozinheiro. — E por que você tem que me lembrar que ele existe?

Kai se levantou, balançando sua camiseta para retirar os resquícios de fios.

– Por que, sei lá, ele virá aqui hoje? — O turno dos dois naquela segunda feira começaria apenas às duas da tarde. — Fazer, além do nosso café, nosso almoço. Claro, você realmente odeia ele. — Gracejou, sentindo o focinho gélido de Pono em sua canela. — Não é, cadelinha infernal? — Perguntou a ela, pegando-a por debaixo da barriga ao se sentar no sofá.

Luana revirou os olhos, abanando a toalha na janela, tirando os cabelos repicados.

– Por mim ele bem que poderia parar de vir, depois do que ele fez ontem — grunhiu, realmente nervosa pelo comportamento do cozinheiro. — Qual é, eram meus amigos! E era uma conversa!

– Kale me disse que você foi carregada que nem uma princesa. Foi até romântico, segundo ele — e sorriu quando recebeu uma almofadada.

– Romântico?! Foi ridículo! E ele ainda teve a coragem de reclamar quando eu chutei o saco dele!

– Uau, você alcançou? — Não se surpreendeu quando recebeu outra almofadada. — Para, Luana! — Tentou se defender com a mão. Sorriu largamente quando Pono latiu para a porta quando a campainha tocou. — Finalmente ele chegou, tô com a fome de dez mendigos.

Luana enviou uma mensagem a si mesma: "é só o Manu, o cara que você conhece há quinze anos. É só ele, mais ninguém, não é uma pessoa diferente, é apenas o Manu". Jogou a almofada em Kai e andou em direção à porta.

Atendeu-o com a maior cara de indiferença, fingindo não se preocupar com o que ocorreu no dia anterior.

Manu, de fato, era o mesmo de sempre. Trazia consigo uma sacolinha plástica, carregada de ingredientes que usaria para preparar o café e o almoço.

– Oi — ambos se cumprimentaram ao mesmo tempo, monótonos e com uma falsa indiferença.

Luana deu espaço para que Manu passasse, vendo-o adentrar o apartamento com aquela postura típica de quem era naturalmente prepotente.

– E aí, Kai — cumprimentou-o com um afago carinhoso na cabeça, acariciando com esmero os fios repicados. — Cê ficou bacana, deveria cortar mais vezes o cabelo — aconselhou com sinceridade, afundando os dedos numa área perto da orelha. — Tem uma falha aqui. Por que você não cortou comigo?

– Quem disse que está falhado?! — Luana aproximou-se como um raio, encarando com indignação o cabelo do garoto que, em seu ponto de vista, estava impecável. — Pare de botar defeito nas coisas, o corte está perfeito!

– Desde quando isso é perfeito, Luana?! — Grunhiu, cutucando o couro cabeludo de Kai, que estava com uma pequenina falha. — Olha o buracão que tá aqui!

– Buracão é o seu...

– Opa, opa, opa! — Kai sorriu, erguendo as mãos, interrompendo-os. — Por favor, não danifiquem meu nobre sistema auditivo com palavras esdrúxulas. Vamos lá, gente, ainda é cedo para brigas. Deixem este estresse na hora em que estiverem longe de mim. — Aconselhou, levantando-se de repente, colocando Pono sobre o sofá com cuidado. — E eu estou com fome.

– Trouxe um bolo de chocolate que fiz ontem, você quer? Ou quer que eu faça outra coisa?

Kai apenas se dirigiu à cozinha, pegando talheres e sentando-se à mesa com conforto, sorrindo quando Manu avisou-o que o pedaço estava disposto à sua frente.

Para que pagar um restaurante ou cabeleireiro quando se tem amigos?

***

Quando chegou em casa, à uma da tarde, Lucas ponderou seu conceito sobre ‘melhor ‘amigo’. Será que no contrato está marcando “mortes podem ser justificadas caso um dos integrantes desta amizade seja Kale Iwin”? Porque, de fato, ele iria matá-lo.

Seu expediente fora exaustivo, cheio de gente burra com balanços mal feitos, tendo que ele mesmo arrumá-los, chefes reclamões e muitas, mas muitas contas. O dia foi completamente estressante, e a única coisa que queria era chegar em casa, tomar um banho e despencar na cama.

Mas, assim que pisou no apartamento, Kale recebeu-o de forma afobada, o telefone celular em mãos, praticamente esfregando-o na cara do míope.

– Ele é um filho da mãe, Lucas! — Exclamou, parecendo muito magoado e chocado. Estava apenas com uma samba-canção vermelha de bolinhas azuis, os pés descalços gélidos por conta do piso. — Olha aqui! Ele me ignorou tantas vezes que tô até fabricando meu papel de trouxa para vender na papelaria da esquina!

Lucas suspirou, sem ânimo para respondê-lo. Apenas pegou o aparelho com monotonia, lendo as mensagens no automático.

– Mas, caramba você também, hein! Foi simplesmente jogando as mensagens na cara dele, sem dá-lo ao menos a chance de respirar.

– Eu só queria saber se ele está bem! — Kale defendeu-se, coçando a cabeça. — Poxa vida, Lucas, foi tão errado assim o que eu fiz? E, além do mais, não me interessa se ele me perdoará ou não, só me interessa saber se ele está bem! — Disse, muito preocupado.

Lucas apenas suspirou, jogando a toalha. Ficou encarando-o com o olhar de peixe morto.

– Kale, nem todas as pessoas raciocinam da mesma forma que você. Às vezes ele só está confuso, perdido... Você me disse ontem que ele nunca se relacionou com ninguém antes, então ele deve estar se sentindo inseguro. Se ponha no lugar dele: um cara que é seu amigo há pouco tempo simplesmente o beija, bêbado, depois enche seu saco com mensagens típicas de gente carente! — Tentou imaginar sua situação. — Apenas... Dê tempo a ele, tudo bem? Eu vou-

Quando ia dizer "tomar banho", o celular de Kale apitou, sinalizando que o surfista recebera uma mensagem. Ambos se assustaram, Lucas ligando o celular e visualizando a mensagem.

– "Podemos nos encontrar no Aloha às duas e meia?" — Leu a mensagem de Kai com certo desânimo, sabendo que Kale o arrastaria junto.

– Porra, responda que sim! — Pediu, esbaforido, ficando lado a lado com ele para xeretar a mensagem. Lucas digitou rapidamente um "podemos, claro", sendo praticamente amassado pelo abraço preocupado de Kale. — Meu Deus, você tem que vir comigo!

– Puta que pariu, Kale, o que você é? Uma garotinha japonesa indo encontrar seu senpai? — Grunhiu, tentando se afastar do abraço esmagador que o prendia. — Eu não vou merda nenhuma! Preciso descansar, tô super cansado!

– Por favor, Lucas, me quebra essa! Juro que ficarei te devendo minha alma! — Implorou, agarrando-se à cintura do outro quando ele começou a andar, indo em direção ao banheiro. — Você está sendo egoísta, Lucas! — O míope tentou chutá-lo, mas Kale conseguiu ser mais esperto, desviando. — Me ajuda, pelo amor de Deus! Meus quatro neurônios restantes não vão aguentar a pressão!

Lucas inspirou fundo, batendo com a cabeça contra a porta, desistindo e perguntando a Deus o que havia feito de errado para merecer aquilo.

– Tá bom, Kale, tá bom… Eu vou. Mas eu vou tomar um banho antes, vou comer e vou relaxar. — Decidiu, mesmo estando extremamente cansado. Lucas não conseguia dizer muitos ‘não’ ao Kale, mesmo sendo tão rabugento. Cedia fácil quando o assunto era alguém que amava.

Logo quando Lucas saiu do banheiro, Kale entrou, decidindo também tomar um banho. Kai não conseguia vê-lo, por isso não se preocupou em se vestir bem, mas ele podia sentir seu cheiro, então encarregou-se de tomar um segundo banho, só que de perfume. Vestiu uma bermuda jeans verde musgo e uma regata cavada preta, o buraco da axila quase alcançando sua cintura — era perfeito para o clima abafado da tarde.

Saíram aos tropeços depois de cinquenta minutos, quase afobados. O sol ardia, os turistas passeavam, as ondas quebravam raivosas contra a costa, enquanto um gostoso cheiro de comida inundava as avenidas de Honolulu. Chegaram no Aloha Coffee no horário marcado, com Lucas abrindo a porta do estabelecimento, evitando o previsível constrangimento de Kale com portas.

– O que diabos eu vou falar para ele?! — O surfista indagou assim que conseguiu avistar Kai sentado no banco azul, quase assustado.

– Não sei, fale conforme a conversa fluir. — Lucas bateu em seu ombro de forma cúmplice, deixando-o à deriva, indo se sentar no balcão.

Kale inspirou fundo, engolindo em seco. Andou devagar na direção daquele garoto miúdo e aparentemente inofensivo que tomava sorvete de flocos, sentando-se ao seu lado com intimidade.

– E eu aqui pensando que você não poderia ficar mais bonito — gracejou, mas seu comentário era bastante real.

– Ah, pare, são seus olhos — Kai também gracejou, levemente incomodado com o elogio. Quando Manu e Luana o elogiaram, ele não se sentira estranho. Mas se era Kale quem dizia… — E, poxa vida, você caiu sem querer numa piscina de perfume? — Perguntou, inclinando-se levemente, encostando seu nariz no ombro de Kale, sentindo o forte cheiro adocicado que emanava de sua camiseta e pele.

O surfista sentiu todo o ar de seus pulmões ir embora num só inspiro. Ficou lá, com a maior cara de trouxa do universo, encarando completamente atônito para o rosto impassível de Kai, que não viu grande coisa na ação.

– Se eu estou suado, você reclama. Se eu tô cheiroso, você reclama. Se decida! — Exclamou, tentando fingir indiferença.

– Quem gosta de gente suada? Eis a questão… — O garoto deu de ombros com descaso.

– O cheiro do suor excita o sexo oposto, sabia disso? — Kale disse de repente, completamente avulso ao assunto, apoiando o cotovelo no banco e a cabeça na mão, podendo olhar melhor para o garoto.

– Você acabou de me chamar de garota? — Kai espremeu as sobrancelhas, incomodado.

– E você acabou de admitir que fica excitado com o meu cheiro? — Kale, se possível, espremeu ainda mais as sobrancelhas, mais surpreso do que chocado.

Os dois ficaram num silêncio absurdo por diversos segundos, atônitos demais para falar qualquer coisa. Kai sentia suas mãos úmidas tamanho seu suor gélido, sempre limpando-as na bermuda jeans, mordendo as bochechas por dentro, sentindo que acabara de exterminar seu ânimo de continuar aquela conversa.

– Hã… — Kale esfregou o rosto, já perdido. — Não era aqui que eu queria chegar, Kai. O ponto que eu quero falar, é que… Olha, me desculpa por ontem. — Finalmente se reencontrou, suspirando. — Eu não estava bêbado, mas eu também não estava cem por cento sóbrio, entende? Eu simplesmente não pensei antes de fazer.

Kai se afundou no banco, empurrando o pote vazio de sorvete para longe.

– Sobre isso… Olha, de verdade, não tem problema. Eu sei que você realmente não estava muito sóbrio, e, cara, aquele beijo não foi traumatizante, mal pude senti-lo — e sorriu, sentindo o surfista aproximar-se mais de si.

– O.k., vamos combinar… Aquilo nem foi um beijo de verdade. E, se for, é do tipo que eu daria com cinco anos na minha avó. — Pensou em complementar com um ‘se você quiser, eu posso te mostrar do que eu estou falando’, mas recriminou-se imediatamente ao crispar os lábios.

Kai sorriu, concordando. Então, de repente e quase morto de preguiça, deslizou pelo banco, encostando sua testa na cintura do surfista.

– Eu tô com tanto sono… — Admitiu, deixando escapar um bocejo logo em seguida, os olhos já lacrimejados. — Almoçar acaba com a minha vontade de viver. É como se um elefante se sentasse sobre mim, me impedindo de fazer qualquer outra coisa…

– Eu te entendo. Na realidade, eu te entendo tão bem, que vou até te dar uma mãozinha — e, com certa força, puxou-o por debaixo das axilas, acomodando sua cabeça no colo. Acariciou a testa delgada do garoto, que já estava praticamente entregue ao sono. — Vai, dorme aí.

– Sim, mas só porque quero evitar a fadiga. — Kai bocejou de novo, sua expressão facial relaxando, os olhos já fechados e quietinhos sob as pálpebras. Quando seu peito subiu e desceu com blandícia, Kale percebeu que ele já estava adormecido.

O surfista ficou observando-o por muito tempo, simplesmente não se cansando de olhá-lo. A tez de Kai era tão nívea e tão macia, que era difícil dizer que ele era um havaiano. Passou seus dedos sobre sua testa, conseguindo acariciar os fios castanhos que recaíam sobre ela logo em seguida.

– Você me diz que não gosta quando te tratam como se fosse um anjo, mas não importa quantas vezes eu te olhe, não consigo não ver um. — Sussurrou como se aquela informação fosse uma terrível confidência. — Não sei se isso vai soar egoísta, Kai, mas eu meio que gostei de saber que você nunca foi tocado antes. — Escorreu seus dedos pelo antebraço daquele ser miúdo adormecido, tocando sua mão. — Mas, sério, você tem certeza de que não é um anjo? Você tem certeza que não caiu sem querer? — E acariciou os dedos finos do garoto com esmero, olhando-o com verdadeiro carinho. — Não sei, Kai, qualquer um perto de você parece ser podre — murmurou novamente, inclinando-se suavemente em sua direção. A lanchonete estava cheia, mas não é como se todos estivessem reparando neles.

“- Me sinto estranho quando estou perto de você. — Admitiu tão baixinho que quase nem ele mesmo ouviu. — E eu estou muito perdido, Kai. Você sabe que eu não sou muito inteligente. Não sou racional que nem o Lucas, não penso antes de fazer nada. Mas, pela primeira vez na minha vida, eu quero pensar antes de tomar uma iniciativa com você. Não quero ser impulsivo, porque tenho medo que eu estrague tudo, e isso está me contaminando de uma maneira que eu nunca pensei que aconteceria. O que mais me aflige são as consequências, Kai. — Deslizou seus dedos pelo rosto adormecido do garoto, com medo de piscar e perder alguma parte de sua expressão. Kale inspirou fundo, sem saber direito o que estava acontecendo. Sentia seus lábios formigando, o olhar fixo na boca do mais novo, como se fosse um grande ímã.”

Kale simplesmente não conseguiu se reconhecer quando acariciou a tez macia de Kai, virando-lhe o rosto com cuidado, e, após observá-lo pelo que pareceram séculos, espremeu seus lábios contra os dele, num beijo simples e recatado, que não durou nem três segundos.

– Isso também não foi um beijo — e sorriu, afagando seu cabelo, erguendo a cabeça quando Luana passou correndo pelo corredor, o barulho de seus saltos assustando-o profundamente.

O surfista voltou à realidade num lapso, olhando em volta, completamente assustado. Ninguém estava prestando atenção nos dois, porque todos estavam ocupados demais olhando com encanto um casal de velhinhos dançando ao som de “Love me tender” do Elvis Presley, bem no meio da pista de dança xadrez vermelha e branca.

Luana correu para ampará-los, já que seus corpos frágeis e debilitados podiam não aguentar muito. Kale riu, olhando para baixo, vendo que Kai apenas se remexeu em seu colo, realmente adormecido.

Lucas observava do balcão absolutamente tudo com um grande sorriso. Bebia um cappuccino, pensando o quão besta Kale podia ser. Percebeu, mesmo de longe, que o surfista havia beijado o garoto — e já até podia pressentir os choramingos arrependidos mais tarde.

Sobressaltou-se quando seu telefone começou a tocar, o vocal calmo de Anthony Kiedis inundando o ambiente. Atendeu rapidamente, colocando seu cappuccino sobre o balcão.

– Alô?

– Lucas? — A voz do outro Antony atendeu do outro lado. — Você tá num show do Elvis e não me convidou? — Gracejou, fazendo o míope rir.

– Na realidade eu tô aqui no Aloha — explicou, se levantando e saindo do estabelecimento com o cappuccino em mãos. — Saí, pode falar.

– Eu tava pensando se você quer sair comigo. — Disse, ficando alguns segundos em silêncio. — Então, hã, você quer sair comigo agora?

– C-claro! — Lucas nem pensou duas vezes, olhando em volta, fingindo não estar empolgado com o convite. — Mas, tipo, agora?

– Sim, agora. Eu vou enviar pra você um endereço, me encontra lá daqui a alguns minutos, o.k.? Eu vou estar te esperando — explicou, e Lucas conseguiu sentir o seu sorriso do outro lado. — E, não se preocupe, a gente vai continuar o que começamos ontem depois, não agora. Até daqui a pouco — e desligou, muito resoluto.

Lucas se sentia rubro até mesmo em áreas escondidas por sua roupa. Olhou para os lados, encabulado, guardando o celular no bolso ao visualizar o endereço e descobrir que sabia aonde ficava. Antes de ir, avisou Kale, devolvendo o copo vazio e recebendo o troco do cappuccino.

***

Lucas só parou de andar quando estacionou em frente a um apartamento modesto, mas, ainda assim, muito melhor que o seu. Tocou o interfone do apartamento sete, acompanhando as instruções que Antony lhe tinha dado.

Esperou por breves instantes, sorrindo quando o loiro saiu do apartamento, vestindo uma bermuda jeans e uma regata salmão de surf, o cabelo levemente arrepiado, como se tivesse acabado de sair do banho.

– Oi — sorriu ele, abrindo o portão e cumprimentando o míope com um beijo na bochecha. — Tá pronto? — Indagou, guardando as chaves no bolso e batendo o portão para trancá-lo.

– Aham. Vamos pra aonde? — Perguntou despreocupadamente, mas quase pulou de susto quando Antony lhe capturou a mão, apertando bem seus dedos, enlançando-os. Nunca, nem em seus mais profundos sonhos, pensou na possibilidade de sair de mãos dadas com Antony Thomas.

– Vamos buscar o Nick, que tal? — E ergueu um canto da boca, começando a andar, puxando-o normalmente. — Ele nunca ficou tão tagarela, Lucas. Desde que a gente se conheceu, não tem outro assunto em casa senão você. — Admitiu, aproximando-se mais de Lucas na caminhada.

O míope sorriu, uma mistura de constrangimento e júbilo dominando-o. Continuaram andando, as mãos esmagadas uma na outra, bem apertadinhas, até o colégio onde Nicholas estudava. Ali só havia crianças do primário até a quinta série, a maioria mestiça ou negra. Não era difícil encontrar criancinhas brancas, mas louras era raríssimo, por isso quando Nick brotou na multidão, foi simples e fácil reconhecê-lo.

O garotinho simplesmente abriu o maior sorriso do universo ao avistar Lucas, correndo como um raio na direção do míope, os braços abertos.

– Lucas, Lucas, Lucas! — Exclamou em euforia, sendo pego pelo míope sob as axilas, logo envolvendo-o num abraço forte e carinhoso. — Você veio me buscar! — Disse como se estivesse realmente surpreso.

– Vim sim, Nick! — Apertou-o mais forte, sentindo um cheiro agradável de terra molhada emanando do garoto.

– Seu irmão também está aqui, sabia disso? — Antony se pronunciou com uma falsa careta mal humorada.

– É sua obrigação vir me buscar — Nick lhe mostrou a língua, rindo quando Antony ameaçou estapeá-lo de brincadeira.- Tony, você já alugou Ponyo? — Perguntou esperançosamente. Quando Antony assentiu, continuou: — eu posso levar o Leo para assistir comigo?

– Leo? — O mais velho indagou, juntando as sobrancelhas. — Quem é Leo?

– O meu amigo! — Exclamou, completamente animado, pulando do colo de Lucas para o chão.

Os dois mais velhos acompanharam com o olhar a corrida apressada de Nicholas, vendo quando ele puxou a mão de um garoto maior que ele, vestido com uma bermuda e camiseta comuns, parecendo, acima de tudo, muito triste. Mas, quando Nick começou a conversar com ele, abriu um sorriso enorme, assentindo.

– Antony, ontem este menino estava usando um vestido — Lucas contou ao surfista, baixinho, não surpreendendo-se quando Tony o encarou com as sobrancelhas arqueadas.

– Mas de brincadeira, ou…?

– Não, era porque ele realmente queria. Fico imaginando como deve ser horrível e confuso ter uma crise de identidade sendo tão novinho… — Suspirou, forçando um sorriso quando Leo e Nick se aproximaram devagar, o garoto louro empurrando seu amigo na direção deles. — Oi, Leo!

– Oi… — Cumprimentou-o de volta, tímido. Segurou a barra de seu shorts, parecendo desarmado, como se estivesse se sentindo extremamente desconfortável.

– Leo, este é o Lucas! — Nick o apresentou, feliz. — E este é o meu irmão, Antony. — Deu um tapinha no joelho de seu irmão, parecendo orgulhoso. — Eles são meus amigos, e você, também sendo meu amigo, é automaticamente amigo deles também — sua lógica era completamente distorcida, mas usou-a com a mesma convicção que Einstein utilizou em sua Teoria da Relatividade.

Antony riu, ajoelhando-se perto do garoto, que se afastou num passo, meio surpreso. O surfista encarou-o por breves instantes, um sorriso encantador em seus lábios.

– Você está em que série? — Decidiu finalmente perguntar.

– Na segunda — respondeu ele, entreolhando Nick.

– Você é mais velho que o Nick, certo? — Quando ele assentiu, Antony continuou: — obrigado por ser amigo do Nicholas. Ele é problemático e tagarela, eu sei, e talvez você também saiba. Mas Leo, eu juro pra você: se você ficar junto com o Nick, ele será o seu amigo para sempre — disse como se aquilo fosse, de fato, uma verdade absoluta.

Leo assentiu, sentindo que aquilo iria ser tatuado em sua testa.

– Eu sei… Hoje, no recreio, ele cortou um fio do meu vestido e me deu um pedaço de seu lanche, já que eu tinha esquecido o meu.

– Seu vestido? — Antony sorriu, avaliando seu shorts. — Cadê ele?

– Tá na minha mochila.

– Por que você o tirou?

– A coordenadora pediu para que eu tirasse… — Admitiu, abaixando a cabeça como se estivesse envergonhado. — Ela me disse que fica feio para um garoto crescido como eu usar roupa de menina. Então ela me deu esses trapos aqui, para eu usar.

Antony inspirou profundamente, sentindo o peso daquelas palavras. Mordeu os lábios, sem saber direito o que fazer.

– Bom, se você quiser ir lá em casa para ficar com o Nick, vai poder vestir que roupa quiser. — Sugeriu, pego de surpresa pelo seu irmão mais novo, que simplesmente pulou em suas costas.

– Sério que ele pode ir?!

Yep– Antony se levantou, Nicholas pendurado em si como se fosse um coala, sorrindo para Leo. — Mas, claro, só se sua mãe deixar.

– Ela deixa sim! — Leo confirmou, completamente animado com a ideia. Nick abraçou seu irmão, agradecendo-o. Então, de súbito, virou-se para Lucas, que apenas observava tudo com um grande sorriso besta.

– Lu, você vem também, não vem? — Perguntou, e sua expressão traquinas era simplesmente impossível de resistir.

Lucas estava cansado, sobrecarregado e estressado. O que mais queria era deitar em sua cama e dormir por dois dias diretos, sem interrupções e sem Kale.

Mas, perante àquele pedido, cedeu tão facilmente quanto respirar.

Notas finais
Eu iria colocar o título do cap. como algo relacionado a anjos, mas tive uma ideia fantástica para o futuro graças ao título definitivo AOAOJAOJOJAJOA E aí, gente, que cês acham: chatice nível chato-pra-caramba-mas-adorável ou chatice nível tão-astronômico-que-mesmo-sendo-bonitinho-dá-pra-odiar? Escolham OJAOJAJOAJOA Eu amo tanto LuaxManu, cês não têm noção JAKSKJAKSLAKSA Eu só quero arrrgggh, juntá-los logo e acabar com o sofrimento, mas o que é um bom romance sem um bom sofrimento? HEHE! ~pula Espero MESMO que tenham gostado, qualquer errinho bobo, por favor, me avisem, mesmo após a revisão, ainda passa batido. Grandes beijos! :*