Days Of Hell

8 Capítulo 8 - A Dama de Vermelho


Notas iniciais
Após conseguirem sair da escola, Lucca, Walter e Gabi, assustados, tentam procurar ajuda dentro de uma delegacia, mas encontram algo pior do que os infectado, a morte... E lá, é hora de dizer adeus a alguém.

O sol agora lambia o asfalto fazendo os mortos e as poças de sangue secarem. Tudo havia mudado, as casas estavam quase que destruídas pelas marcas dos tiros dos militares. Era estranho, e horrível estar de volta ao ar livre, tudo estava vazio, sem sinal de ninguém, estávamos sozinhos.


– Vocês acham que eles podem nos seguir? –Disse Gabi, limpando os cortes em seu pulso, provocados quando saímos da sala pelo pequeno vitrô, a única saída.


– Acho que não –Respondi- Não fizemos sequer um ruído, e se você se concentrar podemos ouvir ainda seus gritos...


– Ela está morta... –Disse Walter se ajoelhando no asfalto imundo, parecendo não se aguentar.


– Você tem certeza que sabe como entrar na delegacia Gabi? –Perguntei fazendo o favor de tentar ocupar a mente de Walter-


– Meu pai é policial e me levou muitas vezes para lá... Conheço bem o lugar! Só fica a alguma quadras daqui!


Walter se levantou e em silêncio caminhou conosco...

Tirando os cacos de vidros em nosso caminho, balas, corpos que pisávamos sem querer, não havia barulho... Nem os pássaros que á essa hora em dias normais, já cantavam gloriosos, mostravam sinais de sua presença. Cada vez que andávamos mais entre os mortos caídos no chão, nos apavorávamos ainda mais...Será que só nós nos salvamos? Onde estão os outros? Teriam os Militares acabo com o resto?


A cena era desoladora e horripilante...


Ao longo do caminho Gabi parecia não ter mais forças para chorar, Walter parecia já morto, com olheiras muito fortes nos olhos. E eu? Não tinha mais força, estávamos com fome... sede, e medo.


– Lucca... E... E-Eu acho que tem alguém ali! –Disse Walter misterioso-


– O-Onde? -Eu já começava a me apavorar quando Walter apontou para o telhado de uma casa branca marcada por tiros.


Vimos uma mulher, trajava um vestido vermelho, sua pele estava cinza, e seus cabelos, se viam de longe, caindo. Ela olhava para o céu, que estava azul nítido, sonhadora como se estivesse voando, mas isso passou. Ela percebera que estávamos lá em baixo, quase em frente á ela, gritou para nós, mais foi um grito meio turbulento, como se tivesse algo preso em sua garganta.

Eu sei disso porque meu pai investigava o vírus, sinto muito por ele ter descoberto a verdade e logo após ser mordido. Lembrei do garoto-locutor dizendo.


Algo preso em sua garganta... Seria um pedaço de carne humana?


Ela correu em nossa direção, mas parecia que não percebera que estava na ponta do telhado, e caiu se espatifando do chão, o estranho é que foi alto, como se ela tivesse o dobro de seu peso. A mulher de vermelho quebrou o pescoço e desde então não se mexera mais. Quando caiu, Gabi soltou um grito curto e fino. Walter chegara mais para perto de nós. Junto, fomos até a mulher, e lá, percebi que seu vestido não era vermelho, era sangue que o manchara.


Era como se muitas pessoas estivessem vindo, como uma disparada em um show, os barulhos estavam aumentando e Walter agora respirava tremidamente. Eu não sabia o que estava acontecendo mais isso não me assustava. Era como se algum prédio estivesse desabando perto dali. E não me preocupei muito...


Vi minha despreocupação se esvair, em um segundo, quando os barulhos aumentaram ainda mais e tivemos a certeza do que vinha chegando até nós. Várias pessoas viraram a esquina correndo e gritando, como a mulher que se estatelara no chão.


– São os Infectados! Vamos morrer!–Gritou Gabi, mas sua voz falhava.


A única coisa que tive em mente foi correr o máximo possível. Agarrei-me em Gabi por um braço, e quando fui puxar Walter percebi que ele já estava na nossa frente correndo. Os infectados lá atrás corriam o máximo que podiam, olhei por cima do ombro e vi alguns pararem e se agacharem ao lado da mulher que se estatelara no chão e, absurdamente, e começaram a comê-la, dentada por dentada. Os que ainda corriam atrás de nós, estavam como a mulher de vermelho, a pele cinza, e todos ensanguentados.


Quanto mais corríamos mais eles chegavam perto. Nós estávamos cansando, eles não.


Avistei a Delegacia, estava cada vez mais perto, com seus portões abertos e aparentemente o estacionamento vazio, e destruído também. Mas antes que pudéssemos chegar nele, um morto agarrara Gabi pelo cabelo, tentei puxá-la o mais forte possível...


– Walter AJUDA! –Gritei-


Walter apenas olhou apavorado.


Os outros infectados vinham correndo cada vez chegando mais perto. Eu grudara minha mão no pescoço do que estava agarrando Gabi tentando empurrar ele, quando finalmente tropeçou, vou minha chance. Usei toda minha força para empurrá-lo, e quando ele caiu, puxei a garota, que gritava mais que apavoradamente, de volta, e não houve tempo, voltamos a correr, mas desta vez com os infectados mais perto ainda de nós.


Já estávamos alcançando os portões escancarados da delegacia, Walter corria bem mais a nossa frente...


– PUXE OS PORTÕES, FECHE-OS! FECHE-OS! –Gritei para o garoto na esperança dele fazê-lo.


Para minha sorte, ele o fez, e antes de entrarmos no imenso prédio policial, ele já estava arrastando o enorme portão.


BUM!


Entramos, e logo em seguida, Walter fechou o portão, e puxou o trinco...


– V-Vocês acham que este trinco aguentará? –A voz de Gabi estava rala-


– Não por muito tempo, temos que entrar! –Disse-


Cada vez mais se acumulava mais infectados no portão, batendo dele e fazendo até o muro balançar... O pátio do prédio policial estava imundo, mas não de corpos... de papéis, carros, e sangue sobre o chão, apenas sangue...


Quando entramos pelas portas do fundo, não aconteceu bem uma recepção amigável, o lugar também estava vazio, abandonado aparentemente. Gabi massageava sua cabeça onde o infectado quase lhe arrancou uma grande quantidade de cabelos... Walter parecia transtornado.


– Tem alguém ai?! –Gritou Walter-


– Parece estar vazio Walter... –Disse infeliz-


– T-Temos que conseguir algo para nos defender! Algo para não deixá-los chegar perto de nós! –Walter procurava algo-


– Como... uma arma? –Sugeriu Gabi tristemente e assustada-


Walter não respondeu... Afinal, seria isso roubar? Ainda mais estando em uma delegacia? Pelas circunstâncias não nos podemos se dar ao luxo de pensar assim, temos que nos proteger, pedir ajuda, e sair de São Paulo, antes que a explodam!


– Tem alguém ai?! –Tornou Walter a gritar.


Houve resposta...


Um infectado, usando uma farda de policial, saiu de trás de um balcão próximo, imundo de sangue e algo lembrara fezes, e correu em direção a Gabi tentando mordê-la, ela tentou desviar-se.


Percebi rapidamente Walter procurando algo, seria para se defender, ou defender Gabi?


– Não -Gritei- tentando tirar o morto de cima da garota, e procurando também por algo... Quando encontrei um pedaço de ferro, do mesmo tamanho de um cacetete, me abaixei rapidamente para pegá-lo e juntei toda minha raiva, buscando-as dentro do meu ser, e metendo, sem pensar, na cabeça do infectado. Escutei o crack de osso quebrando, quando ele despencou no chão.


Mas fora tarde, o infectado já havia arrancado um bom pedaço de carne do braço de minha prima, Gabi.


– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah –Ela gritou-


– MEU DEUS! –Gritou Walter-


– Não! –Gritei- Gabi, você está bem?... -Que pergunta inútil- Gabi... Vamos ajudar você... Venha Walter... Vamos colocá-la naquele estofado!


Walter correu e puxou Gabi, que estava em estado de choque de ver seu braço faltando um pedaço. Quando a colocamos, a garota gemeu, Walter estava pálido, mas não mais que a própria garota. Na loucura nem pensamos se ainda havia mais infectados na delegacia...


– Mordida... Mordida! –Repetia Walter como um doente mental-


– Temos que arrumar algo para estancarmos o sangue Walter! –Disse vendo que a cada segundo, a roupa de Gabi se pintava de vermelho vivo, como a infectada do telhado.


O garoto saiu disparado, e minutos depois, ele voltou com um pacote de primeiro socorros, que continha algodão, gasa, e álcool... Ajoelhei-me junto a Gabi e usei os três, enquanto Gabi suava muito e gemia, parecendo que algo a puxava do outro lado da vida.


– Ela foi mordida! –Repetiu Walter-


– Cale a boca! –Gritou-


– Você escutou aquelas transmissões! O locutor disse exatamente que o pai dele foi infectado logo após receber uma mordida... E se ela ficar igual a eles lá fora?


– Eu sei muito bem! Cale a boca!


Walter parecia mais assustado que Gabi, que agora estava se acalmando...


– Meu braço... Está formigando! Já quase não o sinto... Porquê? –Perguntou a garota.


– Não sei Gabi... Mas procuraremos alguma ajuda...


– Eu... Não quero ficar igual a eles Lucca...

– Você não vai prima! Vamos conseguir ajuda...


COF! COF! COF!


Gabi tossiu sangue, como a recepcionista que algumas horas, que pareciam anos, atrás o fez no hospital.


– Eu vou não é?... Ficar igual eles. Seja o que for eu já o tenho... –Lágrimas escorriam como cachoeiras dos olhos de Gabi, assim como em meus, e nos de Walter também.


– Não... Não... Temos certeza ainda... Temos que pedir socorro, e... –Gabi me olhava balançando a cabeça e se despedaçando em lágrimas...


Walter colocou a mão em meus ombros... E então me pus em pé novamente...


– Eu e Walter vamos buscar ajuda sim Gabi! Agora não é Walter? –Mas o garoto só olhava para Gabi, que enfim disse:


– Estou ficando sonolenta... Não consigo mais... Eu vou... Ficar igual eles!... Posso matar vocês...


Ela parecia delirar...


– Lucca... Acho que não tem mais nada a ser feito aqui! –Disse meu amigo com lágrimas ameaçando se jogar de seus olhos.


Eu não disse nada, apenas encarei a situação... O que faríamos? Mataríamos minha prima? Seriamos assassinos?


Pensei no infectado em que eu dei uma cacetada com o pedaço de ferro... Será que isso me tornou um... Um assassino? Serei preso quando tudo voltar ao normal... Se voltar.


– O que vamos então Walter?... Vamos deixá-la morrer?... Deixá-la pra trás?


– Não... Tranquem-me em alguma sala... Levem-me antes... –Ela parecia não ter forças para continuar.


– Vamos Lucca.... –Disse Walter passando o braço pelos ombros de Gabi...


Eu o ajudei... Não sabia direito o que sentir...


Levamos Gabi para uma sala próxima, onde explicamos a ela que pediríamos ajuda e logo voltaríamos também. Não tinha certeza se eu a veria de novo, mas procurei não me despedir para não tornar as coisas mais difíceis.


– Por favor... Não demorem! –Suplicou Gabi-


E então, fechamos a porta, deixando-a sozinha. Não aguentei, voltei para a sala por onde entramos, sentei em qualquer canto... Foi nesse momento em que meus sentimentos vieram! Todos juntos e de uma vez, fazendo de meu rosto uma cachoeira. Chorei tudo o que eu podia, e ainda mais um pouco, se passou minutos e minutos quando Walter me trouxe a realidade falando:

– Lucca? Encontrei uma arma olha...


– O que vamos... Fazer com isto?... –Disse olhando para uma Magnum prata de cano longo, nos dedos sujos do garoto-

– Podemos manter os infectados afastados se mostrarmos a eles que estamos armados!... Aqueles infectados podem conseguir entrar a qualquer momento!


– Onde você a encontrou? –Perguntei-


– Ali atrás do balcão, tem algumas e um pente, parece que alguém as abandonou!


Walter mostrou-me onde, e sua ideia não era tão ruim assim. Então, pegamos duas armas cada, e alguns pentes também, caso precisássemos usá-las. Era uma realidade horrível agora.

Decidi levar uma para Gabi também, se acontecesse dos infectado tentarem invadir sua sala quando buscássemos ajuda, mas quando eu ia abrindo a porta da sala, um grito monstruoso veio de dentro. Era Gabi, agora uma infectada como os outros.


Vi Walter correndo desesperado em minha direção e tentei aos choros, novamente, explicar a ele que o grito veio da sala quando algo que ele me disse assustou-me:


– Não estou desesperado por isso, é que os infectados conseguiram... Derrubaram o portão! –Disse com a arma na mão, que descobriríamos se nos era útil.



Notas finais
Ali lhe faltara segurança, lhe faltara algo onde se consolar, após a perda medonha que se mostrou através do grito mortal. Ali lhe faltara um coração feliz, e um pedaço de carne que um corpo sem alma lhe tirou. PRÓXIMO: CAPÍTULO 9 - A FUGA