Days Of Hell
19 Capítulo 19 - A Estrela Cadente
Notas iniciais
De repente era assim que seriam nossas vidas daqui pra frente, sempre fugindo de explosões, e dos infectados. E sempre teríamos um preço a pagar. Da primeira vez foi Dalila, da segunda Diane, e agora... Talvez Walter não suportasse a dor de sua mão estraçalhada até chegarmos á Unidade Militar.
Agora, a fumaça estava em direção ao sul. A fumaça das granadas que trouxe destruição morro abaixo. E o carrinho? Ele não existia mais, a estaçãozinha, ao ar livre, estava toda destruída, e os infectados desnorteados do outro lado do lago. Alguns deles ainda corriam, outros gritavam para o nada.
– Foi quando pulamos! Eu tenho certeza, foi quando pulamos com o coxão que ele a quebrou! Temos que levá-lo para algum lugar! –Disse Luma com sua face que mais parecia uma cachoeira diante de Walter que se contorcia de dor.
Era a verdade, tínhamos que levá-lo por que estava sofrendo, e por que logo mais infectados viriam, tínhamos que sair de lá o mais depressa possível.
– Pegue ele de um lado, e eu pego do outro! –Disse.
E com cuidado para não mexer na mão que sangrava, pulamos a cerca que separava a calçada do lago, e saímos o mais rápido possível daquele lugar.
Agora já podíamos ver a grande montanha, em que no topo sabíamos que havia a Unidade Militar. Não estava longe, aliás, estava tão perto que creio que em meio dia de caminhada já conseguiríamos chegar.
Á cinco quadras de distância do lago, encontramos um ônibus abandonado em uma rua vazia, lá entramos nele, e decidimos cuidar do ferimento de Walter, que estava com febre e, agora, inconsciente.
– A temperatura dele está aumentando... Temos que fazer alguma coisa! –Disse Luma segurando a mão quebrada de Walter cuidadosamente, sentada ao lado do garoto no corredor do ônibus.
– Espere! Na sua bolsa... Você está com a bolsa de remédios não é? Os que eu e Walter pegamos na loja de conveniência... –A bolsa estava com Luma.
E mais uma vez para a nossa falta de sorte, Walter carregava a que estava com garrafas de água, nada de comida, que era a que Diane levava.
– Tem muitos remédios aqui, mas como saberemos qual será bom para ele? –Perguntou Luma tremendo, segurando e examinando os frasquinhos.
– Luma, acalme-se! Me de a bolsa aqui... Temos que encontrar o remédio mais forte que tiver e dar á ele para ele ficar dopado... Por que... Temos que fazer este osso da mão dele voltar ao lugar... O braço dele está todo roxo olha... É perigoso ele morrer, e perigoso dele perder o braço...
Luma respirou fundo, e pegou uma garrafa de água na bolsa de Walter, amassou a pílula de um remédio faixa preta que entreguei á ela. Então, enfiou na garganta que Walter que tossiu.
– Temos que colocar o osso no lugar Luma... –Disse tomando coragem.
– Não Lucca, ele pode gritar... –Disse ela manhosa.
– Ou pode morrer se não fizermos alguma coisa... –Disse olhando os olhos lacrimejados da garota- Luma... Ele é a única pessoa que eu conheço desde que isso tudo começou! Meu amigo! E sinceramente, você tem mais afinidade com ele... Ambos não queremos que ele morra, então... É o único jeito!
Luma assentiu confusa, mas era a única opção. Ela rasgou um pedaço da manga de sua blusa, e tapou a boca de Walter, enquanto eu, cuidadosamente peguei a mão dele e coloquei-a sobre meu colo.
– Eu vou colocar o osso no lugar, e você, se ele gritar... Tape a boca dele, está bem? –Luma assentiu novamente.
Respirei fundo, meu coração saltando do peito. Não podíamos fazer barulho, mas os infectados eram a última coisa que pensávamos no momento. Queríamos salvar Walter.
Acenei para Luma uma última vez, e em seguida, olhei para o osso da mão direito do garoto deitado sobre o colo de Luma. Era o carpo que estava exposto, e com coragem, eu o pressionei, fazendo-o entrar de volta na carne.
Walter abriu os olhos voltando á consciência só para gritar, mas Luma tapava a boca dele, o mais forte possível. Após alguns segundos ele desmaiou novamente, e eu pedi para Luma o pedaço de manga rasgada para amarrar a mão do garoto, para impedir de o osso sair novamente da pele.
Já era noite e não percebemos quando ela chegou, não tínhamos a mínima noção da hora que deveria ser. Por enquanto, nenhum infectado passou pela rua, mas a brisa gelada que a noite trouxe nos visitava constantemente, fazendo-nos passar frio.
Luma estava sentada perto de Walter que continuava em um sono profundo, no corredor do ônibus, enquanto eu estava em um dos bancos ao fundo.
– Luma... Quando amanhecer, temos de ir... Não podemos ficar aqui mais que algumas horas! –Disse á garota que estava sentada pensativa.
– Eu estava pensando exatamente isso... Mas e se ele não acordar? –Disse ela com um tom preocupante.
Era melhor não pensar nisto agora, por isso não a respondi e decidi olhar para o céu, quem sabe ele teria a resposta, quem sabe ele nos ajudaria em algo...
De dentro do ônibus abandonado, eu olhava para o Pão de açúcar quando vi uma estrela cadente indo em direção á ele. Mas ela era lenta, lerda. Foi quando comecei a desconfiar.
– Luma... Vem aqui... O que é aquilo ali? –Disse para a garota, que estava levantando e caminhando até mim, apontando em direção á montanha.
– É uma estrela? –Perguntou ela incerta- Ou... É o bonde! O bonde do Pão de açúcar...
Era o bonde que transportava pessoas para mostrá-las o quão lindo era a cidade maravilhosa. Mas agora, porque ele funcionava? Porque ele teria de transportar alguém em direção ao Pão de Açúcar em pleno apocalipse?
Luma me olhava confusa.
– Porque ele está indo em direção ao abrigo? –Perguntou a garota do campo olhando para o horizonte, o bonde.
– Acho... Acho que...
– Por que talvez esta seja a única maneira de entrar no abrigo! –Respondeu Luma para si mesma- Lucca, somos tão burros! Nós nunca pensamos em como subir aquela montanha toda... Isto –Ela apontava para a estrela cadente que se movia lentamente para a montanha- É a forma de entrar no abrigo!
– Tem certeza Luma? Será que... Sei lá, não tenha nada a ver?
– Se não for me diz como escalaremos o Pão de Açúcar até o topo? –Perguntou Luma olhando nos meus olhos inocentemente, como uma criança olha inocente para o brinquedo favorito.
– Você tem razão! – Ela me convencera. – Estamos mais perto da estação de partida do bonde, do que do Pão de Açúcar, não é?
Luma sorriu para mim afirmando. Finalmente nossas esperanças foram renovadas, mas por que não sentíamos isso? Será que é por que não temos certeza se todos nós... Chegaremos ao abrigo? Afinal Walter está desacordado, e não sabemos quando ele acordará.
– E se ele não acordar? –Perguntou Luma novamente, o seu sorriso se esvaindo á cada segundo.
Balancei a cabeça negativamente, sem saber se estava querendo dizer “Isto não é para ser respondido, ele acordará e pronto!”, ou “Então devemos deixá-lo...”.
Após alguns minutos, Luma e eu decididos ir para a estação do bonde, que nos levaria ao Abrigo. Ela voltou para o lado de Walter e ficou ali contemplando ele e o esperando acordar. O vento que entrava no ônibus pelas janelinhas abertas cessou. O sol já começara a nascer.
Havia algumas horas que Walter parara de tremer, e sua respiração voltou ao normal, mas seu braço estava ficando roxo por completo ele precisava urgentemente de ajuda ou teria que amputá-lo. Seus olhos se abriram, ainda acostumando-se com a claridade repentina que o sol estava trazendo. Ele sabia o que havia acontecido, mas por alguma razão não sentia dor alguma, ele não sentia seu braço direito, seja pelo remédio que havia tomado ou por ele estar morto. Ele sentia tontura e enjoo.
A primeira coisa que Walter viu, quando seus olhos conseguiram lhe mostrar, foi o sorriso radiante de Luma, que o abraçou calorosamente.
– Ág... Água... –Conseguiu grunhir o garoto.
Luma o soltou, envergonhada, rapidamente pegou a última garrafa de água em uma das mochilas, que estavam perto dela, e deu á Walter alguns goles.
– Como se sente? –Perguntei ao garoto.
– Não sinto meu braço... Preciso de ajuda... –Conseguiu responder.
– Nós vamos conseguir Walter! Nós... –Disse Luma chorosa, com o garoto sobre seu colo, agora- Nós temos que continuar. Estamos mais perto do abrigo... Podemos até vê-lo daqui...
– Só sinto um pouco de tontura... Não podemos ficar aqui, não é? Ajudem-me a me levantar... –Pediu o garoto.
– Tem certeza que se sente bem? –Perguntou Luma.
– Sim... Temos que ir...
Atravessei o corredor do ônibus e cheguei até os garotos. Luma já estava levantando-o pelo braço esquerdo, e eu o pegava pela cintura.
–Devagar... Estou tonto... –Revelou Walter.
Aos poucos fomos endireitando-o. Sua mão, muito inchada e roxa, ainda estava enrolada com um pedaço da manga da camiseta de Luma, para segurar o osso dentro da pele.
– Urgh... A dor voltou... –Gemeu ele fazendo careta.
– Walter, calma! Vamos para o abrigo, lá eles ajudarão você! –Tranquilizou-o Luma.
Ele assentiu com os olhos fechados e as sobrancelhas franzidas, talvez tentando esquecer a dor, fazendo-a sumir.
– Temos que ir andando... –Disse a eles.
Todos concordaram, mas antes de sairmos do ônibus, verifiquei a rua para ver se ela estava vazia mesmo, como nos mostrava. Era estranho, mas agora que Walter acordara não havia mais nada para nos impedir de termos ‘cem por cento’ de esperança. Ela havia chegado junto com sol, que agora que todos nós caminhávamos pelas ruas, nos aquecia como um abraço apertado.
Não tínhamos nenhuma arma para nos defender deles, mas parecia que não precisaríamos, pois á medida em que nos aproximávamos ainda mais da estação do bonde parecia estarmos mais protegidos ainda. Talvez todos os infectados da região sentiram-se atraídos pelas estrondosas explosões causadas pelos três garotos enquanto desciam o morro, com um bondinho desgovernado. Esse pode ser o motivo pelo qual nenhum infectado cruzara o caminho deles. Todos eles deviam estar nas redondezas do morro, que agora estava destruído.
Após mais alguns minutos de caminhada, eles por algumas ruas que antes deveriam ser lindas, mas devido á epidemia, agora, elas estavam imundas, manchas de sangue em todos os lugares, restos mortais, e até mesmos corpos inteiros, abandonados á decomposição.
O som que eles estavam ouvindo agora era relaxante e tranquilizador, seus sapatos esfolados e sujos, seja de sangue ou de outro qualquer tipo de sujeira, agora estavam sujando-se de areia. Eles escolheram andar na beira da praia, onde os barulhos das ondas abafavam as suas pisadas na areia. Mas sempre tinha algo para lembrá-los de que os dias de paz não voltariam nunca mais, e era nos corpos multilados que as ondas traziam que os faziam lembrar.
Eles já estavam andando á duas horas, e quanto mais eles andavam mais a fome e a sede se manifestavam. Luma bebia alguns goles da última garrafa de água, enquanto andava na frente, ao lado de Walter (Eu cuidava da retaguarda). Ás vezes me sentia deslocado quando Luma acariciava os cabelos negros de Walter, ou quando ela o olhava brilhantemente. Se tivesse como, preferia deixá-los a sós...
A estação do bonde, que os levaria ao Pão de açúcar ficava em um pequeno morro coberto por gramas mortas, no final da praia. Não era muito difícil de subi-lo, apenas seria cansativo, mas eles não podiam parar agora, não podiam deixar a sede, e a fome consumi-los, quando a salvação estava os esperando morro á cima.
Com dificuldade, e segurando Walter para ajudá-lo (Ele sentia mal-estar e tontura devido o remédio que tomou), eles conseguiram chegar ao topo do morro...
O chão era feito de cimento, cujo também, estava todo manchado de sangue. Havia um bonde descansando na estação, em baixo dos cabos de aço. Então eles olharam na direção dos cabos, e viram de um bom ângulo o topo da grande montanha, para onde seriam levados, que parecia haver um prédio.
– Parece vazio... Pensei que veríamos pessoas aqui... –Disse Walter fraco.
Luma me olhou procurando resposta.
– Talvez eles estejam dentro daquele prédio... Temos que embarcar!
Luma abriu a portinha do bonde e junto de Walter eles embarcaram, eu os segui. Ali dentro havia alguns botões do lado da porta, e após examiná-los apertei o certo, e com um estampido, o bonde começou a deslizar nos cabos de aço, e nos levar para cima.
Aquele era o momento em que o cansaço nos golpeou da maneira mais suja possível. Em meio a bocejos, lágrimas (De alegria e tristeza), o bonde nos levava, e ficávamos cada vez mais altos. Juntos, olhávamos para a praia, para o reflexo do sol que a iluminava. Víamos o vento soprar a água salgada formando as ondas, que trazia os corpos de pessoas consumidas pela epidemia.
Walter olhou na direção contrária, na direção da cidade, e com o seu suspiro trêmulo, Luma e eu ficamos curiosos para saber o que ele olhava.
Era a cidade. O caos, a destruição, o horror. A sombra da morte, e da destruição pairava sobre a cidade que antes era chamada de ‘maravilhosa’. Prédios ainda pegavam fogo, lançando fumaça preta sobre o céu, casas eram engolidas pela destruição avassaladora, que se alastrava pela cidade toda, como a epidemia. Luma apontava para algo, e demorou um pouco para eu perceber que era o lago onde pulamos. O morro inteiro foi coberto por uma densa fumaça, e próximo ao lago, uma multidão sem fim, de corpos sem alma vagavam sem destino procurando qualquer coisa para comer. Ficamos hipnotizados pela paisagem mortal, uma musica conhecida tocava repetitivamente em minha cabeça, enquanto alguém parecia me pedir ajuda.
Era Luma que tentava segurar Walter que acabara de vomitar. Uma mistura de sangue com a água que havia bebido. Eu não sabia o que fazer, será que ele estava morrendo?
Algo arranhava a parte de baixo do bonde, foi quando eu percebi que havíamos chegado ao topo do Pão de Açúcar. Abrimos a porta do bonde e desembarcamos (Com Walter tossindo, e pisando em falso).
Havia um muro de um metro, nas pontas do precipício. Havia também, asfalto, sob o qual pisávamos. Um prédio cinza de vidros negros ameaçava arranhar o céu, até agora não havia ninguém nos dando as boas-vindas.
Walter caminhava cada vez mais curvado, e Luma tentava desesperadamente fazê-lo se erguer, para impedi-lo de vomitar cada vez mais sangue. De relance pude ver que o roxo de sua mão já lhe subia pelo ombro.
Era um pátio enorme onde estávamos, mas vazio, parecia muito assustador. Olhei para trás uma ultima vez e vi que além do bonde em que viemos, havia mais um descansando sob os cabos de aço.
Aproximamo-nos ainda mais do lugar, que nos falavam que era um abrigo, mas ninguém se mostrou. Será que morreram todos? Será que enfrentamos tudo isso para nada? Será que a ajuda não viria para Walter? Ele havia acabado de cair no chão, parece que entrou em convulsão, babando incansavelmente, tremendo cada vez mais. Luma desesperada gritava por ajuda segurando o corpo do amigo, onde a vida parecia estar sendo levada.
Olhei para o céu, em busca de resposta mais uma vez, era lá que eu sempre a encontrara. Como na vez em que Walter e eu estávamos presos no terraço da delegacia, o céu me mostrou a saída. Porque agora não?
A cada segundo o corpo do meu amigo estava morrendo, e eu saberia que se ele morresse me afetaria de uma forma assustadora.
Então porque ninguém veio? Porque este lugar está vazio?
Enxergo uma porta de prata no lado esquerdo do prédio, nela vejo algo familiar, um símbolo. Cravado na porta há uma pirâmide com uma estrela de seis pontas dentro dele. Era para lá que eu corri, e ao chegar batia o mais forte possível, gritando nem mesmo eu sei o quê.
Mas eu pedia, insistia para que ajudassem meu amigo que estava morrendo. Mas na verdade seria só ele?
Eu olhava para Luma e via que ela agora estava apenas com suas mãos sobre o peito de Walter, talvez sentindo o bater de seu coração cada vez mais devagar. Foi aí então que...
De sua boca não saia mais saliva, ele também não se debatia mais. Seus olhos permaneceram com lágrimas que jamais haveriam de cair novamente.
– O CORAÇÃO DELE PAROU! –Gritou Luma apavorada, mas parecendo não acreditar, parecendo se sentir em um sonho.
Eu também me senti assim, mas foi então que um estampido me fez voltar á realidade. A porta de prata, agora, atrás de mim, cujo tinha uma pirâmide com a estrela de seis pontas cravada nela, abriu-se.
Notas finais
NO ÚLTIMO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DE DAYS OF HELL: Lucca se vê numa situação de risco, dentro do enorme prédio cinza, ele reencontra uma pessoa que, tentando ajudar, trouxe a morte de sua irmã. Ao perceber que as coisas estão piorando novamente, junto com uma resistência, ele planeja deixar o local, mas isto terá consequências que ele nunca mais irá esquecer.
CAPÍTULO 20 - O SACRIFÍCIO.
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