Days Of Hell

20 Capítulo 20 - O Sacrifício (Gran Finale)


Notas iniciais
NO ÚLTIMO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DE DAYS OF HELL: Lucca se vê numa situação de risco, dentro do enorme prédio cinza, ele reencontra uma pessoa que, tentando ajudar, trouxe a morte de sua irmã. Ao perceber que as coisas estão piorando novamente, junto com uma resistência, ele planeja deixar o local, mas isto terá consequências que ele nunca mais irá esquecer.

Δ



Naquele escritório escuro havia três Militares sobre uma mesa em frente á monitores. Eles olhavam perplexos para as telas, que mostrava outros lugares da Unidade Militar, em que estavam. Esse era o trabalho deles, eles deviam vigiar o local pelas câmeras no mínimo doze horas por dia, se quisessem permanecer naquele lugar. Mas nenhum deles reclamava, era uma honra ser Militar, uma honra servir o país, mesmo que hoje, ele estivesse destruído.


Por enquanto tudo parecia normal, na cozinha, as prisioneiras trabalhavam para gerar alimento para mais de cinquenta Militares que havia naquela Unidade. No calabouço, os outros prisioneiros, estavam quietos, deviam ter desistido de tentarem abrir suas celas. Nos corredores, estava tudo calmo, no laboratório, os médicos estudavam o vírus que consumiu o país. Na garagem, alguns Militares cuidavam para deixar os tanques e os helicópteros limpos, e prontos para uma missão de urgência. Na sala principal, outros Militares andavam ocupados. Mas no pátio, havia três vultos...

Não poderiam ser infectados, eles não tinham inteligência suficiente para entrar no bonde e ligá-lo para seguir viajem. Eram sobreviventes. “Pobres coitados” pensou um dos Militares.

No mesmo instante, ele anunciou pelo microfone que havia sobreviventes no lado externo da Unidade Militar. “O General saberá o que fazer” pesou novamente.

CLIC!

A porta da sala de vigia se abriu, e um doutor entrou para falar com um dos Militares:

– Ian, preciso falar com você... –Disse o Doutor de jaleco branco, alto, de meia idade, moreno e de cabelos negros.

– Agora não Doutor... Estou ocupado! –Respondeu o Militar Ian, concentrado angustiantemente na câmera que mostrava os três vultos, do lado de fora da Unidade.

Talvez nem todos ali fossem ruins. Talvez nem todos, pensavam que ser um Militar fosse algo bom. Afinal a grande maioria dos soldados que ali se encontravam já havia matado sobreviventes inocentes. Mas ele não. Ele não tinha coragem. Ele não mostrava, mais ainda pensava nas últimas palavras que seu amigo antes de morrer lhe dissera.

Ian percebeu que o doutor não havia se contentado com a sua resposta. Ele se virou para repetir para o Doutor que não queria conversar com ele agora, mas ele não estava ali aguardando mais uma resposta. O Doutor estava ali vendo os mesmos três vultos que pairavam na parte externa.

De repente ele arregalou os olhos, e saiu da sala de vigia. Ian achou a atitude estranha, mas então voltou sua atenção para os três vultos.


Δ



Tudo estava em câmera lenta ou era eu que estava passando mal? Senti muitas mãos em cima de mim, me segurando, me imobilizando. Mas por algum motivo eles não apontavam suas metralhadoras para mim. Talvez seja por que eu estou sem arma alguma.


Eles me imobilizam e levam-me para junto de Luma, e um Walter... Talvez morto.

Os militares imobilizaram a garota que se debatia nas mãos dos homens de uniformes negros. Rapidamente, surgem mais Militares e se juntam a nós também, mas desta vez nos apontando suas metralhadoras.

“Saiam! Saiam da minha frente”.
Do mar de Militares sai um homem, que não me é estranho, usando um jaleco branco, como um médico. Em suas mãos ele trás um equipamento estranho, que eu identifico ser um desfibrilador. Mas oras! O que ele faria com isso?

Ele se aproxima do corpo do meu amigo morto. E começa a mexer perturbado no equipamento. Ele deve estar tentando ligá-lo. Eu o conheço de algum lugar, o médico. Ao contrário do que eu pensara nenhum dos Militares parece se intrometer na tarefa que o médico está prestes a fazer, ninguém o repreende.

Ele tira a camisa imunda de sangue de Walter e massageia seu peito, passando que não consigo ver, e então carrega o desfibrilador.

“O que vai fazer? Deixe-o paz! Deixe-o em paz!”. Gritava Luma.

VULC!

Ele tentava reanimar o garoto com o coração morto.

No momento não sei o que pensar, mas como eu, parece que todos ali estavam sem reação. Todos assistiam a cena do médico tentando reanimar seu paciente.

VULC!

O corpo de Walter tremia, e parecia que algo tentava sair de seu peito quando o médico descarregava a energia.

Foi na terceira tentativa que até eu pude sentir a energia acertando meu coração. O corpo do meu amigo tremeu tão violentamente, que o fez inspirar o ar que nos era concedido, ele voltara á vida. Mas não estava acordado, apenas respirando novamente.

Luma me olhou com os lábios tremendo, querendo mais uma vez, obter uma resposta de mim, sem eu a ter.

“Você tem autorização para reanimá-lo Doutor?”. Perguntou um Militar que segurava Luma tão forte que eu via a garota fazendo caretas de dor.

“Não importa Militar! Vou salvá-lo com, ou sem o consentimento do General...”.

Disse o médico que então agora, eu pude me lembrar de onde eu o vi, uma vez.

“Ele é meu filho...”. Terminou de responder ao Militar, segurando o corpo de Walter, seu peito subia e descia.



Já havia horas que eu e Luma estávamos dentro deste quarto. Era limpo, com duas camas com lençóis brancos como a neve, e quentes como um forno. O quarto não tinha janelas, apenas um duto que nos oferecia um ar fresco. Luma estava sentada na cama perto de um guarda-roupa vazio, e eu estava sentado na que estava perto da porta, que estava trancada.



Estávamos preocupados, assustados e famintos. Não tínhamos nenhuma notícia de Walter, e toda vez que íamos tentar abrir a porta e pedir informações, os Militares que guardava ela diziam: “Calem a boca seus desgraçados!”.

O que podíamos fazer? Quem poderia nos ajudar? Afinal, não tínhamos como sair daquele lugar.

– Você acha que foi uma má ideia de termos vindo para cá? –Perguntou Luma olhando fixo para o chão.

Eu olhei para ela, a garota derrotada que estava completamente suja, e assim como eu, cheirava mal.

– Eu não sei Luma... Mas... O médico... O pai de Walter o salvou!

– Você acha que ele é um deles? –Perguntou a garota desta vez chorando e olhando para mim.

– Eu não sei... –Desta vez foi eu que olhava para o chão- Eu... Não sei nem o motivo dele estar aqui...

– Você acha que eles vão nos matar?

– EU NÃO SEI! –Gritei para a garota que agora chorava compulsivamente assustada com minha reação- Olha... Desculpe-me, eu...

CLICK

Um homem de uns cinquenta anos, forte e robusto, com seus cabelos grisalhos e algumas rugas em sua face entrou no quarto, e fechou a porta atrás de si. Luma e eu nos calamos e olhamos para o chão, enquanto o homem nos rodeava. Ele pegou uma cadeira que estava ao lado da cama de Luma, colocou-a á nossa frente e sentou-se, olhando para nós.

– Vocês não precisam ficar com medo. Eu não vou machucá-los. –Disse com sua voz grossa.

Permiti-me olhar para ele enquanto Luma não levantou a cabeça.

– Onde está Walter? –Perguntei.

– Oh! Calma. Vocês estão bem? –Perguntou.

– Sim. -Respondeu Luma com sua voz fina, porém firme.

– Ótimo. Vocês precisam de um banho. E aposto e estão com fome! Vou providenciar roupas novas para vocês, e comida. –Disse ele olhando para a garota.

– Obrigado, mas queremos saber de nosso amigo, ele está bem? –Ao perguntar isso, o homem virou-se rapidamente para mim e pude sentir a pressão dos seus olhos para com os meus.

– Não sabemos. O Doutor Toni está muito preocupado com seu filho. E a propósito, como chegaram aqui? –Perguntou ele fechando os olhos um pouco.

– Somos sobreviventes, ouvimos falar que aqui era um lugar seguro e então conseguimos chegar.

– “Era um lugar seguro”? Você não acha que é mais? –Perguntou ele.

– Não foi o que quis dizer... Quis dizer, que passamos muita coisa para chegarmos aqui, e não sabíamos que iríamos ser tratados assim.

– Mas vocês foram mal tratados? Só colocamos vocês neste quarto, por que afinal, não sabemos se estão infectados! E o amigo de vocês, bem, veio com um ferimento suspeito. Mas vamos falar disso depois. Quero saber como chegaram aqui, por que pelo o que o Doutor disse o filho dele era de São Paulo, então vocês vieram com ele?

– Todos nós viemos de São Paulo! –Disse, percebendo Luma olhar de relance para mim- Conseguimos sair de lá antes da bomba explodir!

– Mas pelo que fiquei sabendo, eram poucas estradas que estavam acessíveis. Vocês não toparam com meus Militares?

Lembrei-me de quando eu salvei Walter, Luma e Diane dos Militares na estrada. Eu os explodindo...

– Não! Não topamos com nenhum Militar, só...

– Só...? –O homem me interrompeu, será que se eu falasse isso poderia de alguma forma nos prejudicar?

Claro que não! Afinal era o jeito de eu perguntar se Diane estava aqui.

– Quando estávamos aqui por perto, em Paraty –Percebi que o nome da cidade despertou o interesse do homem, pois ele me olhou atento- Perdemos uma amiga lá... E depois de algum tempo vimos um helicóptero vindo para esta direção...

O homem pareceu pensativo como se lembrasse de uma tragédia. Então, olhou para Luma, como um leão olha para o cordeiro.

– Essa nossa amiga, estava no helicóptero, sabemos disso, e ele veio para esta direção... Ela está aqui não está? Chama-se Diane, tem onze anos... Tem cabelos não muito longos, castanhos... E...

– Sinto muito desapontá-lo, mas nossos homens não foram mandados para Paraty! Deve ser o helicóptero do exército! –Disse ele rispidamente.

– E vocês Militares e o exército não são a mesma coisa? –Perguntou Luma, que estava impaciente.

– Não querida! Somos bem mais treinados, e uma coisa eu posso te garantir: Se nós enviarmos nossos Militares a algum lugar, este lugar terá de ser muito importante, não uma simples cidadezinha chama Paraty! –Luma calou-se e olhou para baixo com lágrimas nos olhos, provavelmente pensando em Diane, e em como nunca mais a veríamos.

O Homem levantou-se de um salto e nos encarava diante de nós.

– Aqui não temos mais sobreviventes algum, vocês foram os únicos... Que não estavam infectados.

Eles sabiam que não estávamos infectados, pois após nos levarem para dentro desta unidade, nos obrigaram a fazer um exame de sangue, rápido. Desta vez também me levantei.

– E os que estavam vocês mataram certo?

O homem só me encarou, me medindo, sentindo-se desafiado. E era isto mesmo o que eu estava fazendo, desafiando-o, pois eu queria respostas. Estava com medo, mas minha sede do saber era maior.

– Vocês queriam saber do amigo de vocês não? –Perguntou ele me ignorando.

– Como o pai de Walter foi parar aqui? –Perguntou Luma.

– Ele é médico, achei que precisaríamos de um... Ele tem nos ajudado muito, e quando viu vocês pelas câmeras que vigiam a entrada para a Unidade, viu que seu filho estava ferido, então simplesmente veio o mais rápido que pode com um desfibrilador.

– E Walter? Está bem? –Perguntei.

– Não tenho certeza, mas... Não quero dar uma notícia ruim para vocês, ele... Quer dizer, eu não criaria muitas esperanças se eu fosse vocês!

Luma soltou um grunhido alto, e então colocou suas mãos sobre sua face, e derramou-se em lágrimas.

– O que vocês fazem aqui? Como que...

– Olha garoto –Disse o Homem encaminhando-se para a porta- Vocês estão cansados, e eu também, amanhã vocês poderão fazer perguntas, que iremos responder, agora, descansem. –Disse ele abrindo a porta e se retirando.

– Mas você não entende que...

– Descansem! –Disse ele não muito alto, mas sério e com um olhar perfurador, que colocava uma sombra fria no quarto, e congelava quem quer que esteja nele- E me chame de General, General Marco!

Ele bateu a porta e nos deixou sozinhos, na névoa tempestuosa, congelados.

Tentei abrir a porta, mas mais uma vez ela estava trancada, e o Militar que a guardava do lado de fora rejeitava abri-la para nós. Recebemos roupas novas, parecidas com os uniformes negros dos Militares. Luma foi a primeira a tomar um banho e se trocar, eu fui em seguida. Sempre em silêncio nem eu e nem a garota falamos nada.

Mas ambos sabiam o que sentíamos, nos sentíamos presos. O que será que nos aconteceria em seguida?

Após comermos uma refeição extremamente boa, Luma resolveu me dizer:

– Lucca, eu... Não me sinto segura aqui, parece que o General está nos escondendo algo.

Coloquei meu dedo indicador sobre minha boca, para fazê-la entender que havia um Militar na porta, e não podíamos falar muito alto.

– Eu também não Luma, eles estão escondendo algo sim! E ele não quer falar sobre o Walter... Será que... –Sussurrei para a garota, mas fui interrompido.

– Não Lucca! Ele não está... Morto, ele está bem, mas os Militares não querem nos contar!

– Temos que encontrar uma pessoa que nos conte a verdade!

– O pai de Walter... Será que nos permitirão falar com ele?

– Tem que permitir Luma. Não podemos ficar presos aqui para sempre, afinal... Aqui é nossa casa agora...

Os lábios de Luma se contraíram, ela estava reprimindo um choro. Sim, ela era muito bonita mesmo, mas não foi por isso que eu me senti obrigado a abraçá-la, foi por que, agora, ela era a única pessoa em quem eu podia confiar, e a única pessoa que eu protegeria no momento.


Δ



Eu acordei em uma sala escura, percebi que a única luz vinha de uma vela. O local era pequeno, mas eu estava confortável deitado em um colchão macio. A dor havia sumido, até agora eu não sentia meu braço, mas quanto tempo fazia desde que eu me vi em frente á unidade Militar? Aliás, o que aconteceu realmente?


– Walter? –Uma voz chamou-me, uma voz que eu reconheci de primeira, a voz que sempre assombrava minhas lembranças de quando era criança. A voz que seria a solução de todos meus problemas antes da epidemia.

– Pai? –Chamei ainda tonto.

A luz da vela iluminou o rosto cansado de um homem de meia idade moreno, e algumas rugas visíveis. Ele sorriu para mim.

– Pai? O que... Como?

– Eles me contrataram filho, eles... Eu vi você e outros sobreviventes pela câmera, e vi quando você desmaiou, imaginei que foi pelo ferimento de seu braço ter inchado seus músculos, e então trouxe o desfibrilador, e quando seu coração parou eu consegui reanimá-lo.

Levantei-me com dificuldade e então quando consegui, olhei melhor para o homem que não era muito diferente caracteristicamente de mim, não consegui falar mais nada, apenas chorar. Chorei muito, e não tive vergonha.


Eu tinha seis anos quando meus pais se separaram, no começo eu não entendia, mas com o passar do tempo, ele foi me mostrando o peso que era a situação. Após a separação, eu ainda continuava a vê-lo, sempre vinha em sua casa aqui no rio, nas férias, ele sempre me ligava nos meus aniversários. Mas teve um ano que ele não ligou. Teve um natal que ele não me enviou presentes, não pelo fato de ser algo material, mas isto me fazia lembrar que ele sabia que eu ainda existia.


O tempo passou, fazia já anos que eu não o via. Seu nome em minha casa tornou-se um tabu. Era constrangedor quando eu ia para aniversários dos meus amigos e via as fotos de família, com um pai e uma mãe.

De todas as pessoas para eu encontrar por que foi justo ele? Por que foi o homem que não me levou no primeiro dia de escola? Por que foi o pai que não me ensinou como chegar numa garota?


O homem passou seu braço pelo meu ombro, me chamando para um confortável abraço estranho. Percebi que meu braço direito estava engessado. A dor parecia ter sido abduzida.


– O que você está fazendo aqui? Perguntei á ele.

– Eles me contrataram... Presto meus serviços médicos para eles... Mas conte-me você... Como chegou aqui, filho? Como atravessou o estado em meio a este inferno?

– Meu amigo me ajudou, eu e ele conseguimos sair antes de explodirem São Paulo...

– E... Sua mãe?

– Não... Eu a perdi –Disse não conseguindo conter a cachoeira que saia dos meus olhos- Se você estivesse lá... Poderia tê-la salvo.

Não consegui reprimir a raiva.

– Filho... Se você soubesse o quanto me arrependo de ter abandonado minha família...

Ficamos ali alguns minutos em silêncio, eu e meu pai novamente, após tantos anos. Mas então, lembrei-me de meus amigos.

– Onde está Lucca e Luma? E o que é este lugar onde estou?

– Eles estão lá em cima filho, eles estão bem... E...

– O que está acontecendo? – Desvencilhei-me dos braços do meu pai e o encarei.

– Filho entenda... O General manda aqui, e não posso contrariar suas ordens.

Algo em sua voz me vazia sentir medo, me fazia perder a segurança antes mesmo de eu sentir a sensação de tê-la.

– E qual foi a sua ordem? –Perguntei.

– Os planos dele são um mistério filho... Mas ele me prometeu que salvaria eu e você, assim que eu terminasse a descoberta!

– Quais foram? –Exigi.

– Seus amigos não podem saber que está aqui... Eu não posso contá-los... Você deverá permanecer aqui neste calabouço, preso.


Δ



Havia um relógio de parede, próximo ao guarda-roupa vazio, dez horas. E cheguei a conclusão que era da noite, pois quando chegamos aqui havia acabado de amanhecer. Eu dormi pelo menos umas oito horas, e Luma, continuava desacordada em sua cama confortável.


Tentei dormi novamente, mas não consegui. Este lugar me incomodava, este lugar não me fazia sentir segurança. Levantei da cama, vestido com as roupas negras, e caminhei até a porta.

CLICK!

Desta vez ela estava aberta. Será que algum Militar esqueceu-se de trancá-la, ou era propositalmente?

Quando atravessei o portal, me vi em um corredor mal iluminado, vazio, e então, segui-o até o final. Voltei á sala principal, vi a porta prateada por onde entrei, e o símbolo da pirâmide com a estrela se destacava na parte de dentro também. Olhei em volta e não havia ninguém, estava tudo silencioso. Á minha esquerda algumas portas brotavam, indicando novos quartos seja lá com o quê dentro. Á direita, mais um corredor mal iluminado, onde eu segui em direção.

Desta vez as portas eram diferentes havia janelas embutidas nelas. Eu tentava espionar o que havia de escondido lá dentro, a primeira: Era um escritório com muitos papéis sobre algumas mesas, e computadores. Na segunda: Era mais parecida com um laboratório pequeno onde em uma mesa vi que havia ratos mortos, com algumas bugigangas laboratoriais em volta deles.

– Espionando? –Me virei rapidamente assustado, e vi um Militar da pele morena parado a minha frente.

– Ah! É que... Eu estava sem sono, vou voltar para o meu quarto... –Disse tentando voltar, mas ele se pôs em meu caminho.

– Não é permitido andar pelos corredores ás dez horas da noite, sobrevivente! Onde estão os Militares que guardam seu quarto? –Perguntou ele, num tom que eu não conseguia dizer se era irônico, ou preocupado.

– Estava tudo vazio, eu até estranhei, pois vocês adoram manter eu e minha amiga como prisioneiros, então, eu vi que podia ser uma chance de eu encontrar meu amigo Walter! –Não consegui controlar minha ironia também.

– Vá com calma sobrevivente, ás vezes você não sabe com quem está falando... E eu não tenho informações sobre seu amigo. –Disse ele parecendo me analisar.

– Eu espero o amanhecer para ter esta resposta. Está bom para você sobrevivente? –Disse eu para ele.

O Militar não conteve um sorriso e então respondeu.

– É Militar Ian para você! Faça isso que é melhor para nós dois.

E então ele saiu da minha frente, permitindo-me passar. Foi uma conversa estranha, pois ele não foi ignorante como a maioria dos Militares era. Que tipo de Militar me deixaria voltar sozinho para o meu quarto? Pois eu poderia muito bem fingir que voltaria, e continuar espionando por aí.

Quando voltei ao meu corredor, pude ouvir as vozes e os passos apressados de outros Militares, talvez, estariam voltando a guardar o quarto, então rapidamente entrei e fechei a porta.

O sono demorou, e enquanto isso pensava no Militar estranho que me pegou espionando, mas quando chegou eram duas da manhã, consegui cair novamente no sono.


Δ



Meu pai já havia ido embora á algum tempo. Mas eu não conseguia descansar como ele havia me dito antes de ir. Eu fiquei ali, á luz da vela pensando no que ele havia me dito. Eu estava preso, preso até ele fazer algo que o General havia lhe dito para fazer, então depois dele cumprir a tarefa o General deixaria eu e ele sobreviver. Bom, talvez ele nos enviasse ao verdadeiro abrigo. Se é que existia um.


Mas e Lucca e Luma? Eles provavelmente iriam também...

“Seus amigos não podem saber que está aqui... Eu não posso contá-los...”.

Mas porque ele não podia contar a eles? E onde eles estariam? Será que os Militares os mataram?

Meu coração começou a acelerar.

Meu pai disse que eu estava preso até ele conseguir satisfazer o General com esta tal tarefa... Mas até quando? E se ele não conseguisse? Eles me manteriam aqui pra sempre. Matariam Lucca e Luma provavelmente... O que eu poderia fazer? É claro que isso não daria certo! Tínhamos que fugir deste lugar, eu, Lucca, Luma e meu pai.

E Diane? Será que...

Levantei-me, e espiei pela pequena janelinha embutida na porta do calabouço.

– Olá... Tem alguém aí? –Sussurrei quando vi, ao meu alcance, que havia mais calabouços, provavelmente iguais ao meu- Tem alguém?

Na porta de frente para a minha, os olhos verdes que me olharam estava sob a luz de uma vela também.

– Oi, você... Você está presa aqui também? –Perguntei á mulher dos olhos verdes, que tinha uma mecha loira caindo pelo olho esquerdo.

A moça não me respondera apenas me olhava.

– Ei... Pode falar comigo, eu não sou um deles...

Percebi que mais olhos me observavam pelas outras portas, que estavam ao lado a da moça.

– Há sobreviventes aqui? O que fazem aqui? –Perguntei.

– Estamos presos filho, esperando a morte! –Respondeu os olhos na porta, de uma senhora, ao meu nordeste.

– O que? Não, claro que não! Eles não vão nos matar... Eles...

– Está vendo, nem você sabe o que acontecerá com você! Ouvimos o Doutor conversar contigo filho, ele também está enganado com o General, mas eu não, eu sei exatamente quem ele é! Covarde, Assassino...

– Shiii! Vovó os Militares podem escutar! –Disse uma voz da porta que estava á minha direita, que eu não conseguia ver.

– Olha o que eles fazem filho! Deixam sobreviventes presos aqui, crianças... E Isadora, minha neta, não é a única, Há alguns dias eles trouxeram outra garotinha!

Consequentemente pensei em Diane.

– E onde ela está? –Perguntei, mas foi a moça de olhos verdes que me respondeu.

– Está do seu lado, á sua esquerda. –Respondeu.

– Diane? Diane é você que está aí? –Perguntei ao nada.

Não ouve resposta.

– Ela nunca responde, desde que ela chegou, nunca apareceu na janelinha... –Respondeu novamente a moça dos olhos verdes misteriosos.

– Você acha que ela... –Fui interrompido por ela.

– Não, eu vejo quando eles trazem comida, ela pega!

Então porque ela não respondia? Será que estava em estado de choque?

– Diane? Sou eu... Walter!

Ao dizer meu nome, ouvi um barulho, como se alguém tivesse se levantado ás pressas.

– Walter! Sou eu... Eu estou aqui! –Gritou Diane de alegria á minha esquerda.

– Meu Deus! Eu não acredito... –Sussurrei.


Δ



O relógio desta vez marcava dez horas da manhã. Luma já estava acordada, sentada em sua cama, como se esperasse por algo.


– Luma... Você está bem? –Perguntei ao acordar.

– Sim Lucca, eu só estava o esperando... Parece que o General quer falar com agente.

Lavei meu rosto e escovei meus dentes, no banheiro do quarto. E após alguns minutos, um Militar entrou no quarto, e grosseiramente nos obrigou a sair dele. Ele estava nos levando para a sala do General.

Insatisfeito com o nosso ritmo, o Militar começou a nos empurra e dizer: “Andem mais rápido sobreviventes!”.

A sala ficava no salão de entrada, era a porta que estava do lado do grande portal prateado.

Ao entrarmos vi que o General, estava sentado em sua confortável poltrona, em frente de uma mesa, com alguns papéis, a sala parecia mais um escritório. Uma enorme bandeira do Brasil resplandecia pendurada na parede. Mais três Militares parecia nos aguardar na sala também, e entre eles, Ian, o Militar que ontem tinha me surpreendido, enquanto eu andava nos corredores, estava ali olhando para mim, como sempre com o olhar irônico.

O Militar empurrou Luma e eu, para chegarmos mais perto do General, e então saiu, fechando a porta.

– Bom dia, sobreviventes! Tiveram uma boa noite de sono? –Perguntou com sua voz extremamente grossa e rígida.

Luma e eu apenas acenamos.

– Ótimo! Bom, mandei os trazerem aqui, pois... Aconteceu algo, que... Não sei nem como dizer... –Disse o General, tentando fazer uma cara, sem sucesso, de alguém triste.

Olhei pelo canto do olho, Ian, que parecia estar inquieto.

– O que é? –Perguntou Luma.

– Bom, fiquem sabendo que não tivemos culpa, o Doutor fez tudo o que pôde.

Vi que Luma começou a tremer. Eu, impressionantemente, estava calmo, não sabia o por que. Talvez, eu nem estivesse escutando o que ele dizia.

– O amigo de vocês, Walter, faleceu hoje ás sete horas da manhã. Foi uma parada cardíaca, o Doutor tentou por dez minutos reanimar o corpo do filho, mas não adiantou. – O que mais me irritava era a expressão triste que o homem tentava fazer.

Luma desabou, começou a ter um ataque de pânico, caiu no chão, chorando, e gritando: “Mentira! Você está mentindo! Você o matou!”.

Eu permaneci imóvel. Não disse nada, apenas olhei curioso para o Militar Ian, que percebi acenou com a cabeça negativamente para mim, será que ele tinha algo para dizer, será que aquele aceno significou algo? Será que...

Meus pensamentos foram interrompidos, pelo salto que Luma deu sobre a mesa do General, antes que eu pudesse ver o que estava acontecendo, Luma já estava lá arranhando, até sair sangue, todo o rosto do homem.

Eu tentei tirá-la de cima dele, mas confesso que não fiz muito esforço. Mas os três Militares que estavam na sala tiraram a garota furiosa, e conseguiram tirá-la da sala. Ian me puxou pelo braço, e me tirou de lá também. Antes que ele batesse a porta, olhei por cima do ombro, e pude ver o rosto do General avermelhado, e o sangue pingando.

PAH!

Após nos jogarem em nossos quartos, bateram a porta, e nos trancaram novamente.

– Eles estão mentindo... Mentindo! Eles o mataram! –Gritava Luma no chão, desesperada.

Eu não sabia o que fazer, e quando dei por mim eu já a estava abraçando.

– Calma Luma... Eu não sei o que vai acontecer, mas... Vai ficar tudo bem... Tem que ficar!

Qual o meu problema? Porque estou sem reação? Meu melhor amigo morreu! Morreu! Porque não consigo ficar triste?...


Após algumas horas, mais uma vez Luma adormeceu.


O peso da morte de Walter caiu sobre mim agora. Ao contrário de Luma, eu não consegui chorar, apenas me senti mais preso do que nunca.

De repente, percebi que eu precisava falar com o pai de Walter, ele certamente me diria o que realmente aconteceu. Então, me lembrei de que na noite passada ás dez horas a porta estava destrancada, não sei se hoje aconteceria, mas se acontecesse, era minha chance de ir procurar pelo pai de Walter.

Luma acordou ás cinco horas da tarde, e então, eu a expliquei o que pretendia, e ela entendeu, que somente eu poderia fazer isto.

– Mas você acha que desta vez a porta estará aberta? Eu acho que não estará... –Disse ela com a voz fraca, e os olhos inchados de tanto chorar.

– Bom, ontem a porta estava e não tinha nenhuma explicação para isto, e sabe... Acho que tem alguma coisa de errado com um Militar.

Contei á ela sobre Ian, e contei também, sobre o modo como ele me tratou, diferente dos outros Militares.

– Lucca... Eu não sei o que dizer, mas pra mim ele parece igual aos outros.

– Não Luma! Acho que ele não concorda com as atitudes do General, porque ele bem que podia me bater, ou sei lá fazer o que, quando me encontrou espionando...

– Mas por que ele então não ajuda a gente? –Perguntou Luma.

– Ele me ajudou quando me viu espionando, ele deixou-me voltar para o quarto...

– Não sei Lucca... Mas olhe, eu vou torcer muito para a porta estar aberta... Mas acho que foi erro deles de terem deixado ela destrancada, e acho que não se repetirá hoje...

Apesar de tudo, Luma estava certa, acho que eu estava num ponto tão alto de estresse que comecei a imaginar coisas.

– Mas vamos ser positivos, se a porta estiver aberta, você tem que encontrar o pai de Walter o mais rápido possível... E perguntá-lo o que precisamos saber... E o que é? –Percebi que Luma não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, ela estava mais perdida naquele lugar que eu, ou será que ela havia desistido?

– Eu vou perguntar de Walter, e pedir a ajuda dele para sairmos daqui! –Respondi.

Luma permitiu-se sorrir, falsamente, e disse algo que me confortou:

– Vai dar tudo certo!

As horas foram passando, e eu fiquei cada vez mais ansioso para checar a porta ás dez horas. Após comermos a comida, dessa vez enlatada, que nos deram, ficamos na expectativa do tempo passar logo. E quando o relógio marcou dez horas, fui verificar a porta.

Estava fechada.


Δ



Diane me contou tudo o que havia acontecido com ela, desde quando caiu no esgoto, até quando chegou aqui, mas eu parecia não fazer parte da conversa, agora a garota conversava com a mulher dos olhos verdes que estava á minha frente.


– E o que aconteceu com este Militar que se chamava Benjamin? –Perguntou a mulher.

– Ele... Salvou-me, mas... Foi mordido... –Respondeu Diane com a voz fraca.

– Ah não! –Grunhiu a mulher antes de sucumbir ás lágrimas...

Eu conhecia esse nome Benjamin... Um Militar chamado Benjamin. Tive um flashback:

“Não era um infectado, era um Militar... – Disse eu, olhando para o corpo do homem que Lucca acabara de matar.

– Foi... É... E se ele fosse nos matar? –Respondeu Lucca confuso.

– E se ele fosse nos ajudar?! –A minha voz estava se alterando.

Lucca não quis responder-me, caminhou até o homem caído e abaixou-se para vê-lo melhor. Devia ter entre os vinte e poucos anos, seus cabelos castanhos claros, e sua pele um pouco cinza. Luma abaixou-se e nos mostrou o braço do morto que estava mordido. No seu peito esquerdo havia uma plaquinha de ferro escrito ‘Benjamin Castelhano’.

– Foi o Militar que Lucca matou! –Disse para mim mesmo, mas a mulher pareceu ouvir.

– O que? Quem é Lucca? Quem ele matou? –Perguntou ela para mim.

– Diane... O que aconteceu depois que ele foi mordido? –Perguntei a garotinha no calabouço ao meu lado.

– Eu... Nós voamos no helicóptero, e então um Militar o jogou de lá... Jogou ele! –Respondeu a garotinha, que eu não a via, só ouvia.

– Ele não morreu quando o jogaram... –Conclui- Ele... Quer dizer, foi um acidente, mas pensamos que ele nos mataria, ou...

– Então você atirou nele! –Afirmou a mulher com outro tom de voz.

– Não, não fui eu! –Respondi- Foi meu amigo Lucca, mas... Foi um acidente!

Ela não respondeu apenas chorou, gritou, e cada grito seu era mais alto que o anterior.

PÁH!

Uma porta se abriu, eu me recolhi para mais afundo do pequeno quartinho. Eram eles, os Militares. Eu me encolhi no canto e apenas ouvia o que eles faziam. Eles abriram outra porta, que identifiquei ser a da moça dos olhos verdes. Ouvi mais um grito dela, e os Militares arrastando-a para outro lugar, que eu não sabia onde.

– Não, me deixem aqui! Para onde estão me levando? NÃO! SOCORRO... –Eu não sei o que eles pretendiam fazer com ela, mas percebi que ela estava mais que apavorada, talvez fora até inconscientemente que ela chamou o nome dele- BENJAMIN, SOCORRO!

PÁH!

Levaram a mulher para outro lugar. Uma porta foi fechada.


Δ



CLICK!


Era noite, vi que o relógio marcou três horas da manhã, um barulho oco veio da porta. Olhei para Luma, que estava adormecida, seu rosto mostrava claramente cansaço. Levantei-me e caminhei até a porta, que estava aberta...

Meu coração dava saltos de medo, mas os enfrentei e sai por ela. O corredor estava escuro mais uma vez, mas isso não me repreendeu. Eu comecei a procurar o pai de Walter em todas as portas com janelas de vidro. O mais curioso foi que eu não pensava em quem abrira a porta do quarto, mas sim, o porquê de não haver nenhum Militar nos corredores. Será que estão me espionando? Será que estão me enganando?

Não Lucca, você não pode se distrair. Você tem que encontrar o pai de Walter o mais rápido possível.

Comecei a olhar em todas as portas, passei por laboratórios, escritórios e até uma sala onde muitos animais estavam presos em gaiolas, chamou minha atenção, e foi lá onde eu entrei curioso.

A sala não era muito grande, mas havia muitas gaiolas com ratos, pássaros, e até gatos e cachorros.

Perguntei-me o que eles pretendiam fazer com esses animais. Provavelmente fariam experiências, mas para que eles se preocupariam com isto hoje em dia?

Mas uma coisa me assustou, no final das prateleiras, havia uma caixa em cima de uma bancada, com um pano por cima, eu não segurei minha curiosidade, caminhei até ela, e retirei o pano.

Era uma gaiola de ferro do tamanho de um microondas. Levei um susto enorme, quando vi que dentro dela havia um rato, mas não era um rato comum, era um rato sem pelos, com os olhos brancos, e ao perceber minha presença dava gritos e tentava passar pelo vidro por onde me permitia vê-lo.

– O que você está fazendo aqui? –Perguntou o Doutor, pai de Walter atrás de mim. Vire-me assustado.

– Eu... Eu só estava olhando.

– Você não pode estar aqui, o General sabe que você está fora de seu quarto? –Perguntou o Doutor recolocando o pano, cobrindo o microondas.

– O que é isto? O que vocês fizeram com o animal? –Perguntei horrorizado.

– É uma experiência, eu não tenho nada a ver com isto, vamos você não pode ficar aqui! –Respondeu o Pai de meu amigo falecido puxando-me pelo braço.

– Não! Eu tenho que ficar aqui. Eu vim atrás do senhor! Tenho que falar com você! –Disse á ele desvencilhando-me.

– Comigo? –Ele me encarou- O que é? O que você quer?

– Eu vim saber o que aconteceu com Walter! –impus.

– O General não lhe disse o que aconteceu com ele? O que mais você quer saber?

– Eu não acredito no que ele disse, e sei que é mentira! Eu vi quando você o trouxe de volta a vida quando chegamos aqui. Eu o vi respirar!

– Eu fiz de tudo para salvá-lo, mas quando chegou aqui seu coração parou. –Eu podia ver a mentira em seus olhos, ele estava muito assustado e falando muito rápido.

Eu só conseguia balançar a cabeça negativamente, eu pensei que o pai do meu amigo me entenderia, que eu nem precisaria dizer o porquê de eu estar aqui, que ele saberia o que estava acontecendo. Mas não, ele com certeza, tava manipulado pelos Militares, pior, ele estava agindo como um.

– Você não vai me contar verdade? –Perguntei ainda, tolo, com esperanças.

– Esta é a verdade!

– Mas... É seu filho! Você não demonstra nem ao menos emoção? –Perguntei mais confuso do que cheguei.

– Ele está em paz agora... E se você também quiser ficar em paz... Vivo, deve voltar ao seu quarto antes que o General ou algum Militar veja-o aqui!

Eu não escutava suas últimas palavras, eu apenas olhava ao nosso redor, animais em jaulas propensos á infecção.

– Vocês vão infectar o resto destes animais? Animais vivos? Eles talvez possam ser os únicos, por que lá fora tudo está morto...

– Eu sou apenas um doutor, não sou cientista, eu não me importo com isto, quero apenas viver em paz.

– Aceitando o errado? Aceitando a morte de seu filho?

– O que você quer de mim?

– Eu não quero ficar aqui... Ajude-me a sair deste lugar...

– É impossível sair deste lugar – Disse ele aproximando-se de mim, e ficando cara a cara- Mas se caso você sair... Pode ter certeza de que eles vão atrás de você!

– Com o mundo assim? Acho que eles estão mais preocupados com outras coisas...

– Você não entende... Eles irão atrás de você!

– O que você quer dizer com isso? Porque de mim?

O Doutor ia responder, mas fomos interrompidos por uma série de gritos, como se alguém fosse torturado... Identifiquei os gritos sendo de Luma.

Corri o mais rápido que pude, sai daquela sala onde animais inocentes estavam presos, e corri pelos corredores. Eu nem pensava mais no pai de Walter, ele já estava perdido, ele estava junto com os Militares, renegou a morte de seu próprio filho por eles. Mas e eu? E Luma? Tínhamos que sair daquele lugar.

Os gritos estavam cada vez mais altos, e o que eles estavam fazendo com ela? Será que a matariam? Será que...

Eu não sabia mais o que pensar, eu estava apavorado de novo, só pela ideia de matarem ela e eu ficar aqui, sozinho...

– NÃO! DEIXEM-ME EM PAZ, SOCORRO, LUCCA, ME AJUDA! –Gritou Luma quando eu a vi sendo imobilizada pelos três Militares, levando-a do nosso quarto.

– Não, o que vocês estão fazendo? Ela não está infectada! –Pensei que este seria o motivo de tal- Deixam-na! –Ameacei segurar Luma, mas imediatamente surgiram outros Militares me imobilizando também, e me jogando para dentro do quarto, de onde retiraram minha amiga.

– Socorro! –Luma gritava.

PAH!

Trancaram-me no quarto impedindo-me de resgatar Luma.

– Não! Não a machuquem, deixam-na aqui! –Eu gritava e chorava, derrotado.

Tentava arrombar a porta, tentava rodar a maçaneta, mas o erro dela estar aberta, desta vez não foi cometido.

– Parem! Não me deixem aqui. Luma! –Tentei chamá-la, mas seus gritos já estavam sendo abafados pelas paredes. Estavam levando-a para outro lugar- Eu sabia, sabia que vocês iam nos matar mais cedo ou mais tarde. Tirem-me daqui... Lumaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Minhas forças esvaíram-se. Minhas pernas cederam e eu despenquei no chão, ali, derrotado em frente á porta por onde forçaram minha entrada.

– O que vocês vão fazer com ela? Ela não está infetada! –Repeti. Minha voz sumindo.

Lá fora já estava silencioso. A conversa com o pai de Walter parecia que ocorrera á anos. Porque fizeram isso? Por quê? Quais os motivos?

– EU QUERO FALAR COM O GENERAL! –Gritei, mas ninguém estava ali para me ouvir.

Depois de algumas horas, eu ainda continuava naquele lugar, ainda continuava sem forças para levantar, e as respostas que eu queria ter, pareciam fantasmas que eu jamais poderia ver.

CLICK!

Destrancaram a porta, e recuperando-me levantei rapidamente, e me afastei dela.

Aquele Militar que se chamava Ian entrou, e logo bateu a porta.

– Você veio me matar? –Perguntei indiferente, sem emoção, com as lágrimas já secas no meu rosto.

– Não! Não vim matar você! –Disse ele num tom compreensivo.

– O que vocês vão fazer com ela? Ela não está infectada!

– Eu sei disso Lucca! –Disse ele com um olhar solene- Eu sei disso.

– O que vocês querem? Se fora por eu andar por aí me desculpem, mas não me deixem sozinho, Walter já morreu... E vocês vão matá-la por que? –Disse com os olhos derramando lágrimas novamente.

– Eu não sei o que acontecerá com ela Lucca, mas sei o que acontecerá com você! – Disse o Militar se aproximando.

– Se for para me matar, faça logo! Não fique de rodeios... –Disse aceitando o terrível destino, o terrível destino que me fez chegar até aqui, para morrer nas mãos de um vivo. Irônico.

– Eu não vim matá-lo –Disse o Militar permitindo-se um sorriso maléfico mostrar-se em sua face- Eu vim ajudá-lo.


Δ



Encolhi-me novamente no canto do calabouço quando ouvi passos arrastados e gemidos femininos aproximando-se.


– Não tem mais nenhuma cela disponível Militar. –Ouvi uma voz dizer.

– Que importa?! Vamos deixá-la nesta do garoto, eles vão morrer em breve mesmo!

No mesmo instante que outra voz respondeu, ouvi que eles estavam abrindo a porta do meu calabouço e ao fazerem isto jogaram um vulto feminino choroso, por ela, e então voltaram a fechá-la. Os passos deles se tornaram cada vez mais silenciosos até desaparecerem.

O vulto que eles jogaram estava encolhido em frente á porta do meu calabouço, ele chorava muito. Eu estava começando a pensar que ele estava infectado, que jogaram um infectado para me devorar, mas enquanto eu escutava os soluços do vulto fui percebendo que aquele som era algo semelhante.

– Quem está aí? Você está infectado? –Perguntei á ele.

No mesmo instante ele parou de soluçar, e assim como eu estava ouvindo, tentando identificar se podia confiar em mim.

– Quem é? –Perguntou o vulto com um tom de curiosidade, como se não acreditasse no que tinha ouvido.

A luz da vela estava fraca, quase nos últimos centímetros de cera não derretida. Eu me arrisquei e aproximei-me do vulto, a luz iluminou nossos rostos, ela também se arriscou. Percebi quem era antes dela dizer meu nome:

– Walter?! –Perguntou Luma.


Δ



Eu sabia que tinha algo de errado neste Militar, eu sabia que aquele dia que ele me deixou passar, que aquele dia que ele acenou para mim, não foram gestos comuns. Após eu me acalmar, ele disse para eu sentar-me na cama, e ouvir com atenção, sem interrompê-lo enquanto ele me explicasse o que estava acontecendo:


– Tudo começou quando eles obrigaram-me a matar meu melhor amigo. Antes disso eu tinha orgulho em ser um Militar, mas agora não. Agora eu vejo o que realmente é ser um, é matar sem remorso, matar por matar, e eu não sou assim. Antes de meu amigo morrer, ele me disse algo que me fez despertar, me fez ver que tudo isso é errado. Escute, há mais sobreviventes aqui, eles os mantém presos, não sei o motivo. Há outros Militares também em quem eu posso confiar, e eles me ajudarão! Ajudarão a tirar vocês daqui, você e os outros Lucca, somos parte da resistência...

Ele me contou sobre tudo, tudo o que acontecia no calabouço. Os sobreviventes passavam fome, e os Militares ruins nem ligavam.

Sofri uma descarga de energia quando ele me contou que Luma está lá no calabouço também. E mais... Walter estava vivo.

– Vivo?! –Gritei pondo-me de pé- Eu sabia... Eu sabia... Vamos temos que tirar todos daqui...

–Não espere –Levantou-se Ian também- Não podemos agir agora... Temos que esperar, não está tudo pronto para nos rebelarmos.

– Você quer esperar o que? Esperar eles matarem meus amigos de verdade?!

– Não Lucca, entenda. Temos que descobrir mais sobre os planos do General.

– Eu estava conversando com o pai de Walter, e nem ele sabe os planos dele, mesmo obrigando-o fingir que seu filho está morto, imagina nós...

– Eu sei que você estava lá, era por isso que eu destrancava a porta toda noite no intuito de usá-lo para conversar com o Doutor, assim eu saberia por você o que ele sabe...

– Era você?! Mas por que você simplesmente não perguntou a ele?

– Por que nele eu não confio, ele não parece nem um pouco confiável para nós da resistência.

– Quantos dos outros Militares estão com agente? E quantos sobreviventes há lá em baixo, no calabouço?

– Temos trinta Militares na resistência, e quinze sobreviventes com você e seus amigos. Eu preciso saber o que o Doutor disse á você.

Eu contei a ele sobre a minha conversa com o pai de Walter. Contei que eu havia percebido que ele estava muito nervoso.

– O general deve estar ameaçando matar o filho dele... Mas mesmo assim, eu não duvido que ele tenha coragem de sacrifica o próprio filho pelo General.

Na verdade eu também não desconfiava, pois Walter havia me contado sua história de vida. Ele me contara que seu pai o abandonou-o com sua mãe na sarjeta. Ele havia fugido com a amante de trabalho com quem devia estar morando aqui no Rio de Janeiro até, acho, que antes da epidemia se alastrar. Só depois de alguns anos que seu pai resolveu convidar o filho para visitá-lo nas as férias. Covarde.

– O General não desconfia da resistência? –Perguntei.

– Acho que ele sabe... Mas ele é astuto. Com certeza já obrigou algum Militar da resistência á contar-lhe tudo. Ele deve saber de tudo, mas nós não sabemos nada sobre ele.

Eu pensei um pouco, mas o que eu estava prestes a tramar era o certo. Não podia esperar nem mais um minuto aqui neste quarto.

– Leve-me para ver meus amigos... Por favor...

– Não eu posso! O General está desconfiando, se ele souber que...

– Eu preciso vê-los! Depois eu faço tudo o que você me mandar fazer, mas leve-me para vê-los! Por favor!

– É muito perigoso Lucca!

– Eu preciso, preciso ver Walter com meus olhos, aí sim eu ficarei motivado para acabar com o General!

O Militar parecia estar lutando contra seus demônios. Após algumas caretas redirecionadas a mim, ele acenou positivamente. Depois ele olhou para o relógio que marcava quase meia noite.

– Não vai ser tão fácil como você pensa, a não ser que eu consiga enganar o Militar que guarda o calabouço, mas vou precisar de algumas horas!

– Quantas?

– Acho que... Duas! Até lá esteja preparado, mas é ir e voltar, está bem?

Fui obrigado a concordar, afinal, eu também precisaria pensar em algo para o que eu estava tramando.

Ian dirigiu-se á porta, quando eu lhe disse algo que acabara de me lembrar.

– O Doutor... Ele disse que o General precisava de mim, ele disse também que se eu fugisse ele iria atrás de mim... Por quê?

Ian virou-se e me encarou com um olhar assustado.

– Não sei, mas iremos descobrir Lucca, confie em mim!

– Eu confio... –Disse vendo ele, sair, bater e trancar a porta.



Eu precisava pensar em algo em duas horas. Eu decidi me preparar... Tomei um banho, o banho mais demorado da minha vida. Vesti novamente as roupas negras que me deram, e fiquei seriamente pensando no que eu faria quando chegasse até o calabouço. Certa parte do cominado eu menti para Ian, eu não conseguiria passar mais uma noite neste lugar, não com o General prestes a matar qualquer um dos meus amigos. Até mesmo eu...



Mas algo que nem eu e nem Ian pensamos aconteceu. O click fez a porta do meu quarto se abrir, e por ela, o General entrou e sentou-se em uma das camas. Eu estava perto da passagem para o banheiro, congelado, assustado e olhando fixo para o homem de meia idade. Sob a luz não muito forte do quarto, seus olhos, pareciam querer me devorar, havia algo naquele olhar, algo que estava prestes a sair. Ele fez um gesto para eu me sentar, mas permaneci ali sem responder.

– Como quiser. –Disse o General entendendo o meu desejo.

– O que faz aqui?

– Me disseram que você queria conversar comigo, você gritou meu nome.

– Queria saber o porquê levaram minha amiga...

– Ela está infectada!

– Não! Não está...

Seus olhos apertaram, examinando-me...

– Ela está! Por isso a levamos... Mas você está bem Lucca, pode ficar aqui com agente...

– E se eu não quiser?

– Não vejo motivo, o tratamos tão bem... Tenho planos para você!

Imediatamente lembrei-me do Doutor me dizendo que o General precisava de mim, e esta era a minha chance de saber o motivo.

– O que você quer de mim?

– Eu quero a verdade! –Disse o General.

– Muito bem, você a tem... Eu não quero ficar aqui...

– Você matou um Militar chamado Benjamin Castelhano? –Ele me interrompeu.

O Militar que eu matei inconscientemente. Quando eu, Walter e Luma, tínhamos abandonado o caminhão na estrada e ele me pegou de surpresa, como ele sabe?

– Como você sabe?

– Responda!

– Foi sem querer, eu pensei que era um infectado e quando eu vi já...

– Ele era meu irmão!

– Sinto... Muito. –Não tive reação.

– Quando fiquei sabendo, chamei todos os Militares que foram para esta missão com Benjamin, eles mentiram para mim. Disseram que Ben havia se perdido no esgoto. Mas sou um homem muito bom, Lucca. Perdoei-os...

– Mas como você sabe?

– Eu sei de tudo Lucca, e acredite... Tudo mesmo. Sei que sua amiga não está com vocês desde o começo da epidemia, ela tinha sido capturada por outros Militares no estado de Minas Gerais! E sei que você a salvou explodindo a base deles... Sei que o que você passou não é para qualquer garoto de dezessete anos...

– Como você sabe?!

– Na base Militar... Um dos tanques de guerra tinha câmera, eu mandei colocarem para estudarmos os infectados. E você apareceu em nosso caminho... Acredito que um homem de verdade, poderia não sobreviver como você sobreviveu. Você é valioso garoto. Tornaria-se um dos melhores Militares que eu...

– NUNCA! –Gritei- Nunca me tornarei um Militar, vocês matam crianças, inocentes... São piores que os infectados!

– Eles estão todos infectados Lucca.

– Não, não estão. Eles são pessoas normais, não agem como eles.

– Lucca, você tem que entender que... Eles estão infectados, o vírus é transmitido pelo ar.

Um tambor pareceu batucar dentro de mim, e percebi que era apenas meu coração. Aceitei o convite que antes o General havia me dado, e sentei-me na cama, abalado.

– Mas... Mas como? Então... Eu também estou infectado?

– Não, viu como isto é uma benção? Nós, eu e você, e a maioria destas pessoas aqui somos imunes, não sabemos o porquê, mas nós, só seremos infectados se eles nos morderem.

– Mas... E Luma? Como ela ainda está viva se ela está infectada?

– O vírus trabalha de várias maneiras em diferenciados organismos. Eu dou uma semana até ela se transformar.

Eu fiquei ali, quieto sem pensa em nada, pois minha cabeça começara a doer de uma maneira como nunca doeu.

– Viu? É uma benção você ter chegado aqui. Não matamos aquelas pessoas Lucca, é o vírus. Você entende agora não é? Você sabe que precisa ficar aqui... Tenho planos para você. –Repetiu ele.

Ele se levantou, caminhou até a porta, e disse: “Pense nisso!”. Bateu-a.

O que eu faria agora? Admito que meu plano de tirar Walter e Luma daquele calabouço, não sabia como, começou a virar fumaça. Se eu salvasse Luma não iria adiantar, ela se transformaria. Mas...

O que eu tinha que pensar? Porque esta conversa me deixou com tantas dúvidas? Seria o certo salvar eles agora? Ou eu esperaria mais um pouco? Eu poderia fazer o que Ian me mandou, esperar... Mas se eu esperasse poderia acontecer algo pior. E agora?

O que? O que eu estou pensando? Cala a boca Lucca! Aquele homem está enganando você. Ele quer que você fique onde está, assim, poderá matar seus amigos sem sua interferência.

Mas ele disse que sabe de tudo, ele sabia o que tinha acontecido, sabia que eu havia explodido aqueles Militares. Na verdade, acho que eu sempre fui como um Militar, eu não sou muito diferente deles...

No relógio já era uma da manhã, e meus pensamentos ficaram cada vez mais acelerados, o que eu faria em relação ao Ian?

O vírus é transmitido pelo ar... E Luma está infectada, só demorará a transformação... Eu era imune com a transmissão pelo ar, assim como mais algumas pessoas...

A porta fez novamente o Click, e Ian me chamou. Ele perguntou se eu estava pronto, e disse que teríamos de ser rápidos, pois outros Militares poderiam nos ver.

– Você está bem Lucca? –Perguntou ele durante o caminho até os calabouços.

Não, não estou. Estou em dúvida de tudo isto, estou em dúvida se me aliar a você seria o certo. Pois todos seus amigos podem estar infectados, Luma está. E Walter? Será que é imune também?...

Acenei a cabeça positivamente.

Os corredores foram passando, e eu nem me sentia preocupado com o perigo que estávamos correndo.

– Lucca, você realmente está bem? Está calado. Aconteceu alguma coisa? O General esteve em seu quarto?

Sim

– Não... Só estou assustado...

– Vai ficar tudo bem!

Continuamos a andar pelos corredores, alguns Militares passaram no corredor de trás, mas Ian e eu nos escondemos na escuridão, uma luminária estava quebrada.

Ian abriu uma porta, e uma escada nos levou até o calabouço, no porão. Era imundo e cheirava a podre, alguma coisa morta. Havia muitas portas com pequenas janelinhas embutidas, Ian me levou até a porta certa, abriu-a e entrou lá junto comigo.

– Ah meu Deus... –Disse Luma suja, me abraçando.

Forcei minha visão, pois ali não havia nenhuma luz, vi Walter, estava com gesso em seu braço e parecia muito fraco. Desvencilhei-me de Luma e encarei o garoto.

– Falaram que você estava morto...

– Luma me contou... Você veio nos tirar daqui não é?

Não

Não o respondi.

– Lucca você não vai acreditar... Diane está aqui.

Uma nova energia percorreu minha espinha, coragem. Como pude ser burro ao pensar que o General estava falando a verdade? Ele mentiu para mim mais uma vez, e nessa eu quase caí.

– Sim Lucca, é verdade. Walter me contou quase agora ela está aqui do lado... –Disse Luma.

– Me leve... –Disse para Ian.

Relutante, ele me levou para o calabouço ao lado, abriu a porta, e mostrou a pequena garotinha encolhida no fundo do quartinho. A cena apertou meu coração, era como se alguém enfiasse a mão no meu peito e o apertasse até esmagá-lo.

– Diane...

– Lucca? –Chamou a garotinha...

– Venha sou eu... –Ela se levantou e me abraçou- Vamos tirar vocês daqui...

– Lucca... Eu não sabia que ela era sua amiga... Ou eu lhe contaria... –Disse Ian.

– Está bem... Só precisamos tirá-los daqui! –Eu disse.

– Nós vamos, mas primeiro precisamos de um plano... Amanhã conversarei com... –Começou Ian, mas eu o interrompi.

– Estou falando agora Ian... Não vou deixar meus amigos aqui nem mais um minuto...

– Não Lucca... Você está louco? Agora não é a hora certa...

Algo chamou minha atenção, me fez desvencilhar da garotinha que estava suja. Muitos olhos oprimidos ousaram ver o que acontecia no corredor, eram os outros sobreviventes que olhavam pelas janelinhas de suas portas também...


Aconteceu rápido demais, outro Militar desceu as escadas, e quando viu Ian e eu parou, e subiu novamente correndo. Certamente falaria para o General.


– Droga!... Meu Deus, o General me matará... –Disse Ian preocupado.

– Viu temos que agir agora...

– Mas não temos armas e os outros Militares que me ajudariam devem estar dormindo á essa hora ou montando guarda, vigiando...

– Vá buscar todos!

Ele pensou durante dez segundos, depois me deu sua arma, e disse:

– Tire Sarah daqui, é a desta porta! –Disse ele Apontando uma porta á nossa frente.

– Ela não está mais aí... É a moça dos olhos verdes não é? –Perguntou Walter e Ian acenou- Outros Militares a levaram...

– Ah não... –Ian estava a ponto de chorar.

– Sinto muito Ian. Não podemos esperar mais, precisamos tirar estas pessoas daqui! –Falei.

– Tire todos daqui... –Disse ele recompondo-se. Eu volto com ajuda!

Ele saiu correndo escada a cima, mas o chamei antes que desaparecesse pela porta, e quando ele olhou eu disse:

– Vamos sair daqui hoje...

Ele acenou e desapareceu...

Olhei para as portas... Vi que Walter e Luma estavam ameaçando sair para o corredor. Diane já estava do meu lado.

–Certo pessoal, vou tirar vocês daqui, mas estejam preparados para lutar, vamos tentar sair desse lugar, está bem?

Houve alguns grunhidos animados, alguns estavam, percebi tão fracos que nem conseguiam grunhir, apenas reparei nos olhos animados.

DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN

DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN

DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN

Um alarme soava entre as paredes de toda a Unidade Militar, então eu rapidamente peguei a arma que Ian deu para mim, e comecei a dar coronhadas nos cadeados das portas, libertando os sobreviventes, que iam me seguindo pelo corredor. Velhos, crianças, adolescentes, todos pareciam famintos, e estavam muito fracos.

Luma, Walter e Diane estavam mais próximos de mim. Após libertar os sobreviventes, subimos as escadas, eu na frente. Eles me seguiam. Nesse exato momento um Militar ia entrado, e rapidamente eu apontei a arma para ele e disse:

– Saia da minha frente, ou eu atiro! –Disse eu, ameaçador.

– Não Lucca, calma! Eu vou ajudá-lo, estou com vocês... Ian me mandou aqui! Chamo-me Wil...

– Ah, desculpe...

– Temos que chegar até o bonde, do lado de fora...

O Militar tirou uma metralhadora presa no seu sinto.

– Sigam-me. Darei cobertura para vocês, os outros Militares que nos ajudarão virão ao nosso encontro!

Eu e os quinze sobreviventes seguimos o Militar, enquanto o alarme continuava a gritar em nossos ouvidos.

DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN

DAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN

Continuamos a andar pelos corredores escuros, foi quando as luzes apagaram-se, nos deixando totalmente no escuro. Houve alguns gritos dos sobreviventes, que assim como eu estavam apavorados.

– O General já sabe que estamos fugindo, não sabe?

– Com certeza, eu estava na sala dele quando outro Militar chamado Julio entrou e disse que Ian estava soltando os sobreviventes...

Viramos um corredor e nos encontramos com outros Militares que nos ajudariam, e entre eles Ian estava liderando.

– Temos que sair rápido pessoal, provavelmente os outros Militares e o General devem estar nos esperando na sala principal. Pegamos muitas armas...

– Não podemos deixar que os Militares machuquem estas pessoas, Ian. –Disse.

– Estamos dispostos a protegê-los Lucca...

Acenei positivamente, e me juntei á Walter, Luma, Diane e os outros doze sobreviventes. Muitos Militares estavam com suas armas empunhadas, e marchavam pela frente, estávamos rumo á saída, mas certamente seriamos atacados.


Alguém puxou minha mão, enquanto alguns sobreviventes passaram na minha frente, e quando olhei vi que era Walter, e ele me disse:


– Lucca, meu pai! Não posso deixá-lo aqui...

Os Militares da resistência continuavam seguindo em frente. Eu apenas olhava para Walter. Triste.

– Walter, ele está com os Militares agora... –Diane veio ao nosso encontro.

– Não Lucca, ele estava apenas nos protegendo! –Tentou explicar Walter.

– É verdade Lucca, ele me protegeu quando cheguei aqui, ele não deixou os Militares me matar! –Disse Diane.

Eu olhei para os sobreviventes que passavam por nós, seguindo os Militares... Estávamos ficando pra trás.

– Onde ele está? –Perguntei.

– Eu sei onde é seu quarto... –Respondeu Walter.

– Está bem, Diane, avisa para Luma que fomos buscar o pai de Walter e já voltamos está bem?

– Não, eu quero ir com vocês...

– Diane... – Eu disse abaixando-me para ficar da altura dela e colocando a mão em seu pequeno ombro- Já perdemos você uma vez, e ficamos muito preocupados... Não vamos perder de novo, o que Walter e eu vamos fazer é muito perigoso, e não deixaremos você ir por causa disso entendeu?

– Eu não sou criança pra você falar assim comigo... Mas tudo bem, eu entendo, mas tomem cuidado... Também não quero perder vocês... –Disse a garota correndo de volta para alcançar os outros sobreviventes.

Levantei-me, e então, segui Walter que me mostraria o quarto onde seu pai costumava ficar. Não percebi o quanto eu estava feliz por ele não estar morto, afinal, apesar de tudo o que passamos, ele é meu melhor amigo.

– Você acha que ele estará lá Walter? E se ele estiver com os outros Militares?

– Procurarei por ele onde for...

Viramos alguns corredores, a esta altura o alarme já havia parado á algum tempo, e as luzes de emergência estavam acionadas novamente. Quase havia me esquecido de que Ian me deu uma arma, mas então a pressionei com minhas duas mãos, e deixei-a pronta para usar a qualquer instante. Foi aí que chegamos.

A porta estava meio aberta.

– Deixe-me ir primeiro –Sussurrei para Walter cautelosamente- Estou armado...

Com cuidado e calma, empurrei a porta, e entrei. Walter seguia-me.

O quarto era diferente do meu, havia uma enorme cama de casal, em um canto, perto de outra porta, que reconheci ser a do banheiro e próximo á ela, dois vulto. O vulto de trás estava com uma arma apontada na cabeça do vulto da frente.

Walter deu um grunhido de susto, e sua respiração, ouvi, acelerou-se quando viu o General apontando a arma para seu pai.

– Pai... –Walter deixou escapar.

– Ah, você veio buscar seu pai? –Perguntou o General ironicamente.

– Deixe-o em paz, General! –Disse assustado, olhando para a face preocupada e apavorada do pai de Walter, que apenas grunhia de dor. Sinais de que ele fora espancado.

– Eu sabia que vocês viriam atrás dele... Fugindo de mim Lucca?

– Deixe-nos ir embora...

– Porque você quer ir embora?

– Você mente! Há mais sobreviventes no calabouço, e minha amiga Diane estava lá o tempo todo!

– Deixe-me adivinhar... Ian que lhe mostrou, não? –Perguntou o General.

– Não importa, o que importa é que vamos sair daqui, agora!

– Não com meu exército de Militares guardando a porta de saída... Aqueles traidores serão massacrados!

– Porque você está fazendo isso, deixe-nos ir!

– Você não entende?! –O General alterou sua voz- Você pensa que é um simples sobrevivente não é? Você fala que eu menti para você, mas agora eu lhe contarei tudo Lucca, tudo!

– Deixe meu pai, por favor... –Pediu Walter, mas o General ignorou-o e continuou.

– Você é o irmão de Valkíria Martins não é? –Perguntou o General.

– Como... Como... –Eu estava confuso.

– Sim, você é! A garota com câncer na medula óssea que milagrosamente curou-se...

– Você... Você conhecia minha irmã? –Perguntei não entendendo.

– Eu não, mas eu li tudo sobre ela... Antes de começar o tratamento, estavam espionando as famílias das cobaias...

Lembrei-me de quando eu estava nos últimos dias de aula e ao olhar pela janela, vi um homem de terno preto parecendo espionar-me. E ele devia estar, devia estar investigando as famílias. A minha família.

– Diga á eles Doutor... Diga á eles que foi você que armou para a irmã do amigo de seu filho... Diga... –Insistiu o General pressionando a arma cada vez mais contra a cabeça do pai de Walter.

– O que ele esta falando pai? –Perguntou Walter.

– O que vocês estão falando?! O que Val tem haver com isso?! –Gritei.

– Diga á eles... Diga! –Gritou o General para o Doutor, que começou a gemer antes de falar.

– Eu... Eu não tive culpa, eles precisavam de pessoas com variados tipos de doenças... E quando Disseram para conseguirmos alguém com câncer na medula óssea, então... Pensei na irmã e eu sabia, pois nas férias passadas quando Walter veio me visitar ele me contou tudo sobre a vida dele em São Paulo...

Olhei para Walter confuso.

– E eu sendo um médico conhecido aqui, dei o nome de sua irmã á eles, e antes de Walter me ligar para me pedir tal coisa, eu já havia feito... E eles começaram a investigar sua família, e aceitaram que Val seria a cobaia deles...

– COBAIA? –Gritei sufocando-me- COBAIA?!

– Sim, mas... Eu não sabia! Eu juro... –O Homem estava chorando, eu estava sufocando e quando olhei para Walter pelo ombro o garoto estava em estado de choque, paralisado.

– Ninguém sabia que chegaria a este ponto... A epidemia! Mas o vírus curava... Ele curava! Mas foi quando eu descobri a armação deles, descobri o que eles pretendiam... Eles iriam enviar um agente para injetar um derivado do FH23, e este derivado foi o que causou a destruição, foi ele!

Lembrei-me do homem que foi á minha casa quando Val estava bem, e injetou algo mais uma vez nela. Foi a partir daí que as coisas pioraram.

Mas o vírus realmente curava, ele realmente funcionaria se não tivessem injetado o derivado em minha irmã...

– Quem fez isso? QUEM FEZ ISSO?! –Gritei, deixando a arma cair no chão.

–Os criadores do vírus, mas eu não os conheço, eles me contrataram por meus serviços médicos! Mas quando eu descobri o que eles pretendiam eu os abandonei! –Disse o Doutor.

– Sim... –Começou o General- E foi quando nós descobrimos também, e então o Doutor passou a trabalhar para nós, contando sobre eles. Eles que planejaram destruir tudo... Mas nós estamos preparados! Nós somos a verdadeira resistência, mas para isso, precisamos de bons Militares... Como você Lucca!

Agora quem estava em estado de choque era eu, que estava ainda processando as informações. Tudo sempre foi combinado, tudo se encaixava. Tudo.

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Desde o começo, como o homem que me olhava pela janela da escola, como o pai de Walter, conseguindo uma vaga para o tratamento de Val, como o outro Doutor que injetou o derivado nela. E tudo começou com o pai do meu melhor amigo...

Nem eu e nem Walter, parecíamos querer falar alguma coisa.

Lembrei-me de como o General queria que eu ficasse aqui, e se eu entendi direito é para ser um Militar, mas por que eu? Por que eu entre tantos que ele tem?

– Porque eu? Porque eu tenho que ser um Militar? –Perguntei, ignorando a cena que, ainda, o General apontava a arma para a cabeça do Doutor.

– Em breve –Começou o General- Teremos uma missão Lucca, e nesta só irão os melhores Militares... E eu vi como você conseguiu sobreviver á epidemia... Salvando seus amigos, explodindo aqueles Militares, próximo á fronteira entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

Onde eu encontrei Luma...

– Como?

– Nos tanques de guerra havia câmeras! E elas gravaram tudo. Eu sei de tudo Lucca... Sei que você matou um Militar por engano... Benjamin Castelhano lembra? Era meu irmão...

– O que? Que irmão?

– Benjamin Castelhano! O Militar que você atirou inconscientemente, pensando que ele era um infectado! Sim, eu sei. E Não me pergunte como, eu apenas sei!

O General percebeu que não haveria luta ali, então ele começou a soltar o pai de Walter, empurrando-o para nós, devagar.

– E então? Você ficará aqui não é? Você não percebe o quanto aqui é melhor do que qualquer outro lugar? –Sua arma ainda estava levantada.

Mas no exato momento, uma saraivada de tiros cortou a conversa agourenta. Houve gritos, metralhadoras estalando, e barulhos estridentes de coisas quebrando.

Todos ali pularam assustados e grunhiram. Mas o General, apenas ria.

– Resistência contra os Militares? É isso o que você quer Lucca? Mais mortes? Venha! Vocês não precisam mais lutar! Não precisam mais fugir... O seu lugar é aqui!

Eu não pensava em nada, apenas em Val. Apenas nesta situação. O General sabia de tudo e soube me enganar brilhantemente, ao contrário de mim.

Comecei a caminhar em direção ao General quando o pai de Walter segurou meu braço e disse, olhando nos meus olhos, e quando eu olhei os dele, vi que ele não tinha culpa naquilo, vi que ele não queria nada disso, ele era um pobre homem que fez escolhas erradas.

– Não se engane como eu me enganei! Ele está fazendo isso para você aceitar ser um Militar, e em seguida matará todos os seus amigos... Eles fazem experiências com os sobreviventes...

O que aquele homem me falou, despertou-me, mas acho que na verdade despertei com o estalo alto que saiu da arma do General, e atravessou a cabeça do Doutor.

– PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!!! –Gritou Walter.

O homem caiu no chão, Walter veio ao seu socorro. E eu, enfurecido parti para cima do General, que não esperava a minha reação e caiu no chão, comigo.

Enquanto Walter chorava sobre o corpo já morto do homem, eu e o General brigávamos para ver quem segurava a arma que matara o pai de meu amigo. “Garoto idiota, desgraçado! Solte!” Gritava o General para mim. Eu estava com tanta raiva que minha força pareceu multiplicar-se, em meio aos tiros, gritos, e correria que vinha da guerra que se desenrolava entre os corredores da Unidade Militar.

O General então começou a socar o meu rosto. A arma estava presa debaixo da minha perna, mas ele me empurrou de um jeito tão bruto e forte que me fez deslizar de volta para Walter e o corpo de seu pai.

Ele sacou a arma novamente e apontou para nós.

– Acho que me enganei. Você não servirá como um Militar, apesar de ser impossível um garoto de dezessete anos sobreviver com tão poucas armas á este tipo de epidemia, você conseguiu, mas não valeu a pena. –Disse ele apontando a arma para mim.

Acabaria aqui. Tudo isto acabou, todo o sofrimento pelo qual passei, era o fim da linha para mim.

PÁH!

Escutei o tiro antes de eu fechar os olhos, e vi o corpo cair agonizante á minha frente. Olhei para o lado, e Walter continuava agarrado ao corpo de seu pai. Olhei para trás, e vi algo que me arrepiou, alguém havia matado o General, e era ela... A pobre garotinha inocente, a que era a mais inteligente. Diane.

Eu olhei para ela não acreditando, e então ela me retribuiu o olhar assustado dizendo:

– Ele ia matar vocês, e vocês são meus amigos... Peguei sua arma do chão Lucca, e atirei...

Eu havia me esquecido de minha arma. Havia me esquecido que sempre há uma esperança.


Eu me considero uma pessoa fria, que não aceita ninguém me consolar quando eu preciso. Sempre me fiquei melhor sozinho, mas neste momento, neste momento eu precisava de um abraço, por toda a verdade que eu ouvi, e pela cena horrível e traumatizante pela qual eu e Walter, todos, passamos. Estendi os braços para Diane, que veio correndo deixando a arma na minha mão e chorando. Abraçamo-nos.


– Walter... Sinto muito... Temos que continuar... –Disse para meu amigo sem expressão, que estava sentado, ainda, sobre o corpo do pai, após alguns segundos...

Ele levantou-se e acenou positivamente para mim e Diane.

– Onde está Luma? O que está acontecendo lá? –Perguntei para Diane.

– Os Militares bons estão atirando nos Militares ruins.

– Houve mortes?

– Muitas, mas os sobreviventes estão conseguindo sair para o lado de fora.

–Temos que ir...

Dei a mão para Diane, que puxava Walter, então, saímos correndo pelo corredor. A nossa Trilha sonora era os disparos, os gritos, e a morte.


Δ



Quando chegamos á sala principal, o Militar que ouvi dizer que se chamava Ian estava nos esperando assustado. “Por onde andaram, só estávamos esperando vocês!” Gritou ele furioso. “Está tudo bem, podemos sair deste lugar agora, onde está Luma?” Perguntou Lucca. “Lá fora, Fiquem abaixados!” Ordenou.


Ele estava nos conduzindo pela sala principal, em meio ao tiroteio, dos defensores do General, que ainda não deviam saber de sua morte. Muitos corpos estavam espalhados pelo chão, alguns dos “sobreviventes-prisioneiros”, ou de Militares, que não sabia identificar se estavam do nosso lado ou não.

Ao chegarmos perto da porta prateada, Ian Escondeu-se atrás de uma pilastra e abriu fogo contra um grupo de Militares que nos impediam de sair do local, todos caíram.

“Por aqui! Vão, os outros estão nos esperando lá fora!” Gritou Ian abrindo a grande porta de prata, para nós passarmos.

Passamos todos pelo portal em meio aos corpos caídos no chão, sentindo o vento frio da noite estrelada golpear nossa face. Correndo desesperadamente, todos nós nos encaminhamos para os bondes, que eram nossa única saída.

PÁH! PÁH! PÁH!

Os Militares ruins saíram pelo portal e começaram a atirar em nossa direção, enquanto tentávamos alcançar os bondes, onde alguns sobreviventes e Militares embarcavam.

Luma estava abaixada, e protegida por um escudo Militar, e quando eu a vi percebi que ela era a única pessoa que eu queria ficar perto no momento, fui até ela e a abracei.

“Não caberá todos nós em um só bonde temos que dividir!” Gritou Ian, antes de levar um tiro na testa e cair no chão morto.

Gritamos apavorados, e rapidamente entramos no primeiro bonde que estava encostado.

“Lucca?! Onde está o Lucca?!” Gritou Luma.

“Aqui!” Disse meu amigo pálido de cabelos negros saindo da multidão e entrando no primeiro bonde junto comigo e Luma.

Diane estava agarrada no braço de Lucca. Logo começou a embarcar alguns sobreviventes e outros Militares. Fecharam a porta do bonde.

Finalmente estávamos indo embora.

Alguém apertou o botão, então ele começou a zumbir e a deslizar nos cabos de aço, e rapidamente nos levar para baixo. Eu estava abraçando Luma, que estava tremendo e respirando muito rápido. Alguns sobreviventes, senhoras e crianças estavam agitados.

“Para onde vamos depois daqui Wil?” Perguntou Lucca para o outro Militar que estava do outro lado do Bonde.

“Temos preparado alguns Jipes com mantimentos e muitas armas, próximos á um posto de gasolina na parte sul!” Respondeu.

“Onde está o Ian?” Perguntou Lucca. E eu percebi que ele não havia visto que o Militar havia morrido.

“Ele não conseguiu, eu vi...”. Eu respondi.

Houve silêncio e após mais alguns segundos o Militar Wil, eu vi, disse: “Os outros conseguiram embarcar... Parece que temos mais Militares do nosso lado”. Ele estava falando o que via no topo da montanha que havíamos acabado de deixar.

Houve alguns suspiros de alívios, então a morte voltou a pôr sua sombra em nós.

“OH MEU DEUS!” Gritou Wil.

Outra saraivada de tiros cortou o ar, Lucca se jogou para o chão do bonde com Diane, puxando Luma e eu. Fechei os olhos e segurei Luma fortemente.

Um líquido quente escorreu pelo meu rosto. Sangue.

Quando decidi abrir os olhos vi que todos estavam deitados também. Minha mão engessada atrapalhava-me de me mexer, então comecei a arrancar o gesso. Eu não sentia dor.

“Urgh... Walter, Luma... Vocês estão bem?” Perguntou a voz de Lucca.

“Sim”. Respondeu ela.

Levantamo-nos cuidadosamente, percebendo agora que os Militares que estavam na Unidade Militar e atiraram em nós, agora estavam atirando no bonde de atrás.

Lucca tentou acalmar os sobreviventes que embarcaram conosco, estavam todos deitados ainda.

“Wil, eles estão atacando o outro bonde agora, temos que atirar neles...”. Disse Lucca.

Eu já percebi o que tinha acontecido, antes de ouvir o choro de Diane agarrando o braço de Lucca, e antes de Luma me abraçar cada vez mais forte e gemer.

“Wil?... Pessoal?...”

Todos estavam mortos.

Os tiros que acertavam o outro bonde, cheio de sobreviventes e Militares como aqui, ecoavam em nossos ouvidos. Quando olhei vi que no topo da montanha havia muitos Militares tentando matar os fugitivos, foi então que eu vi um vulto ajeitando um lança míssel em nossa direção.

“MEU DEUS, ELES VÃO NOS EXPLODIR!!! ELES TEM UM LANÇA MÍSSEL!!!” Gritei certo de nossa morte.

Lucca cambaleou para conferir e então desesperado olhou pela janela, para baixo de nós e disse:

“Estamos em cima do mar, vamos pular!”

A porta ficava do outro lado do bonde, atrás de onde estava o corpo de Wil. Quando começamos a atropelar os mortos desesperadamente, os Militares, que estavam lá em cima do Pão de Açúcar, perceberam que alguém ainda estava vivo, no bonde, e voltaram a atirar, nos obrigando deitar por cima dos corpos multilados, novamente.

“Eles não vão permitir-nos de pular pela portinha temos que sair pela janela”. Gritou Luma.

Eu rapidamente abri a janelinha (que não era muito grande, mas como todos nós éramos magros seria fácil, a nossa passagem).

“Eu vou primeiro e ajudo vocês!” Disse, sendo corajoso ou covarde?

Ignorei os estalos que as balas vaziam no bonde, quando me pendurei na janelinha e comecei a passar por ela, sentindo o vento gritar em meus ouvidos. Com dificuldade, pois ainda havia uma parte de meu braço engessado, sai pela janelinha do bonde, e me pendurei do lado de fora. Tentei não olhar para o mar negro em baixo de mim, e escalei para o teto.

“Venha Luma!” Chamei.

“Diane, primeiro!” Ouvi-a gritar.

Então puxei com toda minha força a garotinha aterrorizada para o teto, e então disse para ela se manter deitada, para não cair devido aos movimentos bruscos que o bonde fazia ao descer.

“Venha Luma...”. Chamei.

PÁH! PÁH! PÁH!

Deitei protegendo Diane, que começou a gritar desesperada.

“LUCCA O QUE ACONTECEU AI? VOCÊS ESTÃO BEM?!” Gritei, sem ouvir resposta.

SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSTIIIIIIL

Olhei para trás, e vi que os Militares lançaram o míssel, mas não em nós, no bonde que vinha atrás da gente.

“Levante-se Diane!” Disse puxando a garota que chorava estrondosamente.

POOOOOOOOW!

Foi bonde atrás de nós explodiu. Os Militares estavam mirando nele.

Quebrando os cabos de aço, o impacto jogou Diane e eu para o mar. O Bonde onde estavam Lucca e Luma, começou a cair também, mas Diane e eu fomos os primeiros a cair na água congelada do mar. Se estivéssemos um pouco mais alto, morreríamos, mas o bonde já estava muito baixo.

SPLASH!

Minha mão desprendeu-se da de Diane.

E a água abafou todos os sons da noite tempestuosa pela qual passamos. De fundo, eu pude ouvir apenas dois estrondos que pareceu serem os bondes caindo perto de mim.

O ar fugiu de meus pulmões, me senti flutuando dentro daquela imensidão escura. Ameacei abrir os olhos, mas o sal os fez arder, obrigando-me a fechá-los. De relance vi algumas luzes piscando, devia ser as do bonde afundando mais rápido do que eu. Bom, já que era o fim, era melhor eu me entregar de uma vez. Deixei todo o oxigênio fugir para a superfície, os libertei.



De repente eu não estava mais ali, não estava afundando, eu estava descalço com os pés em gramas. Fazia muito calor naquele dia azul, sob a grama verde esmeralda, quando me olhei eu estava roupas pretas, procurei olhando para os lados mais alguém, talvez Lucca, Luma, ou Diane afinal morremos juntos. Mas não vi nenhum deles, eu vi Rosa. Ela estava com um vestido branco á uns 6 metros á minha frente, estava sorrindo, um sorriso radiante.



Caminhei até ela, e as lágrimas já molhavam meu rosto todo.



– Rosa...



Ela sorria, apenas.



– Tanta coisa que eu queria ter dito pra você... Tantas oportunidades que eu tive... Você veio me buscar não é?



Ela não respondeu, apenas continuou a mostrar seus radiantes dentes brancos como a neve. Mas eu não me importei, eu apenas queria dizer, agora, tudo o que eu sentia por ela.



– Rosa... Perdoe-me por não ter lhe dito antes o quanto eu gostava de você... Eu sempre fui assim não é? Nunca encarei meus sentimentos de frente, sempre tentei contorná-los, mas... Perdoe-me, por favor! Eu sempre te amei...



Desta vez ela parou de sorrir, franziu as sobrancelhas, como se ela mesma fosse chorar agora, emocionada. Então acenou positivamente.



– Estava tão difícil... Nós sobrevivemos um bom tempo, apenas fugindo, mas então... Encontramos com outros caras ruins, e eles conseguiram nos matar...



Rosa balançou a cabeça, desta vez negativamente, mas eu ignorei com medo do que aquilo podia significar, será que era que eu não estava morto? Ainda. Apenas estava delirando em minha mente?



– Eles mataram... -Disse, tentando convencer mais á mim, do que a garota dos cabelos negros- Lucca e eu tentamos... Nós...



Parei de repente, e voltei minha atenção, agora assustado, no vulto que se formou atrás de Rosa. Era Luma...



– Luma... -Eu disse emocionado, pois eu percebi que amava as duas garotas- Luma... Você também morreu?



Quando eu a vi, meus olhos brilharam, ela estava linda, seu vestido branco também, mas seus olhos castanhos nem tão claros e nem tão escuros brilhavam estranhamente.



– Luma... Eu queria ter protegido você...



Ela balançou a cabeça negativamente, mas não sorria, estava triste.



– Falem comigo! -Gritei para as garotas- Você não morreu? -Perguntei para Luma, que confirmou.



Olhei para Rosa, que estava sorrindo mais uma vez, mas sem mostrar seus dentes, para mim.



– Ela não morreu! O que ela faz aqui?! -Perguntei para Rosa.



– Você tem que amá-la também... -Disse Rosa, com uma voz diferente daquela que eu me lembrara, uma voz mais fina, como a de uma criança.



Aquele mundo começou a escurecer, o céu que antes era azul, agora estava cheio de nuvens cinzentas. Rosa rapidamente tocou meu rosto com as costas das mãos, e disse com a voz de criança: "Walter! Walter!".



Meus olhos se abriram e eu estava deitado, á beira da praia. A água gelada fazia meu corpo inteiro se arrepiar, e Diane era a dona daquela voz.



Pelo que percebi ela estava tentando me acordar á algum tempo, estava toda molhada como eu.


– Walter! Levante! Vamos, levante! -Gritava ela.



Quando consegui me sentar, vomitei um pouco de água salgada.



– Vamos Walter levante-se, você tem que ajudá-los. -Gritava Diane.



– Ajudar quem? -Perguntei tonto.



– Luma e Lucca, eles ainda estão dentro do bonde, e ele está afundando.



Meu coração começou a se acelerar, e uma descarga de energia começou a passar pelo meu corpo. Eu me levantei de um salto e comecei a correr em direção ás ondas, cada onda que passava por mim, adentrava-me ainda mais nas profundezas. Foi aí então que respirei fundo eu mergulhei.



Ignorei a dor que me provocava toda vez que eu abria os olhos na água salgada, e no exato momento em que eu os abri, começaram a queimar, mas isso não me intimidou, eu ignorei a dor, e então comecei a nadar cada vez mais fundo.



Eu vi novamente aquela luz, era vermelha e piscava.



O bonde. É a luz do bonde! Pensei.



Comecei a nadar mais rápido ainda, quanto tempo eles ficaram lá embaixo? Dois ou três minutos? Seria o suficiente para morrerem?



A pequena luz vermelha vinha da frente de um dos dois bondes que já estavam em solo marinho, cheguei ao primeiro bonde, e percebi que não era aquele em que eu e meus amigos viemos, os corpos que deslizavam lá dentro me fizeram perceber algo. Todos mortos.



Para meu azar, os dois bondes estavam juntos, encostados, e aquele em que eu embarquei estava com a porta de entrada virada para o primeiro, o que impedia a saída por ali.



Foi então que eu a vi. Ela estava tentando sair de dentro do bonde e em seus braços um inconsciente Lucca soltava bolhas da boca.



"Aqui!" Tentei gritar inutilmente, até lembrar-me que eu estava debaixo d'água.



Vi que Luma estava em seu último fôlego, estava muito próximo de desistir de tudo, foi então aí que ela me viu. Ela empurrava os corpos de dentro do bonde, que deslizavam mortos, com uma mão segurando Lucca, e com a outra nadando. A única coisa que impedia o nosso toque um no outro agora, era o vidro das janelinhas.



Ao ver-me, ela colocou a mão sobre a janela, e balançou a cabeça negativamente, como no meu sonho. Lembrei.



A janela por onde eu saí.



Fiz um sinal com a minha mão para Luma me seguir, eu comecei a rodear o Bonde até encontrar a janelinha por onde eu entrei, eu a abri.



Comecei a fazer sinal para Luma vim, foi quando ela balançou a cabeça negativamente e me empurrou Lucca inconsciente, ou morto. Ela estava nos últimos segundos antes de desmaiar por falta de oxigênio.



Não, você! Pensei balançando a cabeça negativamente.



Mas ela também balançou e me entregou Lucca.



Relutante eu o puxei com dificuldade, por causa do gesso no braço, e então ofereci minha mão á ela. Só que ela não a pegou, e ao contrário disso, levantou sua blusa me mostrando um ferimento do qual saia um liquido, aqui parecido com uma fumaça, vermelho. Sangue.



Ela tinha levado um tiro, lá em cima, por isso ela gemia e me abraçava cada vez mais forte.



Comecei a chorar, mas as lágrimas eu não senti.



Não, sua burra! Podemos dar um jeito...



Ela apenas balançava a cabeça negativamente, e deslizava como os mortos ao seu redor.



Eu comecei a me desesperar, eu queria entrar, dentro do bonde, e puxá-la de uma vez por todas. Mas ela percebeu minha intenção e voltou e fechou a janelinha.



Ela apontou para Lucca, e em seguida apontou para a superfície.



Eu aceitei. Coloquei a mão no vidro e do outro lado ela também colocou. Eu li seus lábios quando ela tentou dizer: "Fiquem livres". As bolhas fugiram de sua boca, e não aguentando mais eu nadei para cima.



Luma aceitou seu destino, o que eu não vi, foi que ela abriu seus braços, como se fosse abraçar alguém. Ela abraçou a escuridão e deslizou na água, como os outros corpos em uma dança. A dança da morte.



– Onde ela está?! -Gritou Diane, quando me avistou em meio ás ondas voltando para a beira da praia, segurando Lucca com um braço.



– Não... -Grunhi.



– Volte! Vá salvá-la, por que você não quer salvá-la Walter? Por quê?



Joguei Lucca na areia, e comecei a dar socos em seu peito, até que ele começou a tossir...



Diane desabou na areia e começou a chorar... Eu fiquei deitado, deitado olhando para o Pão de Açúcar, que daqui parecia sem movimento algum. Agora o céu parecia vazio sem o bonde... Tudo parecia.



Cof! Cof! Cof!



– Lucca... -Sussurrou Diane.



Lucca olhou de um lado para o outro, tonto como eu. Então ele sussurrou:



– Luma?



– Não Lucca... Não! -Chorou e gritou Diane.



Eles se abraçaram, e começaram a chorar.



Eu parecia estar paralisado, não pensava em Luma, nem em meus amigos. Eu apenas olhava para as estrelas...



Δ



Demoramos algumas horas até chegarmos ao posto, seguros. Os jipes que estavam á nossa espera, estavam todos cheios de mantimentos e de armas, o que foi bom para nós.



Desde que aconteceu aquela desgraça na praia Walter não disse sequer uma palavra. Mas agora percebi que ele estava se segurando para falar.


Estávamos parados dentro do jipe em frente á praia, já amanheceu. Ninguém disse, mas eu sabia que todos ali estavam pensando no que ocorrera, pensando em Luma. Ela salvou minha vida.



– Liga o rádio... -Disse Walter, finalmente, com a voz amarga.



Diane que estava no banco de trás esticou a mão e apertou um botão que fez o som ligar.



– Coloque na estação cento e nove ponto cinco. -Pediu Walter, o tom era menos que um sussurro.



Diane colocou. Era a estação que Walter sempre colocava para ouvirmos, a que o garoto falava. Mas desta vez, ele não estava nos informando o que realmente acontecia, estava tocando música... E era aquela música... Mas uma vez...



♪ Now is the time to start,


let all our fears aside,

we will be stronger, a case apart,

your sorrow is mine, your fear is mine. ♪


Eu não vou suportar ouvi-la mais uma vez...



A música faz-me lembrar dos meus dias de escola, dos dias normais... De Val...



A melodia entrava pelos meus ouvidos, e chegava até meu coração, eu a estava ouvindo desta vez.



Era isso. Eu sempre precisei de algo para me confortar. Como nunca percebi? Eu podia ouvir a voz de Val cantando-a. Agora eu sei qual o motivo desta música sempre ter tocado, era para mim.



Não aguentei, no banco do volante eu desabei a chorar... Diane também, e me abraçou como Val, como uma irmã. Senti a tremedeira do choro de Walter ao meu lado, então o puxei também para um abraço coletivo...



Juntos, conseguimos, apesar dos Militares... Que um dia certamente nos encontraríamos novamente.



Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahr!



Muitos mortos vieram correndo rapidamente para o jipe. Então foi como se o encanto, o conforto acabasse. Liguei o carro, e parti... Seja para qual aventura seguinte íamos agora...


Notas finais
FIM DA PRIMEIRA PARTE.

Á QUEM ACOMPANHA A HISTÓRIA E GOSTARIA DE FAZER ALGUMAS PERGUNTAS SOBRE COMO SERÁ A PRÓXIMA PARTE E COMO OS PERSONAGENS FICARÃO A PARTIR DAQUI, SINTAM-SE A VONTADE.

PRIMEIRO CAPÍTULO DA SEGUNDA PARTE: 03/08/2013 "A NOVA ORDEM MUNDIAL"