Daylight

19 capítulo 18


Bella

O aniversário de Maggie, apesar do incidente com Emerald, passou sem mais problemas. Entre montes de tule, coroas de princesa e crianças correndo, o dia chegou ao fim.

Mas alguma coisa tinha mudado, e não era o tipo de mudança que se dissolvia junto com os últimos balões murchando no gramado ou com os convidados indo embora aos poucos, levando nos braços crianças cansadas e sacolas de lembrancinha cor-de-rosa.

Era mais sutil do que isso. Mais perigoso também. A sensação de que algo tinha saído do campo da possibilidade e entrado, de vez, no da consequência.

Edward ficou até o fim da festa. Ou quase isso. Fez o que precisava fazer como pai, como padrinho, tirou fotos, abriu presentes e depois foi embora. Não nos falamos de verdade depois da cena com Emerald.

Trocamos, no máximo, aqueles olhares curtos e economicamente precisos que dizem mais do que deveriam quando não há espaço seguro para nenhuma palavra.

Quando fui embora, já anoitecia.

No carro, tirei os sapatos no banco de trás e acendi um cigarro antes mesmo do motorista sair do bairro. Fumei olhando a cidade passar sem realmente ver nada. O gosto estava estranho, mas terminei mesmo assim.

Cheguei em casa cansada. Tirei o vestido, deixei cair numa cadeira no quarto, prendi o cabelo de qualquer jeito e, ainda de lingerie, fui até a cozinha atrás de água como se hidratação pudesse fazer alguma coisa por aquele cansaço. Jake andava atrás de mim, de um lado para o outro.

A água estava gelada demais. Bebi em pé, encostada na bancada, pensando no rosto de Emerald pedindo colo, no olhar de Tanya, no silêncio entre Edward e eu depois daquilo. Não havia uma versão confortável daquela tarde. Nem mesmo a parte de mim que sempre preferiu lidar com fatos concretos a sentimentos inúteis conseguia fingir que aquilo tinha sido só um incidente.

Foi então que meu celular vibrou sobre a bancada. Olhei a tela já esperando uma mensagem, mas era uma ligação de Edward. Atendi no segundo toque.

— Bella.

A voz dele estava estranha. Meu corpo inteiro percebeu antes do raciocínio acompanhar.

— O que aconteceu?

Outra pausa.

— Você já está em casa?

— Estou, mas Edward, o que aconteceu?

Ouvi um ruído abafado, como a porta do carro fechando. Depois o ar sendo solto pelo nariz.

— Estou indo aí.

A linha caiu antes que eu pudesse insistir.

Fiquei olhando para a tela escura por dois segundos, o copo d’água ainda na minha mão, sentindo uma irritação quase imediata crescer por baixo da preocupação. Aquilo era muito a cara dele. Escolher a pior forma possível de comunicar, oferecer informação insuficiente e depois confiar que isso bastasse.

Larguei o copo com força demais, mas não o quebrei. Dessa vez o som ficou alto na cozinha silenciosa, seco, quase irritante. Fiquei parada um segundo olhando para a pia, sentindo a irritação subir junto com a preocupação, as duas coisas misturadas de um jeito que eu já conhecia bem demais.

Eu ainda estava com a mão apoiada na bancada quando a campainha tocou.

Corri de volta para o quarto apenas para vestir um hobby antes de abrir a porta. Encontrei Edward do outro lado e, por um instante, todo o resto perdeu relevância. Seu rosto estava sujo de sangue, vindo do local que ele apertava com um pano imundo, e sua camisa que antes era branca, estava arruinada.

— Entre e me espere no sofá.

Não esperei resposta. Fui direto ao banheiro, peguei o que precisava e voltei. Quando me aproximei, ele já estava inclinado para frente, com os cotovelos nos joelhos. Segurei o rosto dele com firmeza.

— Fique quieto.

— Não pensei em me mexer.

Afastei o pano da mão dele sem cuidado nenhum e senti a irritação apertar meu estômago de um jeito quase tão físico quanto a preocupação.

— Meu Deus, Edward.

O corte era na lateral da testa. Não parecia fundo o suficiente para me assustar, mas o local era perigoso, daqueles que sempre fazia tudo parecer pior. Havia sangue seco na têmpora, no canto da sobrancelha, descendo pelo rosto e manchando o colarinho da camisa.

— Isso pode precisar de pontos.

— Não precisa.

Ergui os olhos para ele.

— Claro. E você sabe disso porque, além de tudo, agora é médico.

Ele soltou o ar pelo nariz. Molhei a gaze no antisséptico e limpei o sangue, afastando o cabelo da testa. Quando o líquido tocou a pele aberta, ele endureceu a mandíbula.

— Você deveria ter ido ao hospital, Edward.

Ele não respondeu e eu continuei limpando, sem me importar se estava sendo delicada. Não porque quisesse machucá-lo, mas porque eu estava com raiva. Quando terminei de tirar o pior do sangue, me afastei para olhar melhor.

— O que foi isso?

Ele demorou um segundo.

— Um copo.

Pisquei, sem entender.

— Um copo que a Tanya jogou em mim.

Olhei de novo para o corte, depois para o rosto dele, como se uma segunda inspeção fosse tornar aquilo menos absurdo.

— Ela jogou um copo em você.

— Sim.

— Ela jogou um copo de vidro na sua cabeça.

— Sim, Bella, ela fez isso.

Pousei a gaze na mesa com força demais. Jake, deitado por perto, levantou a cabeça, nos avaliou e decidiu continuar fora daquilo.

— E você achou razoável vir até a minha casa sangrando depois de ser atingido no rosto pela sua… O que ela é mesmo? Esposa? Ex?

— Eu não disse que foi razoável e nós não estamos mais em um relacionamento, Bella.

Como ele conseguia ser tão… Tão…

Virei as costas antes que a irritação saísse de outro jeito e fui até a cozinha pegar gelo. Abri o freezer, puxei a primeira bolsa de gelo que encontrei e quase derrubei metade das coisas que estavam congeladas ali. Ótimo. Perfeito.

Respirei fundo uma, duas, três vezes. Esperei que minha pulsação desacelerasse antes de voltar para a sala e encontrar Edward na mesma posição. Sua camisa, manchada e endurecida pelo sangue, fazia meu estômago se contorcer de uma forma estranha.

— Você pode tirar essa camisa? Por favor.

Ele abriu os botões lentamente e jogou a camisa no chão, ao lado do sofá, ficando só com uma regata que tinha sobrevivido àquela confusão. Estendi o gelo, que ele pegou sem discutir e levou à lateral da testa. Eu fiquei de pé por mais um instante, olhando para ele, esperando que dissesse alguma coisa sem que eu precisasse arrancar. Ele não disse.

— Emerald estava lá?

Ele passou a língua pelo lábio, mas fez uma careta quando sentiu o gosto do sangue seco ali.

— No quarto, dormindo.

— Com a babá?

— Não, Tanya mandou Claire ir à farmácia.

Uma ideia surgiu na minha cabeça. Tanya não tinha planejado aquilo, tinha?

— Ela se livrou da babá e depois te atacou com um copo? Não te parece suspeito, Edward?

Ele permaneceu em silêncio, e isso só me irritou mais.

— Não foi assim.

A resposta veio baixa, quase cansada, e isso me irritou mais do que se ele tivesse levantado a voz. Cruzei os braços.

— Então me explique como vocês foram de uma conversa para objetos atirados.

Ele manteve o gelo contra a testa por mais um instante, olhando para o chão como se a madeira fosse mais simples do que eu. Depois ergueu os olhos.

— Não foi a primeira vez que ela jogou coisas em mim, mas nunca tinha sido algo que pudesse me machucar de verdade. É costumeiro dela, quando se irrita, fazer isso. Eu não esperava que fosse terminar a noite com a testa aberta.

Havia sangue seco perto da orelha dele. Tive vontade de pegar outra gaze, limpar o resto, obrigá-lo a ficar imóvel até o mundo voltar a caber dentro de uma situação administrável. Em vez disso, fiquei parada.

— Ela perguntou quando a Emerald esteve com você, porque ela te chamaria pelo nome, e quando juntou as peças sobre nós dois… Ela explodiu. Gritou que eu não podia tê-la humilhado daquela forma e a próxima coisa que vi foi o sangue.

Senti alguma coisa apertar no meu peito, desagradável e nítida. Não só culpa, mas uma consciência de que eu não era mais uma possibilidade abstrata no meio da crise. Eu tinha virado evidência da infidelidade dele e uma evidência exposta. A sombra de alguma coisa passou pelo rosto dele. Vergonha, talvez.

— Ela disse que eu deixei a Emerald chamar minha amantepelo nome, e eu não consegui reagir, Bella.

Eu ri, mas não havia humor nenhum no som. Amante. Era isso que eu tinha me tornado.

Eu quase consegui entender a humilhação de Tanya, porque eu também a sentia, em partes.

Aquela palavra ficou entre nós com uma solidez obscena. Talvez porque fosse precisa demais quando dita em voz alta. Arrancava qualquer resto de abstração, tirava de cena tudo o que ainda podia ser interpretado de outra forma e deixava só o osso.

— Ela estava errada? Não é isso que eu sou?

A pergunta saiu antes que eu decidisse se queria ouvi-la respondida. Talvez porque eu soubesse que, de todo modo, a resposta já estava em algum lugar entre nós. Edward demorou um segundo.

— Pelo ponto de vista dela? É exatamente como ela te vê.

Assenti, devagar. Era uma resposta honesta. Cruel, mas honesta.

— E do seu? O que eu sou para você, Edward?

Ele não respondeu, não imediatamente. Apenas ficou me olhando, imóvel, como se qualquer movimento em falso pudesse piorar uma coisa que já tinha ultrapassado o ponto do reparável. O gelo estalou baixo contra a pele dele. Lá fora, um carro passou na rua. Dentro da sala, tudo parecia suspenso em torno da pergunta que eu mesma tinha feito e da qual já me arrependia um pouco.

Ou não. Talvez eu só me arrependesse de ter dito em voz alta.

— Isso importa agora? — ele perguntou, por fim.

A frase caiu entre nós do jeito errado. Inclinei a cabeça, sentindo a irritação voltar, limpa e afiada.

— Impressionante. Você não consegue se ajudar.

— Você não é minha amante.

Eu fiquei imóvel. Havia muitas formas de dizer aquilo. Algumas gentis, outras covardes. A dele não era exatamente nenhuma das duas, era só insuficiente.

— Não? — perguntei.

Ele fechou os olhos por um instante, cansado.

— Pare de fazer isso.

— Isso o quê, Edward?

— Me obrigar a escolher entre uma palavra que te humilha e uma que apaga a dimensão do que existe entre nós.

Meu peito apertou de um jeito desagradável. Cruzei os braços com mais força.

— E o que existe entre nós?

Ele soltou um sopro breve, sem humor algum.

— Você sabe.

— Quero ouvir você dizer.

Houve uma pequena mudança no rosto dele. Alguma coisa mais adulta e mais feia do que medo.

— Existe o fato de que eu amo você, Isabella — ele disse, enfim. — E penso em você o tempo todo. Especialmente quando não devia.

Meu corpo ficou imóvel de um jeito quase hostil. Cada músculo prendendo o outro no lugar.

— Existe o fato de que, antes mesmo de eu vir para essa cidade, antes de te encontrar naquele café, você já estava no centro de tudo, mesmo que eu tenha tentado fingir que não. Existe o fato de que o que aconteceu entre nós não foi um acidente. E existe o fato de que qualquer nome simples para isso seria uma mentira.

Fiquei olhando para ele sem piscar por um segundo inteiro, talvez dois.

Qualquer outra versão de mim, uma mais jovem, mais ingênua, mais disposta a aceitar migalhas, talvez se deixasse levar pela estrutura da frase. Pelo “eu amo você”, dito assim. Pelo meu nome inteiro na boca dele, que ainda tinha o efeito humilhante de fazer alguma coisa em mim ceder por dentro.

Mas eu já tinha idade suficiente para saber que amor não era antídoto contra sordidez. Às vezes era só o verniz mais eficiente dela.

— Não é mentira, Edward. Só é a versão mais confortável para você.

Ele franziu o cenho, não em irritação, mas como quem sente o golpe e decide não recuar dele.

— Não é conforto.

— Não? — Eu ri, sem humor. — Porque daqui de onde eu estou parece exatamente isso. Você me ama. Que nobre. Que trágico. Profundamente inconveniente. E, no entanto, continua existindo seu outro relacionamento, sua filha, uma casa onde seu sangue ainda deve estar no chão.

O maxilar dele endureceu.

— Eu não estou tentando melhorar o que isso é.

— Está sim. O tempo todo. Você fica aparando as bordas, tentando amenizar o problema. Como se o horror estivesse na palavra amante e não no fato.

A bolsa de gelo estalou de novo entre os dedos dele. A água já escorria pela mão, pingando no tapete sem que nenhum de nós se importasse.

— Eu não acho que o horror esteja na palavra.

— Então por que você tem tanto cuidado para não usá-la?

Ele sustentou meu olhar em silêncio, porque sabia a resposta. Eu também sabia.

Dita em voz alta, ela me colocava num lugar que ele não suportava me ver ocupar, porque esse lugar era sujo demais para combinar com a versão de mim que ele precisava manter intacta para continuar me amando sem se odiar ainda mais.

O problema é que eu já estava ali.

— Pelo ponto de vista dela, eu sou sua amante — falei, mais baixa agora. — E pelo ponto de vista do resto do mundo também, se alguém resolvesse olhar de perto o suficiente. Talvez você ache a palavra estreita, vulgar, imprecisa. Talvez eu até concorde com tudo isso. Ainda assim, não consigo dizer que esteja errada.

Edward me olhava sem se mover.

Passei a mão pelos braços, sentindo frio embora a casa não estivesse fria. Era um tipo de frio que vinha de dentro, quando desejo e vergonha começavam a dividir o mesmo espaço. Eu ainda estava usando lingerie na frente dele, como se isso pudesse significar algo.

— Eu me coloquei nessa posição — continuei. — Não sozinha, mas me coloquei. Eu sabia que você não estava livre. Sabia que havia uma vida, uma criança, uma história inteira em andamento. E, ainda assim, quando te vi de novo... — Parei, engoli em seco. — Não foi como se eu não soubesse o risco.

Edward não respondeu. Era humilhante continuar desejando um homem no exato momento em que ele me lembrava por que eu devia recuar.

— Eu continuo querendo uma vida inteira quando olho para você — continuei, mais baixo. — E essa é a parte mais estúpida de todas. Não uma noite, não um caso. Uma vida. E eu tenho vergonha disso.

Os olhos dele encontraram os meus.

— Bella… Não…

— Não, escuta. — Minha voz não aumentou, o que a deixou pior. — Eu já ouvi você dizer que não ia mais me usar como fuga, como parte de uma mudança que precisava fazer sozinho. Eu ouvi tudo isso, eu acreditei em você. E agora olha onde nós estamos.

Ele sustentou meu olhar em silêncio. Não havia defesa, nem mesmo o impulso irritante de me acalmar.. Talvez porque até ele soubesse que isso seria ofensivo.

— Eu comecei — ele disse, baixo. — Eu saí de casa. Eu tentei…

— Tentou deixando pontas soltas — Passei a mão pelo cabelo, sentindo minha própria irritação me cansar. — E eu não sou idiota, entendo a complexidade. O que eu não posso mais fazer é fingir que complexidade e passividade são a mesma coisa.

Ele ficou me olhando em silêncio, e isso me irritou ainda mais. Porque era sempre assim: eu colocava a ferida na mesa e ele me oferecia toda sua culpa, como se sofrer já contasse como alguma forma de ação.

— Por que você está falando assim comigo?

— Eu já fui paciente, Edward, e o que você fez com esse tempo? Me trouxe até o pior lugar possível.

A mandíbula dele endureceu.

— Isso não é justo.

Eu ri, sem humor.

— Não, não é. Sabe o que também não é justo? Pedir que eu continue me prestando a isso enquanto você decide, bem lentamente, quase em câmera lenta qual pedaço da sua vida está disposto a perder.

Ele desviou os olhos por um segundo. Só um, mas eu vi.

— Eu não estou decidindo em câmera lenta.

— Está, sim. E é exatamente isso que eu não aguento mais. — Minha voz saiu mais baixa então, e por isso mesmo mais cruel. — Você age como se o seu cuidado fosse virtude, mas na prática ele só prolonga a agonia de todo mundo. Da Tanya, da Emerald, a minha. Até a sua, imagino. Só que eu não posso mais ser arrastada por esse ritmo.

Ele ficou imóvel.

— O que você está dizendo?

Olhei para ele por um segundo longo, porque eu precisava ter certeza de que ia até o fim depois de abrir essa porta.

— Estou dizendo que acabou esse lugar intermediário. — Engoli em seco. — Acabou eu abrir a porta para você assim, acabou eu acolher a parte mais difícil da sua vida enquanto você continua sem me oferecer uma decisão. Acabou eu existir como essa espécie de segredo suspenso que você visita quando precisa respirar.

Os olhos dele encontraram os meus de um jeito mais duro agora.

— Bella…

— Não, agora você vai me escutar até o fim. — Cruzei os braços, tentando me manter inteira. — Eu já te disse o que eu quero: eu quero uma vida. Quero estabilidade. Quero poder construir alguma coisa que não precise existir escondida, adaptada, adiada, envergonhada. E eu não vou continuar me humilhando por um homem que diz que me ama, mas continua aparecendo na minha porta só para trazer mais indecisão.

A frase pairou entre nós. Pesada. Final. Ele demorou um segundo a responder.

— Eu não estou indeciso sobre você.

— Não, Edward. Você só está indeciso sobre tudo o que precisa destruir ou sustentar para que me escolher deixe de ser uma hipótese e vire fato.

O golpe o acertou. Eu vi.

Cheguei mais perto, o suficiente para que ele entendesse que eu não estava fugindo da conversa. Estava encerrando-a.

— Então ou você resolve a sua vida de verdade — falei, baixo, olhando direto para ele. — Ou me deixa em paz.

O ar da sala pareceu mudar e ele ficou absolutamente imóvel.

— Eu não quero mais explicações, nem promessas. Eu quero uma solução. E, se você não consegue me dar isso agora, então não volte aqui até conseguir.

Ele me olhou como se eu tivesse, enfim, feito o que ele sabia que eu devia fazer há muito tempo.

— Você está me mandando embora.

— Estou te tirando de cima do muro — Respirei fundo. — Porque não vou continuar embaixo dele esperando pedaços seus caírem no meu colo.

Não houve defesa imediata. Só silêncio.

Um silêncio diferente dos outros. Era o silêncio de quem reconhece, tarde demais, que o estrago já passou do ponto em que pode ser remendado com uma conversa.

Os olhos dele ficaram nos meus por mais um segundo, dois, como se procurassem alguma rachadura no que eu tinha acabado de dizer. Alguma hesitação que ele pudesse usar. Eu não dei nenhuma.

A garganta dele se moveu num engolir seco.

— Tudo bem — ele disse, por fim.

Só isso. Como se, pela primeira vez, ele tivesse entendido que insistir seria só mais uma forma de me pedir para carregar o peso que era dele.

Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e passou a mão pelo próprio rosto, com cuidado para não tocar o corte, que finalmente tinha parado de sangrar. O gesto tinha alguma coisa devastadoramente humana. Nada do homem que sabia dizer as coisas certas quando precisava, nada da versão dele que me desestabilizava.

Só restou o cansaço e a compreensão de que tinha chegado atrasado a um lugar onde não podia se dar ao luxo de chegar atrasado, e eu não ia mais esperá-lo.

Ele olhou em volta por um segundo — a sala, a bolsa de gelo esquecida na mesa, o pano ensanguentado, Jake deitado perto do sofá, a minha casa inteira contaminada pela presença dele — e então voltou os olhos para mim.

Ele sustentou meu olhar por mais alguns segundos, como se esperasse alguma redução de danos, um gesto que transformasse essa ruptura em algo mais suportável.

Eu permaneci imóvel. No fim, ele assentiu de novo e então, se abaixou, pegou a camisa ensanguentada do chão e a segurou por um instante, sem saber o que fazer com ela. A imagem me atingiu com uma violência ridícula: Edward parado na minha sala com a própria camisa suja de sangue na mão, como se tivesse conseguido condensar em poucos minutos tudo o que eu já não podia mais aceitar dele. O caos. A intimidade. A culpa. O pedido mudo para que eu fosse, de novo, o lugar onde essas coisas encontravam abrigo.

Não ia acontecer, e ele pareceu entender isso também, indo até a porta em silêncio.

Quando passou por mim, perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele sob o algodão da camiseta, meu corpo inteiro reagiu como um traidor antigo. Uma parte de mim quis alcançá-lo pelo pulso. Outra, ainda pior, quis pedir que ficasse.

Não porque eu tivesse voltado atrás. Não porque minha decisão estivesse errada. Só porque o amor, descobri da forma mais humilhante possível, continuava existindo mesmo quando já não servia para nada.

No batente, ele parou. Por um segundo, pensei que fosse dizer meu nome, pensei que fosse tentar uma última frase, uma explicação, um pedido. Um “eu vou resolver”, qualquer coisa.

Mas ele só me olhou. E o que havia no rosto dele naquele instante era quase pior do que qualquer insistência: compreensão.

Ele sabia que eu não estava sendo cruel, estava apenas me protegendo. Sabia, talvez, que eu devia ter feito aquilo antes.

A voz dele saiu rouca quando falou, baixa o bastante para quase se perder entre nós.

— Me desculpe.

Eu fechei os olhos por um segundo, não porque aquelas palavras me comoveram ou resolveram alguma coisa, mas porque eu não tinha energia para olhar para ele e ouvir desculpas como se fosse possível medir o tamanho exato de tudo o que aquelas palavras chegavam tarde demais para cobrir.

Quando abri os olhos, respondi o que me custou mais do que o silêncio teria custado.

— Vá embora, Edward.

Ele assentiu. E foi.

Eu ouvi os passos dele pelo corredor, depois o som da porta da frente, abafado pela distância. Fiquei parada onde estava, ainda olhando para o espaço vazio que ele tinha deixado, como se meu corpo demorasse alguns segundos a entender o que a minha cabeça já tinha decidido.

A casa ficou silenciosa de um jeito quase agressivo.

Na sala, a bolsa de gelo continuava esquecida sobre a mesa, suando no tampo de madeira. Deixaria uma mancha. Havia panos de prato e gaze com sangue por todo lado. Pequenas provas materiais de uma noite que eu não teria como fingir que tinha sido menor do que foi.

Foi só quando não havia mais ninguém para me olhar que a tensão começou a sair do meu corpo. Não como alívio, mas como um colapso.

Sentei no braço do sofá porque minhas pernas já não pareciam interessadas em continuar me sustentando. Fiquei olhando para a porta por um tempo infinito, como se ainda existisse alguma chance de ouvir os passos dele de volta. Como se uma parte degradante de mim esperasse exatamente isso: que ele entendesse tarde demais, subisse de novo, tocasse a campainha e finalmente viesse, por inteiro.

Ele não voltou.

Eu tinha pedido uma decisão. Pela primeira vez, ele tinha tomado uma que não me usava como muleta.

A ironia quase me fez rir.

Em vez disso, levei a mão à boca e senti o primeiro choro subir com uma violência muda, adulta, exausta, que não tem nada de bonito. Não foi elegante. Não foi silencioso. Foi o tipo de dor que vem quando a parte mais lúcida de você vence e, ainda assim, não recebe prêmio nenhum por isso além da consciência de ter feito a coisa certa tarde demais.

Eu chorei porque tinha terminado. Chorei porque precisava terminar. Chorei porque amava um homem que, mesmo me amando de volta, nunca tinha conseguido chegar inteiro até mim.

Chorei porque eu sabia que estava certa e porque estar certa não tinha impedido que parecesse, naquele instante, a pior escolha da minha vida.

Apoiei os cotovelos nos joelhos e enterrei o rosto nas mãos, respirando de forma irregular, tentando atravessar cada onda de dor sem me mover, como se qualquer gesto mais brusco pudesse me partir de vez.

Eu tinha feito exatamente o que precisava fazer: tinha me escolhido. Tinha recusado o lugar humilhante, provisório, escondido, onde ele me mantinha, onde eu também tinha consentido em ficar. Tinha me recusado, finalmente, a continuar sendo o intervalo entre o desastre dele e a coragem que ele nunca entregava inteira.

Era o melhor para mim.

Era a única coisa possível.

E doía como se eu tivesse arrancado um órgão com as próprias mãos.

Depois de algum tempo que eu não soube medir, levantei e comecei a recolher os vestígios dele da sala. A camisa dele não tinha ficado, nem a voz, nem o corpo. Mas a casa ainda parecia ocupada por uma ausência recente demais, como um quarto onde alguém acabou de morrer.

Fiquei no escuro por um momento, com a mão ainda no interruptor, respirando.

Naquele mesmo bairro, havia uma criança dormindo, uma mulher em ruínas, um homem que tinha falhado em reorganizar a vida a tempo. E havia eu, sozinha na minha casa, com o rosto molhado e o peito em carne viva, tentando me convencer de que sobreviver a uma escolha certa ainda contava como sobreviver.

Talvez contasse, mas naquela noite, não pareceu o bastante.

Notas finais
Tenho recebido comentários dizendo que o Edward é muito lento e que a Bella deveria tomar alguma atitude. Bem, aí está. Até o próximo!